South Park: Sem Noção

Há dez anos, South Park é o desenho animado mais tosco, idiota e ofensivo da TV. Por isso, é um dos mais engraçados

Vanessa Grigoriadis Publicado em 02/08/2007, às 14h43 - Atualizado em 01/09/2007, às 19h03

Trey Parker (à esquerda) e Matt Stone, os criadores de South Park, picham o muro da Igreja da Cientologia, em Los Angeles (Califórnia)
Michael Elins

Nas profundezas de um labirinto de cabanas cor de barro no centro de conferências do Hyatt Grand Champions Resort, em Indian Wells, na Califórnia (Estados Unidos), homens de camisa pólo apressam-se para chegar a reuniões que começam às 8h30. A maior parte deles está ali para debater os recentes avanços dos colírios destinados a lubrificar lentes de contato - "Minha tecnologia é superior, Bob", um deles se gaba, de croissant na mão. Mas, além do campo de golfe, em uma cabana com uma placa majestosa onde se lê "Villa Capri", agrupam-se seis funcionários da Viacom, sentados em poltronas com estampa de bolinha, com cafés nas mãos. Este é o retiro corporativo, secreto, dos responsáveis pelo programa que faz mais sucesso e que também é o mais devasso e o mais escrachado do canal Comedy Central: o South Park.

Durante a última década, o Comedy Central pagou a conta de dois retiros por ano para os redatores de South Park em Tahoe, no Havaí, e em Las Vegas, onde as discussões sobre os enredos dos desenhos foram suplantadas por strippers e noites obscuras de depravação. Matt Stone e Trey Parker, os criadores do programa, eram mais novos na época.

Mas falta pouco para o início da nova temporada e estamos no terceiro dos quatro dias deste retiro de primavera, durante os quais eles jogaram golfe e jantaram em restaurantes mexicanos, ao mesmo tempo em que encheram a cara. Nenhum episódio foi escrito, mas seus cérebros estão sendo preparados para o massacre de trabalho que começa uma semana antes da estréia - cada história é criada praticamente do zero, sete dias antes de ir ao ar. E eles se recusam a trabalhar de outra maneira.

Durante três longas horas, Stone, 35, e Parker, 37, consideram a possibilidade de episódios futuros sobre George Bush, na pele de um super-herói, e sobre "gatos-fantasma", felinos extraterrestres geneticamente modificados. Parker, um rapaz complicado, afável e malicioso - possuidor de um sex appeal improvável, como um jovem Bill Murray -, pega um prato de batata-doce frita enquanto faz anotações em seu laptop todo ralado. Stone, que tem cara de um daqueles professores de ciências da escola, com um corte de cabelo bacana, que estão sempre explicando o funcionamento do mundo com sua voz grave, faz um batuque na perna. Os dois usam camisetas de cores primárias e bonés. Quando estão imersos em pensamentos, Stone rói as unhas e Parker morde os lábios. Eles são "fofos de matar" e estão rodeados por meia dúzia de produtores e redatores igualmente adoráveis, todos com sorrisos serenos, que caem na risada ao sinal de qualquer piada, por mais boba que seja.

Stone, parece, está tendo problemas com a prefeitura de Venice (Califórnia), por causa da altura de uma cerca que quer construir ao redor de sua casa, e já foi assunto de diversas reuniões do conselho comunitário, conduzidas em ginásios de escolas primárias e presididas por caras grisalhos de rabo-de-cavalo. "Sempre que um fulano com rabo-de-cavalo vem me dizer o que fazer, me sinto incomodado", avisa. Até parece que Venice é um lugar perfeito: há zilhões de sem-teto. Essa observação prontamente se transforma em uma discussão de uma hora a respeito de um episódio em que Kyle, Stan, Cartman e Kenny confrontam os moradores de rua enquanto seus pais discutem a melhor maneira de salvá-los.

"Deveríamos distribuir aos sem-teto sacos de dormir de marca e roupas bem bonitas, para que seja agradável olhar para eles", salienta o redator Kyle McCulloch.

"Vamos dar a eles US$ 150 para irem ao salão de beleza", dispara o redator Jon Kimmel.

"Eles vão comprar crack", Parker bronqueia.

"Certo, isso não funcionou. Precisamos dobrar a quantidade de dinheiro e de crack", palpita Stone.

Parker assume um olhar distante...

"Ai, meu Deus: os sem-teto estão passando para o outro lado", declara. "Estão começando a arrumar emprego e casa. São sem-teto flex!"

"Você quer dizer, como os carros?", pergunta McCulloch.

"Estão mudando, evoluindo", sussurra Parker. "Estão se adaptando!" Assume a voz de um policial de South Park e continua: "Pegamos um". Abaixa a voz: "Estava prestes a comprar uma casa".

Todo mundo dá risada. "No final do programa, vamos colocar um aviso que diz: 'Existem milhares de sem-teto nos Estados Unidos. Se você quiser ajudar, ligue para este número", explica Parker. "Se quiser ajudar!' Ele fica rindo durante um bom tempo. Daí, finge soltar um peido.

Nos últimos dez anos, South Park (que estreou nos Estados Unidos no dia 13 de agosto de 1997) satirizou o pânico do país em relação a questões importantes e insignificantes, desde o casamento gay até o aquecimento global, passando pelas bebedeiras da cantora e atriz Lindsay Lohan. Fazer com que o país encare hipocrisias como o abandono dos sem-teto é a maneira como o desenho funciona - mas devo dizer que existe algo perturbador em ver seis adultos passarem uma hora inteira fazendo piada sobre as pessoas que moram na rua sem abordar, nenhuma vez sequer, soluções para o problema. Este é o programa inteligente mais idiota da televisão, que não pára de testar os limites do humor escabroso, acarretando um efeito colateral, talvez não-intencional, de abrir caminho para outros shows mais do que idiotas como Family Guy. As partes tontas do South Park, dizem os autores, são as que eles mais gostam. "É chocante, mas passo pouquíssimo tempo pensando sobre coisas do mundo real", surpreende-se Parker. "Tenho um computador, acesso à internet, um Xbox e um PlayStation 3. Então, larga do meu pé."

South Park também é o programa de ideologia política mais obscura da TV, fomentando o diálogo aberto sobre questões complicadas - como, se as pessoas têm o dever, ou não, de obedecer a leis injustas ou se existe Deus em um mundo cheio de maldade. Bem diferente de Os Simpsons - que é intelectualizado e oferece um retrato agradavelmente obtuso da vida nos Estados Unidos, aproveitando esses dois ingredientes para reforçar conceitos de esquerda -, a criação de Parker e Stone oferece parábolas simples (geralmente com uma mensagem otimista) para tratar de todo tipo de questão, sem nunca mostrar de que lado está. "Se eles explicassem qual era seu objetivo, as pessoas iriam começar a assistir com um mapa na mão", conclui Penn Jillette (da dupla Penn & Teller), amigo próximo. "Mas é preciso confiar na arte, não no artista. Eles nunca vão revelar suas verdadeiras intenções."

Stone e Parker passaram a maior parte do período de exibição de South Park trabalhando também em filmes como Orgazmo (de 1997), BASEketball (de 1998), South Park: Maior, Melhor e Sem Cortes (de 1999) e Team America - Detonando o Mundo (de 2004), uma paródia a Jerry Bruckheimer e aos grandes feitos ousados dos Estados Unidos com bonequinhos e orçamento de US$ 35 milhões -, mas, nos últimos dois anos, têm se concentrado quase que exclusivamente em seu desenho de maior sucesso. A agenda de produção apertada lhes permite apresentar respostas rápidas ao noticiário, o que deu lugar a programas que tratam de assuntos como o caso de direito de morte de Terri Schiavo, os efeitos do furacão Katrina e um episódio especialmente ácido que caracterizava a Cientologia como um esquema para ganhar dinheiro, enfiando Tom Cruise e John Travolta, famosos membros da seita, dentro de um armário. Em março de 2006, a Viacom, empresa-mãe do Comedy Central, que já tinha suspendido a reprise de um episódio que mostrava a Virgem Maria se esvaindo em sangue, cancelou a reprise do episódio da Cientologia, supostamente como favor aos produtores do filme Missão Impossível III (de 2006), estrelado por Tom Cruise, também de propriedade da Viacom. Isso fez com que Stone e Parker ficassem furiosos (no final, a Viacom reviu sua decisão), mas eles realmente perderam as estribeiras quando Isaac Hayes, que fazia a voz do cozinheiro irreverente da escola e é cientolólogo, pediu demissão e divulgou um comunicado público chamando os dois de preconceituosos. "Há boatos de que Isaac teve um derrame e a Cientologia pediu demissão em seu nome, e eu acredito", diz Stone. "A coisa com Isaac foi brutal e pessoal. Se examinarmos a sucessão de eventos, dá para ver que tem algo que não encaixa."

Stone é o cara que sempre briga com a emissora, enquanto Parker fica nos bastidores - não gosta de confrontos. Eles não discutem muito com o Comedy Central, mas as armas foram colocadas na mesa em abril de 2006, por causa de um episódio que trataria dos tumultos mundiais cujo estopim foi uma charge em um jornal dinamarquês que retratava Maomé (de acordo com a lei islâmica, é sacrilégio fazer graça com seu profeta). Stone e Parker queriam mostrar a imagem a todo custo. "Achei que precisávamos fazer aquilo", lembra Stone. "Sei que sou o maior covarde de ficar aqui na minha vidinha privilegiada na zona oeste de Los Angeles enquanto soldados e policiais me protegem para que eu possa dizer coisas como 'veado que gosta de uma bronha' no meu programa de televisão, mas era nossa obrigação. O Comedy Central deu para trás porque achou que sua sede, na 57th Street em Manhattan (Nova York), seria alvo de ataques." O presidente do Comedy Central, Doug Herzog, explica melhor: "Os caras passaram a semana toda perguntando coisas como: 'Será que a gente pode mostrar um pouco de Maomé? Este turbante pode aparecer? Uma parte deste turbante pode aparecer?'. Francamente, foi ridículo. Mas será que foi exagero nosso não mostrar a charge? De jeito nenhum, ninguém estava pronto para correr o risco".

Stone e Parker se conheceram na Universidade do Colorado, onde o primeiro era um nerd de matemática, e o segundo, um nerd de cinema que faltava às aulas para fazer vídeos como The Giant Beaver of Southern Sri Lanka (O Castor Gigante do Sul do Sri Lanka) e Cannibal: The Musical (Canibal, o Musical), para o qual conseguiu arrecadar US$ 125 mil junto a pais de amigos. Os dois foram criados em famílias de classe média, jogando videogame, praticando tae kwon do e trabalhando em pizzarias (Parker no Pizza Hut, Stone no Little Caesar's). Eles vêm de famílias felizes e dizem que têm poucos traumas de infância. O pai de Stone é professor de economia; o de Parker é geólogo do governo e sua mãe representante de seguradora. Stone praticou pelo menos um pouquinho de esporte, ao passo que Parker fez teatro musical e foi o protagonista de muitas produções do ensino médio. E cantou no coral.

Portanto, não ser covarde ganha importância fundamental. A maior parte do humor de South Park ou defende o individualismo radical (todo mundo é idiota, por isso, não escute ninguém além de si mesmo) e/ou pensamentos conservadores (este país é maravilhoso, e você é um covarde se ficar falando mal do presidente). Nem Stone nem Parker revelam seus pontos de vista políticos e os dois afirmam que o rótulo de libertários, que tem sido aplicado a eles nos últimos anos, não é totalmente adequado. Não falam sobre a guerra, nem para proferir opinião a respeito do novo plano de deslocamento de tropas do presidente Bush. "Não vou nem começar a dizer que tenho informações suficientes para dizer se é certo ou errado, porque qualquer pessoa que diz que é errado também está falando um monte de merda", defende Parker. Nenhum dos dois vota. "Nunca", salienta Stone. Parker abana a mão no ar: "Cada eleição representa a escolha entre um idiota ou um imbecil, então quem se importa?", dispara. "Se Gore tivesse vencido Bush, as coisas não estariam muito diferentes."

Stone se interessa por política e lê muitos livros de não-ficção sobre o Oriente Médio, mas praticamente precisei lutar com ele para ouvir suas opiniões a respeito do assunto: ele é desfavorável à Guerra Contra as Drogas, a favor do casamento gay, contra a oferta de tratamento médico subsidiado e basicamente a favor do livre-mercado - a não ser nos casos em que isso faz diminuir os recursos públicos para a construção e manutenção de estradas e para a educação. No que diz respeito a Parker, que possui algumas armas de fogo, o mais próximo que conseguiu chegar foi uma paráfrase do monólogo-clímax de Team America: "Há uma diferença entre babacas e broncos. Como existem terroristas (broncos), é necessário que haja babacas (as pessoas que caçam os terroristas). Os babacas são ruins - e é horrível ser babaca -, mas é muito pior ser bronco. Mas, como existem broncos, precisamos de babacas. Então calem a boca, seus veados!"

Se você tentar rebater esse tipo de lógica, eles começam a zoar com sua cara e entram em êxtase. "Fomos a uma festa em Malibu há pouco tempo", recorda Stone, "e uma mulher chegou para nós: 'Meu filho estuda na Universidade do Colorado e não consigo fazer com que ele vá à aula, porque passa o tempo todo andando de snowboard'. Imediatamente, pensei: 'Fodam-se você e o seu filho', porque eu não tinha dinheiro para andar de snowboard quando estava na faculdade. Mas respondi: 'É, ainda vou ao Colorado para visitar minha família'. E ela: 'É verdade que lá só tem caipira que anda armado?'. Continuei: 'Acabei de dizer que minha mãe, meu pai e minha irmã moram lá'. Daí, Trey chegou: 'O George Bush é um grande homem'. Ela fez uma cara estranha. Parecia que a gente tinha despejado ácido no ouvido dela. Rimos muito."

"Esta é a coisa mais punk rock que se pode fazer em Los Angeles: sair espalhando que 'o George Bush é do caralho', em vez de ficar argumentando sobre como é ridículo ele fazer uma guerra por causa de petróleo", comenta Parker. "A única maneira de ser mais hardcore do que todo mundo é dizer às pessoas que se acham as maiores hardcores que elas não passam de veados. É chegar para um vegan cheio de piercings e tatuagens e falar: 'Tanto faz, sua bicha tatuada, você é uma bicha tatuada sei-lá-o-quê'.'' Ele parece muito satisfeito consigo mesmo. "Isso é que é ser hardcore."

Há 60 animadores, roteiristas e produtores trabalhando em South Park, mas se existe um gênio solitário por trás disso tudo, é Parker. Com pelo menos três facetas em sua personalidade - o personagem de desenho animado que vive satisfeito, é adorável e otimista; a encarnação de Cartman, o norte-americano gordo, egoísta e que se satisfaz por si só; e o artista desalentado e pesaroso - ele escreve todos os episódios, com contribuições dos redatores e de Stone. Se ele está pensando, faz milhões de expressões por minuto e só relaxa quando ri - suas risadas são arroubos longos e histéricos, causados por praticamente qualquer coisa. Ele não consegue guardar as chaves junto com a carteira, dizem os amigos, e geralmente pára de encher o tanque antes de completar porque se entedia e quer ir embora.

Assim como muitos punks, está em busca daquela coisa pura da vida e ainda não encontrou. Parker precisa de Stone, que funciona principalmente como produtor e como uma força estabilizadora - as coisas das quais riem juntos, ele acredita, são mais engraçadas do que as coisas de que ri com qualquer outra pessoa. "Trey tem todos os elementos de qualquer gênio criativo", diz Anne Garefino, a produtora-executiva maternal de South Park. "Às vezes fica torturado, às vezes é um performer, e, às vezes, faz tudo o que vem à cabeça."

A equipe é formada por um time leal - alguns deles passaram ali boa parte dos últimos dez anos, basicamente servindo ao culto de Parker, o encrenqueiro mais bacana da cidade. "Ele é o chefe do bando. É mais ou menos como uma fraternidade que não se desfaz", explica Eric Stough, um amigo que tem o apelido de "Butters" (manteigas), por sua natureza doce e correta (certa vez, no escritório, Stone ameaçou matar Butters depois que o amigo peidou em cima dele. Butters se trancou no carro, mas Stone e Parker foram atrás e mijaram em cima do veículo todo. Quando Butters tentou dar ré, bateu no carro de um assistente de produção sem querer).

Em um exemplo extremo do cara que vai para Hollywood, mas se recusa a entrar no esquema e mantém seus amigos por perto, as pessoas mais íntimas de Parker são quase na totalidade as mesmas que já estavam por perto durante o ensino médio e a faculdade. Hoje, ele é detentor de uma riqueza obscena - tem oito propriedades em destinos de férias como Kauai, Havaí e Steamboat Springs (no Colorado), incluindo imóveis para os pais e a irmã. Ele e Stone costumam oferecer viagens em grupo e jantares com 16 pratos e garrafas de vinho que custam US$ 800.

Também gostam de se divertir com o dinheiro que têm. No escritório, Parker dá US$ 5 mil para quem comer lábios de porco em conserva comprados pela internet ou se trancar em uma caixa de vidro durante 31 minutos ou comer seis sanduíches McRib do McDonald's e quatro cafés com leite do Starbucks em uma sentada só (um garoto vomitou uma parte, e ele o obrigou a beber o vômito). Certo ano, ele foi o juiz de uma competição de dois meses de perda de peso no escritório. O prêmio era US$ 3,7 mil. O vencedor enxugou quase 22 quilos em nove semanas. "Logo antes de entregar o dinheiro, tive uma idéia: 'Espera, vamos pegar uma caixa'", conta Parker, animado. "Disse que podia escolher ou o dinheiro ou a caixa. Ele escolheu a caixa que, na verdade, continha US$ 8 mil dentro. Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida."

Estamos em uma terça-feira à noite e a dupla descansa na casa de Parker, uma construção artesanal da década de 1920 com decoração suntuosa, construída em uma antiga plantação de abacates em Brentwood, um subúrbio de Los Angeles. Eles se encontram fora do escritório, mas não estão sempre juntos. "Matt e Trey passaram de colegas de faculdade sem perspectiva para caras com 20 e poucos anos com o mundo nas mãos", diz David Goodman, um amigo próximo. "Agora, alcançaram um equilíbrio maduro em que podem fazer coisas divertidas fora do escritório, mas sabem quando precisam parar."

A coisa aqui não parece assim tão hardcore. Toda a mobília veio com a casa - são cadeiras de madeira em estilo de Bali, espreguiçadeiras confortáveis cor de chocolate e vários Budas de olhos fechados. Parker explica: "Não sou louco por Budas, só para você saber". Faz alguns dias que eles voltaram do retiro de férias. Parker não consegue ficar parado: durante o mês de descanso, foi a Lake Tahoe, Laguna Beach, Las Vegas, Denver, Havaí e duas vezes ao Japão, viagem que fez com a mulher, Ema Sugiyama, 30 anos, uma japonesa que conheceu em um bar. Ela agora estuda na Universidade da Califórnia para virar professora de japonês e, no momento, está na aula. Uma foto dos dois em lua-de-mel na Disney World, no ano passado - casaram-se no Havaí, tendo Norman Lear, o criador de All in the Family, como juiz de paz -, repousa em cima da lareira. Parker aparece com orelhas de Mickey; Sugiyama usa as de Minnie.

A sala de Parker tem duas TVs de plasma rodeadas por poltronas confortáveis de couro, uma para o Xbox, outra para o PlayStation. Ele aponta para uma vitrine ao lado de uma das poltronas, que contém um capacete e uma armadura de ferro. "Comprei isso para impressionar meu sogro, porque ele acha que só Tóquio é bom e ficou superpreocupado por a filha se casar com um americano", conta. "Ele não tinha entendido que eu era rico. Entramos em uma loja de Tóquio, e essa armadura estava à venda por US$ 270 mil. Mandei debitar no American Express."

Brinquedos caros, videogames e espadas japonesas antigas estão pela casa toda, juntamente com um aparador cheio de presentes que sobraram de uma festa de Natal. Stone pega uma vela orgânica de soja e uma garrafa de tequila, depois ele vai guardá-la em sua bolsa masculina de lã cinzenta, possivelmente para repassá-la a sua namorada de longa data. Parker demora-se em um hall de entrada onde um laser roxo de Guerra nas Estrelas está montado em um armário. "Alguém deu um desses para você no Natal?", pergunta a Stone, que sacode a cabeça. Fico olhando enquanto a coisa corta o ar. "Não sei de onde isso veio", avisa.

Três amigos deles, inclusive Goodman, aparecem para um shabu-shabu, comida japonesa preparada na mesa. "Já fui testemunha de muitas coisas nojentas que Matt e Trey fizeram a outras pessoas com suas partes íntimas, da frente e de trás", Goodman conta mais tarde. "Há pouco tempo, em Cabo San Lucas, um dos caras desmaiou de bêbado no nosso quarto de hotel e Matt enfiou o pinto e o saco dele na cara do sujeito, enquanto eu tirava fotos." Parker é, de acordo com todos os relatos, o pior infrator. "Trey tinha o hábito de nos surpreender enquanto estávamos assistindo a um jogo de futebol", comenta Goodman. "Ele se posicionava atrás de nós, virava em silêncio, tirava as calças, abria as pernas e chamava: 'Ei, pessoal'."

Eles sentam-se ao redor da mesa da cozinha e ficam conversando sobre os avanços das câmeras digitais. Parker está sorrindo e me serve um copo de Shochu, um licor japonês. Nenhum deles usa drogas - a última vez que experimentaram ácido foi na cerimônia de entrega do Oscar, em 2000, quando foram indicados por "Melhor Canção Original" pelo filme de South Park e apareceram vestidos de Jennifer Lopez e Gwyneth Paltrow -, mas gostam de uma bebida de vez em quando. "Sou um alcoólatra inveterado", reconhece Parker, mandando ver. "Sempre bebo no jantar e depois continuo bebendo, toda a noite, sozinho. Minha mulher diz que me prefere bêbado porque fico mais interessante. E é só tomar um trago que você começa a achar que todas as merdas estão bem."

No dia seguinte, Stone e Parker estão no trabalho. O clima anda tenso. Apesar de só trabalharem cerca de cinco meses por ano - oito semanas durante a temporada do segundo semestre de South Park e oito semanas para os episódios do primeiro semestre - agem como se estivessem no período de provas finais e costumam engordar sete quilos de cada vez. Um serviço de bufê fornece a comida; por volta das 21h, chega um carrinho de café. Durante os próximos dois meses e meio, eles não vão sair muito do escritório a não ser para dormir. Acham que têm boas idéias para esta temporada. "No ano passado, recebemos tantos elogios por abordar assuntos delicados que começamos a pensar: 'Certo, então é isso que funciona'", analisa Parker. "Crescemos assistindo a Monty Python e adorávamos o fato de que, a cada semana, não fazíamos a mínima idéia do que aconteceria, bem diferente dos sitcoms americanos em que a gente sempre sabe que vai ver mais do mesmo."

O escritório continua funcionando quando o desenho não está em produção, mas ultimamente Stone e Parker não têm muitos projetos além do programa e um possível filme musical com Bobby Lopez, o criador de Avenue Q. Os amigos deles estão aqui: "Sou a garota em quem eles peidam", diz Jennifer Howell, que trabalha para a empresa de produção dos dois, a Important Films. "Matt e Trey gostam de me imobilizar e peidar em cima de mim. Ou de peidar em cima da minha comida quando saio da sala. Uma vez, estávamos voando de primeira classe para Toronto (Canadá) e Trey subiu em cima da poltrona dele para peidar na minha cara. No portão de embarque, eles gostam de brincar de 'namorado bravo', ficam gritando e fingem me dar tapas na cara." Ela ri, talvez leve tudo na esportiva um pouco mais do que deveria. "Não existe nada que possa responder para deixá-los envergonhados, a não ser falar que o pau deles é minúsculo ou que minhas amigas disseram que são péssimos na cama."

Enquanto os animadores fazem de tudo para colocar rascunhos de imagens na frente dele, Parker caminha pelas instalações, um galpão em Culver City que parece um centro de telemarketing de empresa de telefonia decorado em cor de vinho e azul-claro. Joga uma bolinha contra a parede em intervalos de aproximadamente um minuto. Todas as salas têm TVs de plasma, a de Parker também tem uma esteira, para fazer um pouco de exercício aqui e ali. Ele tem uma fotografia assinada de Saddam Hussein na parede, presente da 4ª Divisão de Infantaria do Exército. "Eu iria ao Iraque", divaga. "Com certeza me daria uma idéia para um episódio [e joga a bolinha na parede de novo]."

O escritório foi planejado de modo a possibilitar que episódios inteiros possam ser criados e produzidos ali mesmo, então transmitidos para Nova York via satélite até as 11 horas da manhã, para serem exibidos na mesma noite. Toda manhã, à exceção de quarta-feira - quando Parker fica em casa bebendo -, há uma reunião de redatores que dura umas duas horas ou quanto tempo for preciso para deixar Parker inspirado. Ele escreve seis páginas por dia - cerca de quatro minutos de material. Assim que termina, os dois entram no estúdio de som para gravar os diálogos e o departamento de storyboard começa a desenhar as cenas. Dentro de três horas, as imagens aparecem na sala de edição no (equipamento) Avid. O arquivo passa por toda a equipe antes de ser dividido entre os animadores. Cerca de 350 cenas são usadas em cada programa, e Parker pode fazer mudanças em qualquer uma delas antes da manhã de quarta-feira. Na terça, quando o escritório funciona 24 horas, ele escreve cerca de 60 novos diálogos. Hoje, está trabalhando em uma cena nova, em uma das salas de edição, um quartinho aconchegante, cheio de aeromodelos e revistas masculinas, brincando com o Avid. Vemos um Cartman desenhado à mão, em preto-e-branco, falando com a multidão. Em resumo:

"Esperei Butters dormir. Peguei minha câmera, abaixei a calça dele e tirei uma foto do seu pinto na minha boca! Desta vez peguei ele de jeito."

"Como é que colocar o pinto dele na sua boca é pegar ele de jeito?", pergunta Kyle.

"Porque, agora, o Butters é gay!", responde Cartman.

"Não, cara, assim é você que fica gay", diz Kyle. "Se você coloca o pinto de um cara na boca, vira gay."

"Kenny, isso não me faz virar gay, faz?"

"Muff, muff", murmura Kenny.

"Como posso reverter isso?", pergunta Cartman.

"A única maneira de cancelar é fazer o Butters colocar seu pinto na boca dele", explica Stan.

"Merda", dispara Cartman. "Ei, Butters, tenho uma surpresa para você."

"O que é?", ele pergunta.

"É foda", comenta Cartman, "é a melhor surpresa da sua vida."

Trey Parker ri o tempo todo, olhando para a tela, completamente extasiado.