As musas de Grindhouse

As atrizes Rose McGowan e Rosario Dawson incendeiam Grindhouse, a sessão dupla de cinema que traz Death Proof, o novo filme de Quentin Tarantino, e Planet Terror, o novo filme de Robert Rodriguez

Gavin Edwards Publicado em 22/09/2008, às 18h30

Rose McGowan (à esq.) e Rosario Dawson, as atrizes-fetiche de Robert Rodriguez e Quentin Tarantino em Grindhouse
Mathew Rolston

Que menter insanas poderiam inventar Grindhouse, um tributo lúgubre e afiadíssimo ao auge dos filmes duplos e apelativos dos anos 70, geralmente exibidos em cinemas de baixo nível, com piso nojento e uma clientela execrável? ("Grindhouse" significa exatamente isso: uma sala de exibição malcuidada que passa sessões contínuas de pornografia e violência).

Arrisque dizer Quentin Tarantino, diretor de Death Proof, que traz Rosario Dawson na pele de uma maquiadora que manda ver com duas outras garotas em um Dodge Challenger que dispara por estradinhas do interior norte-americano, a 200 quilômetros por hora, com Stuntman Mike (Kurt Russell), um serial killer, na cola. Arrisque também dizer Robert Rodriguez, diretor de Planet Terror, com Rose McGowan interpretando uma go-go girl que tem uma metralhadora no lugar da perna.

Tarantino cresceu assistindo a filmes B, como Corrida Contra o Destino (1971) e La Mala Ordina - The Italian Connection (1972), em cinemas de shopping centers na região da grande Los Angeles. E o jovem Rodriguez, sentado na capota da perua da família em um drive-in perto de San Antonio (Texas), roubava olhadelas de The Boob Tube (1975) e Alien - O Oitavo Passageiro (1979) em vez de assistir aos filmes-família que a mãe dele escolhia. Então, essa é a desculpa dos dois. Mas que tipo de atriz pode gostar de encarnar fantasias masculinas assim tão violentas? Rodriguez entrega: "Quando começamos a conversar sobre o projeto, Quentin disse: 'Precisa ter sempre a possibilidade de um beijo lésbico no próximo take'. Levei isso ao pé da letra e, logo na primeira cena de Planet Terror, mostro duas línguas femininas se aproximando. Você descobre que é Rose McGowan lambendo um espelho, mas está ali a idéia de que o beijo pode aparecer a qualquer momento". Tarantino vai além: "A maneira como Rose diz 'cocksucker' (chupador) é realmente maravilhosa", entusiasma-se. "É o jeito que ela usa para dar ênfase às coisas. Quando erra um diálogo, solta: 'Ah, chupador da porra!'. E o Robert me contou: 'Outro dia, ela soltou uma frase que é a sua cara. Estava falando que não gosta da palavra vagabunda e comentou: 'Pode me chamar de puta, só não me chame de vagabunda!'."

Cortamos para a casa de Rosario Dawson, um chalezinho espanhol adorável, perto da praia, em Los Angeles (Califórnia). Dawson recebe amigos, entre eles, Rose, que está sentada em um sofá branco e usa um suéter bem apertado. Temos cerveja Shiner Bock (vinda de Austin, Texas, onde a maior parte de Grindhouse foi rodada) e bolachas de chocolate com menta, daquelas vendidas por bandeirantes. A discussão que se segue é sobre a experiência que as duas atrizes tiveram nas mãos de Tarantino e Rodriguez. O assunto "A" foi a exibição de Grindhouse na noite anterior, com a apresentação de trailers, da mesma série, de títulos que ainda não foram feitos. Eli Roth (O Albergue, 2005) surtiu enorme impacto com o seu Thanksgiving, uma visão aterrorizante do Dia de Ação de Graças.

Rose McGowan: "Foi maravilhoso. A coisa toda de rir e vomitar a seco ao mesmo tempo".

Rosario Dawson [Dando risadinhas enquanto bebe cerveja]: "Thanksgiving foi genial! Vai ser o primeiro a que vou assistir".

McGowan: "Achei a maior grosseria de vocês, garotas de Death Proof, terem deixado aquela outra [Mary Elizabeth Winstead] ser estuprada pelo caipira".

Dawson: "Falei com o Quentin sobre isso várias vezes. Achei muito ruim deixá-la ali daquele jeito. Amo aquela garota, somos amigas. Mas o Quentin disse não. Eu pedi: 'Posso jogar as chaves do carro para ela?'. E ele respondeu: 'Não é assim que vai ser'. Pensei: 'Droga'".

McGowan: "Fico surpresa de você ter achado que podia mudar algo. Eu não consegui mexer em nada no roteiro".

Rose Mcgowan provavelmente atuou em mais filmes de terror do que assistiu. Quando apareceu em Pânico (1996), teve que fazer referências a longas que nunca tinha visto. "Hoje em dia, só ficam pensando em maneiras de torturar mulheres", explica. "Eu realmente não entendo. O que é isso? Um manual para jovens serial killers? Será que a gente não pode simplesmente assistir a Confidências à Meia-Noite [1959]?"

Estamos comendo hambúrgueres na House of Pies, uma lanchonete vagabunda autêntica de Los Feliz (Los Angeles). McGowan é tão pequena que sua fome intensa parece incoerente. À medida que o açúcar, em seu sangue, vai encontrando um equilíbrio, Rose retoma seu estado mental de praxe. Ela é engraçada, ácida e despreza, de leve, a idiotice do mundo em que é obrigada a viver. "Em uma cidade que supostamente deveria ser visual e criativa, é chocante ver quanta coisa não se consegue imaginar", comenta. "Uma vez, não fui contratada para um filme porque não gostaram do jeito como repartia o cabelo. Às vezes, dá vontade de entrar pelo fio do telefone, pegar o aparelho e bater na cabeça deles."

Diferentemente de Dawson, McGowan aparece nas duas metades de Grindhouse: Em Death Proof, faz uma loira desavisada que aceita uma carona em um carro com uma caveira pintada no capô. E Rodriguez customizou o papel de Cherry Darling (a go-go girl com perna de metralhadora) em Planet Terror para ela, até no nome. A atriz explica melhor: "Sempre disse que, se tivesse uma filha, ia querer chamá-la de Cherry Darling [Cereja Querida, mas cherry também pode significar hímen], mas não poderia porque todo mundo a zoaria na escola".

McGowan e Rodriguez se conheceram há dois anos em uma festa em Cannes, na França. Estavam os dois sozinhos, esperando amigos. "Ei, você também é um fracassado", Rose se lembra de ter dito. Rodriguez achou que ela tinha desistido do show business e McGowan precisou explicar que passou os últimos anos como uma das atrizes principais de Charmed, a série de TV de Aaron Spelling sobre três irmãs bruxas. "Ela é engraçada, criativa, talentosa e sexy", define o diretor. "Achei que, se as pessoas pudessem ver a personalidade de Rose na tela, seria ótimo. Junte a isso uma perna de metralhadora que tudo fica ainda melhor." Então, quais são os prós e os contras de se ter uma perna de metralhadora? McGowan reflete sobre a questão: "Prós: dá para se livrar das pessoas de quem você não gosta bem rapidinho. Contras: só dá para usar um sapato, mas você vai ter que pagar por dois. De maneira geral, acho que é positivo". McGowan sabe que será tema de algumas perversões muito específicas. "Existem os caras que têm fetiche por armas e os que têm fetiche por amputadas, e com esses dois grupos vou fazer muito sucesso." Ela levanta os braços magros por cima da cabeça e reflete sobre como isso pode vir a afetar sua vida: "Sou preguiçosa demais para ter um fetiche", decide.

Rodriguez se separou no ano passado de Elizabeth Avellán (mas ela continuou sendo produtora de Grindhouse), depois de um casamento de 16 anos e cinco filhos. Jornais sensacionalistas anunciaram que ele e McGowan estavam juntos, mas os dois parecem sinceros ao negar a informação. O cineasta explica: "Somos apenas bons amigos e nos grudamos como cola quando começamos a filmar". McGowan afirma que, no momento, está solteira, pela primeira vez desde os 14 anos (hoje ela tem 33). "A gente, às vezes, se sente incrivelmente sozinha. Eu me envergonho de ter ficado dependente de companhia. Adoro meus amigos até a morte, mas nunca é a mesma coisa. As pessoas dizem que faz bem ficar solteira. Por quê?" Ela é famosa por ter namorado Marilyn Manson e, mais recentemente, o chefão da revista Men's Health, David Zinczenko. Diz que seus relacionamentos costumam durar três anos e meio. "Acho que estendo a coisa um pouco demais", completa. "Sinceramente, devia parar depois de dois anos e meio." Ela ri, sem malícia. "Já viram que gosto de pessoas loucas por trabalho - elas me deixam em paz. Se tem alguma coisa que procuro em um homem, diria que é empatia... E milhares de quilômetros entre nós."

Quando questionada sobre o fato de as pessoas não a entenderem, McGowan dá um sorriso triste: "Isso me deixa chateada, mas não é exatamente minha função andar por aí provando o que está certo ou errado". As pessoas partem do princípio de que ela é uma roqueira casca-grossa. Na verdade, McGowan gosta de ficar em casa com seus dois Boston Terriers (Bug e Fester) e tem um pequeno círculo de amigos íntimos. "O que as pessoas acham que fico fazendo me dá vontade de rir", salienta, sem dar nenhuma risada. "Na última sexta-feira à noite, por exemplo, estava de quatro no chão com uma escova e água sanitária, tirando o mofo dos meus azulejos. Estranhamente, isso é algo de que tiro muito prazer."

Talvez a maior causa da imagem de rebelde que McGowan tem junto ao público aconteceu devido a sua participação no Video Music Awards de 1998, da MTV, quando apareceu de salto alto e fio-dental na companhia de Manson. Hoje, ela explica que achou que seria uma piada de um dia só e não se deu conta do poder de fixação da imagem na mente dos espectadores. "Costumo fazer coisas que considero engraçadas e irônicas. Só depois percebo que a piada se volta contra mim." Uma conversa com McGowan pode passar rapidamente de sua infância (em uma comunidade ultracatólica na Itália) a como as pessoas tentam empurrar a religião para cima de você mais do que as drogas. Mas, apesar de toda sua sagacidade, ela mostra um quê de melancolia. Talvez tenha vergonha de ser uma celebridade ou esteja cansada de ter que se explicar.

Em Planet Terror, Rose tem uma cena bem intensa no hospital, quando fica sabendo que zumbis comeram sua perna. No dia da filmagem, ela estava se desmanchando em lágrimas e soluços quando ergueu os olhos e viu Rodriguez e Tarantino dando uma espiada do canto do set, com enormes sorrisos incongruentes estampados no rosto. Estavam felizes porque o take ia bem, mas McGowan ficou tão chocada que eles acabaram com o clima. Ela lhes disse: "Olha aqui, seus fodidos duplos, vocês têm que sair". Tarantino então incorporou "fodidos duplos" a seu roteiro. "Se eu puder fazer alguma contribuição para o cinema norte-americano", McGowan diz, em tom seco, "então que seja isso."

Rosario Dawson conclui: "Gosto de fazer o papel da menina má. Tenho uma predisposição natural para isso, sou uma pessoa agressiva. Tenho cinco tios por parte de mãe, então sou capaz de lidar com qualquer coisa que cair em cima de mim. Eu me viro", dispara. "Também gosto de ser espontânea", ela complementa, "de viajar, de ser atacada por macacos na Costa Rica. Já corri com os touros em Pamplona [Espanha], já saltei de um avião." Se ela faz alguma pausa para respirar, enquanto detalha suas aventuras, eu não saberia dizer. Esta é a primeira coisa que se precisa saber a respeito de Dawson: uma típica tagarela nova-iorquina capaz de arrancar a perna esquerda de um zumbi só na conversa. Eis a segunda coisa que é preciso saber a respeito de Dawson: ela é uma nerd de carteirinha e anda por aí com gibis da Liga da Justiça e começa a narrar episódios antigos de Star Trek: Voyager (1995) sem mais nem menos.

A os 27 anos, dawson já fez 30 filmes. Começou com Kids (1995), quando tinha apenas 15 anos. Foi descoberta sentada nos degraus na frente de sua casa, no East Village de Nova York. O prédio tinha sido ocupado ilegalmente: a mãe dela levou a família para morar em um apartamento que não tinha água nem luz, demonstrando a mesma energia inabalável que a filha posteriormente usaria em Hollywood. Entre os créditos recentes dessa nova-iorquina estão Rent - Os Boêmios (2005), Sin City - Cidade do Pecado (2005) e O Balconista 2 (2006), mas é óbvio que ela passou a vida toda se preparando para estrelar um Tarantino. "Ele é uma pessoa de quem sempre fui uma fã enlouquecida. Perto de Quentin, fico meio idiota", avisa, aludindo ao fato de ter memorizado o monólogo do diretor sobre Madonna em Cães de Aluguel (1992). Tarantino e Dawson, inclusive, tiveram uma longa conversa sobre o número de vezes que o diretor disse "dick" (pau) durante a cena: ele achava que eram sete, ela afirmava serem nove. "Discutimos durante muito tempo mesmo", Dawson afirma, toda alegre. "Ele disse 'Dick-dick-dick-dick-dick-dick-dick'. Respondi: 'É muito fofo você ficar contando com os dedos, mas esse não é o ritmo certo. Sei disso porque escutei muito mais vezes do que você, sou obcecada'."

"Rosario pode estar tecnicamente certa", Tarantino reconhece. Em Death Proof, ela faz o papel de Abernathy, uma maquiadora de cinema andando no banco de trás de um carro com suas amigas bacanas, incluindo Zoë Bell - a nativa neozelandesa que foi dublê de Uma Thurman em Kill Bill (2003). De acordo com Tarantino, Abernathy funciona como uma representante do público, fornecendo aos espectadores alguém com quem se identificar durante uma perseguição automobilística angustiante que destruiu uma dúzia de Dodges antigos. "Na medida que o filme avançava", explica Dawson, "fui percebendo que estava mais ou menos interpretando Quentin."

Ela caminha de um lado para o outro da casa, em um arroubo de energia. Só faz alguns meses que se mudou, depois de terminar com o último namorado (Jason Lewis, que atuou com McGowan em Charmed). Hoje à noite, está oferecendo um jantar e os convidados não param de chegar: uma massagista, um chef, o tio de Dawson (o desenhista de gibis Gus Vasquez). Ela é exuberante com os amigos, dá socos ou os encoxa, dependendo do momento. Dawson é cheia de objetivos a alcançar: quer escrever um livro infantil, quer aprender a pilotar helicóptero, quer produzir mais filmes (seu primeiro longa, Descent, foi aceito no Festival de Cinema de Tribeca, Nova York, neste ano). Ela pode até se casar - mas não por enquanto. "Só tive três namorados sérios", conta. "Antes, achava que tinha fobia de assumir compromisso, mas sou apenas seletiva." Mas gosta de beijar. "Dou uns amassos. Costumo dizer: 'Você é fofo, vamos ficar'. E daí, se o cara não é bom para beijar, a coisa não avança."

Rosário Dawson sabe que intimida, o que é uma ótima qualidade para se ter em Grindhouse. "Essa é a minha faceta má", avalia. "Acho fascinante as pessoas verem isso em mim. Só porque não tenho medo de você, não quer dizer que seja amedrontadora." Ela informa que se deu bem com as outras atrizes do set. "Estou acostumada a trabalhar quase só com homens. Então, foi maravilhoso passar bastante tempo no set com as meninas. Nós fumávamos e bebíamos muito." Ela dá um sorriso e continua: "Estou pensando em todas as garrafas que consumimos."

Grindhouse poderia parecer o último lugar em que Dawson deveria procurar amizade com mulheres, muito menos fortalecimento feminino: as bases da produção de filmes do gênero eram a idéia de homens se dando o trabalho de entrar em salas absolutamente repulsivas - se isso significasse que veriam uma bela cena criativa de canibalismo ou simplesmente um belo par de peitos em close-up. Neste contexto, os avanços feministas são ínfimos. Como Dawson diz, alegremente, a McGowan:

"A diferença é que, em vez de um homem ter uma perna de metralhadora, agora é uma garota que tem!".

"É verdade", conclui Rose McGowan.

Quando conheceu Rodriguez em Cannes, Rose começou a reclamar que papéis masculinos nunca eram reescritos para mulheres. "Sei lá em que pedestal eu subi, mas saí discursando: 'Não existe motivo para que o herói da ação não seja uma mulher'." Rodriguez escutou e transformou o protagonista homem em Cherry Darling. McGowan completa: "Adoro o fato de a minha personagem não ser durona. Mas ela acaba matando gente de maneiras muito inovadoras". Então, ri e sacode a cabeça, bem ciente de como a testosterona é capaz de tomar conta de um cérebro masculino. Existe um abismo entre suas paixões pessoais e os estragos que os fãs querem vê-la cometer em Grindhouse, mas ela já aprendeu a conviver com isso. "Está vendo. É o melhor de dois mundos."