P&R - Erasmo Carlos

Irriquieto, Tremendão completa sete décadas de vida celebrando o sexo

Paulo Cavalcanti Publicado em 09/09/2011, às 13h07 - Atualizado em 07/11/2011, às 13h29

ATÉ CERTO PONTO Para Erasmo, tudo bem com rock e sexo, mas nada de drogas
TOMAS RANGEL

Aos 70 anos, completados em julho, e ainda comemorando 50 anos de carreira, ele não pensa em pendurar as chuteiras. Obviamente, Erasmo Carlos dispensa maiores apresentações – ídolo da Jovem Guarda, eterno parceiro de Roberto Carlos e cantor e compositor que se reinventou nos anos 70 e 80 com discos cada vez mais cultuados. O novo milênio tem sido muito bom para o músico. Depois do bem-sucedido Rock ‘n’ Roll (2009), Erasmo vem com uma espécie de sequência, Sexo. E, ao contrário do amigo de fé Roberto, ele segue cada vez mais visível, acessível e comungando com a música rebelde que fez sua cabeça muitas décadas atrás.

O seu disco anterior se chamou Rock ‘n’ Roll. Este novo se chama Sexo. É alguma coincidência?

É verdade. Muita gente começou a me cobrar para fazer a trilogia sexo, drogas e rock and roll, não necessariamente nessa ordem. Rock e sexo já foram feitos, mas eu acho muito pouco provável que eu grave algo com o nome “Drogas”. Isso não tem nada a ver, não faz mais parte do meu mundo.

E o sexo, o que representa para você?

O sexo para mim é instituição, não pornografia ou sacanagem. Ele esteve lá desde o começo – foi o autêntico Big Bang, que gerou o surgimento dos planetas, a formação da natureza. Eu queria que o disco representasse todas essas forças, esse estado de espírito. Eu já estou preparado para as polêmicas – a capa, que foi elaborada pelo Ricardo Leite, vai dar o que falar.

Como foram a produção e a gravação do álbum?

Depois que tive a ideia geral, pedi sugestões para meus parceiros atuais. Eles me enviavam as letras e trocamos muitos MP3. A Adriana Calcanhotto, por exemplo, veio com uma visão feminina sobre o sexo. O Arnaldo Antunes me mandou “Kamasutra”. Eu estou muito próximo dele agora, se tornou um parceiro constante. Depois que formatei todas as músicas, mandei para o [produtor] Liminha, que colocou as guitarras e até cítara, ele está meio nessa praia de música indiana.

Em julho, Roberto Carlos participou do show comemorativo de seus 50 anos de carreira no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Isso promete ser uma retomada da parceria?

Foi uma retribuição – a última vez em que cantamos juntos foi em 2009, no Maracanã, no show de 50 anos de carreira dele. Foi uma grata surpresa e algo inédito. Sempre foi assim: eu acabava participando de algum projeto dele, seja show, seja especial de TV. Essa foi a primeira vez em que ele participou de algo meu. Ele está em um bom momento pessoal. Não estamos fazendo mais coisas juntos porque o Roberto está em outro momento, ele está se dedicando a seus shows no exterior. Nós temos três músicas novas em folha prontinhas. Quando ele finalmente lançar um disco de inéditas, elas devem estar lá. E isso que posso dizer sobre o nosso futuro.

Muitos artistas não têm uma agenda tão extensa quanto a sua...

Meu lance é viajar de ônibus com toda a banda. A gente farreia, curte um som, fica assistindo vídeos pela madrugada. Gosto de olhar as paisagens, o pôr-do-sol, conhecer as cidades, essas coisas me fascinam. Não curto viajar de avião. Eu me descobri um verdadeiro estradeiro. Isso é rock and roll.

Você já gravou com Caetano Veloso, Tim Maia, Rita Lee, Los Hermanos, Lulu Santos, Milton Nascimento, Marisa Monte e muitos outros. Com quem gostaria de trabalhar e nunca teve a chance?

Eu sempre quis fazer algo com o João Gilberto. Ele é o meu maior ídolo vivo com quem eu nunca trabalhei. Eu tentei de todas as formas uma aproximação. Minha equipe de produção entrou em contato com o pessoal dele, mas não deu em nada. Eu desisti – posso dizer que agora acordei do sonho.

Como você vê o culto a discos como o hoje badalado Carlos, Erasmo (1971)?

Cara, esse era um tempo de muita loucura. Se você me perguntar o que aconteceu durante a gravação do disco, sinceramente não lembro. Em retrospecto penso, que, apesar de tudo, de toda a maluquice envolvida, deu tudo certo. Eu estava meio perdido depois do fim da Jovem Guarda. Carlos, Erasmo ajudou a achar novos caminhos para o que eu fazia, serviu para diversificar minha música.

Você chegou aos 70 anos. Como se sente?

Cada vez com mais gás, louco para fazer mais coisas. Agora, já estou ensaiando para o show de Sexo – vamos colocar umas quatro músicas novas e, é claro, tocar nos shows os sucessos dos anos 70 e 80 e aquelas que todo mundo gosta da Jovem Guarda. Estou contando os dias para participar novamente do Rock in Rio. A molecada se assusta com o meu pique. Os jovens devem pensar: “O Erasmo é o avô que eu gostaria de ter”.