Steven Tyler: a garganta profunda

Três semanas antes do primeiro show no Brasil desde 1994, Steven Tyler ligou para a RS: falou português, cantou, relembrou o passado e, é claro, mentiu a idade

Gastão Moreira Publicado em 22/09/2008, às 18h22

As dimensões da sua boca risonha levaram a comparações com Mick Jagger, mas seu comportamento autodestrutivo estava mais em sintonia com Keith Richards. Steven Tyler representa uma espécie de frontman em extinção. Poucos exalam carisma como ele. Poucos são influentes como ele. Poucos dão a volta por cima como ele deu. Figura central do Aerosmith, um patrimônio tombado do rock norte-americano, ele sugou o avião particular pelas narinas nos anos 70 e passou uma temporada dantesca no inferno. Mas conseguiu retomar o rumo do paraíso, anos depois, numa parceria com os rappers do Run DMC - "Walk This Way" -, que foi gravada em apenas seis horas. O sorriso reencontrou o bocão. De lá pra cá, só alegria. A banda reencontrou o caminho do sucesso. Steven reencontrou a filha Liv Tyler e a motivação necessária para seguir adiante. As nuvens negras se dissiparam pelo caminho. Steven Tyler tornou-se uma megacelebridade de pés no chão e muitos projetos na cabeça. Livros, cinema, séries de TV e shows, muitos shows. Não há espaço em branco na agenda de Mr. Tyler.

Foram dias de negociação para obter a entrevista. Múltiplas chamadas internacionais, um par de perguntas vetadas pela produção, várias mudanças de horário e esperas angustiantes ao lado do telefone. A produtora de Tyler me liga de Boston e anuncia pela quarta vez: "Steven chegou em casa e vai te ligar em dez minutos". Meia hora e nada. No 32o minuto, o telefone toca e uma voz rouca e familiar arrisca: "Is it Gastal?", seguido de um português escandinavo: "Como vi-o-cê?" Ele está num bom humor contagiante, canta e grita ao telefone com total naturalidade. Responde a todas as perguntas sem rodeios e faz questão de me chamar pelo nome. Steven Tyler parece celebrar a cada instante o fato de ter sobrevivido quase imune a quatro décadas intensas de rock'n'roll.

Imagino as proporções desta turnê mundial. Quantas pessoas estão envolvidas no processo?

Nós temos umas 50 pessoas de diferentes partes do mundo viajando conosco. Os ingleses são a maioria, mas sempre incluímos equipes locais. Acho que no total são umas 150 pessoas envolvidas em cada país visitado. Todos trabalham juntos para nos dar condições de fazer um grande show. O maior atrativo desta turnê é que vamos tocar em lugares inéditos como China, Dubai e África do Sul. Me falaram que estamos com a moral toda nesses países.

Você gosta de cair na estrada?

Quer saber? A estrada é minha amante, é minha namorada. Fico admirado quando eu avalio minha vida e vejo quanto tempo eu dediquei para a estrada. Por anos e anos a gente fazia três shows na seqüência, tirava um dia de folga e fazia mais dois shows. Às vezes, a turnê durava dois anos e tudo que a banda fazia era tocar. Aí, a gente voltava para o estúdio, gravava um álbum e caía na estrada de novo.

As pessoas acham que é uma profissão dos sonhos. Mas é uma vida dura, não?

É sem dúvida uma vida dura, mas a recompensa vem quando eu subo no palco e canto algo como "Angel" e vejo milhares de pessoas cantando junto, todo mundo feliz da vida. Lembro de uma vez quando o Aerosmith tinha recém-lançado "Love in the Elevator" e eu estava lavando meu carro em Boston e vi um bando de adolescentes passar na rua cantando nossa música bem alto. Foi demais! Logo depois, "Love in the Elevator" tornou-se um megahit em todo o mundo.

Com tantos álbuns e hits, é difícil decidir o que tocar?

Não é nada fácil. No México, nós fizemos uma promoção na rádio em que os fãs montaram o setlist. Agora, o Rock'n'Roll Hall of Fame elegeu os 200 álbuns definitivos da história e Toys in the Attic está em 54o lugar, o que é a realização de um sonho. Estamos pensando em incluir o Toys quase inteiro no nosso repertório daqui pra frente.

[Foi o terceiro álbum, Toys in the Attic, de 1975, que abriu o caminho para o sucesso do Aerosmith. Em 1994, Steven me disse em uma entrevista para a MTV que foi com Toys que eles aprenderam a usar um estúdio de gravação. Todas as músicas partiram do zero e foram compostas no estúdio. Nos dois primeiros discos, as músicas foram testadas ao vivo antes de serem gravadas.]

Estar nos Simpsons, no Rock'n'Roll Hall of Fame, no Grammy: você se importa com esse tipo de reconhecimento?

Não acredito quando vejo artistas falando "não estou nem aí". Eu e o Aerosmith adoramos essas homenagens. Dá a sensação do "vini, vidi, vinci": viemos, vimos, conquistamos, gozamos, e agora precisamos de um lenço de papel [risos].

Este ano, vocês tocaram no Hard Rock Cafe de Londres para poucas pessoas. Você sente falta daquela atmosfera dos clubes pequenos?

Sim, mas temos que pensar nos fãs. Tem tanta gente que gostaria de assistir aos nossos shows, que teríamos que tocar 100 noites seguidas para dar conta da audiência [risos].

Vocês tocam em vários lugares diferentes num curto espaço de tempo. Você já trocou o nome de alguma cidade?

Yeah! "Boaaaa-nooooite, Cleveland!" Mas nós estávamos em Washington [risos]. Isso aconteceu no passado, não rola hoje em dia. Hoje estou muito mais esperto, descarrego tudo no palco.

Nessa rotina de shows e entrevistas, você consegue ter dias de folga pra valer?

Não, nem no meu aniversário, que é na semana que vem. Tenho várias entrevistas agendadas para este dia.

Seria indelicado perguntar quantos anos?

Ooooh! 52! [Risos]

[Para tirar a dúvida quanto à veracidade da informação, Steven Victor Tallarico nasceu dia 26 de março de 1948. Completou, portanto, 59 anos.]

Você já pensou em gravar um álbum solo, como Joe Perry (guitarrista do Aerosmith) já fez?

Com certeza, um CD solo está nas minhas prioridades. Só não sei quando terei tempo, porque ando muito ocupado. Mas vou fazer.

Ser gentil com os fãs é uma característica forte sua. Como manter os pés no chão sendo uma celebridade tão conhecida?

Porque eu tenho três filhas, três garotas que ajudam a me manter na linha. E eu venho de uma família italiana. Minha avó me dava umas palmadas toda vez que eu não me comportava direito [risos]. Agradeço minha nona por isso.

O Meatloaf disse em uma entrevista que, se pudesse ser outro músico por um dia, ele seria Steven Tyler...

Yeahhhh!

Quem você gostaria de ser por um dia? Meatloaf está valendo?

Acho que por um dia eu gostaria de ser o Sting.

Sting? Mas ele me parece tão chato...

Ele é brilhante! Sting sabe se manter jovem, gosto do seu jeito com as mulheres, gosto do jeito que ele compõe, dos álbuns solo. Adorei ver o Sting voltar a namorar com o The Police e cantar "Rooooxanne" [canta] de novo. No [show que o Police fez no] Grammy, era possível ver toda a euforia e a paixão contidas no sorriso dele, parecia um garoto gozando pela primeira vez [risos]. Às vezes, é bom deixar o ego de lado, rever velhos amigos e lembrar de como temos sorte de estar neste ramo.

Você tem bons amigos entre os músicos?

Meu primeiro grande amigo no meio musical foi David Crosby, do The Byrds. Sempre ligo para o Lenny Kravitz, para o Elton John, para o Prince, que faz um tempo que eu não vejo... Eric Clapton também é meu camarada. Falo direto com a Pink e com a Barbara Streisand.

Filmes sobre personalidades na música estão em alta. No caso de um filme sobre o Aerosmith, quem você gostaria que fizesse o seu papel?

Uau! Não faço idéia... Talvez o Johnny Depp, que parecia comigo quando eu tinha 16 anos. Vou perguntar pra minha namorada [pergunta ao fundo]. Ela disse que ninguém conseguiria me interpretar [risos].

Falando em interpretação, como está sendo fazer o vizinho de Charlie Sheen na série Two and a Half Men (exibida no Brasil pelo canal pago Warner Channel)?

Eu e o Charlie temos muito em comum. Somos bons amigos e estamos sempre de bom humor. Um dos diretores da série me ligou e disse que o Charlie me queria de qualquer jeito em um episódio. Eu disse: "É só dizer quando!" Foi perfeito. Sou o vizinho de porta do Charlie e gravo tudo perto de casa.

Você se sente à vontade atuando?

Eu gosto, mas depende muito de quem é o diretor, porque eu não sou bom em decorar falas. Quando fiz Be Cool com John Travolta e Uma Thurman, recebi páginas e páginas com minhas falas e lutei para decorar tudo. Quando cheguei no set de filmagem, o diretor me deu algumas falas extras para decorar e eu entrei em pânico. Me falaram para vivenciar a cena, mas não é algo tão fácil assim. Quando eu escrevo uma letra, o script é meu. Pensando bem, acho que prefiro cantar minhas músicas. Coloco mais de mim numa melodia do que a maioria dos atores coloca em suas atuações.

Ozzy Osbourne garante não lembrar de nada dos anos 70 por causa dos abusos. Você tem uma boa memória?

Eu lembro de muita coisa!

Suficiente para escrever uma autobiografia?

Eu estava escrevendo um livro antes de te ligar. Muitas pessoas me ajudaram a chegar aonde cheguei, mas ninguém sabe o que eu sentia quando estava me trocando no camarim ou o que senti quando vi John Lennon descer de uma limusine. Ninguém conhece as pessoas que me ensinaram as lições, que roubaram a nossa banda ou que me ajudaram a me manter sóbrio. Ou mesmo como me sentia mal de estar ausente como pai. Acho que tudo isso rende um livro interessante. Não tenho previsão para acabar, mas vai ficar muito legal.

Como é a vida pós-drogas?

É muito melhor. Você acorda de manhã e seus ouvidos captam os pássaros cantando. Agora, sinto o cheiro das frutas. Só quando tiramos essas coisas ruins do caminho é que sentimos o poder da vida. Só quando estamos conectados espiritualmente é que percebemos de onde vem toda a inspiração. Hoje, a vida é minha droga.

Quando você pensa no Brasil, qual é a primeira imagem que vem à cabeça?

As garotas de Ipanema [risos]. Desta vez, eu quero subir a montanha para ver Jesus. É fácil chegar lá?

Gastão Moreira é apresentador do programa Gasômetro (Rádio Atlântida) e dirigiu o documentário Botinada, sobre a história do punk em São Paulo.