Corpo Estranho

Sem expectativas, Camisa de Vênus volta aos palcos brasileiros

Alexandre Matias Publicado em 01/08/2007, às 17h21 - Atualizado em 31/08/2007, às 18h29

Marcelo Nova frente ao Camisa de Vênus: como nos velhos tempos
Rui Mendes/Divulgação

Agora virou moda falar mal do Lobão. Que 'o cara se vendeu ao sistema!', que babaquice. Ele é um sujeito que, certo ou errado, sempre se posicionou de uma forma crítica, sempre mostrou sua visão." Marcelo Nova parece não ter consciência de que, ao defender Lobão e seu Acústico MTV, também está justificando o retorno do seu Camisa de Vênus. Ícone dos que falam o que querem e ouvem o que não querem, o vocalista defende seu compadre polemista como se inconscientemente também precisasse dar satisfação.

O Camisa de Vênus é precoce em tudo o que diz respeito a rock dos anos 80: foi a primeira banda nova de sua geração a gravar um LP (em 83), a primeira a botar um ponto final em sua própria história (em 87) e a primeira a voltar durante os anos 90 (quando ressuscitou entre os anos de 95 e 96). Mas, ao evitar o revival oitentista que assolou o Brasil na virada do milênio, o Camisa chega atrasado - de propósito - para a festa nostálgica, com planos de passar o resto de 2007 fazendo shows pelo Brasil.

Mas Nova, com seus óculos de aro grosso, está mais interessado em contar 'causos', proferir idiossincrasias e esbravejar contra todos. O alvo da vez é a cultura da celebridade e ele pega Lobão como exceção deste mercado. "Tentam extratificar o sujeito para que ele corresponda a essa imagem a vida inteira. Essa idéia de ser outsider por convicção ideológica não existe! Nós temos esse culto à pobreza no Brasil, que é uma coisa tenebrosa. Agora, se você ganha dinheiro, se vendeu ao sistema."

O Camisa de Vênus ensaia sua volta no estúdio Deboni (São Paulo), e a pausa para a entrevista, quase à meia-noite, encerra as atividades do dia. O novo grupo conta com o guitarrista Karl Hummel e o baixista Robério Santana (ambos da formação original) e dois novos integrantes - o veterano Luiz Carlini na guitarra e o garoto Denis Mendes na bateria. Nem punk engajado nem rock ensolarado, o Camisa, como outras bandas fora do eixo Rio, São Paulo e Brasília, fugia do padrão vigente. "Sempre fomos um corpo estranho", diz Nova.

"O Camisa sempre teve uma coisa meio anárquica, que tinha um texto que não era necessariamente político, social ou humorístico, mas que tinha um pouco desses elementos", continua. "A banda era um mata-borrão sonoro, podia ter um pouco de Sex Pistols ou Lou Reed, mas também tinha um tanto de Raul Seixas, Genival Lacerda e até Adelino Moreira."

Marcelo continua disparando: "Mas a inabilidade da crítica em nos situar sempre me divertiu. E, como eu ironizava isso, os ataques se viraram contra mim, o que acho natural. Até porque conheço mais rock'n'roll que a maioria dos críticos, sou mais inteligente e mais culto e quem comeu aquelas meninas que viviam em volta dos críticos quando eles tentaram ter bandas, antes de eles fracassarem e virarem jornalistas, fui eu!".

O retorno do Camisa aconteceu em um evento no final de abril, a Festa da Cerveja de Divinópolis, onde dividiu espaço no cartaz com artistas de sua geração que seguem na carreira, como Lulu Santos, Engenheiros do Hawaii, Capital Inicial e Roupa Nova, e nomes estabelecidos na última década, como Marcelo D2, Pitty e Inimigos da HP. Depois, tem shows marcados em São Paulo. O show de Divinópolis se tornará um DVD, ainda sem gravadora definida, que funcionará como cartão de visitas do novo Camisa, que deve continuar a turnê por todo o ano. "Mas sem grandes expectativas!", salienta Nova. "Primeiro, porque estamos velhos, não adianta ter expectativa pra banda de velho. Mas a idéia é fazer uma grande tour em 2007."

Marcelo lembra com nostalgia os dias de periculosidade de sua banda: "Nosso primeiro disco foi lançado pela Som Livre, e três meses depois fomos expulsos. Em uma reunião, nos disseram que 'a esposa de Roberto Marinho não pode ouvir um nome desses na empresa', uma argumentação muito consistente", diz, rindo. "Na época, as bandas tinham nomes como A Cor do Som, Clave de Sol e eu sugeri mudar o nosso nome para 'Capa de Pica'", brinca.

Nova encerra, voltando ao tema da indústria da fama que domina o cenário pop atualmente: "Não dou a mínima para o que dizem de mim. Cerquei meu território com arame farpado e valorizo o que conquistei. Esse é o jogo da celebridade. Você não é ninguém e quando se torna alguém tem que fazer tudo que pode pra se manter. Porque as pessoas que hoje te jogam pra cima são as mesmas que querem te devolver pra baixo. É nessa aparente contradição que se fundamenta a venda das revistas de maior circulação do país hoje".