IRA! A fúria com elegância

Mesmo em seis anos sem um álbum de composições inéditas, o Ira! nunca teve muito tempo de parar e curtir preciosos dias de bobeira. Com o lançamento de Invisível DJ, décimo terceiro na carreira, as férias ficam ainda mais distantes

José Julio do Espirito Santo Publicado em 22/09/2008, às 18h28

(Da esq. para a dir.) Ricardo Gaspa, Nasi, André Jung e Edgard Scandurra, do Ira!, que acaba de lançar seu novo álbum Invisível DJ
Louise Chin

Da porta aberta sai um calmo solo de sax, um bebop no grande estilo de Charlie Parker para deixar a tarde de uma terça-feira morna mais agradável. Uma gatinha de pelagem fulva, ainda filhote, aparece para dar as boas-vindas ao som do jazz. "Esta rua é cheia de gatos", Nasi fala olhando para a felina com carinho. "Ela resolveu se aboletar aqui e acabou ficando." A calma impera. É essencial na preparação do cantor do Ira! para o que volta a acontecer. "Quando a gente lança um disco, entra em campanha. E esta é a 13ª campanha. Você tem que explicar o que é o disco, o que ele significa, todas essas coisas", se justifica, falando de Invisível DJ, o novo álbum. "O que se espera de uma banda ou de um artista de rock? Espera-se de você que mantenha aquilo que tem de melhor, mas ao mesmo tempo espera-se que você faça algo diferente. É nesse ponto que a carreira de uma banda precisa ser bem pensada para não dar passos gratuitos."

Passado um quarto de século, essa reinvenção parece ficar difícil para qualquer um, mas, por menores ou maiores que tenham sido os passos na carreira do quarteto paulistano, sempre foram para a frente. "Desde o início, sempre tivemos, pelas circunstâncias que se apresentaram à nossa vida na música, um pé numa grande gravadora e o outro na cena alternativa, no submundo da música, no underground", diz Nasi, recordando o primeiro contrato da banda e a cena musical no início dos anos 80. "Nem somos uma banda exatamente indie nem somos uma banda mainstream. Somos uma espécie de elo perdido nisso." Nasi expira ares de saudosismo quando fala da época em que tocar em mais de uma banda era praxe para os integrantes do Ira!. Enquanto ele também dava voz aos geniais Voluntários da Pátria, Edgard Scandurra se desdobrava tocando com o Ultraje a Rigor, Mercenárias e Smack.

Há décadas, o Ira!, cada vez mais exigente de atenção, já os tinha tirado de suas bandas paralelas. "A vida de uma banda ou de um artista popular é assim: quando o vento sopra, você tem que abrir a vela e tem que ir. Isso tem efeitos colaterais", admite sem nenhum pesar, contando um caso bem mais recente. "Após o Acústico MTV, tínhamos projetos solo engatilhados. Eu já tinha o meu gravado antes de começar a gravar o Acústico e Edgard fez o dele depois. Esse era o planejamento: o Ira! tocaria um pouco menos e a gente se dedicaria a eles." No ano passado foram lançados Onde os Anjos Não Ousam Pousar, do Nasi, e Amor Incondicional, do Edgard Scandurra a.k.a. Benzina. "Acontece que as coisas não são assim só", ele alerta. "Quando você lança um disco, não é só a questão de gravar e fazer alguns shows. É a sua cabeça que ainda está naquilo. Como trabalhamos com isso, nossa cabeça precisa estar livre e precisamos ter foco para fazer um disco do Ira!. Tudo isso foi difícil porque eu e Edgard estávamos ressacados de turnê e estávamos com nossas cabeças nos nossos trabalhos solo."

O último show da turnê do Acústico MTV, a maior da carreira da banda, aconteceu em 23 de dezembro de 2005, mas não rolou descanso. "A gente passou o ano de 2006 fazendo um show híbrido", o bate-rista André Jung explicaria pelo telefone dois dias depois. "Era um show elétrico, mas não tinha nenhum disco por trás. Ti-nha algumas coisas que a gente estava tocando do repertório do Acústico, mas a gente recuperou outras músicas que sempre soaram legais elétricas." Turnês são períodos perigosos na vida de uma banda. "Você viaja muito, perde vínculos, se alimenta mal, dorme pouco. São excessos", Nasi comenta. "No show, o público não quer saber disso em você. E o Ira! tem uma característica: em 95% dos nossos shows, nós subimos e damos o máximo." Ele chega a sugerir uma pauta: "Se você fizer uma matéria sobre isso, vai realmente descobrir que 9 entre 10 bandas acabam depois de uma turnê de sucesso. Acho que foi [o ator] Juca de Oliveira, num programa de rádio que eu tinha com Casagrande, que falou: 'É mais fácil você sobreviver ao fracasso do que ao sucesso'. No fracasso, todo mundo é pai da criança e ao mesmo tempo tem aquilo de você se voltar para si mesmo, tentar ver o que não deu certo. No sucesso você tem pouco tempo para você mesmo, porque, justamente por causa do sucesso, você vai tocar muito, vai falar muito sobre seu trabalho, vai ser mais requisitado. No sucesso é difícil dividir a paternidade".

Mais de 25 anos de sucessos na bagagem deixaram o Ira! calejado, pronto para compromissos quase traumatizantes. "Deu uma engripada", o baixista Ricardo Gaspa, pelo telefone, comentaria dias depois. "Um mês e meio após o fim da turnê, queriam que a gente gravasse um disco. Na verdade, a gente foi meio pego de surpresa." A musa inspiradora entrava em férias. Eles não. Rick Bonadio, o produtor de Invisível DJ e também diretor do selo do qual o Ira! faz parte, sabe muito bem como pilhar uma banda. "Chegou uma hora, Rick falou: 'E aí, turma, vamos gravar?'", Nasi conta, rindo. "'Não!' 'Por que não?' 'Porque não tem música.' Um detalhe." Depois de o disco pronto, Nasi fala em tom de piada, mas na hora foi motivo maior de preocupação. "Esse tipo de coisa não é que nem se você é um atleta, que pode dar algo mais. Não. Ou tem a cabeça livre ou não tem. Mesmo porque a gente tem uma responsabilidade. A cada disco que lançamos, mais a gente tem que provar, parece. Isso é natural. Ninguém chega para você e fala assim: 'Ah, poxa! Este disco não é dos melhores, mas tudo bem. Parabéns!'. É assim que a gente aprendeu e é assim que as coisas são. Rick foi fundamental para nos trazer esse foco."

Feito treinador de boxe, Bonadio conseguiu até mesmo burilar a voz de um cantor que aceita a imperfeição em prol da emoção. "Eu gosto de primeiros takes", Nasi revela. "No meu disco solo, por exemplo, como sou eu mesmo que produzo" - fala com um riso incontido - "tem músicas em que a voz defi-nitiva foi a voz-guia que gravei na sala, sentado com um microfone na mão, orientando a banda. É legal porque às vezes eu, como cantor, acho o seguinte: é melhor passar a interpretação do momento, espontânea, primitiva, às vezes até com erro, mas com uma emoção verdadeira, do que ficar cantando uma música dez vezes, corrigindo pedaços. Pode sair perfeitinho, mas perde uma aura". Bonadio fez sair perfeitinho, mas Nasi acha que a aura continuou. "Ele ficava falando: 'Você faz melhor, cara'. Eu, ressabiado, aceitei: 'Tudo bem. Se não ficar melhor, você põe o guia?' 'Ponho o guia.' Pô! Ele fez com que eu cantasse todas as músicas. Hoje eu escuto e realmente estão me-lhores. Particularmente, a única em que eu deixaria a voz-guia é 'Eu Vou Tentar'".

O amante dos primeiros takes também tem outra predileção: o Cinema Marginal da década de 1960. "O Bandido da Luz Vermelha é um dos clássicos do cinema brasileiro", Nasi afirma. Vestido de Jorge, o tal da luz vermelha, Paulo Vilaça nos observa, ilustrado num grande pôster num canto da sala. O Ira! chegou a usar trechos de áudio do filme nas faixas de Psicoacústica, álbum de 1988. Na época, muito mais poderia ter acontecido. "Quando pedimos a autorização de inserção da trilha, veio uma parceria proposta por Rogério Sganzerla, o diretor do filme: por que não fazer um videoclipe de alguma faixa do Psicoacústica com ele dirigindo e com cenas inéditas que foram cortadas do Bandido da Luz Verme-lha? Imagina! Ele tinha um material de sobras do filme. Seria ouro puro." Como quase sempre acontece, em princípio a gravadora, na época, deu sinal verde. Depois, abortou o projeto sem explicações. Nasi só aliviou a frustração agora, quando Selton Mello parece ter se tornado seu diretor "oficial" de videoclipes. "Já fizemos cinco juntos", ele diz feliz. "Selton é tão fã do Sganzerla quanto eu. Inclusive, existe um projeto de uma seqüência do filme que estaria sendo tocado por Helena Ignez, viúva de Sganzerla e diretora também, com Selton trabalhando como o bandido da luz vermelha. Seria uma espécie de continuação do filme. Não só por ser fã de Rogério, mas por ter uma influência muito grande no trabalho autoral dele, Selton fez, no 'Flerte Fatal' e depois também no meu trabalho solo, no clipe em película de 'Corpo Fechado', uma linguagem totalmente sganzerliana. De certa forma, essa dívida cósmica foi paga."

Perto da saída da sala, um pôster do mesmo filme, presenteado pelo próprio diretor - original, de 1968, amarelecido e com as bordas carcomidas, mas respeitosamente emoldurado - marca a amizade que ficou entre fã e ídolo. E quase parceiros de trabalho.

Com o filhote no colo e uma calma contagiante, Nasi se despede. O Wolverine brasileiro parece sentir que, mais uma vez, uma missão foi bem cumprida e volta para o descanso. A FM dentro da minha cachola volta a transmitir e por horas fico cantarolando a faixa título de Invisível DJ.

Já é outro dia e a rádio volta a tocar a mesma música na caminhada em direção à casa de Edgard Scandurra. Já não vai ser surpresa ela virar um daqueles chicletes radiofônicos. Na chegada, quem dá as boas-vindas é um golden retriever bonachão e sua dona, Estela, filha caçula de Edgard, nos seus 3 anos de pura simpatia. A entrevista começa com ela falando sobre os cabelos amarelos de sua boneca, Amarela. Logo, o pai aparece. A hora do almoço num dia de semana numa casa de família é algo que dispersa qualquer conversa. A campainha toca, a empregada passa, o jardineiro liga o cortador de grama. Ele faz um convite para um almoço num templo budista que serve comida vegetariana ali perto. Declino. Prefiro a dispersão confortá-vel de sua casa a conversar num lugar onde preza o silêncio. Ele concorda. Não temos fome, mas Scandurra revela ser um gourmet. "Com o Ira! e essas viagens todas, comecei a procurar conhecer os restaurantes legais nas cidades que a gente ia", ele explica. "Aqui em São Paulo, com minha esposa e meus filhos, também procuro sempre conhecer algum lugar novo." Resultado: ele montou um bistrô.

"O tema do restaurante foi o que mais me levou a ele", Scandurra fala animado. "Tem um cara que é um ídolo para mim, que eu fui descobrir para valer de uns cinco anos para cá, que é Serge Gainsbourg. Comecei a associar as coisas: a culinária francesa com a música francesa, porque aí não é só Serge Gainsbourg. É Jane Birkin e Françoise Hardy. É a nova música do Air, Daft Punk, Laurent Garnier. O segundo andar do restaurante se chama Gainsbar. É o ambiente dele com as fotos das musas. Daí vão sair músicas dos anos 60, 70, e coisas novas, dando esse espaço para a música francesa e para algumas pérolas: o novo disco de Lanny Gordin, por exemplo, e boas velharias à parte. Eu queria fazer um lugar que fosse um restaurante com uma comida francesa legal, que é a me-lhor comida do mundo na minha opinião." Nessa hora, surge a lembrança de uma experiência inusitada, dessas que fazem você parecer estar num filme de Jim Jarmusch. Em alguma noite no final da década de 1990, eu jantava na Cidade do México num restaurante francês que fazia o Roanne, em São Paulo, parecer o quilo da esquina. À minha frente, o diretor regional da Virgin Records no Leste Europeu e sua esposa. Ao meu lado, Rick Bonadio em momento inspirado. Muito se fala sobre seu lado feroz e pragmático. É vero, mas ele também é um cara muito engraçado. Acabou toda a pose quando ele começou a tecer comentários a respeito do tamanho dos pratos, que pareciam travessas, e a esquálida porção gastronômica. Eu me esborrachava de rir com aquele carcamano esfomeado.

Scandurra e Bonadio - duas figuras tão distantes e também tão em comum - poderiam incendiar o estúdio de gravação. "Acho que ele teve uma postura bem de humildade com a gente, de não chegar e ficar ditando regras, de dizer que tem a fórmula", Edgard revela. "Ele ouviu muito a gente, as nossas músicas. Foi um relacionamento muito bacana. Eu, em princípio, poderia até ter uma certa posição defensiva, mas o tempo todo ele falava que estava superfeliz com o disco. A coisa mais legal era que ele falava: 'Porra! O mais legal é que eu estou produzindo uma banda da qual eu era um puta fã'. Ele me tratava como gênio! Uma hora começou a falar: 'Você é um gênio. Como é que você não queria gravar este disco?' Eu saía do estúdio com o ego infladaço."

A questão não estava em não querer gravar o novo álbum, mas ter tempo suficiente para compor boas músicas. Segundo Edgard, no final, a banda tirou de letra. "Acho que a gente tem uma química que nos dá uma certeza que deve incomodar as pessoas que não estão acostumadas com o Ira!", pondera. "O pessoal ao nosso redor ficava meio aflito com os prazos, e a gente: 'Tranqüilo, as músicas vêm, vai dar tudo certo'." Não foi preciso fazer uma coisa assim tão jogada. As músicas vieram de uma forma tranqüila. A gente tem uma autoconfiança que é o resultado dos 25 anos e dos álbuns mais experimentais que a gente tem na nossa carreira. Não foi a primeira vez que a gente entrou num estúdio com menos músicas do que o disco precisa". Nem todas as músicas surgiram assim. "La Luna Llena", a primeira da banda com letra em espanhol, foi composta numa madrugada insone, olhando para a Lua, enquanto Edgard viajava no ônibus da turnê.

A música que abre e dá título ao álbum, por mais urbana que seja, foi feita na praia, com todo o sossego. "Eu fico vendo que aqui na Vila Madalena [bairro paulistano onde mora Scandurra] têm umas pessoas com um perfil meio parecido - meio liberal, independente. Eu reparo que essas pessoas na maioria das vezes ficam cantando, falando sozinhas, andando pela rua. Eu sou um cara que, às vezes, me pego assim", Edgard re-vela. "Existem músicas que ficam na cabeça da gente às vezes por dias, e ficam nos acompanhando na fila do banco, no supermercado, conversando com uma pessoa, sozinho, esperando começar a sessão de cinema. Tem até uma pegada um pouco espiritualista nisso, acho. O invisível DJ parece ser Deus, não é? De certa forma, tem uma coisa divina na vida da gente e isso eu acho que pode ser passado, tanto que a letra fala de uma menina que tem uma vida dura. Ela mexe com lixo tóxico, pega vários ônibus e acorda na madruga para trabalhar. E ela está num ônibus lotado, embalada ao som do invisível DJ. Quer dizer, existe uma coisa que dá vontade a ela de viver, que, às vezes, é essa música interna que faz a gente ter esperança."

Já no meio do trabalho de gravação, de uma parceria com Arnaldo Antunes saiu "A Saga". "A gente tem uma afinidade muito grande. Dos discos que Arnaldo gravou depois de ter saído dos Titãs, participei de todos", Edgard conta. "A gente tem aí, brincando, mais de dez músicas feitas junto. Ele esteve no primeiro disco do Benzina, em várias faixas do Ira! e eu em várias faixas dos trabalhos dele. Foi legal porque é um cara que eu sei que sabe escrever muito bem e muito rápido. E entende essa linguagem urbana que o Ira! tem. Ele me devolveu a letra seis dias depois que eu dei a música para ele. A letra é grande, um tratado. Vai dar até um bom trabalho para o Nasi", ri. Além de enorme, é mod até o talo, daquelas que expressam "fúria com elegância", nas palavras de Nasi, e que poderia se encaixar bem no repertório de qualquer disco deles. Dá a impressão que Edgard Scandurra se anima de novo com a estética que o Ira! ajudou a disseminar no Brasil.

"Saiba que uma comunidade do Orkut foi importante para isso. Tem uma comunidade, Mod Brasil, que resgatou o mod adormecido dentro de mim", ele fala e começa a rir. "São incríveis as festas que os caras fazem nos clubes." Em uma reunião da lendária Faces & Fases, que existia no final dos anos 80, Scandurra fez um show em homenagem ao The Who, em São Paulo. "Vi os caras falando de mil bandas e não falavam do Ira!. Mexeu um pouco com o brio. Falei: 'Peraí! O Ira! foi a primeira banda a falar a palavra mod neste país. Os primeiros a vestir terninhos e dar pulos por aí que nem maluco fomos nós." Ainda assim, mais do que a influência mod ou até mesmo algo de música eletrônica já assimilada no som da banda, Scandurra acha que Invisível DJ é o disco do Ira! que mais se aproxima da tradição do rock nacional. "Vi o [documentário sobre o punk rock nacional] Botinada, é demais!, mas no final os caras falam: 'Ah! Tem umas bandas que pegaram a influência da gente'. E citaram o Ira!. Es-ses caras estão muito equivocados, porque na verdade o Ira! já existia na época em que eles estavam lá falando isso, só que a gente tinha uma vida muito própria, uma coisa meio hermética, o universo do Ira!, sabe assim? A gente estava numa cena e dividia espaço com várias bandas, mas a gente tinha um universo muito nosso, que não batia. Falávamos de anos 60, de rock inglês, e parece que isso ia meio numa contramão de tendências. Mesmo vivendo naquela época new wave, a gente tinha essa contramão. Isso foi uma característica nossa."

Além dos trabalhos solo de nasi e Edgard Scandurra, Ricardo Gaspa e André Jung também desenvolvem projetos paralelos. Empu-nhando um contrabaixo acústico, Gaspa é da atual formação do Henry Paul Trio e se diverte no rockabilly. "Antes do Ira! eu tocava com um monte de gente", ele conta. "Tocava bossa nova com um, fazia jazz com outro ou rock'n'roll. Daí, quando entrei no Ira!, isso acabou& Puta! Agora que eu estou vendo que faz 20 e tantos anos que eu só toco com os caras do Ira!" Ele começa a rir. "O rockabilly é uma divertida válvula de escape. E é legal porque, no final, todas as nossas influências são canalizadas para o Ira! de novo", conclui o baixista.

Quando dá tempo, André se dedica ao Totem, um projeto típico de produtor, em parceria com o produtor musical Carlo Bartolini. Funciona num esquema de gravação e posterior processamento da gravação. "O traba-lho é criado dessa forma e isso possibilita que um cara como eu, que trabalha com percussão, bateria e tal, possa criar camadas, desenvolvendo uma espécie de orquestração no universo da percussão", André explica. Penso em Jim O'Rourke e no que ele fazia quando estava no Sonic Youth, mas sem o lado experimental. "Tem um núcleo fixo de músicos com os quais estou em constante diálogo, mas a gente não ensaiou ainda. Só depois de o disco pronto é que a gente vai ensaiar e descobrir como tocar o disco e levá-lo ao palco." Talvez isso demore um belo tempo. Assim como os outros projetos satélites do Ira! - essa "avalanche des-truidora de trabalhos solo", como define Edgard. Eles têm consciência disso. Estão quase preparados para os momentos perigosos de uma nova turnê. "Para ser bem sincero, acho que não tem tanta complicação", diz Edgard. "Antigamente, eu reclamava, mas agora paro no meio do caminho e penso que, na verdade, sou um felizardo. Tenho um privilégio muito grande de fazer música, de ganhar dinheiro com isso, de poder viajar o Brasil inteiro, de poder fazer shows e ter um público bacana na minha frente cantando minhas músicas, se identificando com as minhas letras e tudo o mais, sabe? Às vezes, a gente corre um risco, principalmente numa banda como o Ira!, que veio subindo degrau por degrau, de em determinado momento ter atingido um degrau que dê uma facilidade. A gente começa a ter um retorno, começa a poder pagar uma escola para os filhos, uma escola melhor do que a escola em que estudou, começa a pagar um dentista que nunca teve, começa a fazer essas coisas e tal. De repente, a gente começa a ter certo conforto e esse conforto dá certa rabugice. A gente fica meio rabugento porque está sossegado, tranqüilo, e fala: 'Ah, não! Fazer esse show? Não precisa!' Porque já tem uma grana e está sossegado. Então, em vez de fazer esse show, a gente poderia estar na praia, em casa. Esse conforto às vezes gera um pouco de materialismo e uma coisa um pouco rabugenta. Então, as reclamações, num determinado momento - a não ser coisas com muita razão, de eu reclamar do som, reclamar das condições de um show, de um contratante, de um cara mal-intencionado, coisas assim -, viram um pouco de capricho, sabe? Em uma banda como o Ira! não dá para dizer que a vida é só flores, num relacionamento tão longo assim. Acho que tem algumas rusgas aí, mas, na verdade, é tudo muito pequeno para reclamar. Eu acho que a gente tem que ser muito feliz e agradecer muito por estar tocando e fazendo shows."

Edgard chegou a esboçar uma música sobre o tema, que acabou não entrando no álbum. "Rock aos 40" será uma futura música sobre o aumento do mau humor, a into-lerância, a não aceitação de bandas novas que são sempre apresentadas como a sensação do momento. "A gente não pode demorar muito senão vai ficar 'Rock aos 50'", brinca o guitarrista. Do alto de seus 45 anos, ele é o caçula dos quatro (ainda que apenas 20 dias mais jovem que Nasi). Numa banda, porém, a meia-idade inexiste e crises podem acontecer por qualquer motivo - o disco que não foi bem aceito, o músico que des-pirocou e se afundou em drogas, o equipamento roubado na turnê. Como qualquer banda, o Ira! viveu algumas delas, mas soube sair ileso. Influências musicais novas e antagônicas não fazem parte da lista de problemas. "Hoje, nós temos dentro do Ira! várias vertentes diferentes da nossa música. No início de uma banda, todas as setas estão numa direção só", Nasi conjectura. "Nós estamos aí completando o chamado 'blue label': 25 anos engarrafados." Pausa para a gargalhada, e o vocalista completa: "É na-tural que você individualize seu gosto, não saímos mais em turma para beber e cair na gandaia". Nem ele, o único solteiro na banda, sente a necessidade de sair a toda hora. "Eu trabalho na balada", explica. "Meu trabalho é música alta, luz psicodélica, gente bebendo e cheia de amor para dar." Nova pausa para gargalhar. "Quando volto para minha casa, gosto de ficar aqui."

Em alguma noite de 1983, pouco mais de 20 pessoas sentadas na arquibancada de madeira do espaço Lira Paulistana, em São Paulo, assistiam ao IRA (na época, com todas as letras maiúsculas, como a sigla do Irish Republic Army, o Exército Republicano Irlandês) satisfeitas em encontrar algo novo, por mais inconscientemente familiares que fossem as notas que saíam das cordas inversas do guitarrista canhoto. O vocalista magrelo, de cócoras e olhando distante em direção a nós, na platéia, entre um solo e outro, não pensava em crises. Também parecia não fazer idéia de que sua banda entraria no primeiro escalão do rock nacional.

"Somos uma banda clássica de rock no melhor sentido: um lead singer atrevido e esquentadinho, um guitarrista maluco e virtuoso, um baixista impávido e musicalmente preenchendo os espaços vazios no campo e um baterista dando o ritmo", Nasi sintetiza. O Ira! mudou menos seu som do que suas novas e diferentes predileções musicais. Melhorou o quanto a idade permitiu. E finalmente conseguiu, por conta disso tudo, o efêmero posto de maior banda de rock do Brasil. Pelo menos por enquanto.