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O Estranho Mundo de Jack Bauer

Além da matéria sobre o personagem, você lê uma análise sobre o terror em "24 Horas" e uma entrevista com o produtor-executivo da série, que conta tudo sobre os bastidores

Pablo Miyazawa Publicado em 22/09/2008, às 18h13

Jack Bauer: um café e outras 24 horas
Sam Jones

"Há três causas de morte mais freqüentes entre os terroristas: as duas primeiras são Jack Bauer. A terceira é um ataque de coração ao saber que Jack Bauer está em seu encalço."

"Cientistas não conseguem analisar o DNA de Jack Bauer porque ele torturaria o microscópio para obter informações."

"O Muro de Berlim caiu porque Jack Bauer precisava chegar ao outro lado."

"Jack Bauer não usa um silenciador em sua arma. Ele só precisa mandá-la calar a boca."

"Quando o Google não consegue encontrar algo, pede ajuda a Jack Bauer."

Nenhuma das afirmações anteriores possui comprovação oficial ou aconteceu realmente. São apenas alguns dos mais populares "Jack Bauer facts", coletânea de frases bem-humoradas elaboradas por espectadores do seriado mais polêmico e explosivo da TV mundial. Jack Bauer, como se sabe, só existe no universo ficcional de 24 Horas. Mas seus feitos, absurdos, exagerados, por vezes inacreditáveis, há tempos superaram a tênue barreira que divide a ficção da realidade.

Imortalizado após seis temporadas de sucesso (quase) inquestionável, o agente federal é a representação lúdica do super-herói norte-americano moderno, o símbolo de uma era marcada pela paranóia global do terrorismo e pela banalização da violência. Relutante, freqüentemente passível de falhas e com forte tendência a tomar atitudes insensatas para atingir seus objetivos, Bauer está longe de ser perfeito. Seria essa postura extrema, ambígua e moralmente questionável a razão de sua indiscutível aprovação entre o fanático público de 24 Horas?

"Ele é um cara real e comum", esclarece o ator Kiefer Sutherland, o Jack Bauer em pessoa. "Ele sempre se esforça para fazer a coisa certa, mas às vezes tudo dá errado. Às vezes ele falha, não é perfeito. É uma pessoa com habilidades incríveis, mas com defeitos incríveis também."

Após seis anos andando com os sapatos de Bauer, Sutherland compreende o alto preço de emprestar sua pele ao herói. Ao ganhar o papel de protagonista em 24 Horas, tinha 35 anos. Hoje, filmando sua sexta temporada consecutiva, tem 40. E começa a sentir a idade pesar. "À medida que vou ficando mais velho, algumas das cenas mais físicas não são tão fáceis de serem feitas", reclama o ator, levemente rouco após uma noite de festa esticada até a madrugada. "Gritar, principalmente. Eu conseguia fazer isso umas 12 horas por dia, sem problema, e minha voz ficava sempre boa. Agora, ela desaparece mais rápido."

Tanto Sutherland como Bauer costumam descrever-se como homens comuns. O que diferencia criatura de criador é a raridade com que o segundo expõe suas fraquezas. A faceta mais sensível do agente só foi revelada em escassos momentos durante as seis temporadas de 24 Horas (14 episódios já foram exibidos nos Estados Unidos. No Brasil, a estréia da nova fase está marcada para 10 de abril, às 22h, no canal pago Fox. A Globo exibiu recentemente a quinta temporada). Durante grande parte de sua tortuosa rotina, Jack foi capaz de agir como se nenhum ferimento ou impacto emocional conseguissem dobrá-lo. Resistiu a demoradas sessões de tortura, se recuperou com absurda velocidade de qualquer lesão, já ressuscitou pelo menos duas vezes, acompanhou de perto a morte de parentes e amigos, além de ter sido responsável direto pela execução de outros tantos - tarefas estas que realizou "porque era preciso". Não foram poucas as ocasiões em que seus feitos ultrapassam os limites da verossimilhança - tudo em nome do show. No início da terceira temporada (exibida em 2004), o agente sofre com o vício em heroína que adquiriu no período em que ficou infiltrado entre narcotraficantes mexicanos. Observamos sua luta para resistir a uma crise de abstinência durante os primeiros episódios.

Horas mais tarde, os pesados sintomas já haviam desaparecido, como mágica.

O fato de o seriado constantemente retratar Bauer não como um homem, mas como um super-herói quase indestrutível, é algo que não sai do radar de seu protagonista e dos roteiristas de 24 Horas. "É claro que estamos atentos a isso", desculpa-se Sutherland. "Acho que a série exige sim um pouco da confiança cega de nosso público, e felizmente ele tem nos dado isso até agora."

Esses raros momentos de fraqueza de Bauer, dados ao espectador em doses homeopáticas, pelo menos uma vez por temporada, são a forma que os roteiristas de 24 Horas encontraram para assemelhar mais seu protagonista a um ser humano "real". É o que se viu ao final da mesma terceira temporada, quando o agente é obrigado a decepar a mão do namorado de sua filha para impedir que milhares de pessoas sejam intoxicadas. Sozinho em seu carro, minutos depois, cai em prantos, em um dos momentos mais tocantes da curta história da série. A seqüência dura segundos, tempo suficiente para deixar claro que, apesar de tudo, ele não é feito de ferro. "Jack é um herói emocional", diz o ator. "O fato de ele salvar o presidente dos Estados Unidos, mas perder a esposa no mesmo dia... Isso mostra que há um equilíbrio no personagem. Ele se esforça para fazer a coisa certa, mas nem sempre consegue. Acho que é esse equilíbrio, misturado com seus sucessos, que faz o público se identificar com ele."

O sexto ano de 24 horas se inicia aproximadamente 20 meses após os acontecimentos da temporada passada, com o retorno de Jack Bauer de um traumático confinamento em uma prisão militar chinesa. Mantendo a tradição dos anos anteriores, quando tudo é apresentado com o objetivo de viciar o espectador desde o primeiro instante, os quatro primeiros capítulos foram exibidos em uma maratona de dois dias seguidos nos Estados Unidos. Apesar de sofrer as conseqüências morais e emocionais causadas pelo exílio forçado, Jack não demora a mostrar-se mais Bauer do que nunca. Mesmo passando por torturas dolorosas logo em sua primeira hora na tela, ele consegue mergulhar de cabeça na ação em minutos, como se nada de mais tivesse ocorrido. A primeira morte que comete no dia não poderia ser mais emblemática: degola um de seus torturadores com uma mordida na garganta. Das 6 às 10 da manhã, Bauer irá, nesta ordem: aliar-se a um terrorista; engalfinhar-se com um homem-bomba; roubar dois carros; causar um acidente de trânsito na estrada; envolver-se em dois tiroteios; e atirar propositalmente em um colega de trabalho. "A transição entre o primeiro e o quarto episódios é fortemente emocional. Mostra um homem que praticamente abriu mão de sua existência para alguém que quer lutar por alguma coisa", resume o ator. "Mas Jack é um cara forte e consegue agüentar firme."

Forte, mas talvez não o bastante. Bauer, ou melhor, Kiefer, declarou em entrevistas recentes que adoraria que seu alter ego na série morresse "de forma brutal, sem lágrimas". Por outro lado, o astro parece cada vez mais amarrado ao programa que o tirou do limbo, reinventou sua carreira e o elevou ao panteão dos artistas mais bem pagos da televisão norte-americana. Em 2006, renovou seu contrato para fazer 24 Horas por mais três anos, por nada humildes US$ 40 milhões. Estaria o personagem a salvo para prosseguir sua sina por pelo menos mais dois longos dias - ou temporadas?

Ele desconversa: "Meu contrato apenas diz que os produtores têm a opção de me usar se quiserem. Não significa que algo esteja talhado em pedra. Não significa que faremos oito, nove anos de 24 Horas, nem significa que só faremos sete. Significa que eles têm a opção. Eles têm a opção de escolher". Será que alguém consegue imaginar 24 Horas sem Jack Bauer? O próprio, ao que parece, andou pensando a respeito. "Não sou eu quem decide. É o Joel [Surnow, produtor], a Fox. Morrer é algo que certamente eu não escolheria, afinal amo meu trabalho e quero continuar fazendo. Mas também adoro a série, e se houver um momento em que faça sentido me tirar, então ok, é o meu fim."

Parece improvável que a Fox mate a galinha dos ovos de ouro, ainda mais após promover sua estrela ao cargo de produtor executivo do show. Sutherland explica que a nova função o torna responsável pelo bem-estar dos novos atores contratados para o elenco a cada ano. "Quando chega um novato, é meu trabalho fazê-lo se sentir à vontade. Se alguém tiver um problema com uma cena, o roteiro ou qualquer coisa, quero que se sinta confortável para falar comigo. É um papel mais parecido com o de um embaixador, por assim dizer."

Por ora, a sobrevivência - da carreira - de Kiefer Sutherland parece tão atrelada a Jack Bauer quanto a recíproca é verdadeira. O ator decidiu não se envolver em nenhuma produção hollywoodiana no ano passado, para dedicar-se somente a 24 Horas. O último longa que protagonizou foi Sentinela, ao lado de Michael Douglas, no qual interpreta um policial que precisa desmantelar uma conspiração para matar o presidente dos Estados Unidos. Qualquer semelhança com a história de Bauer não é nenhuma coincidência.

O único grande projeto que tem em vista, como não poderia deixar de ser, é a aguardada versão cinematográfica do seriado que o tornou um ícone mundial. Previsto para 2008 como uma história separada da série, o filme será uma representação de um período de 24 horas com 120 minutos de duração, sendo a segunda metade em tempo real. "É algo que queremos muito fazer, mas é impossível pedir aos roteiristas que trabalhem mais rápido só para escreverem um roteiro sensacional que filmaríamos entre uma temporada e outra. Sendo bem realista, acho que esse filme só vai acontecer quando a série terminar", despista um incansável Sutherland, no melhor estilo Bauer.

Alguns fatos sobre o verdadeiro Jack Bauer. Seu nome completo é Kiefer William Frederick Dempsey George Rufus Sutherland. Tem 40 anos e nasceu em Londres, apesar de os pais serem canadenses. Tem uma irmã gêmea, Rachel, e tanto o pai, Donald Sutherland, quanto a mãe, Shirley Douglas, são atores.

Perdeu a virgindade aos 13 anos. Passou a infância e a adolescência entre Los Angeles (onde morou com o pai) e o Canadá (onde morou com a mãe). Largou a escola aos 15 para ser ator, e após alguns papéis pequenos no teatro (com os quais ganhou prêmios), foi tentar a sorte em Hollywood. Um papel no extinto seriado Amazing Stories, dirigido por Steven Spielberg, deu início a uma carreira de papéis memoráveis em sucessos de bilheteria como Conta Comigo, Os Jovens Pistoleiros e Os Garotos Perdidos.

Namorou Julia Roberts, que conheceu durante as filmagens de Linha Mortal. Romperam três dias antes do casamento, supostamente por causa da infidelidade do noivo. A noiva, em fuga, consolou-se com o ex-melhor amigo de Kiefer, Jason Patric.

Nos anos 90, investiu tempo e muito dinheiro em uma improvável carreira de laçador de bois em rodeios, que também lhe rendeu prêmios.

Foi casado duas vezes, e atualmente é solteiro por convicção. Mora sozinho em Silver Lake, bairro tipicamente salvadorenho de Los Angeles, e é maníaco por organização e limpeza.

Tem uma predileção especial por uísque escocês e não são poucas suas histórias sobre bebedeiras, brigas e arruaças, como na vez em que destruiu um pinheiro de Natal em um hotel londrino, quando acompanhava a turnê da banda Rocco DeLuca & The Burden.

Está na música, e não em sua vida sexual ou na queda pelo álcool, a faceta mais saborosa da vida privada de Kiefer Sutherland. Sua paixão por guitarras aos poucos torna-se tão famosa quanto seus escândalos publicados em tablóides. Toca desde os 12 anos de idade (seus guitarristas favoritos são Jimmy Page, Angus Young e Tom Scholz) e coleciona instrumentos há 20 anos, principalmente os da marca Gibson, os quais cataloga por modelo e ano de fabricação em seu estúdio pessoal. Entre as mais de 60 peças de sua coleção, tem apreço por uma rara Les Paul 1959, a única que não empresta a ninguém. O conhecimento avançado em timbres e pormenores da fabricação dos instrumentos, além da preferência confessa pela Gibson, renderam um convite para emprestar seu nome a uma série de guitarras. Com a colaboração do ator, a fabricante elaborou o modelo semi-acústico KS-336, lançado em janeiro último. Modesto como só Jack saberia ser, Kiefer não se considera um bom instrumentista e confessa-se frustrado por não saber cantar direito. "Sou um cara que gosta de comprar guitarras e toca por prazer. Às vezes, passo horas tocando no escuro, sozinho, só pelo amor à música", disse em entrevista publicada no site oficial da guitarra que batizou e ajudou a criar.

A paixão pela música estende seus tentáculos para os negócios. Quando não está correndo para salvar o mundo, gerencia o Ironworks, selo musical em parceria com o músico Jude Cole, que empresaria bandas de rock iniciantes. Essa faceta é explicitada no documentário I Trust You to Kill Me (lançado em 2006 e inédito no Brasil), que mostra Sutherland interpretando a si mesmo, cumprindo a função de empresário do grupo Rocco DeLuca & The Burden em turnê pela Europa. O filme foca os caminhos da banda, mas a grande estrela é o patrão, que expõe sua completa inaptidão de gerenciamento e escancara suas paixões de maneira tão honesta que chega a chocar. Chama a atenção a cena em que declara, com um sorriso sincero: "A música me transporta emocionalmente mais rápido do que qualquer outra coisa". Absolutamente, não é o tipo de frase que se espera de alguém como Jack Bauer.

Neste exato momento, em los angeles, Kiefer Sutherland, elenco e equipe filmam o 21º episódio de 24 Horas, mas é pouco provável que saibam exatamente como a temporada irá terminar. Desde o início, os roteiristas fazem questão de dizer que não sabem como se dará o desfecho de cada história, em uma tentativa de valorizar o constante processo de produção e dar peso à voz do público. "Todos os anos, os roteiristas têm uma vaga idéia de aonde querem que a história vá. E todos os anos, nós nunca chegamos sequer perto dessa idéia", confirma o astro. "Eles miram em um alvo bem amplo, e daí a série meio que vai rolando nessa direção. E acho que essa é uma maneira bem inteligente de se trabalhar. Há uma idéia do que está funcionando bem, e aí eles vão adaptando. É somente lá pelos episódios 19 ou 20 que a série começa a ser 'empurrada' para sua conclusão. E é incrível como todo ano eles sempre conseguem criar algo bem distante da direção em que achávamos que seguíamos."

Sutherland se utiliza de habilidades de Jack Bauer para desviar questões que o obriguem a responder sobre sua posição política, ou se ele acha que o enredo de 24 Horas patrocina o terror ou estimula a paranóia. "Eu não faço parte do processo de criação, mas nossa equipe é incrivelmente equilibrada, politicamente falando. Temos caras de direita e caras de esquerda. Todos são bem espertos e sabem bem o que está acontecendo no mundo atualmente", despista.

A natureza ambígua e moralmente questionável de 24 Horas é combustível para a polêmica, acesa como nunca após a estréia da sexta temporada. Os críticos ferrenhos afirmam que o seriado serve aos ideais neo-conservadores, estimula a violência e a tortura e é propagandista da administração George W. Bush. E não contribuiu muito no fator popularidade o fato de personalidades do governo atual e militares do alto escalão terem se declarado fãs do programa. Recentemente, o general-brigadeiro Patrick Finnegan se queixou pessoalmente aos produtores de que o seriado estaria estimulando jovens militares a torturarem prisioneiros. O fato repercutiu e gerou um convite do exército norte-americano para Kiefer Sutherland realizar uma palestra antitortura para futuros soldados.

É inegável o fato de que Jack Bauer age da mesma forma que os Estados Unidos parecem se comportar diante de seus inimigos e em relação ao resto do mundo. Se a história recente aponta que o país não respeita limites e se utiliza de métodos não convencionais para proteger a integridade de sua democracia na guerra contra o terror, Jack Bauer representa a personificação viva - ainda que ficcional - dessa filosofia. Desrespeitar leis e protocolos, abrir concessões, tirar a vida de inocentes, agir por baixo dos panos: descontados os exageros de Hollywood, a América onde vive Jack Bauer é a mesma América do mundo real.

Em meio à patrulha ideológica e ao fogo cruzado da crítica, não há nada, ano após ano, que faça a popularidade de 24 Horas recuar. Assim como Bauer, seus fãs e defensores parecem não sofrer de dilemas morais e aprovam cada uma de suas atitudes. Contraditoriamente, quanto mais extremas as situações com as quais se defronta, maior se torna a aceitação ao herói. Por mais absurdos e irreverentes que pareçam, os "Jack Bauer Facts" citados no início do texto são reflexos das conseqüências do 11 de setembro no inconsciente coletivo do mundo ocidental. Tais fatos foram elaborados por quem deseja acreditar que o agente da CTU seja capaz de realizar essas e outras proezas, que realmente existe um herói que "dorme com um travesseiro debaixo da arma" e que é capaz de "estrangular o inimigo com um telefone sem fio". A sobrevivência da série e sua audiência sempre crescente são indicativos óbvios de que o espectador piamente crê que o mundo precisa ser salvo a qualquer custo. E se existe alguém capaz de fazer isso por qualquer meio possível, no mundo real ou ficcional, esse alguém é Jack Bauer.

E é praticamente ele, e não Kiefer Sutherland, quem responde à principal crítica dos opositores radicais de 24 Horas: a de que o conteúdo do seriado possa fornecer idéias aos terroristas de como atacar os Estados Unidos. "Se alguém honestamente acredita que os terroristas estão tirando suas idéias de 24 Horas, estamos mais seguros do que a gente pensa. Porque isso é simplesmente ridículo."

É torcer para que Jack Bauer esteja certo - como (quase) sempre acontece.