Guitarras, álcool e mulheres - o combustível do Metallica

Feliz aniversário para o Metallica: a banda se formou há 30 anos e há 20 lançou o definitivo Álbum Preto. Antes de desembarcar no Brasil para o Rock in Rio, o baterista Lars Ulrich relembra a trajetória do grupo na entrevista mais pessoal de sua carreira

Ben Mitchell Publicado em 09/09/2011, às 11h30 - Atualizado em 07/11/2011, às 13h33

EM CASA (Da esq. para a dir.) Kirk Hammett, Lars Ulrich, James Hetfi eld e Robert Trujillo: o Metallica volta ao Brasil

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Faz 30 anos que James Hetfield conheceu Lars Ulrich, na época um adolescente muito melhor como tenista do que como baterista. “Só comecei a fazer aulas depois de montar o Metallica”, conta Ulrich. “Então, percebi que deveria aprender umas noções básicas. Algumas pessoas acham que ainda estou aprendendo.” Independentemente das limitações técnicas de Ulrich como baterista, sua ambição e seu entusiasmo provaram ser cruciais quando o Metallica passou de “banda importante de thrash metal” para “rei absoluto do rock de arena”.

Ulrich, 47 anos, sempre foi o porta-voz voluntário da banda e tem uma memória impressionante para detalhes. Ao contar sobre como soube que o primeiro clipe do Metallica (para o single “One”, de 1989) era um sucesso na MTV, ele se lembra não apenas do lugar onde estava, mas também do horário exato (“São Antonio, Texas, 15h30”, diz).

Assim, quem melhor para perguntar sobre a movimentada e polêmica saga do Metallica? “A história é o que é. As lendas são o que são”, ele diz. “A maioria delas é um pouco exagerada. De vez em quando as coisas ficaram um pouco doidas, mas nunca se tornou algo incontrolável. Apesar de todos os problemas, [nossa história] ainda se trata de ótimos álbuns, sobre uma banda que continua durando e ainda tem alguma relevância.”

Como foi crescer na Dinamarca?

Foi muito libertador. Havia uma cena progressiva na música, literatura, poesia e cinema. Meu pai estava a par disso. Cresci nesse ambiente – muito jazz e experimentação. Não tinha irmãos, então convivia com adultos o tempo inteiro. Cresci muito rapidamente.

Como filho único, você recebeu muita atenção?

Provavelmente. Com certeza significou que fico muito confortável comigo mesmo sozinho e no meio de multidões. Quando vim para os Estados Unidos, todas as pessoas que conheci logo de cara tinham essa coisa com pais e mães, que eles eram os inimigos. Eu era totalmente o oposto. Sentava e bebia com meus pais, ia a shows com eles, ao cinema. Eles eram meus amigos.

O primeiro show que você viu foi do Deep Purple, com seu pai.

Foi. Copenhague, fevereiro de 1973. No KB Hallen. Havia um torneio de tênis ali. Todos os torneios de tênis começam às segundas-feiras, então no domingo todos os jogadores foram convidados para ver o Deep Purple. Eu tinha 9 anos. Fiquei apaixonado, não só com a música, mas com o evento: as pessoas, o volume, a reverberação, o show de luzes, tudo. No dia seguinte, fui à loja de discos da cidade. O único disco do Deep Purple disponível era Fireball, então comecei por ele e não olhei para trás.

Quando você ganhou sua primeira bateria?

Quando estava na Dinamarca. Tinha 13 anos e era hora de me ajoelhar aos pés da vovó e implorar por um instrumento para fingir ser o Deep Purple, então pedi uma bateria. Ganhei uma que tinha a mesma configuração da do Ian Paice.

Você era um tenista promissor. O que houve?

Nos anos 70, eu queria me tornar um tenista profissional como meu pai. A música era a paixão, o tênis era o trabalho. Em 1979, quando tinha 15 ou 16 anos, fui para um lugar na Flórida, que chamo de prisão do tênis, onde acabei jogando todo dia por seis meses. Isso provavelmente foi o que me desmotivou. Depois, decidi me mudar para um bairro de Los Angeles chamado Newport Beach, que era horrível. Era muito rico, conservador, cheio de camisetas Lacoste rosa. Pretendia continuar jogando tênis em Newport Beach, mas, depois de dois ou três meses lá, tudo desmoronou. A música tomou conta de tudo e o tênis simplesmente desapareceu. Só queria tocar em uma banda, então comecei a procurar pessoas para realizar essa fantasia NWOBHM [nova onda do heavy metal britânico] que eu tinha.

Você colocou um anúncio procurando músicos para a banda, e assim conheceu James Hetfield. Quais foram as primeiras impressões sobre ele?

Nós nos conectamos instantaneamente pela música. Ele pirou com minha coleção de discos e ao conhecer todas as bandas da Inglaterra – eu não conhecia muito sobre os Aerosmiths do mundo. Então, um preencheu o vazio do outro ali mesmo. Ele era incrivelmente tímido, desconfortável com pessoas. Só lembro que éramos um par perfeito porque achei que poderia ajudar a tirar algumas dessas coisas dele. Ele compensou uma parte da minha falta de talento. Eu achava que conseguiria algo com os dons dele. Era como uma espécie de yin e yang. Senti isso desde o início.

James já declarou que, nos primeiros dias, você parecia ser de um mundo diferente do restante da banda: “Nós comíamos McDonald’s, ele comia arenque”. Era verdade?

Obviamente havia diferenças culturais, mas você tem de entender que eu ficava de quatro a seis semanas por ano nos Estados Unidos quando era mais novo, viajando com meu pai. Ter McDonald’s – ou 39 canais de TV - não era novidade para mim. Eu não cheguei com uma bandeira da Dinamarca e dizendo: “Venham, todos, vamos comer arenque!”

O que uniu você e James além da música?

Bebida e mulheres. A música era o combustível. A bebida veio em segundo lugar, e as mulheres em terceiro. Definitivamente, esse era o ranking. O álcool era mais importante do que as garotas.

E mais fácil de conseguir?

Naquela época, sim. Meu Deus, com certeza.

Como você descreveria a atitude do Metallica quando a banda se formou?

É impossível não dar a mínima em algum nível, mas o medidor de “não dar a mínima” ficava no ponto mais baixo possível para alguém atingir naqueles anos.

Você e James dividiram o quarto por um tempo?

Quando chamamos o Cliff [Burton, baixista] para a banda, em fevereiro de 83, fomos para São Francisco porque o Cliff não queria se mudar para Los Angeles. Essa era a condição. Então, James ficava em um canto da cama queen size, eu ficava no outro. Foi bem louco lá por três anos. Tínhamos uma garagem para um carro só no quintal, onde compusemos Ride the Lightning e Master of Puppets.

O Metallica demitiu Dave Mustaine em 1983, pouco antes de gravar seu álbum de estreia, Kill ‘Em All. Vocês ficaram felizes com isso?

Não ficamos muito emotivos. Demitimos o Dave às 10 da manhã. Às 10h30, tínhamos bebido metade da nossa primeira garrafa de vodca do dia. Eu gostava do Dave, mas ele era destrutivo demais e ia nos derrubar. Na época, relacionamentos vinham em segundo lugar para a banda, o bem comum.

Cliff Burton morreu em setembro de 1986. Como a morte dele afetou a química da banda?

Provavelmente deixou James e eu mais próximos. James e Cliff foram muito unidos por um tempo, especialmente perto do fim. Os últimos três a seis meses antes da morte do Cliff provavelmente foram a primeira vez em que fiquei um pouco distante do James, porque ele e Cliff gostavam mais da companhia um do outro. Então, quando o Cliff se foi, de uma forma perversa, isso meio que ajudou a minha relação com o James, porque retomamos o que era nosso.

Você brincou que o título de ...And Justice for All, de 1988, deveria ser Wild Chicks and Fast Cars and Lots of Drugs (Garotas Selvagens, Carros Rápidos e Muitas Drogas). Esse era um resumo exato de sua vida naquela época?

Qual era o nome mesmo?

Fast Cars...

Não.

...Wild Chicks...

É claro.

...And Lots of Drugs.

Ah, sim. O negócio das drogas nunca foi tão público assim. Era mais... estávamos naquela onda toda do Alcoholica. O uso de drogas era mais discreto quando comparado com o de algumas outras bandas. Meio que mantínhamos aquilo às escondidas. Sempre demos preferência ao álcool, mas havia muitas drogas à nossa volta, sim.

Quem eram os pirados em cocaína da banda?

Ninguém era “pirado”. Não estamos falando de festas de três dias, de acordar na sarjeta ou algo assim. Estamos falando de indulgência casual junto com o consumo de álcool. Claro, era muito e frequente, quase diariamente quando havia bebida por perto. Isso foi principalmente de 88 a 93, do ... And Justice para o Álbum Preto (Metallica, de 1991). Sim, víamos o sol nascer, mas sempre havia sono envolvido em algum momento.

Você ficava ainda mais falante quando cheirava cocaína?

Não, só amortecido e observador.

É verdade que você nunca ia embora de algum show antes de conseguir sexo oral?

Não, não é verdade, mas era raro isso não acontecer. Era incrível, essa coisa norte-americana com sexo oral. Era um fenômeno cultural. Não sei o que um ônibus de turnê tem que faz uma garota querer chupar um cara, mas aparentemente eles tinham esse efeito em uma certa parte da população norte-americana em meados dos anos 80.

Algumas das brincadeiras nos bastidores eram bem coreografadas. O que eram as “tub tarts”?

As “tub tarts” foram uma invenção de nosso coordenador de turnês. Na turnê do ... And Justice, depois do primeiro show, saímos do palco e havia dez garotas no banheiro com sabão e xampu, prontas para nos lavar. Pensamos: “Poderíamos nos acostumar com isso toda noite”. Vamos direto ao ponto: quando elas estão nuas no chuveiro e molhando o cabelo, você não precisa ir muito longe até o próximo passo. Um home run, como os americanos chamam. Foi divertido.

O excesso e a falta de limites chegaram a se tornar um problema para a banda?

Não digo que nenhum dos quatro passou dos limites em algum momento. Não éramos como algumas das outras bandas por aí, que tinham de ser “preparadas”. Nossa coisa era física até demais. A partir de 1983, mais ou menos, eu nunca, jamais, fiz um show antes do qual tenha bebido. Na turnê do Álbum Preto, tocávamos de duas e meia a três horas por noite. Bebíamos, nos divertíamos, mas sempre soubemos nossos limites. Nunca teve alguém da equipe tendo de segurar o guitarrista enquanto ele tropeçava tentando fazer um solo.

O Álbum Preto fez do Metallica uma das maiores bandas do mundo. O que você acha dele agora?

Costumamos dizer que o Álbum Preto mantém a piscina aquecida. É uma parte monumental da experiência do Metallica, mas não posso dizer que tenho uma relação mais próxima com ele do que com os outros discos. Provavelmente foi a experiência mais divertida que já tive ao gravar, por causa da libertinagem que rolava, mas, entre as quatro paredes do estúdio, provavelmente foi o disco mais difícil que fizemos, porque era uma batalha atrás da outra.

Dizem que o Álbum Preto custou US$ 1 milhão e três casamentos. O seu foi uma dessas perdas?

[Risos] Ai, meu Deus. Bom, sabe, sim e não. Se formos muito específicos com relação a isso, aquele relacionamento terminou em meados de 1990, logo quando começamos a compor o Álbum Preto. Se você quiser que eu seja um pouco mais realista quanto a isso, minha resposta é “não”. Não vou entediar ninguém com os detalhes do que aconteceu – não acho que alguém se interessaria –, mas já tinha completado seu ciclo.

Ela era sua primeira mulher? Ninguém sabe muito sobre ela.

Sobre a Debbie Jones, de Stourbridge? Conheci a Debbie em Londres, em uma casa noturna, em agosto de 1986, viramos bons amigos e começamos a sair juntos. Um mês depois o Cliff morreu, e ela veio para o meu lado, e ficou comigo durante alguns períodos difíceis. Depois, casei com ela, mas nos divorciamos logo.

Você diria que é uma pessoa difícil de conviver em qualquer tipo de relacionamento?

Acho que não. Sou bem fechado de algumas formas, mas muito aberto em outras. Já tive relacionamentos longos bem fortes.

Você já ficou cansado de tocar músicas do Álbum Preto durante as turnês gigantescas?

Não me lembro de ficar tão cansado de tocar isso quanto de tocar coisas do ... Justice. No final da turnê, chegamos ao limite: “Não há nada mais que possamos fazer com isso”.

Qual era o raciocínio por trás do visual artístico da banda para o álbum Load, de 1996?

Estávamos experimentando um pouco, e foi muito divertido. Hoje, algumas coisas até parecem bobas quando vejo aquelas fotos. E, com o esmalte preto nas unhas, o Kirk [Hammett, guitarrista] provavelmente foi um pouco além do que deveria, mas não vou julgar. Eu fiquei ridículo no casaco branco de pele, mas a sensação era realmente liberadora, como um grande “foda-se”.

Para os fãs?

Não. Cá estava a maior banda do heavy metal usando delineador nas fotos. Foi um desafio para a comunidade metaleira. E tenho orgulho disso, porque de vez em quando essa comunidade precisa de um bom pé na bunda, pois pode ficar um pouco previsível demais e se levar a sério. Houve momentos em que existiu uma sensação de ficar aprisionado na percepção do que o Metallica é, o que era, como deveria ser, o que as pessoas querem do Metallica. Sentia que tínhamos recebido o direito de fazer praticamente o que tínhamos vontade.

Hoje você consideraria sua posição contra o Napster um erro?

Diria que o erro que cometemos foi subestimar o quão grande aquilo era. Foi um ato muito egoísta; alguém está se metendo conosco? Vamos revidar.

Como você se tornou a figura frontal da banda para aquele assunto?

Não sei. Tudo aquilo é como um sonho ruim. Por que me tornei o garoto-propaganda daquilo é o enigma do século. Entendo que sempre será uma parte do legado do Metallica. Queria que, para as outras pessoas, fosse uma parte tão pequena do legado do Metallica quanto é para nós, mas aceito que, para algumas delas, seja uma das primeiras coisas que elas pensam quando ouvem a palavra “Metallica”. Tudo bem. Só que foi estranho, porque sempre éramos os bonzinhos, sempre legais, aqueles que lutavam contra as gravadoras. Éramos antiestablishment e pró-gravações piratas. De repente, éramos os vilões. Uma mudança radical.

É justo dizer que St. Anger é o pior disco do Metallica?

Acho que é justo dizer que há pessoas que pensam isso.

Você concorda com essas pessoas?

Não posso. Na minha visão de mundo, não posso classificá-los de melhor a pior. Esse tipo de simplicidade não existe para mim. Se tivesse 14 anos, provavelmente conseguiria fazer isso, mas agora vejo o mundo principalmente em tons de cinza.

O som da bateria no disco era bem ruim.

Foi de propósito. Não foi como se tocássemos daquela maneira e alguém falasse “Opa! Ops!” Vejo St. Anger como um experimento isolado. Sou o maior fã do Metallica, você tem de se lembrar disso. Mais uma vez, como somos conhecidos por fazer, de vez em quando essas barreiras precisam ser rompidas. Já tínhamos feito Ride the Ligthning, que considero um bom disco. Ele não precisava ser refeito.

Mas até as músicas boas são longas demais.

Quando escutamos St. Anger do começo ao fim, pareceu – principalmente para mim – que a experiência era tão agressiva que quase se tornou sobre machucar o ouvinte, sobre desafiar o ouvinte, então deixamos as músicas sem editar. Dá para entender que as pessoas acham que é longo demais.

Você consegue assistir ao documentário Some Kind of Monster (sobre um momento de crise da banda, no começo da década passada)?

Vi mais do que qualquer um da banda, porque provavelmente me envolvi mais na edição. Ao longo dos anos, consegui mentalmente me separar daquilo tudo.

Há uma cena na qual suas pinturas são leiloadas por milhões de dólares. É uma quantia incrível para se ganhar em uma noite.

Sempre tive uma relação distante com o dinheiro. Não sei quanto tenho: não fico sentado contando. Uma certa quantia entra, uma certa quantia é gasta. Desde que uma equilibre a outra, está tudo bem.

Você tem algo em comum com o James, além do Metallica?

Essa é uma boa pergunta. Ambos somos apaixonados por filmes e hóquei. Gostamos de boa comida. Calçamos sapatos de manhã.

O que os mantém juntos? Parece um par tão improvável...

Porque é divertido. Quando estamos tocando, gosto muito daquilo. A principal coisa que temos em comum, além do Metallica, é que ambos damos mais prioridade à família do que ao Metallica. E isso é novo. O fato de ambos termos filhos na mesma época, que têm a mesma idade, provavelmente é responsável por a banda ainda estar junta. Se um de nós não estivesse naquele nível, provavelmente não poderíamos sustentar a relação.

Você acha que algumas pessoas podem ter ideias erradas sobre James?

Com certeza. Tenho algumas opiniões. Ele é muito mais doce e vulnerável do que as pessoas acham. Muito daquela dureza, daquela coisa He-Man, era só uma fachada para ele lidar com as próprias inseguranças. Sempre achei que ele era uma alma muito gentil e um cara muito amoroso. Eu e ele sempre tivemos o melhor relacionamento quando estávamos sozinhos. O problema é que, assim que outras pessoas entravam na sala, começávamos a brigar pela liderança ou éramos nós contra os outros no ambiente. Ficou esquisito.

Você é um líder de banda frustrado?

Ficar sentado no fundo, onde a principal coisa em seu radar é um monte de roadies gordos, não te motiva especialmente a tocar duas horas e meia por noite, cinco noites por semana. Sempre dependemos muito da energia do público, então você faz o que precisa fazer para pegar fogo. Então, líder da banda? Claro. Frustrado? Não.