Lobão macho alfa

Traidor do esquema independente? Doidão incoerente? "Eu sou livre!", uiva Lobão a bordo de seu acústico

Luiz Cesar Pimentel Publicado em 02/08/2007, às 11h32 - Atualizado em 01/09/2007, às 17h44

"[Gravei o Acústico MTV porque] eu mereço. É um presente que estou me dando"
André Vieira

Aponte aérea não consome mais do que 50 minutos. Vale pelos segundos finais, quando ao se aproximar do aeroporto carioca Santos Dummont tem-se a sensação de que o avião emergiu de um oceano de prédios paulistanos e está prestes a pousar no mar que banha a Baía de Guanabara. No vôo JJ3942, da TAM, o comandante Sousa Filho soube compensar a espera de 40 minutos na pista até a decolagem com o que chamou de "vôo panorâmico", contornando a mais famosa orla brasileira. Tenho a sorte de ter as duas outras poltronas da fileira livres para ir à janela e observar. Tenho a falta de sorte de as duas poltronas estarem vazias, pois uma seria ocupada por Lobão e a outra por sua mulher e braço-direito-nos-negócios, Regina. Começaria na decolagem a entrevista que originou esta matéria, o papo motivado pelo desde a gênese polêmico projeto Acústico MTV Lobão. "O trânsito em São Paulo tá foda. Estou pegando o vôo na seqüência. Me espera", intimava o lobo em recado na minha caixa postal. Lobão só apareceria cinco horas depois na Toca do Bandido, estúdio na Estrada de Jacarepaguá, do falecido produtor Tom Capone, onde estavam sendo lapidados disco e DVD.

Espero com o novo parceiro de Lobão, o produtor Carlos Eduardo Miranda. Ouvimos algumas músicas, e quando o personagem chega, esbaforido, de bermuda de tactel estampada, tênis de cano alto verde e camiseta pólo da mesma cor, não leva três minutos para que o gravador seja ligado no estúdio, onde estamos só os dois, uma bateria e uma parede com dezenas de guitarras e baixos de Capone, expostos como obras de arte.

Opto pelo que normalmente seria o pior approach: partir direto ao ponto, ao fígado. Mas quem acompanha a carreira de três décadas de Lobão sabe que o que cheira a pior costuma ter o estranho impulso de se transformar no mais saboroso.

"Por que você resolveu estampar um alvo tão grande no peito?". Nas duas horas e 12 minutos em que o gravador está ligado, teria a chance de outras 18 intervenções. No total, ele deixou que eu falasse 204 segundos. Fosse uma apresentação musical o nosso diálogo, Lobão teria solado durante 97,7% do tempo.

Lobão é o macho alfa da matilha. De todas as que criou. Cantando, compondo, tocando ou na partilha da palavra e das decisões. Penso nos textos que havia lido até então sobre a expectativa em relação ao Acústico MTV. Não encontrara um em que a caneta não estivesse apontada ao lobo como traidor. Traidor dos próprios princípios e da defesa do esquema independente. Penso nos últimos 30 anos do músico que está à minha frente, desde a saída estratégica da Blitz, um dia depois de posar com sorriso de orelha a orelha na capa da revista IstoÉ como dono das baquetas da sensação da música em 1982. Esperar coerência de Lobão é assinar um atestado de ingenuidade.

"(Gravei o Acústico MTV porque) Eu mereço. É um presente que estou me dando. Adquiri uma liberdade que ninguém no Brasil tem, uma dignidade que poucos artistas têm e um patrimônio musical que poucas pessoas no país construíram", devolve.

Mas e o mercado independente, meu caro? E a sua batalha iniciada em 1999 pela moralização da música? Todos os ataques às gravadoras e seus esquemas de jabá (pagamento para que determinado artista ou faixa toque nas rádios e TVs)? A luta pela transparência na numeração dos discos? São as perguntas que nem oportunidade de fazer tive. O músico as responde mesmo assim, já que o tópico é tão latente que estão subentendidas.

"Neguinho fica nessa: 'Lobão independente é que vale'. Eu tenho que defender meu patrimônio. Independente é o caralho! Eu sou livre. E sou independente. Inclusive para entrar em uma gravadora e falar: 'Vou fazer isso e isso'." Bom, agora a contradição é minha, afinal alguém espera mais coerência que isso?

O primeiro passo do lobo no mercado alternativo foi uma imitação da estratégia do comediante Ari Toledo. Despachado pela gravadora Universal por não aderir à campanha contra a pirataria, um dia, Lobão passa pela banca de jornal e vê um CD do comediante encartado em uma revista - uma publicação pró-forma, apenas para driblar a exigência de que um produto como um disco só pudesse ser distribuído nas bancas do país se estivesse encartado em uma revista. Pouco tempo depois, ele coloca nas bancas A Vida é Doce. Vendeu 97 mil cópias. Animado, em 2001, lançou um disco ao vivo, 2001: Uma Odisséia no Universo Paralelo. Foram vendidas 18 mil cópias.

"Em 2005, lancei Canções Dentro da Noite Escura, que levou quatro anos para ser feito, mas também foi um fracasso. Ninguém ouviu. Um mês e meio de banca e não chegou a 20 mil cópias. Eu faço letra, música, arranjo - isso tudo demanda muita energia. Percebi que não podia mais sair em banca. A minha revista [OutraCoisa] não me comporta mais", dá prosseguimento à história.

"Tudo o que fiz na música independente foi por puro egoísmo. Se ajudei a terceiros, e até ajudei, foi por circunstância e sobra", emenda, em um upper. "Estou criando um arcabouço mais confortável para que possa me reinserir no mercado. Mesmo porque não sou filantropo nem quero ser político. Luto pelo meu espaço, para que possa continuar tocando." Nocaute. Ou mordida na orelha?

Seja o que for, a luta ainda não terminou. Ao final do ano, logo depois de comemorar o 50º aniversário do artista, a BMG/Sony relançará toda a obra de Lobão remasterizada, de Cena de Cinema (1982) a Canções Dentro da Noite Escura (2005).

"Pensa no meu repertório. Só Neil Young e Bob Dylan têm algo assim. O Acústico tem 20 músicas e poderia ter 40. Tenho a maior quantidade de hits aglomerados de toda essa geração", grunhe em defesa à cria. Acústico MTV já foi CTI para artistas moribundos salvarem a própria obra. Neste, consegui as versões definitivas das minhas músicas. Não tem uma que não dê banho na original. São 21 canções que me defendem."

Pouco antes de Lobão chegar, Miranda sugere uma cadeira para que possa desfrutar do tratamento que está dando para o DVD. "Ali, você sente melhor o [sistema de som de] 5.1 [canais]", promete. O set-list favorece: "Rádio Blá, "Essa Noite Não", "Decadence Avec Elegance", "Revanche", "Chorando no Campo", "Me Chama"... "Não escolhemos só por serem hits - escolhemos as que eram canções mesmo, que funcionassem melhor em formato acústico", diz Miranda.

O produtor fala com propriedade. Quando da formação da dupla com o lobo, escolheram o repertório juntos, moldaram o esqueleto das músicas apenas no violão e voz e foram acrescentando o restante dos instrumentos um a um.

Miranda é um ser humano que se faz entender melhor pela música. A cada instrumentista que era integrado ao time, ele fazia uma seleção musical e enviava para o escolhido captar pelo ouvido a idéia. Calexico, Wilco, Nick Drake, Josh Rouse, obscuras (por aqui) figuras do folk, folk-rock, alt.country, todos viraram amigos íntimos dos músicos. Dois meses de ensaios dia-sim-outro-também e estavam prontos para a gravação, que aconteceu em São Paulo, em dezembro passado.

Do arsenal, fizeram parte banjo, violão de 10 cordas, violão de 12 cordas, barítono, bandolim, entre outros. "Gastamos 200 paus só em violões", resume Lobão.

"Sabe o que é pior? Artisticamente, é meu melhor disco."

Opinião subjetiva, além de carregada, obviamente, de interesse demais para ser avaliada, contestada ou comentada. Opinião pessoal? Se for analisado puramente pela qualidade musical, o projeto ganha quatro estrelas de cinco possíveis. Mesmo que Lobão esteja (muito) mais gritando do que cantando.

Ao final da primeira fita, Lobão cansa. De dar entrevista. Precisa de um estímulo diferente. Já passa das 23h e propõe uma pizza. Sugere que vejamos algumas músicas prontas do DVD. No caminho, pára na sala de controle e quer ver o que foi feito no dia, enquanto ele passou a jornada em São Paulo em reuniões e visita ao oculista.

"Do caralho, do caralho", aprova, depois de ver e ouvir "Você e a Noite Escura". Muda o tema repentinamente. "Preciso operar o olho", aponta para os óculos, utensílio desarmônico em seu rosto. Uma armação estilo ray-ban, dourada, oitentista, que enverga em contraste aos cabelos longos e à roupa que mistura estilos surfista-sóbrio-garotão-não-ligo-pra-nada-e-dirijo-em-disparada.

O músico já foi tudo. Gordo, magérrimo, fashion, topetudo, esbarrou no punk, foi romântico, poeta, escreveu sobre coisas fofinhas e geopolítica, levou o samba ao rock. E levou latadas por isso, em episódio histórico no Rock in Rio de 1991. Reagiu como se esperava. Apresentou "Vida Louca Vida" e "Canos Silenciosos" a um público aquecido pelo Sepultura, tomou umas tantas latas na cabeça, que cobriu sabiamente com um capacete, e deu por encerrada a apresentação: "Quero que vocês vão tomar no cu. No cu. No cu".

No mesmo dia, conheceu a mulher, Regina. "Fui lá levar lata e saí com minha gata", diverte-se com a rima. "Metaleiro para mim é que nem corintiano. Todos têm um QI 'duuuuhhh'", diz, enquanto gesticula como um retardado.

Ter sido enxotado do palco pelos "retardados" mais o diverte do que o envergonha. Não existe tabu na conversa. E se é para repassar a carreira, que seja inteira. Mostra isso incluindo no disco "O Mistério", música do Vímana, banda de rock progressivo da qual fez parte no final dos anos 70 ao lado de Lulu Santos e Richie.

Lobão diz ter ligado para os dois, para falar que a gravaria. "Mas eles nem lembravam da música. Só a tocamos em ensaio, nem chegamos a gravar. Lembrei durante um porre", diz.

Tento falar com Lulu Santos. Sobre a música, sobre essa época, sobre os caminhos originados ali, sobre qualquer coisa. Mas dou com a porta na cara. Lobão diz ter uma relação cordial com seu ex-companheiro de Vímana, mas admite que não é lá essas coisas: "Manter boa relação com cara de banda que acabou é difícil mesmo". E emenda: "Meus inimigos ou são pessoas que não me entendem ou são pessoas que me entendem demais. Geralmente meus antagonistas têm amor e ódio por mim, o que acho muito lisonjeiro".

Mas o lobo precisa de sangue novo. Assim, traz para o disco igualmente a turma nova. Divide o palco com os gaúchos da Cachorro Grande, da qual lançou o segundo disco, As Próximas Horas Serão Muito Boas, na revista OutraCoisa.

Pampas que emprestaram igualmente Miranda, seu novo parceiro de arruaças. "Somos o rodo e o pano de chão", resume. "O último cara que vi com a energia do Miranda foi o Júlio Barroso. Ele é um puta empreendedor e tem uma energia e conhecimento absurdos", conclui.

Chega a pizza. Tempo para o lobo terminar mais uma etapa da entrevista com um repente: "Chega de rebolado / Quadril reto, peito pra dentro / General Vãosefu-der falando / Paudurecência" (três vezes).

Ele adora o termo "paudurecência". Adora também usar a palavra "porra", e a emprega em quase todas as frases, certas horas repetidas vezes na mesma. E não se importa em ser chamado de doidão. Sabe que para o cidadão-médio-brasileiro, é isso mesmo o que ele é.

Em 2006, Lobão participou de um programa especial de verão na MTV. Anna Butler, poderosa diretora de relações artísticas da emissora, comentou que ele era o rei de fazer coisas novas, que já tinha feito dois discos ao vivo e se não era hora de pensar em um acústico.

"Estávamos em Florianópolis, gravando um programa especial com a Pitty e com ele também. E o Lobão veio falar que queria gravar um Ao Vivo MTV. Achei que já que ele tinha aberto uma portinha, por que não invadir a casa? Falei que achava que Ao Vivo ele já tinha feito muitos, que do grande caralho seria se ele gravasse um Acústico. Um programa lindo, que reuniria os maiores sucessos, os lados B ou não, que seria a oportunidade de ele revisitar a obra, refazer arranjos e ter tudo isso registrado pela MTV. Ele não se interessou muito. Encerramos a conversa e continuamos com a vida normal. Até que, num belo dia, a Regina ligou dizendo que ele tinha pensado muito e que achava que era uma grande oportunidade de fazer exatamente tudo que mais queria. Aí, formou", conta a diretora da MTV.

"Já tinha feito um ao vivo mais recente, em 2001 [o anterior, Vivo, é de 1990]. Mas foi tão inexistente que decidi fazer este por uma gravadora. Ventilei isso e imediatamente chegaram três convites", narra os passos seguintes o personagem principal.

A recepção do mercado soprava a favor. Mas contra ele existiam todas as batalhas que iniciou desde que decidira por força maior seguir a rugosa trilha independente brasileira. Percebeu isso de cara, quando lançou a batalha pela numeração dos discos, o que traria transparência nas vendas. "Colhi 5 mil assinaturas, e uma semana depois, estavam todos falando mal de mim. Menos a Beth Carvalho e o Frejat." O lobo estava só. "Há dois tipos de pessoas no Brasil. Ou você fica sem nenhum ideal, sem nenhum instinto ético, formando alianças espúrias, ou você se torna inflexível, xiita, como a esquerda festiva. Não sou nem um nem outro", justifica o eterno desencaixe.

Embalamos um terceiro tempo na entrevista. Ele está mais manso. Quando retomo o assunto das brigas que iniciou durante o período independente e se não tem a menor culpa em estar decepcionando alguns, diz que está acostumado a fazer o que lhe dá na cachola na hora que o vento der uma brecha. Conta a história de sua fuga do país na ocasião de seu terceiro mandado de prisão para ilustrar. "Passei seis meses fugido em Los Angeles para não cumprir pena. Fui preso com galho de maconha e não queriam me dar hábeas corpus. Fui embora para não passar fome. Levei tudo o que tinha, não sei quantos mil dólares. Falei: 'Vou gastar tudo. Foda-se'." Não gastou tudo, e voltou com um bom disco na mala, Sob o Sol do Parador.

Lobão tinha 32 anos na época. Em outubro próximo completa meio século.

Não dá pistas disso, nem no porte, nem nas roupas, muito menos nas citações, no gosto musical, afoito à caça de novidades, no interesse atual pelas possibilidades de criação que o computador lhe confere. Recentemente, comprou um iPod, que lhe revelou a predestinada falência do formato disco. O compositor está atrás de outras formas e conceitos de apresentação de seu trabalho, seja por singles, liberando para download, mas admite que inevitavelmente não fugirá da apresentação conceitual que um CD lhe proporciona. "Demanda muita energia, mas é como escrever um livro."

Para tudo, ele possui uma história, o que confere uma vantagem enorme em um diálogo quando se é possuidor de uma alma afoita pela verbalização. Para tudo. Seus assuntos prediletos são personalidades polêmicas. E emenda o encontro marcante que teve com o eterno boêmio Nelson Gonçalves. "Cheguei todo educado para falar com ele: 'Como vai, seu Nelson?'. E ele: 'Seu Nelson é o caralho. Eu sou você anteontem'.", conta rindo. Narra seu case preferido, quando o cantor teria seqüestrado um colombiano por dois meses e obrigado o sujeito a produzir 2 quilos de cocaína. "Ele ficou dois anos sem sair de casa, cheirando. Ele tinha um lema que era ótimo: 'Onde houver botequim, puteiro e violão, haverá Nelson Gonçalves cantando uma canção'", gargalha.

O submundo o fascina. Ele emenda outro caso da época em que ficou visado pela polícia: "Virei mascote do CV [Comando Vermelho]. Aprendi a atirar de bazuca, um tenente-coronel me dava aula de tiros toda quinta-feira, contratado por um cara de uma boca [-de-fumo]."

Mas isso tudo é parte de uma história que não será levantada enquanto o Acústico MTV estiver nas lojas e seus discos forem relançados por uma major que ele tanto amaldiçoou em tempos recentes. "Porra, eu sei que as pessoas vão ficar nessa de: 'Por que o Lobão está aprontando?'. Ora, porque sim. Porque estou a fim de fazer um Acústico. Eu quero e tenho moral para fazer. E vou morrer de rir quando e se as músicas [da fase independente] tocarem nas rádios", afirma. A história está ao lado dele, e Lobão sabe bem disso. Ele dá pistas dos próximos capítulos. "Beethoven, Strauss, Jorge Luis Borges, Cartola... Sempre procurei ícones, exemplos, que tiveram o apogeu na senilidade. Não estou tão velho, mas estou ficando melhor. E feliz com isso." Na prática, isso significa o quê?

"Estou a fim de fazer uma arruaça - não estou com vontade de pendurar as chuteiras. Quero montar uma banda em que seja apenas baterista - que não componha, cante, nada, só toque bateria." "Que estilo será essa banda?", pergunto. "Lobônico, claro. Mas quero o anonimato." Retruco: "Como assim?". "Não, anonimato, não", corrige-se prontamente.

Luiz Cesar Pimentel é jornalista, autor do livro Sem Pauta (Ed. Seoman), fruto de suas andanças pelo mundo, especialmente a Ásia.