Rosanne Mulholland quer ganhar as telas

Christina Fuscaldo Publicado em 22/09/2008, às 18h17 - Atualizado em 17/08/2012, às 20h01

A mãe dela avisou: 'Rosanne, não complica. Mulholland é trabalhoso, mas é marcante'
Christian Gaul
Depois de viver uma jovem drogada e sexualmente liberal em A Concepção, Rosanne Mulholland está pronta para invadir os cinemas brasileiros nos filmes O Magnata, Uma História Real, Bellini e o Demônio, Falsa Loura e Meu Mundo em Perigo. Aos 26 anos, a atriz de Brasília não esconde a ansiedade de se ver de novo - e de se mostrar - em tela grande

Brasília sempre levou a fama de ser a terra de quem não tem avós e de ser o lugar em que as loucuras (pessoais e políticas) estão ao alcance de qualquer um. Uma pequena amostra do que um morador da capital do país - e de qualquer outra cidade brasileira - é capaz de fazer está no filme A Concepção, de José Eduardo Belmonte. E é de lá que sai a protagonista da nossa história, Rosanne Mulholland, que se meteu em muita confusão no longa do cineasta criado nos arredores do Congresso Nacional. Mas, contrariando todos os estigmas, ela chega a assustar de tão diferente que é de sua personagem, a doidinha Liz, que, incentivada junto aos amigos pelo misterioso X (Matheus Nachtergaele), experimenta drogas e sexo e intitula-se como uma concepcionista - uma pessoa que vive uma personalidade diferente a cada dia. Morando no Rio de Janeiro há dois anos, a atriz de 26 anos leva uma vida normal, saudável e até "careta", segundo ela.

A entrevista foi marcada para as 15 horas da terça-feira anterior à semana do Carnaval. No dia seguinte, Rosanne faria a sessão de fotos e, no outro, embarcaria para os Estados Unidos, onde vivem seus avós paternos. Rosanne é filha do americano Thimothy com a brasileira Lurdicéia, separados há dez anos, e teve a companhia dos avós paternos em Brasília só até os 13 anos. Depois disso, o casal missionário da Igreja Baptista voltou para seu país. Ao telefone, sugeri conhecer seu apartamento - um três quartos no bairro do Leblon -, mas estariam lá o namorado, a mãe e uma amiga dela, as duas vindas de Brasília a passeio. Não, gente demais! Combinei, então, de encontrá-la na portaria e, de lá, pensarmos juntas em um lugar discreto para ir.

Pontualíssima, como qualquer pessoa "careta" deve ser, ela desceu um minuto depois de o porteiro interfonar. Nesse momento, dei graças a Deus de ter pego um taxista malandro. Saí de casa em tempo, mas o trânsito naquele dia estava uma loucura. Cheguei no laço, ela estava pronta. "Tem um café desse lado", apontou para a sua direita, "e um outro dentro de uma livraria ali do outro lado", apontou para a esquerda. Ela usava saia jeans, uma blusa verde, sandália e uma bolsa com pimentinhas estampadas. Tudo muito simples. Com traços finos e uma elegância natural, Rosanne mostra-se linda. Parece frágil, mas prova que não é. Escolho o café da livraria, lembrando que lá costuma ser silencioso.

No caminho, pedi desculpas por não aceitar a "uma hora e meia de entrevista" oferecida por seu assessor, ou melhor, pelo assessor ligado ao seu agente, o renomado Antônio Amancio. Ele ligou três horas antes do encontro para sugerir que remarcássemos para mais tarde e, se possível, em Botafogo, também zona sul do Rio, já que naquele dia Rosanne teria uma aula de interpretação e, dali, poderia emendar. Expliquei que precisava de algo menos impessoal e de um certo tempo para me aprofundar na história da moça, afinal Rosanne Mulholland não é o tipo de nome que você bota no Google e conta com aquela avalanche de informações. Ele entendeu, ela também. Ótimo.

Chegamos no café incólumes. Nas ruas do Leblon, ninguém pediu autógrafo ou tentou chamar a atenção da atriz. No bairro onde moram oito entre dez artistas famosos, sentamos e pedimos dois capuccinos. Os curiosos que se acomodavam perto olhavam para o gravador e tentavam descobrir quem era a entrevistada. Acredito que não tenham chegado a conclusão nenhuma, visto que a própria protagonista abaixava o volume da voz e tentava conter seus gestos quando falava algo que pudesse revelar sua identidade e abrir para os vizinhos de mesa seu currículo e, dessa forma, comprometer sua privacidade.

Rosanne parece até gostar de andar anônima pelas ruas, mas não esconde a ansiedade de poder se ver novamente em tela grande. "Quem assistiu A Concepção não me reconhece. Eu tinha um cabelão e usava maquiagem. Mas acho que isso pode mudar quando os filmes que rodei estrearem. Aliás, não agüento mais esperar, eles precisam ser lançados logo!", exclama.

E em Brasília, onde atuou por mais de dez anos no teatro e fez diversos comerciais? "Lá, eu já estava ficando conhecida como a 'menina do comercial'. Uma vez, na faculdade, um rapaz chegou e falou: 'Me dá licença? Preciso te perguntar uma coisa. Você fez o comercial tal, o comercial tal e o comercial tal?'. Fiquei chocada. Em cada um dos comerciais, eu estava com um cabelo diferente e, mesmo assim, ele me reconheceu."


No Rio, ela trabalhou pouco. Não completou o curso de especialização em Psicologia, fez um de teatro com Daniel Herz, estrelou alguns comerciais e atuou em duas peças, Amor com Amor se Paga e A Glória de Nelson, ao chegar de vez na cidade, em 2004. Logo que veio pela primeira vez, recebeu o convite de Belmonte para filmar A Concepção e acabou voltando para Brasília, onde ficou dois meses. A supermãe ajudava (ainda ajuda) a pagar as contas, por isso quis que a filha alugasse um apê de três quartos: "Minha mãe quis um apartamento grande para que ela e meu irmão pudessem vir ficar comigo. Então, é o apartamento da família. A gente [Rosanne e Kelder, o namorado] divide o aluguel com ela".

O curso de Psicologia era para ser uma extensão do que ela estudou na Universidade de Brasília (UnB), mas as artes falaram muito mais alto. "Eu me formei em psicologia porque não tinha certeza se queria ser atriz e ter essa vida incerta. Queria uma segurança, mas hoje não entendo que segurança era essa que buscava. O curso de formação, no Rio, era sobre [a Teoria da] Gestalt, mas não consegui continuar porque fui filmar em São Paulo. Sempre li muito Gestalt, mas agora tenho um [Carl Gustav] Jung na cabeceira."

O filme de Belmonte - o primeiro longa e o segundo trabalho com Rosanne, que estreou no cinema no seu curta Dez Dias Felizes - entrou em cartaz quase que simultaneamente com Araguaya - Conspiração do Silêncio. O longa de Ronaldo Duque, no qual a atriz interpretou a guerrilheira Crimélia Alice, foi rodado na selva amazônica enquanto ela ainda estava na faculdade. "Eu saía da aula e ia para o mato, pegava uma arma e me achava a guerrilheira... Foi divertido, mas o filme ficou pouco tempo em cartaz", lembra.

Em São Paulo, o primeiro trabalho para as telonas foi 14 Bis, curta-metragem de André Ristum sobre o vôo histórico de Santos Dumont. O protagonista era Daniel de Oliveira e Rosanne era a dançarina de cancã Lantelme. Em seguida, a atriz entrou em um processo de seleção, no estúdio da [preparadora de atores] Fátima Toledo, para Uma História Real, de Murilo Salles. "Eu e uma amiga ficamos duas semanas em São Paulo fazendo o treinamento para ver quem ia ser escolhida. Acabei ficando mais duas semanas para me preparar. Filmamos em abril [de 2006]. Leandra Leal é Camila, a protagonista. Eu sou Paula, uma amiga que vem de Londres porque Camila pede socorro. Acontece uma besteira e ela volta pra Londres. Elas brigam, mas fazem as pazes depois."

O longa-metragem de murilo Salles marca uma importante mudança na história da atriz que, antes, assinava Rosanne Holland. Ela resolveu assumir seu sobrenome verdadeiro, que, sim, tem a ver com a avenida Mulholland Drive, de Los Angeles, porém não faz nenhum link entre Rosanne e o filme Cidade dos Sonhos [Mulholland Drive], de David Lynch. "Lá, tem Mulholland Drive, Mulholland Highway. Parece que era o nome de um cara que levou água para o lado oeste dos Estados Unidos. Isso foi o que ouvi. Sei que é o nome do meu pai, da minha família, e que é irlandês", afirma. O site Observatório Social reproduz um artigo do jornal norte-americano Herald Tribune que confirma a história: há 100 anos, o chefe do Departamento de Água de Los Angeles, William Mulholland, apresentou aos cidadãos californianos um novo conceito de política estadual baseado na garantia da reserva de água e declarou guerra aos fazendeiros que protestaram.

Rosanne explica por que usou só parte do seu sobrenome em 14 Bis, A Concepção e Araguaya: "Achei que ninguém ia saber falar Mulholland. Com o tempo, fui vendo que Holland também não funcionava. Aí, depois de A Concepção, resolvi assumir meu sobrenome verdadeiro. Rosanne Mulholland é difícil, mas é o meu nome".

E a confusão não pára por aí: "Além de ter que soletrar Mulholland, tenho que avisar que Rosanne é com dois 'enes'. Dá um trabalho... Meus pais não pensaram nisso". Por que você não usa o Santos, que é seu segundo sobrenome? "Eu me chamo Rosanne Santos Mulholland. Só que 'Santos' não é da minha família. Um tataravô meu inventou de dar para cada filho um sobrenome diferente. Teve uma parte da família que ficou com 'Santos', outra que ficou com 'dos Anjos'. Ele era 'Carvalho Diniz'. Isso é uma história que minha mãe conta. Cheguei a pensar em colocar Rosanne Carvalho ou Rosanne Diniz, mas minha mãe disse: 'Rosanne, não complica. Mulholland é trabalhoso, mas é marcante'. E quando escrevem meu nome com dois 'esses' e fica Rossane... Ai, meu Deus!"


A atriz tem um fotolog, onde costuma "postar" fotos das filmagens. Lá tem o polêmico pôster de A Concepção, que traz a atriz nua queimando uma carteira de identidade, e poucas imagens pessoais. Entre os comentários, está lá a informação de que o novo longa de Murilo Salles não deve ser o primeiro dos cinco que ela filmou no ano passado a entrar em cartaz em 2007. Rosanne acredita que O Magnata, rodado logo depois de Uma História Real, talvez estréie antes. No filme roteirizado pelo cantor e polêmico Chorão e dirigido por Johnny Araújo, que também assina o roteiro, a atriz faz par romântico com Paulinho Vilhena. Sua personagem, Dri, chega de Nova York e se apaixona pelo astro pop conhecido como Magnata. Ela confessa que levou um tempo para acreditar e "comprar" o projeto do vocalista do Charlie Brown Jr. "Ficava pensando: 'No que será que vai dar?'. Mas recebi o roteiro, conheci o diretor, vi o ponto de vista deles, aí passei a acreditar no projeto. Acho legal a música dele, não escuto muito, mas conheço muita gente que gosta. Meu namorado é baterista e fazia um som parecido com o dele quando estava em Brasília. Eu não sabia como isso ia funcionar no cinema, mas depois entendi. O Chorão é inteligente à beça, sabe o que está fazendo." Ao ser indagada se gostou do resultado final, Rosanne aproveita para mais uma vez desabafar: "Não posso falar muito, não assisti. Acho engraçado dar esta entrevista, porque estou falando de trabalhos que ainda não vi".

Pausa para falar sobre o namorado baterista. Mais um lamento: "Por causa dessa viagem para visitar minha avó, vou perder o primeiro show da banda que ele formou no Rio. Mas já estamos acostumados com isso. No ano passado, praticamente morei em São Paulo e, muitas vezes, era ele quem ia me visitar lá". Kelder Paiva tem 33 anos, é de Brasília e, no Rio, toca e grava com vários artistas, além de ser um dos líderes da Cápsula, uma banda de "rock nervoso", como ele mesmo rotula, ao telefone, quando ligo para tirar umas dúvidas e já não encontro Rosanne no Brasil. No apartamento do Leblon, ele usa carpetes para abafar o som e poder ensaiar sem incomodar os vizinhos. A paquera entre os dois começou na escola de música onde Kelder dava aulas de bateria e ela estudava canto. Em maio, eles comemoram quatro anos de namoro e, apesar de morarem juntos desde 2004, não costumam falar que são casados. "Ele veio morar comigo porque queríamos ficar juntos na mesma cidade, mais por amor e conveniência do que por termos decidido nos casar. Para mim, casamento é pensar juntos: 'Vamos formar uma família'. As pessoas querem nos casar de qualquer jeito, mas queremos fazer algo que marque. Por enquanto, a gente mal sabe se vai conseguir pagar a conta do aluguel."

O momento em que Rosanne acredita ter valorizado mais ainda a companhia de Kelder foi, entre junho e julho de 2006, durante as filmagens de Bellini e o Demônio. Dirigido por Marcelo Galvão, o filme propõe mais um caso de morte que deverá ser desvendado pelo detetive Bellini (Fábio Assunção), criado pelo titã escritor Tony Bellotto. De acordo com a atriz, no texto que eles mandaram por e-mail, toda vez que aparecia a palavra "demônio", ficava um espaço em branco: "Achei estranho e eles falaram que também aconteceu com outras pessoas, mas que isso não foi feito por ninguém". Sai pra lá, coisa-ruim!

Morando sozinha por mais de um mês em um quarto de hotel de São Paulo, Rosanne confessa ter sentido medo de uma trama pela primeira vez: "O caso que o Bellini pega tem a ver com um livro misterioso. Todo mundo que lê morre. Eu sou uma jornalista que começa a escrever sobre o caso da menina que morreu no colégio e acaba se encontrando com Bellini, com quem tive um caso mal resolvido. Achei difícil fazer cenas de suspense. Era uma coisa nova para mim e foi um desafio. Na verdade, morro de medo de histórias de mortes e dessas coisas de magia negra. E a minha personagem não tinha tanto medo quanto eu. Quando vinha ao Rio, ficava grudada no meu namorado, ia à praia para tomar um banho de mar. Sempre tive medo, não sei se porque o meu avô é pastor".

A atriz passou maus bocados também com os colegas nos sets: "Um dia, o diretor teve a brilhante idéia de me colocar em uma cena em que a Caroline Abras, que faz a menina que morreu, me contava a história e era como se eu estivesse ali assistindo a tudo. Tinha um bruxo de verdade, que falou que não deveríamos sair antes que o ritual acabasse. Terminei de filmar, sentei na cadeirinha e fiquei segurando a mão da minha colega, a Luiza Curvo, esperando pelo fim. Isso demorou a noite inteira. Saímos de lá de manhã. Chegando no hotel, liguei a televisão para poder dormir. E tem outra história bizarra que a Carol contou. Ela disse que, quando ouviu uma certa música no rádio, as veias da mão dela saltaram, formaram um tridente e o rádio começou a chiar. Ou acredito nela ou acho que ela estava me sacaneando. Não sei até agora o que pensar".


Antes de se meter nessa deliciosa encrenca, Rosanne Mulholland fez outro trabalho com José Belmonte. A atriz nem tinha acabado O Magnata e já estava rodando Meu Mundo em Perigo. Lá, ela entendeu pela primeira vez o que é a química entre os atores: "O filme conta a história de um homem que perde a guarda do filho, bebe a acaba atropelando o pai do personagem do Milhem Cortaz. Ele entra em um hotel, atrás de Ísis, uma menina que vê passando. Sou eu, que também estou fugindo de alguma coisa. Esse homem é o [ator] Eucir de Souza, com quem amei trabalhar. Os dois se entregam um ao outro e se ajudam. O Eucir tem um olhar tão forte e verdadeiro que, se eu me perdesse em cena e olhasse para ele, eu me achava. Desse jeito, foi a primeira vez".

"Será que você se apaixonou?", pergunto.

"Não, eu me tornei fã dele. Não sei se é porque rolou esse encontro entre os dois personagens, mas sei que funcionou bem trabalhar juntos. Uma vez, falei pra ele: 'Quando crescer, quero ser que nem você'. E essa entrega do filme, de que falo, é bem diferente de A Concepção. Não é física. É a entrega do coração e da alma."

"Meu Mundo estréia quando?"

"Só Deus sabe", desanima.

Por falar em "fã" e em "Deus", esses eram dois temas sobre os quais faltava investigar a fundo. Vamos ao segundo, que parece mais simples para Rosanne. "A família do meu pai é da Igreja Baptista e a da minha mãe é católica. Meus pais mesmo não seguem nada. Não fui batizada, porque pela religião da família do meu pai a criança escolhe por quem quer ser batizada. E eu nunca defini nada. Acredito em uma força superior, mas eu mesma não sei muito bem o que é. Às vezes acho legal imaginar que existe um velhinho barbudo, mas não gosto dessa coisa de imagem e semelhança."

Voltando à questão anterior. fã daquelas fervorosas, a atriz não é de ninguém. A distância que tem da palavra "ídolo" é tão grande que uma das maiores dificuldades que teve no cinema foi interpretar a sua primeira protagonista em Falsa Loura, de Carlos Reichenbach. No filme, Silmara (Rosanne) trabalha em uma fábrica para sustentar o pai e o irmão e vive um triângulo amoroso com dois ídolos populares, o roqueiro Bruno de André (Cauã Reymond) e o cantor romântico Luís Ronaldo (Maurício Mattar). "Foi difícil essa coisa de ídolo... Nunca pedi um autógrafo na vida. Tinha cenas em que eu tinha que olhar para o Maurício e achar ele um Deus. Não sabia como fazer. Estou até com vergonha de falar isso (enrubesce)... Fiquei pensando em qual teria sido o primeiro homem da televisão ou do cinema que teria mexido comigo. Lembrei de quando tinha uns 9 anos e eu amava o Super-Homem vivido pelo Christopher Reeve. Eu queria namorar com ele. Eu olhava para o Maurício e tentava ver o Super-Homem", lembra.

Silmara não tem a ver com Rosanne. Para viver a menina da periferia, a atriz teve que pintar o cabelo e usar cada roupa... "Ela é superpopular. Nunca imaginei que alguém ia me chamar para um papel desses. As pessoas sempre me acharam com cara de rica, acho que por causa do cabelo liso, do nariz fino e da sobrancelha alta. Uma vez, fui fazer um teste e ouvi: 'Você tem uma cara muito clássica, não pode fazer um papel popular. Fiquei com isso na cabeça'. Mas me convidaram e eu fiquei com vontade de ir. Colocaram um megacabelo louro em mim. Tomei um susto. Jamais seria loura! Demorei mais de uma semana para me acostumar com aquela cara, estava odiando. E as roupas? O gosto dela é muito estranho. Ela usa coisas cor de laranja, chamativas, sandálias de salto alto."

Apesar de se dizer tímida, discreta e um pouco contida nos gestos, Rosanne fala mais do que se pode imaginar. Parece gostar de conversar, no início. No final, deixa a certeza de que, se tivesse mais tempo, contaria sua vida inteira. O capuccino estava na metade quando avisei que faltava menos de meia hora para começar a aula de interpretação, ministrada por seu agente. "Você vai para Botafogo de carro?", pergunto. "Vou. Só preciso trocar de roupa antes", responde. Proponho ir com ela para podermos continuar a conversa no caminho. Ela sorri, o que mostra que gostou da idéia. Ofereço pagar a conta e deixo que vá na frente. Dez minutos depois, estamos as duas a caminho do curso.


Enfrentando um trânsito lento, ela dirige com certa tensão. Conta que já deu aulas de inglês como quebra-galho, fala das viagens que já fez e da que ainda quer fazer com o irmão mais novo, Daniel, e das aulas, às quais assiste ao lado de nomes como Alinne Moraes e Dandara Guerra. Ela afirma que gostaria de fazer novela, diz que houve um desencontro, mas acredita na possibilidade. Quando quis, não deu e, quando a chamaram, ela não pôde. "Em J.K., eu era Maria Luisa Lemos, uma das irmãs de Sarah Kubitschek (Débora Falabella). Já tinha feito testes para várias novelas, entre elas Belíssima, Cabocla, e para a minissérie Mad Maria, e esse foi o primeiro que passei (J.K.). Foi a oportunidade que tive de conhecer o Projac e de gravar em estúdio. Filmes, a gente roda em locações. Depois de J.K., recebi um convite para atuar em Vidas Opostas, da Record. Mas já estava ligada a um filme. Doeu, mas tive que optar. Me perguntaram, agora, se quero fazer a próxima novela das 7 da Globo [Os Sete Pecados, de Walcyr Carrasco]. Mas o convite não foi oficial, então não sei se vai rolar. Recebi também outro convite do Belmonte para um outro longa. Não sei se vai coincidir de novo, mas claro que quero fazer novela", diz.

Passamos na frente da produtora de Amancio, achamos uma vaga e descemos do carro. Me despedi da linda moça que tem cara de rica. O sorriso expõe satisfação com o que pode ser chamado de grande momento de sua carreira, até agora. Antes de ir, fez mais um desabafo em relação aos cinco longas-metragens que não estrearam: "A expectativa é de que todos entrem em cartaz este ano, mas pode ser que alguma coisa fique para 2008". E me fez lembrar que ela falou em caretice e segurança muitas vezes durante a entrevista, mas, sem perceber, acabou reverenciando a própria força de vontade. "Tive dificuldade de assumir: 'Sou atriz'. Minha mãe é funcionária pública e meu pai é reitor da Universidade de Brasília. Então, me angustiava a incerteza dessa vida. Agora, estou relaxando. De que adianta trabalhar em um órgão público e chegar infeliz em casa? Vou fazer o que gosto e dar o meu jeito. Aprendi que ator se vira. Sei que posso querer fazer qualquer coisa."