Fall Out Boy: corações partidos

Eles criam tragédias punk-adolescentes para apaixonados da geração SMS - e o baixista Pete Wentz vive realmente esse roteiro

Brian Hiatt Publicado em 22/09/2008, às 18h23

Fall Out Boy, a banda seguida por uma legião de emos (da esquerda para a direita): o baterista Andy Hurley, o vocalista Patrick Stump, o baixista Pete Wentz e o guitarrista Joe Trohman
Peter Yang

Pete Wentz toca baixo no Fall Out Boy, mas seu instrumento predileto na verdade é um smartfone Sidekick - um equipamento que ele usa para escrever letras de música, gerenciar um império nos negócios, discutir com garotas, dar uma olhada em sites de fãs e eventualmente tirar fotos glamurosas do seu pinto. Ele nunca pára sua virtuosa digitação, mesmo quando está ensaiando uma aparição no programa de David Letterman: enquanto o resto da banda - o vocalista Patrick Stump, o guitarrista Joe Trohman e o baterista Andy Hurley - brinca de tocar um riff complicado de "Reeling in the Years", do Steely Dan, no célebre palco do teatro Ed Sullivan, Wentz ignora o baixo vermelho e preto pendurado em sua cintura fina e fica enviando mensagens de texto.

Mas no momento, conforme nosso táxi passa pela Union Square, em Manhattan (Nova York), por volta de meia-noite de um domingo gélido de inverno, Wentz usa o Sidekick somente como telefone. E ele está possesso. "Não, é o Pete!", grita. "Você me ligou. E antes falou que estava voltando para seu apartamento! Com quem está?". Com seus lábios carnudos esticados de raiva sobre dentes brilhantes e seus cabelos negros e reluzentes em forma de pontos de exclamação, ele parece uma versão animé do Elvis Presley.

O Fall Out Boy acaba de lançar seu segundo álbum por uma grande gravadora, Infinity on High, a seqüência de um dos maiores sucessos do rock da década. Com seus dois singles pop-punk impecáveis, "Sugar, We're Goin Down" e "Dance, Dance", o disco From Under the Cork Tree (de 2005) impulsionou os quatro geeks suburbanos dos palcos do Warped Tour para o que sobrou do mainstream da MTV, vendendo mais de 2,5 milhões de cópias para uma molecada que não está acostumada a pagar por música. E com Infinity - que passa de um hino bacanudo para outro - eles almejam o superestrelato. "Quero ser a maior banda do planeta", fala Wentz, cujas verborragias líricas casam um maduro dom verbal com uma inclinação adolescente para automitificação - ele saúda seu "coração estraçalhado" na faixa que abre o novo trabalho.

Stump, cuja voz é tão bonita quanto a estrutura óssea de Pete, compõe as melodias com alto teor de glicose. Mas Wentz é de fato o líder, o herói do MySpace para uma legião de emos com os olhos carregados de delineador. Tem uma propensão à la Michael Jackson de se comparar a Peter Pan, e é um novo e mais acessível tipo de rockstar, mantendo um contato bastante próximo com uma tribo internáutica de garotos perdidos (e meninas, muitas). No site do grupo, responde regularmente perguntas como: "Pete! Meu cachorro morreu ontem de câncer. Isso já aconteceu com você?"

Wentz tem 27 anos e até 2006 ainda vivia na casa dos pais no rico subúrbio de Wilmette (Chicago). Quando não estava em turnê, dormia no seu quarto de infância, cercado dos antigos bonecos dos Transformers e do He-Man. Enquanto o resto da banda mantém casas em, e perto de, Chicago - onde todos têm raízes na cena hardcore local -, Wentz finalmente se mudou, seis meses atrás, para Los Angeles. Stump também tem um canto lá, mas é Pete que sai com garotas que aparecem na capa da revista Vogue Teen: Lindsay Lohan, Ashlee Simpson, Michelle Trachtenberg. "Pessoas criativas e destruídas me atraem. E existem muitos tipos assim em L.A.", salienta Wentz. Ele sugere algum tipo de investida em Trachtenberg, mas insiste em dizer que os outros dois relacionamentos são platônicos. "Talvez, em um universo diferente, a gente forme um casal apaixonado, mas não neste aqui", dispara, a respeito de Simpson (Wentz deve ter se confundido: em uma festa do Grammy, foi filmado andando de mãos dadas com Simpson).

De volta ao táxi, o baixista termina sua ligação e se recolhe sob o capuz do seu moletom. Antes de o telefone tocar, estava com um humor efervescente, contando sobre um encontro em uma noite ultra-exclusiva em um karaokê no Cipriani, no SoHo, de onde acabamos de sair e que estava lotado de modelos por conta do começo da New York Fashion Week. "Uma loira esquisita chegou: 'Que bom te ver de novo'", Wentz se lembra, rindo. "Pensei: 'Quem é você?' Tudo o que eu preciso na vida é de uma modelo." Mas ele possui uma desculpa para sempre andar entre fashionistas: tem dois trabalhos paralelos e lucrativos. Sua marca de roupas, a Clandestine Industries, acaba de assinar um contrato de produção e distribuição com a DKNY. Seu selo, Decaydance, tem no catálogo a banda favorita dos adolescentes - e influenciada pelo FOB - o Panic! at the Disco (mesmo que o Panic! ameace se igualar em popularidade com o FOB, isso também torna Wentz mais rico: é como se o Pearl Jam tivesse participação nos lucros do Stone Temple Pilots).

Conforme o táxi vai se distanciando do centro, Wentz está calado, perdido em pensamentos. Quando desatrela um de seus sorrisos largos e mostra as covinhas, a força do seu carisma de macho alfa quase nos cega - mas suas repentinas mudanças para um ânimo mais taciturno são tão intensas quanto. "Tenho uma personalidade excêntrica. Ou estou no 'on' ou em 'off'", admite, depois de ter discorrido minuciosamente sobre uma quase tentativa de suicídio em 2005. "Tenho a capacidade de congelar um ambiente."

O diretor Alan Ferguson - que fez os últimos videoclipes do Fall Out Boy, incluindo aí a autochacota para o primeiro single de Infinity, "This Ain't a Scene, It's an Arms Race" - já viu de perto a volatilidade do baixista em questão. "Ele é o cara mais bacana, leal e solícito do mundo. E também tem um lado obscuro que o torna carismático." Para o último videoclipe de Cork Tree, o minifilme de terror "A Little Less Sixteen Candles, A Little More 'Touch Me''', Ferguson criou um personagem vampiresco para Wentz baseado em seus humores soturnos. Na cena de abertura, o vampiro pula de um penhasco para escapar dos outros integrantes.

Como vocalista de voz gutural da banda de metalcore Arma Angelus, Wentz já era uma celebridade na cena hardcore de Chicago em 2001, quando o Fall Out Boy começou a tomar forma. "Todos somos versões exageradas do que éramos," recorda o baterista Andy Hurley, um introvertido fã de quadrinhos que tocou com Wentz tanto na Arma quanto em uma outra banda, chamada Racetraitor (o nome tinha a intenção de ser um manifesto anti-racista, só para deixar registrado). "O Pete pode ir aos clubes da moda agora, mas, na época, saía com os caras mais hardcores. Era obviamente a pessoa que você queria conhecer, tinha uma personalidade magnética." O futuro guitarrista do FOB, Joe Trohman, excursionava como baixista do Arma no verão em que tinha apenas 16 anos, depois que Wentz usou seu considerável poder de persuasão com a mãe e o pai de Trohman. "Certamente me iniciei naquela turnê - eles arrancavam minha cueca todos os dias. Odiava aquilo, cara. Devia ter parado de usar cuecas", brinca Trohman.

Depois daquela turnê, assim que Trohman começou a falar com Wentz sobre criar uma banda mais pop - mais no estilo do Green Day -, ele conheceu um cara de grandes costeletas e da sua idade em uma livraria: Patrick Stump, que estava na época tocando bateria em uma banda progressiva que soava como um Rush emo. Stump queria cantar e compor, e Trohman apresentou-o a Wentz. "Já tinha ouvido várias lendas sobre Wentz", recorda o vocalista. "Que ele tocava em seis bandas ao mesmo tempo, que era o maior Casanova do mundo... Mas, quando a gente se conheceu, um olhou para o outro e pensou: 'Quem é esse cara?' No começo a gente era muito ruim." O nome da banda foi criado - uma referência a um gibi que o Bart lê nos Simpsons - aleatoriamente: pediram uma sugestão para o público em um dos primeiros shows e alguém gritou Fall Out Boy. Gravaram um álbum independente inteiro antes de finalmente contarem com Hurley fazendo parte da banda - um baterista preciso influenciado pelo Dave Lombardo, do Slayer. "Para mim, não era o Fall Out Boy antes de o Andy chegar", salienta Stump.

Na primeira faixa do álbum de estréia, hoje repudiado, o terrível Evening Out with Your Girlfriend, Stump canta "I got an honorable mention in the movie of my life - starring you, instead of me." ("Eu recebi uma menção honrosa pelo filme da minha vida - no qual é você que está estrelando, não eu"). O cantor, que está sentado em uma mesa de vidro em seu quarto no Hotel W, na Times Square, o rosto cordial delineado pela sombra do sempre presente boné de beisebol, acena com a cabeça e dá um meio sorriso quando lembro desse trecho. Ele mesmo compôs, antes de Wentz assumir a função das letras. "Sei exatamente aonde você quer chegar com isso - a história toda com o Pete", diz, olhando para fora da janela no 48º andar. "Mas essa letra falava de como me sentia no colégio. Não tinha a ver com ninguém, por mais irônico que pareça hoje em dia."

Ferguson vê aquele Stump de óculos como um ator altamente hábil para fazer o papel de Wentz. "Ele é meu Philip Seymour Hoffman", compara. Acrescente aí Kenneth "Babyface" Edmonds, o improvável produtor convidado que a banda recrutou para trabalhar em duas faixas do Infinity: "Patrick é um dos caras mais fodões que conheci... tem uma voz poderosa, carregada de soul". Mas Stump é autodepreciativo a ponto de você se pegar lhe reafirmando o charme que ele tem. "Ouço todo tipo de coisas contra a gente", esclarece, "e uma das minhas favoritas é a acusação de que somos uma boy band. Penso: 'Boy band? Eu sou gordo! Se fôssemos uma boy band, seria bonito, charmoso e saberia dançar. Então, que papo é esse?' Faço música, mais nada."

Até recentemente, Stump - que raramente fala no palco durante os shows e dificilmente sai de trás do seu microfone enquanto Wentz e Trohman pulam ao seu redor - estava obliterado com a sombra de Wentz. Mas ultimamente vem andando com as próprias pernas, até mesmo produzindo músicas para o grupo de hip-hop do Decaydance, Gym Class Heroes - ele canta o refrão derivado do Supertramp na "Cupid's Chokehold", que está ao lado de "Arms Race" no Top Ten do iTunes. Na sua frente, na mesa do quarto de hotel, está um laptop prateado com o software da Apple GarageBand aberto, que ele usa para gravar as demos do Fall Out Boy, batidas de hip-hop e experimentos aleatórios. O vocalista toca vários deles para mim; duas das músicas mais funkeadas em Infinity on High - "Arms Race" e a que encerra o disco, "I've Got All This Ringing in My Ears and None on My Fingers" - eram originariamente faixas de hip-hop.

No dia anterior, Stump havia se encontrado com Jay-Z para lhe mostrar algumas batidas e discutir projetos. No ano passado, Jay o convidou para criar um refrão para uma faixa do Kingdom Come. "Toda a posse do hip-hop apareceu - o Jay entrou com o Timbaland, depois chegou o Swizz Beatz. E a Beyoncé estava lá, dançando daquele jeito que você vê na televisão", conta Stump, que ficou intimidado - a cena do clipe de "Arms Race" em que todos os caras do hip-hop estão rindo dele foi inspirada no incidente. Na vida real, o vocalista nunca ficou atrás do microfone. "Tive o maior bloqueio de criação, então pensei: 'Estraguei a história do Jay-Z, agora preciso compor o melhor álbum do Fall Out Boy que já existiu'." De maneira discutível, foi o que ele fez: Em Infinity,o FOB se transforma e vai além dos limites do seu gênero para abraçar ritmos e inflexões vocais que denotam a afeição de Stump por Prince, Zapp e Earth, Wind & Fire. "Pensava: 'Esse cara está querendo provar alguma coisa'", diz Wentz, cujo relacionamento de trabalho com Stump traz alguns momentos tensos - o meigo vocalista já lhe deu um soco na cara durante uma discussão sobre letras.

Edmonds - que está acostumado com canções de amor - foi tocado pelas letras dolorosamente pessoais de Wentz, e que, segundo o baixista, foram escritas para uma garota em particular. No ano passado, quando nos conhecemos, Wentz me contou a mesma coisa: que muitas das suas canções novas foram inspiradas em um relacionamento condenado, que a garota em questão o havia deixado tão louco que ele atravessou o vidro de um carro com o próprio punho.

A visão é como a de uma cena de um clipe do Fall Out Boy: Pete Wentz e uma impressionante jovem com um piercing no nariz se olham cheios de sentimento enquanto sentam lado a lado. Eles se parecem, seus olhos envoltos pela mesma quantidade de maquiagem. Wentz eventualmente pega na mão dela, mas não fala nada. Estão em uma sessão de fotos do Fall Out Boy, e a garota parece estar pronta para fotografar também: seu cabelo espetado tem um tom de vermelho contestador. Ela usa botas que vão até os joelhos e ficam por cima de meias estrategicamente rasgadas. Seu nome é Jeanae, tem cerca de 20 anos e é uma cabeleireira de Chicago. "Isso é muito mais chato do que imaginava", comenta enquanto os flashes disparam. Wentz fica o tempo todo enviando olhares magoados para sua direção - e se mostra perturbado quando me vê conversando com ela.

Ele parece distraído conforme a sessão de fotos continua em um galpão em Williamsburg, no Brooklyn, e mal conversa com os colegas. Mas se ilumina quando Stump comenta algo sobre um episódio obscuro de Guerra nas Estrelas: dois filmes com os Ewoks feitos para a TV do meio dos anos 80. "Você precisa ver o segundo, é incrível", avisa. Enquanto isso, Hurley interrompe seu almoço vegan e se conecta ao site da MTV para ver em que posição "Arms Race" está na parada do TRL (a versão americana do Disk MTV). O site derruba seu browser na mesma hora e ele então volta a comer.

Finalmente, todos entram em uma van e voltam para Manhattan. Wentz e Jeanae se sentam nos bancos do fundo. A conversa vai parar no Morrissey, no Prince e então no novo álbum do Young Jeezy: Stump odeia a marca registrada do rapper, aquela risada "ha-ha!", enquanto Trohman - o único da banda que bebe e fuma maconha - é fã. "A gente tinha que levá-lo aos shows", dispara. "Meu sonho é fumar um com aquele cara."

Wentz e Jeanae parecem ignorar a discussão - ele está com o capuz do moletom na cabeça e ambos sussurram. Dois dias depois, Wentz me fala sobre ela, sobre como não consegue ficar longe, sobre como Jeanae é louca, sobre ela ser a única mulher que ele realmente deseja. Mas já estou começando a perceber isso.

Trohman e Hurley recebem menos atenção que os outros colegas da banda, o que pode ser frustrante. "Um significa muito para o outro como indivíduo e como músico", explica Trohman. "Mas, às vezes, começamos a acreditar no que as pessoas escrevem sobre nós: que a banda é só um ou dois caras. Isso pode ser cruel para a alma." O modo de tocar de Trohman combina riffs de heavy metal com as ambiências atmosféricas de Johnny Marr - além de saltos e o balanço de cabeça típicos do metal, que são tão intensos que ele até já teve problemas na canela. "O Joe quer fazer um bom show", conta Stump. "Mas não consegue evitar as micagens." Trohman também tem um segmento próprio de fãs do Fall Out Boy: "As mulheres de meia-idade me amam, acham que pareço com o Dr. McSexy ou sei lá quem [apelido do personagem Mark Sloan no seriado Grey's Anathomy]."

Estamos em um táxi em direção ao Rudy's Music Stop, na Rua 48, onde Trohman reconhece uma guitarra Les Paul Junior dos anos 50 e pergunta quanto é. "Dezoito e meio é um bom preço," responde lentamente um vendedor. "Ele quer dizer 18 mil? É muita grana." Saímos da loja, mas Trohman volta para brincar com uma linda Telecaster preta de 1972. Outro vendedor o leva para os fundos. "Que guitarra você toca ?", pergunta. "Tenho várias", Trohman responde. O vendedor dá um tiro no escuro:

"Vocês são de alguma banda?"

"Ele é", eu digo.

"De qual?"

"Fall Out Boy", conta Trohman. Os olhos do vendedor se acendem com cifrões luminosos e Trohman sai da loja cinco minutos depois com sua compra por impulso de US$ 4.495, dentro de um case original já bastante gasto. "Vou me sentir culpado por isso durante um tempo", comenta, não parecendo nem um pouco culpado.

Andy Hurley está comendo macarrão com queijo vegan e falando sobre o fim do mundo. Estamos em um agradável restaurante vegetariano, recém-saídos de uma compra de quadrinhos na Forbidden Planet. Mais que qualquer outro da banda, Hurley se manteve próximo às raízes radicais do hardcore: além da dieta vegan, é tão sério em ser straight-edge que levanta a gola da camiseta para cobrir o nariz e a boca quando Trohman está fumando maconha.

O pai de Hurley morreu quando o baterista tinha 5 anos, e ele foi criado pela mãe, uma enfermeira. Começou a tocar inspirado em Lars Ulrich, do Metallica. Ele vive em Germantown (Wisconsin) e tem alguns pontos de vista políticos radicais, meio anarquista, meio ambientalista. "Não curto a civilização como um todo", admite, vestindo uma jaqueta com o logo do Public Enemy nas costas. "A única solução efetiva é o eventual colapso e o fim..." Não é difícil para ele conciliar isso tudo com o sucesso de sua banda: "Basicamente, sou o funcionário de uma corporação, e isso é estranho, contradiz muitas coisas em que acredito. Mas, ao mesmo tempo, tenho que ganhar meu dinheiro". Haverá bandas de rock depois do colapso da civilização? "Provavelmente não. A música deve acabar", responde, com um olhar triste. "É disso que estou falando - sou muito ligado em quadrinhos, cinema e videogame e não quero abrir mão disso. Ao mesmo tempo, eles preenchem a lacuna deixada por coisas que não compreendemos."

É sábado à noite em Atlantic City, onde o colapso da civilização está claramente em marcha. Estamos em um clube de porão no Hotel e Cassino Borgata, onde Pete Wentz vai discotecar. Tocar vinis (ou melhor, CDs e MP3s) é um hobby eventual para ele - e o set desta noite é uma chance de tirar uma grana fácil e descolar uma viagem de graça para um grupo de amigos. Depois, Wentz passeia pelo cassino, que mais parece um labirinto. "Não me arrisco em jogos de azar", comenta, olhando de soslaio para corredores de caça-níqueis em frenética movimentação. "Quero dizer, não aposto dinheiro - me arrisco com minha banda."

São 3h30 da manhã e estamos a caminho de seu quarto de hotel para começar uma entrevista. Wentz tira seu tênis Converse, branco e todo grafitado, e se esparrama em uma das camas. Pulo na outra. Ele fala com uma honestidade sonolenta e entorpecida.

Primeiro debate sobre como foi ver seu pênis se transformar em objeto de marketing viral. Em março de 2006, alguns auto-retratos nus que havia tirado se espalharam. Ele estava dirigindo em Chicago quando ouviu a notícia, e ficou tão chocado que bateu na traseira do carro da frente. "Achei que o mundo estava acabando", exagera, mas agora ri do incidente, a maior parte do tempo. "Cheguei a sonhar que aquilo não passara de uma piada, depois acordei e senti aquela sensação ruim porque tinha acontecido, sim."

Wentz, o filho de um pai professor de direito e de uma mãe diretora escolar, sempre encarou sua infância como algo idílico e sem muitos acontecimentos. Quando pressionado, acaba tocando em alguns assuntos traumatizantes. O primeiro deles é relativamente trivial: "Meus pais se separaram no meu aniversário de 6 anos e voltaram uns seis ou oito meses depois. Aquilo fez com que odiasse meu aniversário. Quero dizer, os pais do Patrick são divorciados e o pai do Andy já faleceu, então não acho que tive uma infância catastrófica - todo mundo que conheço teve mais que eu".

Wentz está vestindo um moletom preto e marrom, com capuz, um jeans da Diesel comum, sem ajustes nas pernas, e mexe de maneira nervosa no controle remoto da TV quando fala sobre um trauma mais recente: "Quando tinha 14 anos, fui mandado para um reformatório". Ele costumava cabular aulas no 1º colegial, então um orientador educacional persuadiu seus pais a mandá-lo para um programa de acampamento disciplinar, conservador e aterrorizante. Durante oito longas semanas. "Foi horrível", conta suavemente. "Todos os que estavam ali eram muito mais fodidos - uma molecada satânica, demente. Apanhei algumas vezes. Ligava para meus pais chorando e dizendo que queria voltar, me sentia isolado. Esse episódio gerou meu problema com dependência e afeição."

E depois, você acabou morando em casa... Wentz concorda com a cabeça: "Até os 27". Ele acredita que muitos de seus problemas emocionais - e sua veia artística - são decorrentes do reformatório. "Foi ali que parei de falar sobre os meus sentimentos - e não é nada agradável engatar um relacionamento com alguém assim, robótico. Se não colocasse minhas emoções para fora, acabaria explodindo."

O motivo pelo qual Wentz finalmente saiu da casa dos pais foi para ficar longe de Jeanae, sua amuada musa adolescente. "Entre a gente rolavam coisas fortes, pesadas. Ela é uma das poucas pessoas que conseguem me tocar. Um dia, simplesmente falei que estava indo embora e peguei um avião." Mas agora vocês estão juntos de novo? "Ela é irresistível. As melhores são as malucas... Há uma parte de mim que acha que a gente poderia casar, mas há outra que não passaria esta noite com ela."

Wentz, que nunca teve problemas para atrair a atenção feminina, parece cativado pela relativa indiferença de Jeanae - que não fica nem mesmo impressionada com as músicas que ele faz para ela. "Não sei se Jeanae se importa mais com as músicas do que as outras pessoas que as escutam", conta. "Mas não sei se poderia compor essas músicas se ela se importasse muito. Se você sempre pudesse se explicar para alguém, por que ficaria se explicando o tempo todo?", questiona Wentz. Ele me mostra cicatrizes em forma de meia-lua nas articulações dos dedos de ambas as mãos - já atravessou janelas com os punhos durante brigas amorosas. "Quando você assiste a Johnny & June [de 2005] não se sente tão mal. Todo mundo tem um quê de maluquice. Não estou interessado nas outras pessoas. Poderia ter por aí 1 milhão de outras garotas..."

Olho no relógio: são 6 da manhã. Vou para o meu quarto e desmaio. Wentz fica acordado assistindo TV e consegue dormir por duas horas. Isso não é incomum para ele. Continuamos a conversar duas noites depois, de volta ao hotel Ritz-Carlton no Central Park - que está uma bagunça, cheio de camisetas espalhadas pelo chão, saídas da mala de couro Louis Vuitton. Entre as roupas está um exemplar de A Metamorfose e Outras Histórias, de (Franz) Kafka. Wentz adora esse hotel, principalmente depois que o serviço de quarto passou a concordar em levar sanduíches de pasta de amendoim e geléia todas as noites. Em meses recentes, ele desistiu de algumas das suas assinaturas visuais que viraram clichês emo: quase não pinta mais os olhos e está longe das calças justas. "De repente, você vê como é digno de riso ficar tirando o cabelo do rosto e passando delineador no olho", se dá conta, empoleirado na cama do hotel. "O new metal tinha um visual próprio e Seattle teve as camisas de flanela. É uma bobagem."

Wentz jogava futebol no colégio quando começou a tocar. "Era zoado por ser normal. Então, tentava parecer diferente. Queria ter um visual andrógino, bizarro." Seus 1,73m são mignon o suficiente para caber confortavelmente no jeans feminino que ele ajudou a popularizar entre os meninos - um estilo que também foi grande na cena hardcore do começo dos anos 90. Mas o visual ficou tão popular que as massas emo passam fome para poder se espremer nas calças - me motivando a cunhar o termo "emorexia". E Wentz está cansado disso: "Acabou ficando ridículo, as calças estavam praticamente tatuadas na gente. Já superei essa fase."

Em vez disso, ultimamente o baixista anda ocupado com outra atividade, a menos emo de todas: está levantando peso. "Vou ficar sarado. Quero ser um homem." Pete Wentz, o líder dos Garotos Perdidos, abre um de seus sorrisos matadores e repete: "Quero ser um homem".

Tradução: ERIKA BRANDÃO