Entrevista com George Lucas publicada em 1977

Paul Scanlon Publicado em 22/09/2008, às 18h28

Luke Skywalker (Mark Hamill) (à esq.), a princesa Leia Organa (Carrie Fisher), o wookie Chewbacca e Han Solo (Harrison Ford), em foto publicada na capa da RS EUA em agosto de 1977
LucasFilm Ltd. & TM. Usado sob licença.
O cineasta concedeu a entrevista que você lê abaixo aos 33 anos. A primeira parte deste especial (veja no pé da matéria) fala sobre o desenvolvimento dos efeitos especiais e dos storyboards de Guerra nas Estrelas, entre outros detalhes dos bastidores do filme.

Como você está se sentindo? Achava mesmo que Guerra nas Estrelas decolaria desta maneira?

De jeito nenhum. Achava que American Graffiti fosse um filme de semi-sucesso que arrecadaria uns US$ 10 milhões e então explodi de alegria quando ele se transformou em um grande sucesso de bilheteria. Daí me disseram: "Bom, como é que você vai superar isso?" Respondi: "É, foi uma aposta. Tive mesmo muita sorte". Nunca achei que aconteceria de novo. Depois de Graffiti, aliás, fiquei completamente falido. Devia tanto dinheiro que acabei ganhando ainda menos do que tinha ganho com THX. Entre esses dois filmes, gastei quatro a cinco anos de sustento. Depois de pagar os impostos e tudo o mais, estava vivendo com uns US$ 9 mil por ano. Foi realmente muita sorte a minha mulher trabalhar como assistente de direção. Foi a única coisa que fez a gente se agüentar. Coloquei um pouco de dinheiro do meu bolso em Graffiti, estávamos tentando financiá-lo e operá-lo ao mesmo tempo. Pedi dinheiro emprestado a Francis Ford Coppola, aos meus advogados, aos meus pais e a todo mundo que conhecia. Realmente tinha que fazer o filme decolar. E tinha trabalhado em Apocalypse Now durante quatro anos. Devia ter filmado essa história logo depois de THX. Francis finalmente recomprou a propriedade do título. Fizemos todo o possível para fazer o projeto decolar, mas ninguém queria. E era completamente diferente da versão de Francis. O meu era, literalmente, mais sobre o homem contra a máquina do que qualquer outra coisa. Tecnologia contra a humanidade e como a humanidade venceu. Era para ter sido um filme bem positivo. Então, o que aconteceu foi que, finalmente, fiz um acordo para desenvolver Guerra nas Estrelas.

Quantos estúdios recusaram?

Dois.

E então a Fox aceitou?

A Fox aceitou, e foi por pouco, porque não havia nenhum outro lugar onde quisesse apresentar o projeto. Não sei o que teria feito, talvez arrumasse um emprego. Mas a última coisa, a mais desesperada, é "arrumar um emprego". Realmente não queria abrir mão da minha integridade. Então, ia tentar escrever um projeto muito interessante. Logo depois de Graffiti, comecei a receber cartas de garotos dizendo como o filme tinha mudado a vida deles. Alguma coisa dentro de mim disse para fazer um filme infantil. E todo mundo comentou: "Um filme infantil? Enlouqueceu?". Graffiti foi um desafio. Tudo que tinha feito até aquele ponto eram trabalhos loucos, de vanguarda, abstratos. Francis realmente me desafiou a dirigir aquilo. "Faça algo caloroso", ele disse, "todo mundo acha que você é um peixe frio, só faz ficção científica". Então falei: "Tudo bem, vou fazer alguma coisa calorosa". Fiz American Graffiti, mas daí fiquei com vontade de voltar e desenvolver essa outra idéia, achei que tinha mais chance de fazer Guerra nas Estrelas acontecer. Então peguei esse projeto, infantil. Pensei: "Todos sabemos que transformamos este mundo em uma confusão terrível. Todos sabemos como erramos no Vietnã. Também sabemos como todos os filmes feitos nos últimos dez anos ressaltam que somos terríveis, que destruímos o mundo, que somos uns imbecis e que tudo é uma podridão só". Vi que precisávamos mesmo de algo mais positivo. Porque Graffiti apontou, como eu disse em relação às cartas, que os garotos tinham se esquecido de como era ser adolescente, o que significa ser idiota e correr atrás de garotas, essas coisas. Sabe como é, pelo menos eu fazia isso quando era garoto. Então, ao ver o efeito que Graffiti teve sobre o público, percebi que os garotos de hoje redescobriram o que era ser adolescente. Também voltaram a sair pela rua principal de sua cidade para paquerar. Ninguém saía mais para paquerar e daí, de repente, começou tudo de novo. Percebi que algo a mais tinha acontecido, e comecei a expandir a coisa para pessoas mais novas [de 10 a 12 anos] que perderam algo ainda mais importante do que o adolescente - elas não tinham a vida de fantasia da minha geração - westerns, filmes de piratas, aquela vida boba em que costumávamos acreditar.

Então, você resolveu fazer Guerra nas Estrelas?

Eu era muito fã de Flash Gordon e esse tipo de coisa, um defensor ferrenho da exploração do espaço sideral, e pensei: "Isto aqui é alguma coisa, é natural". Vai fornecer às crianças uma vida de fantasia e talvez transforme alguém em um pequeno [Albert] Einstein. Realmente precisamos colonizar a próxima galáxia, escapar dos fatos crus de 2001 [o filme] e abordar o lado romântico da coisa. Ninguém vai colonizar Marte por causa da tecnologia, vão para lá porque pensam que podem ser capazes... Bom, é o aspecto romântico que precisa ser examinado durante um segundo. Todo mundo já tinha olhado para o fim nu e cru da coisa.

Você deixa isso bem claro no início de Guerra nas Estrelas com as palavras: "Há muito tempo, em uma galáxia muito distante..."

Bom, tinha medo de que os aficionados por ficção científica dissessem coisas como: "Não tem som no espaço". Simplesmente quis esquecer a ciência, ela se basta por si só. Stanley Kubrick fez o filme máximo da ficção científica, e vai ser muito difícil para qualquer pessoa fazer um melhor. Queria uma fantasia espacial mais ao gênero de Edgar Rice Burroughs [escritor norte-americano]; toda aquela outra ponta de fantasia que existia antes de a ciência se sobrepujar, nos anos 50. Uma vez que a bomba atômica chegou, todo mundo se interessou por monstros e pela ciência e com o que aconteceria com isso e com aquilo. Acho que a ficção especulativa é muito válida, mas se esqueceram dos contos de fada e dos dragões e de Tolkien...

Então, esse foi um dos principais motivos de você ter feito Guerra nas Estrelas...

Essa foi a razão por que fiz Guerra nas Estrelas. Tinha feito uma pesquisa sociológica sobre o que faz um filme ter sucesso. Isso faz parte da inclinação sociológica que existe dentro de mim; não posso evitar.

Ainda assim, você se deparou com muita resistência em relação ao projeto?

Sim. Comecei achando que esse projeto era viável, pensei que podia render uns US$ 16 milhões. O negócio é que, tudo bem, se eu gastasse US$ 4,5 milhões e depois mais uns US$ 4,5 milhões com publicidade e cartazes e tudo mais, havia um pouquinho de lucro ali, se conseguisse arrecadar US$ 16 milhões. Achei que era uma boa empreitada, que poderia apresentar aos estúdios... Quando procurei um estúdio, o United Artists, disse o que ia fazer. É Flash Gordon, é aventura, é emocionante, meio como James Bond e tudo o mais, e me responderam: "Não, não vemos nada disso". Então, procurei a Universal e obtive a mesma resposta. Acho que recebi US$ 20 mil para escrever e dirigir Graffiti e eles queriam que fizesse Guerra nas Estrelas por US$ 25 mil. Estava pedindo a metade do que os meus amigos pediam. E o estúdio achava que eu estava pedindo o dobro do que receberia. E daí, finalmente, convenci a Fox a fazer, em parte porque eles entenderam - tinham feito os filmes da série Planeta dos Macacos -, em parte simplesmente porque Laddie, Alan Ladd Jr., entendeu. Ele era um executivo de projetos naquele tempo, e acho que assistiu a Graffiti antes de tomar sua decisão e pensou: "Este é um ótimo filme e que se dane". Eu estava pedindo US$ 10 mil só para dar início ao projeto. Eles disseram: "Achamos que tem potencial", então aceitaram, mas ninguém imaginou que fosse ser um grande sucesso. Continuei fazendo mais pesquisa e escrevendo roteiros. Fiz quatro roteiros tentando encontrar a coisa certa, porque o problema de algo assim é o fato de você estar criando um gênero novo.

Como se explica um wookie a um conselho executivo?

Não é possível. E como se explica um wookie ao público? E como se alcança o tom certo, para que não seja infantil, para que não faça as pessoas de bobas, mas continue sendo, mesmo assim, um filme divertido que preserve sua visão particular e forme uma visão abrangente e honesta a respeito de como você quer que o mundo seja? Também trabalhei com temas que abordei em THX e em Graffiti, de aceitar a responsabilidade pelas suas ações e esse tipo de coisa. Então, demorei muito para concretizar a idéia toda. Mais ou menos quando terminamos a pré-produção, fizemos um orçamento que ficou em US$ 16 milhões. Então, dispensei muito equipamento novo de design e disse: "Certo, vamos buscar atalhos e filmar bem rápido, que é a minha escola". Graffiti e THX não foram nada, custaram menos de 1 milhão de dólares. Então, começamos a aplicar algumas das nossas técnicas de cortar orçamento e chegamos a US$ 8,5 milhões, que era realmente o valor mínimo para a realização daquele roteiro por qualquer ser humano.

Quando nos encontramos pela primeira vez, em Londres, você estava reclamando que seria capaz de fazer um filme de US$ 2 milhões por US$ 1 milhão, mas que não podia fazer um de US$ 14 milhões por US$ 8 milhões.

Foi absolutamente difícil, mas conseguimos. Fechamos o orçamento em US$ 8 milhões e disseram: "Não, faça por 7". Quando finalmente diminuímos o orçamento para US$ 7 milhões, sabíamos que não seria possível e avisamos isso à Fox. Eles disseram para fazermos com US$ 7 milhões de qualquer jeito. Fiquei trabalhando praticamente de graça e a minha única esperança era que, se o filme se pagasse - e se custasse US$ 8 milhões - isso significaria que empataria os custos com US$ 20 milhões de bilheteria.

Quanto você realmente ganhou para dirigir o filme?

No final, meu salário ficou em torno de US$ 100 mil, o que continuava sendo mais ou menos a metade do que o que todas as outras pessoas estavam ganhando.

Você recebe alguma porcentagem da bilheteria?

Todo mundo ganha porcentagem, mas o segredo é fazer com que valha a pena. Percebi que nunca veria meu dinheiro por causa da minha porcentagem, então que se dane. Também tive a oportunidade de distribuir uma parte da minha porcentagem. Já tinha feito isso em Graffiti. Parte do sucesso é culpa dos atores, do compositor e da equipe técnica, e eles também devem ter parte nas recompensas, então minha porcentagem acaba sendo bem menor do que a dos meus colegas. Mas nunca achei que Guerra nas Estrelas... Achei que só ia se pagar, continuo sem entender.

Por quê?

Fazer este filme foi uma luta, foi péssimo, muito desagradável. Guerra nas Estrelas foi grande e dispendioso - o dinheiro estava sendo desperdiçado e as coisas não saíam como deveriam. Eu estava no comando da corporação e não estava fazendo filmes como de costume. American Graffiti tinha umas 40 pessoas na folha de pagamento, isso inclui todo mundo fora o elenco. Acho que THX teve mais ou menos o mesmo número. É possível controlar uma situação assim. Em Guerra nas Estrelas, tínhamos mais de 950 pessoas trabalhando para nós, e eu falava com um chefe de departamento e ele falava com outro chefe-assistente de departamento, que falava com algum outro cara e quando a mensagem chegava ao fim da linha, não existia mais. Passava o tempo todo gritando e berrando, e nunca tive que fazer isso antes. Mandei embora algumas pessoas aqui e ali e essa é uma experiência muito frustrante e infeliz. Percebi por que os diretores são tão terríveis. Você quer que as coisas saiam direito e a equipe simplesmente não escuta. E não há tempo para ser simpático, para ser delicado.

Esta foi outra coisa que você disse em Londres: "Estou cansado de ser diretor, quero voltar a ser cineasta".

Bom, é verdade, é isso que realmente quero fazer. Agora já fiz isto aqui, já dirigi minha grande corporação. Não está tão bom, nem de longe. Assumo metade da responsabilidade por isso - e a outra metade se deve a algumas decisões infelizes que tomei ao contratar pessoas. Mas poderia ter escrito um roteiro melhor, poderia ter dirigido melhor. Poderia ter feito muitas coisas.

De volta à Califórnia, você parecia aborrecido. Disse que os robôs não estavam adequados: R2D2 parecia um aspirador e você encontrou 57 falhas isoladas em C3PO. Também não gostou da iluminação, parecia que nada se encaixava...

Bom, para começar, quando voltamos à Califórnia, não estava feliz com a luz do filme. Gosto de um estilo mais extremo, mais excêntrico do que aquele que conseguimos. Mas tudo bem, era um filme muito difícil, havia cenários enormes para iluminar, foi um grande problema. Os robôs nunca funcionaram, a coisa toda foi falsa.

Como?

Cada vez que o R2D2 de controle-remoto funcionava, dava meia-volta e ia de encontro a uma parede. E quando Kenny Baker, o anão, estava lá dentro, a coisa era tão pesada que ele mal conseguia se mexer - dava um passo e meio e ficava exausto. Nunca conseguia fazer com que o robô atravessasse uma sala, então a gente cortava ali e passava para um close-up, e cortava de novo para a hora que ele já estava no lugar determinado. Foi muito mais magia do cinema do que qualquer outra coisa.

Quando vi o filme, fiquei surpreso, não consegui ver nenhuma dessas emendas. Então, fui ver de novo e percebi umas duas emendas, mas foi só.

Não vejo nada além de emendas. Um filme é meio binário - ou funciona ou não, e não tem nada a ver com a qualidade do seu trabalho. Se você colocar a coisa em nível adequado, em que o público entra no filme, então funciona, só isso. É uma coisa de fusão e daí todo o resto, todos os erros deixam de ter importância. Se um filme não funciona, as pessoas continuam enxergando os erros, elas se entediam e a coisa simplesmente não dá certo. THX foi mais ou menos 70% do que eu queria que fosse. Graffiti foi cerca de 50% do que queria, mas percebi que os outros 50% estariam ali se tivesse um pouco mais de tempo e dinheiro. Guerra nas Estrelas é cerca de 25% do que eu queria que fosse. Mas, mesmo assim, continua sendo um filme muito bom. E todo mundo disse: "Nossa, caramba, George, você queria a Lua só por querer, ou queria Plutão e pousou em Marte". Acho que as seqüências serão melhores. Quero dirigir a última parte. Poderia fazer a primeira e a última e deixar outras pessoas fazerem as do meio.

Não ficaria incomodado de deixar outro diretor fazer as do meio?

Não, seria interessante. Gostaria de tentar arrumar alguns bons diretores para ver quais seriam suas interpretações sobre o tema. É um gênero divertido de se brincar. Toda a parte dos protótipos está pronta. Ninguém precisa se preocupar com o que é um wookie, o que ele faz e como reage. Os wookies estão aí, as pessoas estão aí, a ambientação está aí, o império está aí... E agora as pessoas vão começar a agregar suas contribuições. Coloquei a base de concreto das paredes, e agora todo mundo pode se divertir. E é uma competição. Espero que, se eu conseguir amigos para fazer isso, que eles queiram fazer um filme bem melhor, do tipo: "Vou mostrar para o George que posso fazer duas vezes melhor", e acho que podem mesmo. Mas daí quero fazer o último, para poder fazer duas vezes melhor do que qualquer outra pessoa [risos].

Ninguém que assiste ao filme questiona o que é um wookie, o que é um jawa, aceitam na hora porque o filme tem uma base de imaginação, uma sustentação elaborada e detalhada que transforma tudo isso em verdades plausíveis. Então, vamos avançar um passo. Digamos, por exemplo, que você fosse antropólogo e tivesse acabado de voltar do planeta wookie. O que teria a relatar?

Isso está nos primeiros roteiros. Na verdade, tinha escrito quatro argumentos e quatro histórias diferentes, com personagens diferentes, que envolviam ambientações diversas. Em um dos roteiros, há um planeta wookie. É um planeta de selva e havia toda uma seqüência em que o Império tinha um pequeno posto avançado lá. Luke [Skywalker] se envolve com os wookies e luta contra o chefe wookie. Ele vence a luta, mas não mata o wookie, que reúne os outros para atacar a base imperial. A base imperial tem tanques e todos os tipos de coisas, e os wookies os vencem. Luke, Obi-Wan [Kenobi] e Han [Solo] e mais um monte de gente treinam os wookies para pilotarem caças. E são esses wookies que vão atrás da Estrela da Morte, não os rebeldes que estavam no planeta. Era muito diferente, tinha uma coisa muito envolvida com os wookies. Os wookies são... levemente primitivos. Há uma ótima seqüência que pode acabar em um dos filmes - uma fogueira gigantesca e todos os wookies dançando ao redor do fogo. Há batuque de tambores e esse tipo de coisa. Os wookies são mais como os índios.

Os jawas são como aborígenes?

Os jawas são catadores de entulho, negociantes de artigos de segunda mão. Tínhamos incluído uma cena de um vilarejo jawa no roteiro, mas não chegamos a filmar porque a locação era muito distante, simplesmente cortamos para não estourar o orçamento. Encontramos umas coisas ótimas na Tunísia, umas casinhas de quatro andares com portas minúsculas, janelas minúsculas, era um vilarejo de hobbits.

Você criou jawas e wookies a partir de suas leituras?

Na verdade, eles não têm nenhuma base antropológica. Os jawas realmente derivam de THX, eram habitantes de conchas, pessoas pequenas que vivem no subterrâneo. E, de certa maneira, parte de Guerra nas Estrelas saiu da minha vontade de fazer uma seqüência para THX. Os wookies também derivam de THX. Um dos atores que estava fazendo algumas narrações para rádio, Terry McGovern, inventou a palavra wookie.

Por acaso ouvi a voz dele em Guerra nas Estrelas?

Terry fez o professor de American Graffiti. Estávamos andando de carro um dia e ele disse: "Acho que atropelei um wookie", e isso realmente me fez morrer de rir. Perguntei: "O que é um wookie?". E ele respondeu: "Sei lá, acabei de inventar". Eu disse: "Que maravilha, adorei essa palavra". Simplesmente anotei e avisei que ia usá-la.

Há montes de ótimas pseudo-línguas no filme - os wookies, os jawas, R2D2 e Greedo, o caçador de recompensas da seqüência da cantina, só para citar algumas. Elas têm construção elaborada?

Têm. Logo que o filme começou, contratamos duas pessoas - um artista, Ralph McQuarrie, e um engenheiro de som, Ben Burtt. Ben passou dois anos desenvolvendo efeitos sonoros - ele fez todas as pistolas de raios, as espaçonaves explodindo e, mais para o fim, trabalhou uns três ou quatro meses para apresentar R2D2. Eu queria bips e bops e tal. Bom, isso é fácil dizer, o difícil era pegar os bips, os bops e os sons e dar a eles uma personalidade. Ele passou muito tempo nisso. E eu ouvia e dizia: "Não, não. Precisamos de alguma coisa com mais sensibilidade. Ele precisa estar mais triste aqui, precisa estar mais alegre aqui". E ele voltava e trabalhava nos [sintetizadores] Arp e Moog, tocava acelerado e devagar, combinava tudo e, finalmente, chegou ao resultado. Não ficou tudo com o mesmo som, como um telefone de teclas. Mas, para algumas pessoas, acho que continua soando como um telefone de teclas.

R2D2 tem uma personalidade muito marcante, você não acha?

É. Ben teve que escrever diálogos que nunca escrevi. Eu só escrevi: C3PO diz: "Você ouviu isso?", e o pequeno robô responde "bip-da-bop", e Ben sentava lá e pensava, "Hmmm, bom, é claro que eu ouvi, seu idiota". Então, tinha que pegar a idéia e traduzi-la. Fez a mesma coisa com o wookie, uma combinação de morsa e urso e mais uns cinco ou seis efeitos sonoros de animais, todos combinados de maneira muito sofisticada eletronicamente para criar uma voz.

Fiquei fascinado pelo relacionamento entre robôs e seres humanos. Os andróides parecem ser cidadãos de segunda classe, como C3PO sempre nos lembra. Mas, por outro lado, há uma conexão muito calorosa entre os andróides e os seres humanos.

Obviamente, eles estão lá para servir, obedecem a ordens e tudo o mais. Mas não queria que fossem robôs frios. Até os robôs de THX são muito simpáticos. Não são malevolentes. Em Guerra nas Estrelas, queria entrar no mundo dos robôs e dos problemas que eles têm; dar um pouco de igualdade para os robôs, que já sofreram muito com o passar dos anos e nunca realmente tiveram chance de provar seu valor.

C3PO gosta muito de R2D2.

Sim. Eles foram imaginados como uma espécie de o Gordo e o Magro, aqueles responsáveis por contar as piadas. Não queria que a coisa toda fosse uma comédia, mas pretendia me divertir muito. Não queria que os personagens humanos ficassem contando piada o tempo todo, então deixei que os robôs o fizessem.

É verdade que você considerou não usar a voz verdadeira do ator Anthony Daniels para C3PO?

É. O motivo principal foi por ele ter sotaque britânico.

De quem é a voz de Darth Vader?

É de James Earl Jones. Ele foi o melhor ator que poderia encontrar, com uma voz profunda, autoritária.

O outro Darth Vader ficou bravo quando a voz dele foi derrubada?

Não, ele já sabia quando foi contratado. Ele é ator, David Prowse, e tem sotaque muito forte. Fez o papel de halterofilista em Laranja Mecânica [1971]. Ele tem uma cadeia de academias, é muito rico e faz filmes para se divertir.

Por que Darth Vader respira com tanta dificuldade?

Queria fazer isso e atrelar ao diálogo. Ben também teve muito trabalho com isso, ele fez uns 18 tipos diferentes de respiração, com equipamento de mergulho e tubos, tentando encontrar o que tivesse o tipo certo de som mecânico. Depois teve que decidir que seria totalmente rítmico e parecido com um pulmão artificial. É essa a idéia, era uma parte toda do enredo que foi, essencialmente, cortada. Pode ser que apareça em uma das seqüências.

Qual é a história?

É a respeito de Obi-Wan e do pai de Luke e de Darth Vader quando eram jovens cavaleiros Jedi. Darth Vader mata o pai de Luke, então Obi-Wan e Darth têm uma briga, do mesmo jeito que acontece em Guerra nas Estrelas. Obi-Wan quase mata Darth Vader, que cai dentro da boca de um vulcão, é fritado e fica deformado - é por isso que precisa usar uma roupa especial com a máscara que é para respirar. A máscara é como se fosse um pulmão mecânico ambulante. O rosto dele é todo horrível por dentro. Eu ia filmar um close-up do rosto de Vader, mas resolvemos não mostrar porque isso destruiria a mística da coisa toda.

Fiquei bem feliz em ver Darth Vader rodopiando no espaço, no final, mas sem morrer. A única coisa que faltou foi uma legenda na tela: "Continua... Em breve, em um cinema perto de você".

A idéia era deixar espaço para seqüências. Quando fiz THX, percebi que tinha colocado ali um esforço que nunca mais poderia voltar a usar. Conheço o mundo de THX. Poderia ficar fazendo filmes sobre THX para sempre, mas desenvolver tudo aquilo me consumiu tanto tempo e tanta energia, e foi tudo usado em um único filme. Normalmente, em um filme, talvez haja um livro ou um período da história ou um pedaço da minha vida. Eu me sentei e escrevi Graffiti em três semanas, foi fácil. Com algo como Guerra nas Estrelas, é preciso inventar tudo. É preciso pensar em culturas e nos tipos de xícara de café que eles vão usar, e onde fica o domínio entre a tecnologia e a humanidade e qual é o papel da percepção extra-sensorial nisso tudo... E você vai lá e encontra os níveis com que deseja lidar. Até onde quer ir? Será que as pessoas vão se identificar com isso?

As comparações entre Guerra nas Estrelas e 2001 o incomodam?

Não. Aliás, estou bem feliz por não terem comparado muito com 2001. De fato, está sendo mais comparado a westerns do que a 2001, e realmente deve ser assim. Em nível técnico, pode ser comparado, mas, pessoalmente, acho que 2001 é muito superior. A gente sabe que teve dez vezes mais dinheiro e tempo, então obviamente saiu melhor. Em efeitos especiais, um dos elementos cruciais é tempo e dinheiro. A maior parte dos efeitos de Guerra nas Estrelas foi utilizada pela primeira vez - nós os filmamos, fizemos a composição de imagens e eles entraram no filme. Precisamos voltar e refilmar alguns. Para conseguir fazer efeitos especiais direito, realmente é necessário filmá-los duas ou três vezes, antes de se perceber exatamente como deveriam ficar, e é por isso que custa tão caro. Mas a maior parte dos nossos foi produzida com uma tomada só. Trabalhamos muito, mas eu gostaria de refazer todos os efeitos especiais, ter um pouco mais de tempo.

Isso nos faz retroceder aos meses que antecederam o lançamento. O trabalho de edição que você citou anteriormente, de colocar a mão na massa para que tudo desse certo. Como foi chegar à noite de estréia de fato?

O filme todo foi muito difícil porque o prazo realmente era muito curto - cerca de 70 dias nos cenários e locações. Na Inglaterra, não podíamos filmar depois das 17h30, então trabalhávamos oito horas por dia. Visitei Steven [Spielberg] e Marty [Scorsese] depois de terminar as filmagens, e eles filmavam entre 12 e 14 horas por dia. Então, realmente tinham mais um dia de trabalho a cada dia. A agenda deles era de 120 dias, mas, se contássemos as horas, eles tinham 200 dias para filmar. Eu tive realmente 70 dias de filmagens, e foi muito pouco para algo tão complexo. Aconteceu a mesma coisa com a finalização. O estúdio queria que estivesse pronto para o verão e eu queria terminar para o verão, então estávamos contra a parede. Quando voltei da Inglaterra, deveríamos estar com a metade dos efeitos especiais prontos e, na verdade, só havia três cenas prontas, que, na minha avaliação, não condiziam com os padrões do filme. A Industrial Light and Magic tinha gasto 1 milhão de dólares construindo câmeras e desenvolvendo sistemas eletrônicos de computador. Realmente não se concentraram muito em fazer as cenas.

As câmeras usadas nas filmagens das miniaturas foram criadas do zero?

Sim, do zero. Montamos câmeras ópticas, moviolas, um sistema inteiro com base em VistaVision. John Dykstra foi quem construiu. Ele tem muito conhecimento na construção de sistemas sofisticados de movimento de câmera. Foi extraordinário, nós montamos uma operação completa.

O casamento entre as cenas de locação com as cenas de efeitos especiais foi, então, um dos seus principais problemas?

Não, simplesmente estava tentando fazer com que os efeitos especiais alcançassem a qualidade que desejava. Fiquei feliz com muitos dos efeitos especiais mais para o fim. A operação deu muito certo. No começo, o cameraman ainda estava aprendendo a pilotar o equipamento, porque era uma coisa de animação muito complexa em que se movem câmeras ao mesmo tempo em que se trabalha com coisinhas motorizadas. Quando você vê a coisa acontecendo, não está trabalhando em tempo real. É muito difícil visualizar como uma daquelas naves se move em tempo não-real, usando câmeras com inclinação e motor. É fácil mostrar com a mão: quero que a nave faça assim, mas é realmente muito difícil traduzir aquilo em papel e em filme, de modo a realmente conseguir fazer com que a nave faça aquilo. E demorou muito tempo só para descobrir como voar. Há problemas que nunca tinham surgido antes. Em 2001, as naves andam em linha reta, ou se afastam de você ou cruzam a tela, nunca voltam nem mergulham.

E a seqüência da batalha final, a luta entre naves?

Foi extremamente difícil de cortar e editar. Tínhamos storyboards tirados de filmes antigos e usamos imagens em preto e branco de filmes sobre a Segunda Guerra Mundial intercaladas com pilotos conversando e tal, de modo a podermos editar a seqüência toda em tempo real. A minha mulher normalmente edita um rolo inteiro - todos os dez minutos do filme - em uma semana. Acho que ela demorou oito semanas para editar aquela batalha. Foi extremamente complexo, tínhamos mais de 12 mil metros de cenas de diálogos com pilotos dizendo isso e aquilo. E ela teve que peneirar tudo e ainda incluir a batalha. Ninguém jamais tentou mesclar uma parte verdadeira do enredo com uma batalha aérea, e era o que estávamos fazendo.

E a trilha feita por John Williams? Ela é bem emocionante...

Fiquei muito contente com a trilha. Queríamos algo ao estilo de Max Steiner: antigo e romântico. Há 90 minutos de música em um filme de 110 minutos. Queria usar um pouco de Liszt, de Dvorak, mas Johnny disse não. Ele queria fazer algum tema forte, que trouxesse algumas reminiscências em alguns pontos, mas que, ao mesmo tempo, fosse muito original. Fizemos a coisa de modo que cada personagem tivesse seu próprio tema.

Uma ópera espacial.

Bom, costumava-se fazer isso o tempo todo, compor música para filmes que estavam mais próximas de uma ópera ou de uma sinfonia. Uma coisa interessante a respeito da música - que é mais ou menos como o próprio filme - é que eu realmente estava esperando ser destruído pelas pessoas dizendo: "Ai, meu Deus, que coisa mais idiota e antiquada, será que dá para você ser mais cafona?". Fico surpreso de as pessoas só terem dito: "Caramba, está ótimo". Realmente esperava ser trucidado. E Johnny também, um pouco. Muitos dos diálogos... faço uma careta cada vez que escuto.

Está dizendo que esperava ser trucidado em relação a tudo?

Achava que iam me trucidar. Principalmente no fim, quando o filme se resume à trilha, que era romântica e dramática. Não era só um diálogo levemente cafona aqui e ali e um tipo de enredo muito simplista, meio cafona...

Algumas das falas de Mark Hamill são bem cafonas.

Há algumas coisas muito fortes ali. Não queria nivelar por baixo e fazer um filme exagerado, queria fazer um filme muito bom. E não ficou exagerado, não fez piada de si mesmo. Queria que fosse real.

Apesar de o personagem de Harrison Ford (Han Solo) estar no limite do exagero, com um jeitão acentuado de John Wayne.

Ele vai até onde permito qualquer um ir.

"Já percorri esta galáxia de ponta a ponta, garoto..." Mas ele se safou.

[Risos] Combina com o personagem. Harrison é um ator extremamente inteligente e tivemos que equilibrar muitas peças frágeis ao mesmo tempo ao avançar no filme. E, quando se está no meio do processo, você nunca sabe quando vai pular para o outro lado, que é uma das coisas que aconteceu com a trilha. Tivemos várias discussõezinhas a respeito de detalhes que a fariam passar do ponto, que seriam exagerados demais. Resolvi fazer a coisa de ponta a ponta, até o fim, completa. Tudo está no mesmo nível, o que é meio antiquado e divertido, mas aproveitando os elementos mais dramáticos e emotivos possíveis.

O personagem de Peter Cushing, Grand Moff Tarkin, com certeza se encaixa na fórmula. Ele tem algumas falas ótimas. Principalmente quase no fim: "Abandonar a estação, agora, na hora do meu maior triunfo?".

Isso aí é uma coisa muito forte. Peter Cushing, assim como Alec Guinness, é um ótimo ator. Ele ficou com a imagem de que isso, de certo modo, está muito abaixo dele, mas também é idolatrado e adorado por jovens e por pessoas que assistem a certo tipo de filme. Acho que ele será lembrado com carinho durante os próximos 350 anos. E daí você pergunta: "Isso vale alguma coisa?" Talvez não seja Shakespeare, mas certamente tem uma importância semelhante no mundo. Bons atores realmente nos trazem alguma coisa, e isso é especialmente verdade no caso de Alec Guinness, que eu considerava um bom ator como qualquer outro, mas, depois de trabalhar com ele, fiquei estupefato de ver como era criativo e disciplinado. No roteiro original, Obi-Wan Kenobi não morre na luta com Darth Vader. Mais ou menos na metade da produção, puxei Alec de lado e disse que o mataria no meio do filme. É bem chocante para um ator quando você diz: "Sei que seu papel é importante e você vai até o fim e vai ser herói, mas, de repente, resolvi matar você", mas ele aceitou bem e começou a construir o personagem em cima disso.

O estúdio ficou aborrecido quando você disse que mataria Obi-Wan?

Todo mundo ficou aborrecido. Estava me debatendo com o problema de ter uma cena mais ou menos culminante a dois terços do filme. Tinha outro problema no fato de não haver nenhuma ameaça verdadeira na Estrela da Morte. Os vilões pareciam pinos de boliche, eles só iam caindo. Da maneira como escrevi, Obi-Wan e Darth Vader travavam uma luta de espada e Obi-Wan batia em uma porta, a porta fechava, todos fugiam e Darth Vader ficava lá parado, com cara de trouxa. Era uma idiotice. Eles entram na Estrela da Morte, tomam conta de tudo e saem fugidos. Reduzia qualquer impacto que a Estrela da Morte pudesse ter. Eu estava naquele limite tênue entre fazer algo que considerava um tipo de filme levemente não violento, mas ao mesmo tempo estava me divertindo demais com as pessoas que levavam tiros. Tomei muito cuidado para que a maior parte das pessoas que levavam tiros no filme fossem monstros. Mas bom, eu estava reescrevendo, remoendo esse problema de enredo quando minha mulher sugeriu que eu matasse Obi-Wan. E eu disse: "Bom, essa é uma idéia interessante, andei pensando nisso". A primeira idéia dela era fazer C3PO levar um tiro, e eu disse que era impossível, porque queria começar e terminar o filme com os robôs, queria que o filme realmente fosse sobre os robôs e que o tema servisse de estrutura para o resto do filme. Mas daí, quanto mais pensava a respeito da morte de Obi-Wan, mais gostava da idéia porque fazia com que a ameaça de Darth Vader fosse maior e isso casava com A Força e com o fato de que ele era capaz de usar o lado negro. Alec Guinness e eu inventamos a coisa de fazer com que Obi-Wan depois prosseguisse como parte de A Força. Havia uma idéia temática que era ainda mais forte a respeito de A Força nos primeiros roteiros. Realmente era sobre A Força, uma espécie de Relatos de Poder [livro], de Carlos Castaneda.

Bom, então, teoricamente, poderia haver uma seqüência sobre A Força, uma sobre os wookies...

É, uma das idéias originais era fazer uma seqüência. Então, se eu pusesse muitas pessoas ali e a coisa fosse planejada de maneira cuidadosa o suficiente, poderia fazer uma seqüência a respeito de qualquer coisa. Ou se algum dos atores me apresentasse muitos problemas e não quisesse fazer, ou se não quisesse participar da seqüência, sempre poderia fazer a continuação sem alguém.

Você tem acordos com os personagens principais?

Tenho. Com todos os atores, menos Alec Guinness. Pode ser que usemos a voz dele como A Força, não sei. Uma das seqüências em que estamos pensando é sobre a juventude de Obi-Wan Kenobi. Provavelmente todos os atores seriam outros.

Vamos falar sobre a seqüência da cantina. Pelo que me lembro, houve problemas em Londres.

Stuart Freeborn, responsável pelos efeitos especiais e pela maquiagem, gastou muito tempo e energia no wookie e fez um trabalho fantástico. E ele teve que se apressar para tentar criar os monstros da cantina enquanto estávamos filmando na Tunísia. Atrasamos essa seqüência em uma semana na agenda de filmagens e não parávamos de adicionar personagens. Mas, algumas semanas antes de filmar, Stuart ficou doente e precisou ir para o hospital. Não conseguimos ter todos os monstros - que gostaríamos de ter - finalizados. Os que tínhamos eram alguns para ficar em segundo plano, eles não tinham sido feitos para ser os principais. Sempre soube que, no fim, ou Stuart ou alguém voltaria para filmar mais monstros.

Então, quando foi que você de fato terminou a seqüência?

Quando voltamos para a Califórnia e editamos o filme, olhamos para ele e eu continuava achando que a cena da cantina não estava funcionando. Então, quis filmar uma segunda unidade. Isso pode ficar bem caro, e o estúdio disse que não ia ter jeito de eu gastar mais dinheiro nesse filme, porque já tínhamos estourado um milhão de dólares do orçamento. E eu disse que era umas das cenas principais e que precisávamos de mais monstros. Então fizemos um orçamento e falamos com Alan Ladd Jr. Na verdade, o projeto era dele e, àquela altura, ele era o presidente da empresa. Ladd disse que era para fazer, mas só se custasse US$ 20 mil. E eu disse: "Tudo bem, vou fazer com US$ 20 mil". Então, no fim, precisamos cortar a metade do que queríamos, mas foi suficiente. Sabe, queria colocar monstros horrorosos, loucos, assombrosos de verdade. Acho que conseguimos alguns, mas não apresentamos algo tão bom quanto eu queria.

A banda de zoots com roupas pretas é absolutamente maravilhosa. Por que tocam música da década de 40?

Originalmente, planejei usar Glenn Miller, mas não pudemos e Johnny teve que inventar algo que soasse familiar. Ele fez um som muito bizarro, que tinha bem cara de anos 40, mas ainda assim era bem esquisito. A coisa toda foi planejada para ser uma apresentação de big band.

A seqüência em que a nave de Han Solo atinge a velocidade da luz é recebida com gritos todas as vezes. As pessoas simplesmente adoram.

Tecnicamente, foi muito simples. O verdadeiro salto, o hiperespaço, é mais ou menos um puxão escada abaixo e depois uma imagem da nave desaparecendo muito rápido. Acho que, mais do que tudo, é divertido devido à edição e à maneira como a cena anterior é construída. Tem início no momento em que começam a atirar em cima deles e vai até a hora em que a nave dispara, e há duas deixas musicais muito boas ali. A gente fica torcendo para eles conseguirem escapar e é uma fuga realmente espalhafatosa. Não há nada como mandar uma velha nave para o hiperespaço para deixar qualquer um com os nervos à flor da pele.

A grande bilheteria deve garantir algum sucesso no projeto de merchandising que você lançou.

Um dos fatores que me motivaram a fazer o filme, junto com todos os outros, foi o fato de eu adorar brinquedos e jogos. Então, pensei: "Caramba, podia abrir uma loja que vendesse HQ, discos de 78 rotações ou discos de rock'n'roll antigos de que eu gosto, brinquedos antigos e um monte de coisa que realmente me interessa - que não se pode comprar em lojas normais". Também gosto de criar jogos e coisas, de modo que isso fazia parte do filme, ser capaz de gerar brinquedos e coisas. Além do mais, também percebi que as vendas de produtos, junto com as seqüências, garantiriam uma renda suficiente para mim durante certo período, para que pudesse me aposentar da função de fazer filmes profissionais e me dedicasse ao meu tipo de filme - às minhas coisas pessoais, bizarras, experimentais.

Então, agora você quer vender brinquedos e jogos e fazer filmes esotéricos?

É. O filme é um sucesso e acho que as seqüências também serão um sucesso. Quero ser capaz de ter uma loja em que possa vender todas as coisas maravilhosas que desejo. Também sou diabético e não posso ingerir açúcar, então quero ter uma lojinha que venda bons hambúrgueres e sorvete sem açúcar, porque todas as pessoas que não podem ingerir açúcar merecem. A gente precisa ter tempo para poder se aposentar e fazer essas coisas, e é necessário ter uma renda...

O dinheiro de Guerra nas Estrelas...

Vai ser o dinheiro que vou usar para tentar desenvolver uma loja e fazer as outras coisas que quero. Fiz o que considero ser o tipo de filme mais convencional que eu podia. Também aprendi meu ofício no sentido do entretenimento clássico. O que desejo fazer agora é levar meu ofício em outra direção, que é contar histórias sem enredo e criar emoções sem compreender o que está acontecendo em termos de relações puramente visuais e sonoras. Acho que existe um mundo cinematográfico inteiro que nunca foi explorado. As pessoas se prenderam tanto ao filme com história - a literatura e o teatro têm uma influência tão forte sobre o cinema que ele se tornou o irmão mais fraco. E, se os filmes funcionarem, vou tentar lançá-los e fazer com que sejam distribuídos por qualquer um que seja ousado o suficiente para trabalhar com eles. Talvez seja divertido, é difícil saber. Essa é uma área em que não dá para ter a mínima idéia a respeito do que vai acontecer, e é isso que me emociona. E agora cheguei ao ponto em que posso dizer: "Bom, vou me aposentar". Nunca fui como Francis e alguns dos meus amigos que estão construindo impérios gigantescos, vivem endividados e precisam ficar trabalhando para manter seus impérios.

Você mantém contato com Steven Spielberg, Phil Kaufman, Brian DePalma e Martin Scorsese?

Existem vários grupos. Há o que chamamos de máfia de USC [Universidade da Carolina do Sul]: Bill Huyck, Matt Robbins e John Milius. Depois, tem o contingente de Nova York: Brian, Marty e Steve, que estudavam na Universidade Estadual de Long Beach. Nós nos tornamos amigos íntimos, qualquer rivalidade que existisse entre nós era muito saudável. Francis e eu realmente somos muito mais próximos porque já fomos sócios. Conheço meus amigos pelos filmes. É estranho, mesmo. Francis simplesmente é igual aos filmes dele e Marty simplesmente é igual aos filmes dele e Brian é especialmente igual aos filmes dele. Nós colaboramos com o trabalho um do outro. Todos assistiram a Guerra nas Estrelas e deram sugestões.

Você deve estar sendo pressionado pelos colegas para não se aposentar.

É, estou sendo sim. O negócio é que, neste momento, ninguém acredita nisso, principalmente Francis. Ele se recusa a aceitar o fato de que vou mesmo fazer isso. Quando eu digo "me aposentar", todo mundo acha que vou me mudar para o Havaí e ficar lá o resto da vida. Não vou fazer isso, vou abrir uma espécie de loja de brinquedos, vou fazer meus filmes experimentais. Ao mesmo tempo, vou ser produtor executivo das seqüências de Guerra nas Estrelas, o que, na verdade, é só uma maneira de ganhar a vida, mas, ao mesmo tempo, vou dar seqüência às coisas que já comecei. E quem sabe? Pode aparecer alguma coisa e eu posso voltar a dirigir, mas acho que serei mais eficiente como produtor executivo.

Quando o filme estréia no exterior?

Estréia na Europa em outubro. E depois acho que estréia no Japão em julho do ano que vem. Gosto do Japão. Ia filmar THX lá. A minha mulher diz que sou a reencarnação de um xógum ou pelo menos de um guerreiro. Guerra nas Estrelas é levemente feito para o Japão.

Não é um filme de Godzilla.

Não, a ficção científica atingiu mesmo um nível muito baixo no Japão. Eles adoram, mas a qualidade é péssima. Foi explorada da mesma maneira que aconteceu aqui nos Estados Unidos. As pessoas erradas têm feito ficção científica. A ficção científica - a ficção especulativa - é um gênero muito importante que não tem sido levado muito a sério, inclusive na literatura.

E há idéias importantes nele.

É. Por que os trajes espaciais são como são? Por quê, quando fomos à Lua, os astronautas eram parecidos com os homens que foram à Lua em Destino à Lua?

E esse filme foi feito em 1950.

Porque o diretor de arte desenhou aqueles trajes espaciais com base no que ele achava que seriam - com as informações científicas disponíveis. Mas, quando a gente examina a questão, um monte de diretores de arte de um monte de filmes antigos e de literatura barata especulativa desenhou trajes espaciais e outras coisas há tanto tempo, e eu tenho a sensação de que tiveram eles muita influência sobre a aparência das coisas de hoje, e sobre a maneira como as coisas são, porque os técnicos e os estilistas e toda aquela gente cresceram. Além disso, apenas em nível teórico-filosófico, a busca máxima continua sendo a mais fascinante: queremos descobrir o que somos - por que estamos aqui e qual é o tamanho [do universo] e para onde vai, qual é o sistema, qual é a resposta, o que é Deus e tudo o mais. A maior parte das civilizações, culturas e religiões inteiras foi construída sobre a ficção científica de sua época. É exatamente isso. Hoje, chamamos de ficção científica. Antes, chamavam de religião ou de mitos ou de qualquer coisa que quisessem chamar.

A tradição épica e heróica.

É. Sempre foi a mesma coisa. É o tipo mais importante de ficção, na minha opinião. Pena que ficou com aquela reputação frouxa de gibi - mas acho que já superamos isso há muito tempo. A ficção científica ainda demonstra a tendência de reagir contra aquela imagem e foi isso que eu tentei destruir com Guerra nas Estrelas. Buck Rogers tem o mesmo valor de Arthur C. Clarke [escritor inglês] a sua maneira; quer dizer, são dois lados da mesma coisa. Kubrick fez a coisa mais forte no cinema em termos do lado racional das coisas, e eu tentei fazer o máximo do lado irracional. Mais uma vez, vamos viajar com as naves de Stanley, mas espero que carreguemos minha espada de laser e tenhamos um wookie ao nosso lado.

Então, suas apostas estão na mesa.

Resolvi deixar tudo um pouco mais romântico. Caramba, espero que, se o filme realizar alguma coisa, que pegue algum garoto de 10 anos e faça com que ele se ligue demais no espaço sideral e nas possibilidades do romance e da aventura. Não é tanto uma influência que vá criar mais Wernher von Brauns ou Einsteins, mas apenas que vá conduzi-los à exploração séria do espaço sideral e os convença de que isso é importante. Não por algum motivo racional, mas por uma razão totalmente irracional e romântica. Eu me sentiria muito bem se algum dia colonizarem Marte quando eu estiver com 93 anos ou algo assim, e que o líder da primeira colônia diga: "Realmente fiz isso na esperança de encontrar um wookie aqui".