Teatro Mágico

Tudo o que você sempre quis de um universo hippie-lúdico, mas não sabia onde encontrar.

Juliana Lopes Publicado em 01/08/2007, às 16h11 - Atualizado em 11/09/2007, às 11h42

"Nós somos uma trupe de circo. teatro, música e poesia. Os músicos tiveram que fazer oficina de teatro; e os atores, de música"
Nino Andrés

Mocinhas e rapazes, tragam seus malabares: este, definitivamente, não é um show pop. Mas, se a palavra pop designa também algo que está sendo muito bombado, então o Teatro Mágico é pop, levando multidões cada vez maiores às apresentações.

Com três anos de existência e contando apenas com o boca-a- boca, o Teatro Mágico já fez mais de 800 shows. Nada mal para uma trilha indie que partiu da periferia de Osasco (SP) e acabou espalhando-se para outros estados. O segredo? Provavelmente o fato de as melodias neo-mpb e neo-hippie serem embaladas em um espetáculo circense catártico. A moçada à caráter de circo e famílias de pais e crianças formam uma legião de seguidores, lotam comunidades e sites, postam gravações de shows no YouTube e assumem uma espécie de fanatismo. "O Teatro Mágico surgiu porque eu sempre freqüentei muitos saraus, oficinas de teatro e circo", explica o fundador, ou "palhaço-mor" Fernando Anitelli, 32 anos, criado em Osasco, com o violão sempre nas costas. "Nós somos uma trupe de circo, teatro, música e poesia. Os músicos tiveram que fazer oficina de teatro e o atores tiveram que estudar música", diz Anitelli.

Espécie menos sofisticada e mais circense de Jonathan Donahue (vocalista-guru do Mercury Rev), Anitelli comanda o palco com ares de um Oswaldo Montenegro mais religioso, bradando poesias de fé em um clima onírico, com meninas penduradas em fitas coloridas, palhaços em trapézios, fogaréu e malabares. "A platéia faz ciranda, senta no chão, eles vão vestidos de palhaço, alguns trazem seus violões. Vai senhor, senhora, criança, jovem, punk, gente do hip-hop."

Antes de montar a parafernália de pessoas para o show, Anitelli comandou sozinho a gravação do primeiro CD, Entrada para Raros, em 2003. O dinheiro gasto, uns US$ 3 mil, ele juntou trabalhando como garçom durante um ano em Salt Lake (Estados Unidos). Foi lá que teve a idéia de abocanhar o título Teatro Mágico, presente no livro O Lobo da Estepe, de Herman Hesse. Na volta ao Brasil, saiu angariando apaixonados e artistas que admirava para participarem das gravações. A presença de Ortega, guitarrista do Pavilhão 9, foi mais fácil, já que era um amigo na adolescência. Aproximou-se da percussionista Simone Soul (Funk Como Le Gusta), oferecendo-lhe um vídeo que havia feito de shows dela. Foi atrás de alguns músicos do Cordel do Fogo Encantado que estavam no bar de um amigo. Ele convidou, ao todo, 20 pessoas. "Quis fazer uma ampliação do sarau, de música que fosse fácil repetir em casa, nas rodinhas de violão", explica.

A essência do disco é de nova mpb feita de variedades eletrônicas e artesanais com influências de Lenine, Antonio Nóbrega e Zeca Baleiro. Anitelli abusou dos instrumentos (guitarra, violão de cordas de aço, percussão, baixo, bateria, gaita, flauta, violino, teclado), das "coisas que fazem barulho" (como voz de secretária eletrônica) e também dos samples, efeitos e bases. "Uma Parte que Não Tinha" é uma das canções mais sólidas, que existe além-espetáculo. A base é de drum'n'bass com uma pitada de maracatu. "Ana e o Mar" é romântica adolescente, faz o povo cantar junto. Os versos, carregados de viola, às vezes lembram o espírito de um Legião Urbana mais rural e cancioneiro. Anitelli diz que em alguns momentos se inspirou em "acordes tristes" à la Radiohead, mas, no geral, a harmonia musical forma um conto linear de fácil acesso, respeitando a proposta geral. Com 19 músicas, Entrada para Raros foi lançado sem gravadora, custando R$ 5, e vendeu mais de 40 mil cópias. E o artista, a favor do que chama de "pirataria inteligente", instiga os compradores a copiarem o CD para os amigos. E quem quiser baixar as músicas certamente encontra o caminho, tanto pelo site oficial quanto pelo Orkut.

O próximo disco, Segundo Ato, vai ser lançado no segundo semestre. Um terceiro CD fechará a trilogia - talvez os fãs se decepcionem com a notícia - que encerrará o Teatro Mágico. O projeto vai durar mais uns dois anos e depois, o rei da trupe deve mergulhar no universo infantil-cabeça, seguindo a linha técnica e conceitual do compositor Paulo Tatit. Mas até lá ainda há tempo de os empolgados comprarem mais um nariz de palhaço.