A Hora de Parar

O Dalai Lama fala sobre reencarnação, sobre como admirava o comandante Mao na infância e sobre a decisão de abrir mão do cargo de chefe exilado do governo tibetano

Por Melissa Mathison Publicado em 08/08/2011, às 13h48 - Atualizado em 07/11/2011, às 13h24

PROTETOR DO POVO O Dalai Lama em Washington, D.C., em 8 de julho de 2011

Ver Galeria
(2 imagens)

O sol brilha no templo de Tsuglagkhang, no sopé da cordilheira do Himalaia, do lado indiano, e centenas de tibetanos se reúnem no pátio para um banquete. Enquanto monges budistas servem arroz e legumes cozidos, cornetas tocam, e címbalos batem. Celebrações assim são comuns por aqui - os monges costumam alimentar os aldeões como ato de serviço para acumular mérito cármico - mas o ar festivo parece capturar o humor do homem que vive ao lado do templo.

O Dalai Lama, apesar de muitas petições assinadas do fundo do coração por seus constituintes, finalmente teve atendido o desejo de se aposentar oficialmente de suas funções governamentais. Por duas vezes, o Parlamento Tibetano pediu a Sua Santidade que reconsiderasse, mas ele se negou até mesmo a ler a mensagem enviada ou fazer reuniões com legisladores. Ele estava decidido. No dia 29 de maio, os documentos foram assinados e a carta régia tibetana foi emendada.

O ato marca a separação notável e voluntária da Igreja e do Estado: pela primeira vez em mais de 350 anos, o Dalai Lama deixa de ser o líder secular e também espiritual do povo tibetano. Apesar de o governo tibetano em exílio ser amplamente democrático há décadas, o Dalai Lama ainda dava a palavra final em todas as principais decisões políticas no âmbito da diáspora. Ele nomeava representantes estrangeiros, determinava o alcance e o momento das negociações com a China, tinha poder de efetivar ou vetar projetos de lei e podia até dissolver o Parlamento. Agora, com a assinatura dele seu título formal mudou de "Chefe da Nação" para "Protetor e Símbolo do Tibete e do Povo Tibetano". Muitas das responsabilidades políticas vão ficar sobre os ombros de Lobsang Sangay, um estudioso de direito em Harvard de 43 anos que foi eleito em abril para o posto de primeiro-ministro do Tibete.

A China, que desprezou a transferência de poder chamando-a de "truque", recusou-se a participar de uma reunião com Sangay. O governo comunista acredita que a luta pela autonomia tibetana vá morrer com o Dalai Lama; basta esperar que ele se vá. Mas, ao colocar as rédeas do governo nas mãos dos governados, Sua Santidade está apostando na capacidade da democracia de funcionar como bastião eficiente contra a opressão chinesa. Aos 76 anos, ele sabe que não vai estar aqui para sempre para guiar o leme do Estado. Ele acredita que os tibetanos precisam aprender a dirigir o barco por conta própria.

Tenzin Gyatso, [nome religioso. Seu nome de batismo é Lhamo Thondup] o 14º Dalai Lama, filho de um agricultor, nasceu em 1935, em um vilarejo tibetano. De acordo com a tradição antiga, sonhos e visões de lamas elevados e de oráculos acabaram conduzindo um grupo de busca até o menino. Aos 2 anos, ele identificou com sucesso pessoas e objetos de sua vida anterior e foi oficialmente reconhecido como a reencarnação do 13º Dalai Lama. Aos 4, ele adentrou à capital, Lhasa, e foi nomeado líder espiritual de seu povo. Aos 15, tornou-se chefe de Estado. Em 1959, quando as tensões com o exército chinês atingiram o ponto de ebulição, ele fugiu para a Índia, de onde lidera a diáspora tibetana desde então.

Ao fazer um retrospecto de seus 60 anos de liderança, ele tem muito do que se orgulhar. Ele estabeleceu um governo bem-sucedido e estável no exílio e se manteve firme contra o regime brutal. Como o primeiro Dalai Lama a viajar para o Ocidente, ele também apresentou as virtudes da não violência a milhões de pessoas, uma iniciativa de toda a vida que lhe valeu um Prêmio Nobel da Paz. Como líder espiritual do Tibete, ele permanece como a personificação da luta de sua nação.

Eu conheço Sua Santidade desde 1990, quando escrevi Kundun, um filme sobre a infância dele, dirigido por Martin Scorsese. De lá para cá, nós desenvolvemos uma amizade duradoura. Eu continuo a trabalhar como ativista em nome da autonomia tibetana e faço parte da diretoria da ONG International Campaign for Tibet. Todos os dias, rezo pela longa vida de Tenzin Gyatso.

Ao nos encontrarmos no dia 2 de junho, no movimentado templo principal na montanha de McLeod Ganj, na Índia, ele pergunta se ainda parece tão saudável quanto da última vez em que nós nos vimos. Sim, eu respondo a ele - até mais jovem, se é que isso é possível. Mas, completo, seus olhos parecem mais velhos. "Está certo", ele diz. Ele deseja me informar, no entanto, que não precisou aumentar o grau das lentes dos óculos - em parte, porque não usa computador. "Nunca nem tentei", ele diz, e começa a dar suas gargalhadas fervorosas típicas. "Não sei como!"

Vamos começar falando sobre o dia, em 1950, em que você se tornou chefe de governo no Tibete. Você só tinha 15 anos e os chineses tinham invadido seu país.

Foi uma situação muito, muito difícil. Quando as pessoas me pediram para assumir a responsabilidade, minha reação foi: eu quero seguir as tradições do Dalai Lama, que diziam para ser entronado aos 18 anos. A idade de 15 anos é cedo demais. Então, pediram de novo. Chamdo [uma região montanhosa no leste do Tibete] já tinha sido tomada pelos chineses. Havia muita ansiedade. Então eu assumi a responsabilidade. Quando o Exército de Libertação Comunista chegou a Lhasa, meu primeiro ato foi fugir de Lhasa para a fronteira com a Índia. Então eu pensei: mau agouro ou bom auspício? Quase meu primeiro ato depois de assumir a responsabilidade foi fugir de Lhasa! [Risos]

Então, aqui estamos nós, 61 anos depois, e o senhor acaba de se aposentar como chefe de governo. Na verdade, o senhor vem se preparando para essa aposentadoria - a separação entre a Igreja e o Estado - desde criança. Como a semente foi plantada?

Quando eu era adolescente, por volta dos 13 ou 14 anos, morando em Lhasa, eu tinha uma espécie de contato muito íntimo com pessoas comuns. Principalmente, os varredores no palácio de Potala e também em Norbulingka [a residência de verão do Dalai Lama em Lhasa]. Eu sempre brincava com eles e às vezes comia com eles. Eu recebia dos serventes as informações a respeito do que estava realmente acontecendo em Lhasa. Eu sempre ouvia falar das injustiças que as pessoas viviam. Comecei a entender que o nosso sistema - o poder nas mãos de poucas pessoas - é errado.

Pouco depois de assumir o poder, o senhor decidiu que desejava implantar reformas ao antigo sistema?

Em 1952, acho, estabeleci um comitê de reformas. Eu queria dar início a algum tipo de mudança. Mas me deparei com um enorme obstáculo: os representantes do governo chinês queriam reformas de acordo com seus próprios padrões, que já tinham implantado na China propriamente dita. Os chineses achavam que, se a reforma tibetana fosse iniciada pelos tibetanos em si, poderia ser um empecilho para seu próprio método de reformar. Então, ficou difícil.

O senhor viajou para a China em 1954 e viu em primeira-mão o que era a reforma comunista. Era o que tinha em vista para o Tibete?

Eu fui à China como um dos integrantes da delegação tibetana no Congresso da República Popular da China. O Parlamento em Pequim era muito disciplinado! Observei que todos os integrantes mal ousavam fazer uma sugestão. Eles davam opiniões, mas apenas pequenas correções no fraseado [risos]. Ninguém realmente discutia o significado. Então, em 1956, eu tive a oportunidade de ir à Índia. E aqui, também, tive a oportunidade de visitar o Parlamento indiano. No Parlamento indiano, muito barulho. Nenhuma disciplina. Era um sinal claro de completa liberdade de expressão. Os parlamentares indianos adoram criticar o governo. Percebi que esse era o significado da democracia - liberdade de expressão. Eu fiquei muito impressionado com o sistema democrático.

A maior parte das pessoas no mundo está ansiosa para se livrar de seus líderes. Mas os tibetanos relutam muito em permitir que o senhor se aposente. Por quê?

Emocionalmente, espiritualmente, eles ainda têm a mim como referência. Depois que eu anunciei a minha aposentadoria, eles requisitaram que eu desempenhasse minhas responsabilidades como tenho desempenhado, de maneira contínua. Eu não aceitei. Perguntaram se eu pelo menos pensaria em carregar um título, como uma espécie de chefe cerimonial. Um papel cerimonial? Não gosto disso. Ser igual aos britânicos, a rainha deles. Claro que, pessoalmente, eu a admiro muito. Maravilhosa. Mas o sistema? [Risos] Se você tem algum tipo de cargo cerimonial, então precisa fazer alguma coisa! Senão, eu seria apenas uma figura. Alguém escreve um discurso e eu leio? Eu sei a palavra - um fantoche. Só desde o quinto Dalai Lama, há 350 anos, que a instituição assumiu responsabilidade política real. As primeiras encarnações eram apenas líderes espirituais. Eu acredito que o governo de um rei ou de um líder oficial é antiquado. Agora nós precisamos ficar a par com o mundo moderno. Por isso, entreguei a minha autoridade política para um governo eleito. Eu me sinto feliz. Eles carregam responsabilidade completa. Eu só quero ser um líder espiritual puro. Mas, caso os meus serviços se façam necessários, continuo disponível.

O senhor também tem motivos pessoais para a aposentadoria?

Sempre digo às pessoas que as instituições religiosas e as instituições políticas devem ser separadas. E, enquanto eu digo isso às pessoas, eu próprio continuo com as duas combinadas. Hipocrisia! [Risos] Eu preciso implementar pessoalmente o que digo aos outros. Também há uma razão mais egoísta. Antes de o Dalai Lama se tornar uma figura política, não havia quase controvérsia. Desde o quinto Dalai Lama, há alguma controvérsia - por causa do aspecto político, não espiritual. Agora, depois da minha aposentadoria, a instituição do Dalai Lama é mais pura, mais estável. Eu senti que precisamos separar a responsabilidade política. O Dalai Lama não deve carregar esse fardo. Essa é a minha razão egoísta - para proteger a antiga tradição do Dalai Lama. É mais seguro sem o envolvimento político. Eu tenho plena convicção de que os tibetanos podem dar conta de todo seu trabalho. Portanto, eu decidi de maneira voluntária, com orgulho, que essa tradição de 400 anos de idade deve acabar. Isso não significa que o Dalai Lama acaba. A instituição permanece, como papel espiritual. E não apenas para a minha geração. Se o povo tibetano quiser que a instituição permaneça, ela vai permanecer de maneira contínua.

A aposentadoria significa que seus objetivos em longo prazo mudaram?

Para o resto da minha vida, estarei totalmente dedicado às seguintes coisas: promoção de harmonia religiosa; promoção de valores humanos; felicidade humana. Assim.

Vai manter suas rotinas diárias? Eu sei que, toda manhã, o senhor faz uma prece para todos os seres sencientes. Quando ora por nós, o que deseja para nós?

Eu sempre digo às pessoas que este século deve ser o século do diálogo. A paz tem de ser construída pelos seres humanos, por meio da ação. Isso significa que, sempre que enfrentamos um problema... diálogo. Essa é a única maneira. Para isso, precisamos de desarmamento interior. O nosso trabalho deve ser fazer uma pequena contribuição para materializar um mundo pacífico e compassivo mais para a frente neste século. Não vai acontecer imediatamente, mas temos de fazer um esforço. Se falharmos apesar de todo o esforço, não há arrependimento.

As pessoas podem se surpreender com o fato de o senhor realmente ser o que diz: um simples monge.

Há alguns dias, nesta mesma sala, a liderança política tibetana se reuniu para falar comigo. Trouxeram todas as emendas à carta régia [relativas à sua aposentadoria]. Explicaram o que estava escrito, e então me pediram para ler, por favor. Eu respondi: "Ah, mesmo que eu leia tudo, não vou entender completamente. Então, não faz diferença". Só perguntei: "Onde eu assino?" [Risos]

Isso é muito perigoso!

Esse é um bom sinal de um simples monge budista!

O senhor se preocupa por algumas pessoas considerarem sua decisão de se aposentar errada?

Bom, alguns tibetanos, principalmente os mais jovens, são muito críticos.

Será apenas medo? Ou isso se baseia em preocupação legítima pelo Tibete?

Algumas pessoas acham que essas decisões são tomadas com alguma pressa. Elas não sabem, veja bem, que eu tenho tomado essas ideias passo a passo ao longo das últimas décadas.

Os Dalai Lamas há muito tempo confiam nos oráculos de estado por conselhos. O senhor pediu aos oráculos que entrassem em seu transe profético e o aconselhassem a respeito da aposentadoria?

Pedi. Eles apoiam a minha decisão totalmente. Eu conheço esses oráculos. Faço perguntas a eles como se fossem um tipo de conselheiros. Eles observaram os últimos 400 ou 500 anos das experiências dos Dalai Lamas - eu achei que eles poderiam se sentir um pouquinho desconfortáveis com a decisão. Mas eles disseram que é um momento muito bom. A decisão certa.

O senhor se sente bem com a sua decisão?

Ah, sim. No dia 19 de março, depois de eu oferecer uma explicação mais detalhada ao público a respeito da minha aposentadoria... naquela noite, o meu sono foi extremamente profundo. Parece ser um certo alívio. Agora nós somos totalmente diferentes da teocracia do passado. Além disso, a nossa decisão é uma resposta real à acusação dos chineses comunistas de que o objetivo todo da nossa luta é a restauração do antigo sistema [no Tibete feudal]. Agora eles não podem mais fazer essa acusação. Eu sempre digo que o partido Comunista Chinês devia se aposentar. Agora eu posso dizer a eles: "Façam como eu. Aposentem-se com graça".

Por que os chineses demonizam o senhor, chamam-no de coisas como "diabo" ou "lobo em vestes de monge"? Existe alguma razão para falarem sobre o senhor em linguagem tão arcaica?

Falando de maneira geral, esse tipo de expressão é infantil. Acho que os representantes do governo que usam essas palavras desejam mostrar ao governo chinês como o Dalai Lama é ruim. E acho que eles também têm esperança de atingir os tibetanos. Eles querem 100% de negativa. Então, usam essas palavras. Na verdade, trazem desgraça para si mesmos. Quer dizer, é infantil! Muito tolo! Ninguém acredita neles. Normalmente, nos seres humanos, uma parte do cérebro desenvolve o bom senso. Mas, nesses líderes chineses, particularmente os de linha dura, essa parte do cérebro está faltando. Quando eu estive com o presidente Obama no ano passado, eu disse a ele: "O senhor deveria fazer uma pequena cirurgia. Colocar essa parte do cérebro nos chineses". [Risos]

Como o senhor acha que o Tibete seria hoje se tivesse sido o líder do país durante todos estes anos?

Algumas mudanças teriam acontecido. Mas não seria fácil. Haveria oposição de dentro do Tibete. Alguns representantes do governo são mais modernos em seu pensamento. Mas também há alguns que têm uma maneira antiga de pensar. E, depois, com os "libertadores" chineses não há absolutamente nenhuma liberdade [risos].

Eu realmente sinto que os últimos 52 anos foram muito tristes. Refugiados. E o pior é a destruição dentro do Tibete. Apesar de algumas construções, algum progresso econômico, o cenário como um todo é muito, muito triste. Mas eu não tenho arrependimento. Nos últimos 52 anos, por causa da liberdade da Índia, eu realmente acho que encontrei a melhor oportunidade para fazer com que a minha vida tenha importância, para fazer uma contribuição. Se eu tivesse permanecido em Lhasa, mesmo sem a ocupação chinesa, eu provavelmente teria desempenhado o papel cerimonial de uma maneira ortodoxa.

Quando o senhor era jovem, o oráculo Nechung profetizou a seu respeito que "a jóia que realiza todos os desejos vai brilhar no Ocidente". O oráculo estava certo?

Acho que parece haver alguma verdade. Nós fugimos em 1959 e chegamos à Índia. Para os tibetanos, isso em si já era o Ocidente. Então, da Índia, principalmente a Europa e também a América são o nosso Ocidente. Eu fiz uma coisa que considero uma contribuição: ajudei a ciência budista e a ciência moderna a se combinarem. Nenhum outro budista fez isso. Outros lamas, não acho que eles prestem alguma atenção à ciência moderna. Desde a minha infância, eu tenho muito interesse. No que diz respeito às ciências internas [a ciência da mente], a ciência moderna é muito jovem. Nesse ínterim, a ciência das questões externas foi altamente desenvolvida. Nós, budistas, também devemos aprender com isso.

O senhor disse que a sobrevivência do Tibete vai depender da mudança interna da China. Está otimista de que isso aconteça?

Quando o presidente Hu Jintao expressa que seu principal interesse é a promoção da harmonia, eu apoio totalmente. Eu expresso em muitas ocasiões que a verdadeira harmonia deve vir com coração. Para isso, confiança, respeito e amizade são todos essenciais. Para criar uma sociedade mais harmoniosa, o uso da força é errado. Depois de quase dez anos da presidência de Hu Jintao, o objetivo dele é muito bom. Mas o método - depender cada vez mais da força - é contraproducente. A primeira coisa importante é a transparência. Estou dizendo que 1,3 bilhão de chineses têm o direito de conhecer a realidade. Assim, 1,3 bilhão de chineses também vão poder julgar o que é certo ou o que é errado. Em diversas ocasiões, o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, expressou que a China precisa de mudanças políticas. Em algumas ocasiões, ele até mencionou democracia. E, entre os intelectuais e artistas chineses, cada vez mais eles dizem que desejam mudanças políticas, mais liberdade. Portanto, a inclinação é para a mudança. Quanto tempo vai demorar, ninguém sabe. Agora já faz 52 anos. Nos próximos 50 anos, acho que é quase certeza que algumas coisas vão mudar. Independentemente de eu viver os próximos 50 anos ou não.

Se o presidente Hu Jintao escutasse e o senhor pudesse sugerir como tratar do Tibete, o que pediria que ele fizesse?

Não sei. Acho que não adianta muito falar sobre essas coisas [risos].

Eu soube que o senhor vai se encontrar com um grupo de líderes espirituais tibetanos em novembro para discutir sua sucessão. Quais serão as questões em pauta?

Nas poucas ocasiões recentes em que reunimos líderes religiosos, eu toquei nesse assunto. Os comunistas chineses estão muito preocupados com a minha reencarnação! [Risos] As decisões concretas ainda não estão finalizadas. Uma coisa é certa, afinal de contas, a reencarnação do Dalai Lama significa a minha reencarnação, o meu renascimento. Logicamente, essa é uma questão em que a decisão é minha. De ninguém mais - nem mesmo dos líderes espirituais. A minha próxima vida é inteiramente de minha responsabilidade.

Mas o governo chinês diz que vai tomar as decisões a respeito de todas as reencarnações, inclusive a sua.

Isso é um tanto controverso. Os comunistas, além de não serem crentes, também consideram o budismo tibetano venenoso, e tentam minimizá-lo deliberadamente. Será que as pessoas que tentam minimizar ou eliminar o budismo tibetano interferem com o renascimento? Realmente, é um tanto estranho. Um tanto engraçado. Eles só pensam a respeito do poder político em Lhasa. É tolice. Acho que é melhor para eles permanecerem completamente neutros. Ou seria mais lógico para os chineses dizer: "Não existirá nenhuma reencarnação".

O senhor se incomoda de as pessoas falarem tanto de sua morte?

Não, de jeito nenhum. Em Newark [Estados Unidos], no mês passado, um jornalista francês ergueu a questão. Eu tirei os óculos e perguntei a ele: "De acordo com a sua avaliação do meu rosto, a questão da reencarnação precisa ser apressada ou não?" E ele respondeu: "Sem pressa!" [Risos]

O senhor se sente inclinado a um método mais tradicional para a seleção do próximo Dalai Lama - a sua reencarnação -, parecido com a maneira como foi feito o seu descobrimento?

Neste momento, sinto que posso esperar mais dez anos, 15 anos, 20 anos. Então veremos qual é a situação. Se o povo tibetano ainda quiser manter a instituição, e quiser seguir o modo tradicional, então irá usar a experiência do passado: a busca por um menino pequeno que tenha alguma importância especial. Já o local onde o menino vai nascer, eu já deixei bem claro. Se eu morrer como refugiado, como uma pessoa que carrega a luta tibetana, então a reencarnação vai ser encontrada fora do Tibete. O próprio motivo de ser da reencarnação é dar continuidade ao trabalho iniciado na vida anterior. Se a pessoa anterior morre fora do Tibete como refugiado, a reencarnação deve ser encontrada dessa maneira. Senão, cria mais confusão.

Algumas tradições do budismo tibetano sugerem que um menino nascido antes da morte de um lama elevado pode ser sua reencarnação. O senhor acredita que o 15º Dalai Lama já pode estar vivo hoje?

É possível. Pelo menos dois lamas modernos antes de morrer disseram: "Esse menino que já está vivo é a minha reencarnação". Se for adequado, depois de alguma investigação, é possível.

Se esse menino de fato estiver vivo hoje, o senhor teria parte na educação dele?

Se eu for velho demais, não sei! [Risos]

O senhor tem observado com atenção os levantes no Oriente Médio. Acredita que o movimento árabe possa ter implicações para o Tibete?

É difícil dizer. Sistemas autoritários são a mesma coisa no mundo todo. Mas, na China, o desenvolvimento econômico realmente traz algum benefício para um grande número de chineses. Essa é a diferença. Imediatamente depois da crise na Tunísia e no Egito, houve uma espécie de impacto sobre a mente dos jovens intelectuais chineses, e o governo chinês ficou muito nervoso. Estão vendo perigo que vem de dentro. Mas o sistema autoritário chinês é bem equipado. O orçamento da segurança doméstica é mais do que o orçamento da defesa nacional. Muita gente acredita que a próxima geração de liderança na China vai ter um conhecimento muito melhor do mundo externo - por causa da pouca idade, por causa da internet, por causa do grande número de chineses que estuda no exterior. Acho que as coisas vão mudar definitivamente. Essa é a nossa visão. E muitos chineses também têm essa visão.

O senhor se lembra de onde estava no momento em que soube que Osama Bin Laden tinha sido morto? Qual foi a sua reação?

Em Long Beach, Califórnia. Eu me senti, é claro, triste. Não é assim tão simples. Muito complexo. Desde a minha infância, eu me sinto muito mal a respeito da pena de morte. Em 1945 ou 1946, quando eu tinha 10 anos de idade, líderes alemães foram condenados à forca pelos tribunais de crimes de guerra de Nuremberg. Eu vi fotografias na revista Life. Fiquei muito triste. Depois, alguns líderes japoneses também. Essas pessoas já estavam derrotadas. Matá-las não foi uma precaução, mas apenas vingança. Quando Saddam Hussein foi enforcado, eu vi a imagem. Muito triste. Não era mais ameaça. Uma pessoa velha, derrotada. Eu realmente penso que se deve dar misericórdia em vez de matar. É o mesmo pensamento com Bin Laden, também uma pessoa derrotada. Desde a tragédia de 11 de setembro, eu expresso que, se a maneira de tratar esse problema for errada, então hoje, será um Bin Laden; depois de algum tempo, dez Bin Ladens; depois 100 Bin Ladens podem ser possíveis. No dia 12 de setembro, eu escrevi uma carta ao presidente Bush, já que tinha desenvolvido amizade próxima com ele. Expressei minhas condolências, minha tristeza. Ao mesmo tempo, também expressei que, para lidar com o problema, eu esperava que não fosse usada a violência. Claro, eu sei que milhares de norte-americanos foram mortos. De maneira inesperada, em um período de paz. Realmente, é muito ruim. Eu sei. Sou capaz de sentir o que eles estão sentindo. As pessoas comuns, em nome da justiça e também com um certo sentimento de vingança, se sentem felizes em certa medida [por causa da morte de Bin Laden]. Outra maneira de olhar para a questão é que uma pessoa derrotada foi morta. A melhor maneira de resolver esses problemas é no espírito da reconciliação. Falar. Escutar. E discutir. Essa é a única maneira.

Existe maldade no mundo?

A semente da maldade, do meu ponto de vista, é o ódio. Nesse nível, podemos dizer que todo mundo tem essa semente. No que diz respeito a uma espécie de potencial para o assassinato, todas as pessoas têm esse potencial. Ódio. Raiva. Desconfiança. Esses são os potenciais para os atos negativos. Existe também o potencial para a misericórdia. Perdão, tolerância. Esses todo mundo tem também. A maldade significa que o potencial negativo se tornou manifesto. O positivo permanece dormente. As pessoas que realmente amam o ódio, que sempre praticam, de modo deliberado, raiva, ódio - isso é maldade.

O senhor já se sentiu pessoalmente traído?

Em 1954 e 1955, durante pelo menos seis meses, eu morei em Pequim. Durante esse período, eu estive com o comandante Mao diversas vezes. No começo, eu ficava muito nervoso. Depois da segunda vez - a terceira vez, a quarta vez, não me lembro de quantas vezes -, eu desenvolvi admiração verdadeira por ele. Achava mesmo que ele fosse um grande revolucionário. Sem dúvida. Muito direto. E o comportamento pessoal dele - muito gentil, como o pai de um velho agricultor. Muito simples. Ele prometeu muitas coisas. Em uma ocasião, o comandante Mao apontou para dois generais que estavam fixados em Lhasa e disse: "Eu mandei esses generais para ajudar você. Se esses generais não escutarem o seu desejo, mande me avisar. Eu vou retirá-los". Daí, no meu último encontro, no último momento, ele mencionou: "Religião é veneno". Naquela época, ele me aconselhou a respeito de como escutar, como reunir visões diferentes, sugestões diferentes, e então como liderar. Realmente, o tipo de conselho maravilhoso. Ele me pediu para enviar telegramas em nível pessoal, diretamente a ele. Eu retornei ao Tibete cheio de convicção. Na estrada, encontrei um general chinês vindo de Lhasa. Eu disse a ele: "No ano passado, quando viajei por esta estrada, eu estava cheio de ansiedade, desconfiança. Agora, retorno cheio de confiança e esperança". Isso foi no verão de 1955 [meados do ano no hemisfério norte]. Em 1956, houve problemas na parte leste do Tibete sob jurisdição chinesa, e eu fui para a Índia. Mês a mês, as coisas foram ficando mais sérias. Mais problemas. Depois de voltar da Índia, eu escrevi pelo menos duas cartas para o comandante Mao a respeito da situação. Nada de resposta. Nada de retorno. Então, eu senti: "Ah, as promessas dele eram só palavras".

Existem murais no Potala que retratam momentos e pessoas importantes na vida dos Dalai Lamas anteriores. A sua vida foi muito diferente da deles. Quem e o que o senhor imagina que vai ser retratado no mural da sua vida?

Ah, não sei. Claro, a minha mãe quando era jovem. Depois, o meu tutor. Nunca pensei sobre isso. Isso fica a cargo de outras pessoas. O importante é que a minha vida cotidiana deve ser algo útil aos outros. Assim que eu acordo pela manhã, eu formato a minha mente. Durante o resto do dia, o meu corpo, a minha fala, a minha mente se dedicam aos outros. Isso é compulsório para um praticante, e também uma maneira para conquistar certa força interior. Se eu me preocupar com o meu próprio tipo de legado - um praticante budista genuíno não deve pensar isso. Se você se preocupa muito com o legado, então o seu trabalho não vai se tornar sincero. Você está pensando principalmente no seu próprio bom nome. Egoísta. Nada bom. Mimado.

O senhor acredita que vai chegar o dia em que vai ter permissão de retornar ao Tibete?

A questão do Tibete não é uma questão a respeito do Dalai Lama. Diz respeito a 6 milhões de tibetanos e sua cultura. A menos que o governo chinês trate das questões reais, falar a respeito do meu retorno ao Tibete é irrelevante. É uma questão de 6 milhões de tibetanos. Eu sou um deles. Naturalmente, assim como todos os tibetanos, eu também tenho a responsabilidade de servir.

Quando chegar a sua hora, vai ser enterrado no Potala?

O mais provável, se a mudança vier e estiver na hora de retornar ao Tibete, é que meu corpo seja preservado lá. Mas não faz diferença. Se o avião em que eu estiver cair, então acabou! Vou seguir Bin Laden! [Risos]

O senhor disse que Chenrezig - o Buda da Compaixão, do qual todos os Dalai Lamas são reencarnações - tinha um plano delineado para o primeiro e o quinto Dalai Lama. O senhor acredita que os últimos 50 anos da história tibetana também façam parte do plano dele?

Isso eu não sei. No início da década de 60, antes da Revolução Cultural, eu encontrei Chenrezig em um dos meus sonhos no templo de Jokhang, em Lhasa. Há uma estátua muito famosa de Chenrezig lá. No sonho, eu entro naquele salão e a estátua de Chenrezig pisca e me pede para chegar mais perto. E eu fico muito emocionado. Eu vou e o abraço. Então ele começa uma frase, um verso. O significado é: Continue a perseverar. A continuação do esforço apesar de qualquer obstáculo. Você deve dar continuidade a seu trabalho independentemente de dificuldades e obstáculos. Naquela época, eu me senti feliz. Mas, agora, quando penso nisso, acho que foi um conselho de Chenrezig: "A sua vida não vai ser fácil. Mas não há razão para se sentir sem coragem".