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24 Horas: Reino do Terror

A série pergunta: Qual é o valor de uma vida em comparação ao destino de milhares de pessoas? Quem pode ser descartado pelo bem-estar da nação? E quem tem o direito de tomar decisões relativas a essas questões?

Por Milkail Gilmore Publicado em 01/03/2007, às 00h00 - Atualizado em 27/08/2007, às 20h27

Jack Bauer tem carta branca para matar
Divulgação

No peito do seriado mais polêmico da televisão bate um coração obscuro, que reflete a moral ambígua dos Estados Unidos no século 21 No mundo sem dó nem piedade de 24 Horas, ninguém está a salvo. Isso ficou bem claro no final da primeira temporada da série, exibida em 2002, quando o agente antiterrorista Jack Bauer (um sujeito dedicado, mas cruel em última instância) encontra a mulher, Tery, morta por um tiro disparado por uma colega de trabalho em quem confiava, mas que estivera o tempo todo passando informações para o inimigo. Bauer abraça a esposa com força e chora copiosamente. Esse final - que não estava planejado desde o início - mudou tudo a respeito de 24 Horas e determinou seu destino. "Aquilo serviu para afirmar que esta não é uma fantasia norte-americana - é uma tragédia", diz Joel Surnow, um dos criadores da série. Também colocou em foco nítido e pessoal os acontecimentos dos meses subseqüentes aos atentados de 11 de setembro, que ocorreram quando o sexto episódio da primeira temporada estava sendo filmado: no mundo de agora, é impossível saber quem vai vencer, e é bem provável que as melhores iniciativas não levem aos melhores resultados. Era esse o clima geral na época, e tudo só ficaria mais grave com os anos que se seguiram - tanto para os Estados Unidos dentro de 24 Horas quanto para o país fora da TV.

Mas existe um tema mais perturbador que surgiu no decorrer do seriado. Além de todos os personagens de 24 Horas correrem riscos, o mais importante é que qualquer pessoa é descartável em nome de um bem maior. A série constantemente questiona: qual é o valor de uma vida em comparação ao destino de milhares de pessoas? Quem pode ser descartado pelo bem-estar da nação? E quem tem o direito de tomar decisões relativas a essas questões? 24 Horas nunca foi tão fundo nesse ponto quanto em uma situação já no final da terceira temporada - que é provavelmente a obra-prima da série.

O terrorista em questão daquela vez era um ex-agente britânico, Stephen Saunders, cuja visão de mundo se alterou rapidamente quando Bauer o deu como morto e o deixou para trás em Kosovo, após uma missão de assassinato. Saunders então estava disposto a usar a ameaça de liberar um vírus vaporizado altamente letal, de ação imediata, para pressionar o presidente David Palmer a desistir das diversas maneiras por meio das quais os EUA semearam sofrimento e desgraça em diversas nações menos poderosas por todo o mundo. Saunders já está pronto para soltar o vírus em um hotel no centro de Los Angeles para demonstrar seus efeitos, quando fica sabendo que Ryan Chapelle, o diretor regional da Unidade Contra o Terrorismo (a CTU, ou Counter-Terrorism Unit), está conseguindo levantar informações pessoais que o terrorista não quer ver reveladas. Saunders exige que o presidente silencie Chapelle por meio de sua morte. Palmer chega à conclusão de que não tem escolha além de atender à exigência funesta do terrorista, e ordena a Jack Bauer que dê conta do assassinato.

Quando Bauer leva Chapelle para um pátio de trens desocupado ao amanhecer, o obriga a se ajoelhar e coloca uma pistola na nuca do homem, que treme, o momento é de tensão quase inimaginável. Chega ao ponto de quase romper todas as regras das séries de TV dramáticas, mas o mais importante, no que diz respeito ao enredo, é que a ocasião representa a derrota de tudo aquilo em que Jack acredita. "Deus me perdoe", diz e aperta o gatilho. Naquele instante, tanto Bauer quanto o presidente Palmer desrespeitaram tudo que tinham esperança de representar. Executaram sumariamente um homem que era partidário de sua causa e fizeram com que o medo do terrorismo os fizesse trair os valores de base da democracia norte-americana. Mas Palmer e Bauer tomaram a atitude porque, no mundo da ficção, o bem moral maior não era uma escolha aceitável; eles levaram a cabo um assassinato de um companheiro para evitar um extenso número de mortes. Mesmo assim, não há nada nobre ou desculpável no que fizeram. Ambos perderam a alma. Vão ter que pagar o preço, e realmente pagam mais tarde.

Momentos como a morte de ryan chapelle são elementos de um drama chocante e viciante - e, é claro, isso é o que 24 Horas mais quer. Mas, como o assunto principal da série é o terrorismo, não há como evitar: encontramos ali aspectos desconcertantes do nosso tempo. De fato, às vezes, realidades políticas entraram no programa de maneiras surpreendentes e premonitórias. A segunda temporada começou com a cena de um suspeito torturado em Seul (Coréia do Sul) por interesses de representantes da inteligência norte-americana - efetivamente, um exemplo extraordinário de retrato da realidade. No entanto, isso foi antes de práticas semelhantes da CIA terem sido descobertas na vida real, e antes de os segredos de Guantánamo e de Abu Ghraib começarem vir à tona. Na segunda metade da mesma temporada, integrantes raivosos e medrosos do governo do presidente Palmer - principalmente seu vice-presidente - exigem que ele lance um ataque contra países do Oriente Médio com base em evidências manipuladas. Todas essas cenas foram escritas e filmadas antes da invasão dos Estados Unidos ao Iraque. "Foi uma experiência surreal", diz o produtor-executivo e roteirista Howard Gordon. "Criamos essa história antes do discurso de Colin Powell na ONU, então nos vimos em uma dança bizarra com a realidade. Não sabíamos quem estava conduzindo o movimento."

Esses exemplos não significam que a política de 24 Horas seja liberal nem que tenha a intenção de criticar o governo Bush. Alguns observadores, aliás, entendem que é o oposto. Em uma edição de 2006 da revista Time, o jornalista Joe Klein afirmou: "A mensagem de 24 Horas não é muito sutil: podemos vencer esta guerra, mas só se permitirmos aos nossos heróis que façam seu trabalho por quaisquer meios necessários". Mas quando se pergunta aos criadores da série a respeito do ponto de vista político de 24 Horas, as respostas são vagas. "Discutimos a questão extensivamente", diz Gordon. "Na equipe de roteiristas, temos um amplo espectro político. Há muitos debates acalorados. Eu diria que somos partidários da política da história interessante, e que todos nós acabamos subvertendo as nossas verdadeiras idéias políticas em nome daquilo que parece mais satisfatório. Pode soar um tanto mercenário, mas é a verdade." Robert Cochran, outro criador, concorda. "Fomos criticados por ser um programa conservador e por pessoas que se consideram da esquerda hollywoodiana", diz. "Nossa posição é não fazer nenhuma afirmação política. Construímos situações que não têm respostas claras. Se você disser: 'Eu sei por que tal personagem fez aquilo, mas não sei se devia ter feito', está ótimo para nós." Joel Surnow completa: "Não somos políticos, mas somos radicais. Percebemos que as pessoas não assistem a 24 Horas em busca de vitórias, e sim pelos empecilhos e pelas interferências".

Seja lá qual for o posicionamento político de 24 Horas, isso não é o mais importante. O programa funciona sobre a premissa da bomba-relógio acelerada: alguma coisa verdadeiramente horrível vai acontecer em questão de poucas horas - ou, para ser mais exato, vai acontecer uma sucessão de coisas horríveis - a menos que Jack Bauer e seus parceiros tomem atitudes decisivas. Bauer não hesita em ferir, espancar ou torturar as pessoas com quem cruza - ou até mesmo gente que conhece ou com quem se importa - se acha que, ao fazê-lo, vai evitar que algum desastre se instale. Suas ações com freqüência são horríveis, mas o enredo do programa exige atos sem hesitação. No mundo real, o tipo de atitude que Bauer adota é lugar-comum demais e quase nunca urgente. É também amplamente ineficiente. É claro que 24 Horas não trata da futilidade da guerra contra o terrorismo. Da mesma maneira, por mais terroristas que Jack Bauer detenha ou mate, o terrorismo nunca acaba. A longevidade da série é a prova de que não existe uma solução.

Por que, então, 24 Horas representa o principal drama moral e político da nossa era? Isso se deve à maneira como a série representa o dilema norte-americano. Jack Bauer é corajoso e geralmente altruísta, e pode fazer o que considera necessário no momento. Mas, quando tortura ou executa alguém sumariamente - que pode ser um norte-americano ou não -, também desempenha uma forma de terrorismo. É muito difícil olhar, mas não dá para ignorar: 24 Horas é a simulação hiperbólica das atividades dos Estados Unidos, que, segundo muitos crêem, acontecem o tempo todo, escondidas do público, reveladas apenas pela ficção.

24 Horas é ainda mais perturbador quando trata de conceitos e ambições de poder. Os assassinatos do ex-presidente David Palmer e da ex-agente da CTU Michelle Dessler no primeiro capítulo da quinta temporada (assim como a morte de reféns no aeroporto e a transferência de enormes quantidades de gás letal para mãos assassinas) não foram obra de terroristas internacionais. Foram, sim, ações de norte-americanos, inclusive do então presidente, determinado a ampliar a hegemonia dos EUA. No sexto episódio, há um diálogo iluminador entre o presidente Charles Logan - fingindo choque ao descobrir tudo - e seu chefe de gabinete, Walt Cummings, um dos homens que ajudou a tramar os desastres de dentro da Casa Branca. "Então, tudo que aconteceu hoje era só para matar alguns terroristas?", pergunta o presidente. "Não", responde Cummings, "o objetivo é produzir uma pista quente - a prova de que existem armas de destruição em massa na Ásia Central. Assim, finalmente teremos um pretexto para aumentar nossa presença militar na região, garantindo o fluxo de petróleo para a próxima geração". Quando Logan diz a seu chefe de gabinete que ele é um traidor por causa de suas intenções, Cummings responde: "Não, Senhor Presidente, sou patriota - faço o que é preciso ser feito para garantir a segurança e o bem-estar contínuos desta nação (...). Deixe que as coisas aconteçam. De outro modo, seu governo será implicado, e sua presidência destruída". Tirando a qualidade do ultraje oficial, a história dos Estados Unidos nos últimos anos está escrita nesse diálogo.

24 Horas tem a ver com os perigos que os Estados Unidos enfrentam, tanto os que vêm de dentro quanto os de fora. O cronômetro da bomba-relógio continua correndo quando cada capítulo chega ao fim, mas o que se perdeu na hora anterior às vezes conta tanto quanto o que ficou previsto para a próxima. O momento em que Bauer forçou Chapelle a se ajoelhar e o matou com um tiro, sob as ordens do presidente, também serve de metáfora para até onde a democracia norte-americana é capaz de ir e de se destruir com o intuito de se proteger. Ao fazer com que o público encare tal perspectiva, 24 Horas nos leva a um território mais rico e mais perturbador do que qualquer drama didático poderia levar. Ao assistir, não nos afastamos de Jack quando ele puxa aquele gatilho. Ficamos lá com ele, enquanto o relógio corre inexoravelmente para horas ainda mais obscuras. Não há fim à vista para o drama atual do mundo. Quando chegamos ao fim de um dia, outro começa.