A Vida na (Des)Ocupação

O fim da ocupação do edifício Prestes Maia, em SP: acordo inédito entre poder público e MSTC decide o destino de 468 famílias e 17 mil livros

Cleiton Campos Publicado em 02/08/2007, às 15h21 - Atualizado em 20/02/2013, às 14h58

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Francisco Prestes Maia (1896-1965), duas vezes prefeito de São Paulo, entrou para a história da cidade como seu urbanista maior. Mas, em uma ironia de fazer o ilustre finado se remexer no túmulo, seu nome também batiza um desses erros crassos da vida metropolitana: uma ocupação sem-teto. Efeito colateral de um século de êxodo rural e total falta de planejamento urbano. Quantas vezes você já não ouviu esta manchete: "Sem-teto (ou terra) invade edifício (ou fazenda) e entra em conflito com a polícia (ou outras milícias)"? Não é de hoje que a questão da moradia é pauta. Basta lembrar que a primeira edição do romance-denúncia O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, data de 1890.

O Prestes Maia é um edifício que se divide em duas torres a partir do primeiro andar. O bloco A, com nove andares e vista para a rua Brigadeiro Tobias, ainda exibe o imponente letreiro da falida Companhia Nacional de Tecidos. Hoje em dia, a entrada é pela paralela, no número 911 da avenida Prestes Maia, pelo bloco B, um arranha-céu de 22 andares. Alguma espécie de carma há de ligar o imóvel aos panos: os atuais proprietários também vêm do ramo têxtil. Jorge Hamuche e Eduardo Amorim arremataram o prédio em leilão há quase 17 anos. Literalmente entregue às moscas e a toda sorte de seres peçonhentos, incluindo aí traficantes e nóias, o edifício permaneceu lacrado por 12 anos, até a madrugada de 3 de novembro de 2002, quando foi arrombado o cadeado que dividia os direitos de moradia e propriedade - ambos legítimos, mas incompatíveis com a realidade de São Paulo.

Agora, aquele seria o lar improvisado de 1630 pessoas, entre elas 315 crianças. Uma multidão diversa, com pouco em comum, exceto pela busca do direito a viver na cidade em condições dignas. Dizem pelos corredores que a maioria aqui vem do Maranhão, mas encontram-se representantes de todos os estados do Brasil. Além de muitos bolivianos que, em São Paulo, vendem barato sua mão-de-obra na (novamente ela) cadeia produtiva têxtil.

Muitos estavam em situação de despejo. Vieram dos cortiços, das favelas, de outras ocupações e, claro, das próprias ruas - 468 famílias inteiras, a maioria sobrevivendo com menos de três salários mínimos, em seus barracos de madeirite que dividem igualitariamente os amplos andares do edifício. O termo barraco pode soar pejorativo, mas é assim que os moradores se referem às próprias casas. As paredes das escadarias são todas pichadas. As principais torcidas organizadas estão representadas nos grafites: Gaviões da Fiel, Independente, Torcida Jovem. O lugar até poderia parecer mórbido. Se não fosse o inacreditável número de crianças, que deixaria até São Cosme e Damião espantados. Correndo pra lá e pra cá, jogando capoeira, bola e andando de bicicleta, a molecada está por toda parte. Muitas ali são mais jovens do que a própria Ocupação.

A batalha dessas famílias ganhou destaque na imprensa. Talvez pelo seu tamanho, talvez pela contradição de que os donos do prédio acumulavam uma dívida em IPTU que se aproximava do valor do imóvel, ou ainda por sua incrível biblioteca, também pela presença constante e barulhenta de uma rede de colaboradores: ativistas, artistas, estudantes, professores, políticos, documentaristas. Além dos incontáveis documentários independentes que têm o Prestes Maia como tema, dois filmes já levaram essa discussão à telona: Dia de Festa (2006), de Toni Venturi, e À Margem do Concreto (2006), de Evaldo Mocarzel - que ouviu a notícia de que a Ocupação seria despejada e vislumbrou uma boa oportunidade para filmar. "Chegando lá, percebi um fenômeno muito interessante: os sem-teto filmavam os policiais e os policiais filmavam os sem-teto. Era uma briga de câmeras. A polícia querendo flagrar atos de vandalismo e os sem-teto querendo pegar os atos de truculência. Era uma provocação audiovisual", ele explica.

A maior ocupação vertical da América Latina e, muito provavelmente, do planeta, foi também a mais noticiada. A história desse mundo à parte, que se desenhou em um edifício abandonado em pleno centro degradado, continua sendo repetida, dos Centros de Mídia Independente à rede BBC. "Os repórteres e paparazzi viviam aqui. Agora que a gente tá indo embora - que vai terminar - não aparece mais ninguém pra contar a história", reclama no hall da entrada Dona Marly, uma negra simpática que se recusou a gravar entrevista. "Não falo mais com a imprensa. Cansei. Vocês vêm aqui, tiram foto da gente, prometem mandar um exemplar da revista quando sair, e nunca mais aparecem", se justifica, evidenciando a relação de amor e ódio entre os moradores e a mídia, que se por um lado demonizava-os, por outro, mantinha a temperatura do assunto, uma boa arma contra as constantes ameaças de despejo.

Os proprietários entraram com o pedido de reintegração de posse imediatamente após a ocupação. "Pelo tamanho do imóvel, a gente pensava que não ia conseguir ficar. Esta é a 29ª tentativa de despejo que enfrentamos. A Polícia Militar chegou até a fazer assembléias com o pessoal, explicavam que, se as famílias não saíssem, teriam de tirar, querendo intimidar...", recorda Ivanete Araújo, coordenadora-geral do Movimento Sem-Teto do Centro (MSTC). "Chegava sempre na última hora, na véspera, a gente conseguia suspender a reintegração para mais 60 dias. E de 60 em 60 fomos ficando quatro anos e meio, graças a nossa luta e a todo o apoio que recebemos", comenta sem esconder o orgulho da conquista. A ajuda se manifestou até fora do país. Vale a pena assistir ao vídeo Ato Prestes Maia em Londres, no YouTube - o registro de um protesto contra a ameaça de despejo de fevereiro de 2006, na embaixada brasileira, onde os ativistas foram recebidos pela secretária de direitos humanos.

Ivanete tem 34 anos, é mãe de três filhos, e há pouco ganhou o primeiro neto. Ela também mora em um prédio ocupado pelo Movimento, na rua Mauá, nº 340, onde vivem cerca de 150 famílias. Articulada e com um discurso firme, ela conta como entrou para a luta da moradia há dez anos: "Eu era casada e meu marido ficou desempregado. Não pôde mais pagar aluguel, daí fiquei em situação de rua com meus filhos. Fomos morar embaixo do viaduto do Glicério". O ex-marido começou então a freqüentar as reuniões de base do movimento. Ivanete discordava, não achava justo invadir, "era o termo que falava na época". Pensava ela que se passava necessidade, era culpa do destino, Deus assim queria. "Minha primeira ocupação foi a do hospital Matarazzo, em 3 de maio de 1999. Fui ainda sem concordar. Eram 245 famílias." Sua primeira tarefa foi ajudar no cadastramento de todo mundo, em um caderno que ficava na portaria e servia para impedir a entrada de elementos estranhos à ocupação. "De moradora de rua a coordenadora-geral do movimento, que chique, não?"

As primeiras 48 horas de uma ocupação são as mais tensas, porque a polícia pode tentar entrar a qualquer momento. A partir do terceiro dia, só pode entrar com ordem judicial. Com a posse do Prestes consolidada, veio a parte difícil: tornar a área habitável. Organizou-se um mutirão de limpeza, que removeu mais de 300 caminhões de lixo e entulho. No subsolo, um amplo salão jazia submerso em dois metros de água parada sabe Deus há quanto tempo. Difícil imaginar uma imensa piscina de puro lodo em pleno centro da cidade. Mais difícil ainda é acreditar que, no mesmo subsolo, hoje repousa uma coleção de quase 17 mil volumes entre livros, revistas e gibis, tão sem-teto quanto Severino Manoel de Souza, 57 anos, o herói que acumulou o tesouro enquanto recolhia materiais recicláveis do lixo. Um oásis que atende não só aos moradores, mas leitores das proximidades. Difícil também é imaginar como o morador do 8º andar, pernambucano da pequena Orobó, ainda consegue conciliar o carrinho de sucata e a administração do acervo que, felizmente, não pára de crescer graças às doações constantes. A única ajuda vem da companheira Roberta Maria da Conceição, também catadora de recicláveis, e dada a escrever poesia.

Seu Severino nunca freqüentou a escola, o que não serve de parâmetro para medir seu amor às letras. Quando tinha 13 anos, foi ajudar a descarregar um caminhão de mudança em Recife, mas acabou se perdendo. Sem saber ler, andou de um lado ao outro e passou a noite toda em um ponto de ônibus, sem saber que direção tomar. "Botava a mão no queixo e pensava: quem não sabe ler é cego, burro e tapado. Não tem um caminho para seguir. No outro dia fui na banca de jornal e pedi: 'Vosmecê tem uma 'carta de ABC?'". Severino lembrou-se que tinha um tio alfabetizado, a quem pediu para tomar as lições da cartilha. Primeiro aprendeu as vogais, depois as consoantes, a mistura das duas, e assim o menino sertanejo escreveu seu nome com um pedaço de carvão. Um ano depois, ainda tinha dificuldades na leitura, mas já havia ensinado 231 pessoas na cidadezinha a escrever o próprio nome, segundo suas próprias memórias. Ele chegou a São Paulo ainda nos anos 60, com o sonho de ser engenheiro da construção civil. Mas o ramo já lhe deu azar logo de cara, enquanto fazia o acabamento de uma fachada caiu do andaime de uma altura de nove metros. Por pouco sua biografia não terminou ali. O tombo não o matou, mas deixou seqüelas. "Tenho que tomar remédios para a circulação. Não posso ficar parado que minhas pernas começam a latejar." São Paulo não foi totalmente ingrata: foi na cidade que Severino encontrou a também pernambucana Dona Roberta, que trabalhava vendendo frutas em uma banca no centro. O casal comemorou os dez anos junto, contrariando a máxima que diz "Onde a miséria bate à porta, o amor pula a janela".

O casal alcançou uma relativa estabilidade financeira, com uma banca de frutas selecionadas nas ruas do centro. Morava em um apartamento alugado na avenida Rio Branco, perto do ponto onde trabalhava, e até contava com uma reserva, que sonhava um dia gastar na casa própria. "Eu ia de madrugada ao Mercado Municipal e escolhia as frutas mais bonitas. Porque onde está a boniteza, tem gente vindo atrás. Mas aí começou uma perseguição muito grande aos ambulantes quando a Marta [Suplicy] era prefeita, acabei perdendo mais de 16 mil reais, foi um impacto muito grande." Severino não esquece o prejuízo e a correria para fugir do rapa. A cicatriz em sua cabeça não permite. "Um dia veio o fiscal da prefeitura com a Guarda Civil Metropolitana. Correram atrás de nós e fomos entrando no prédio em que a gente morava. Eu tava quase na porta quando o fiscal pegou um pedaço de madeira e desceu na minha cabeça. Tomei 12 pontos."

A vocação de Severino é de fato transmitir conhecimento, não é à toa que ele sempre esteve envolvido com as atividades culturais desenvolvidas no Prestes. Seja nos eventos e ações dos coletivos de arte que freqüentaram a ocupação, seja ministrando oficinas de eletricista aos moradores interessados. Mas o que de fato chamou a atenção da imprensa foi a Biblioteca Comunitária Prestes Maia. Alvo principal de inúmeras reportagens, os livros deram contornos mais humanos ao problema. Mais do que bom-mocismo, a iniciativa se tornou estratégica para legitimar a própria causa dos moradores. Carta Capital, Isto É, Folha de São Paulo - Severino costuma medir a repercussão de cada matéria sobre ele de acordo com o trabalho que tem no dia seguinte. Ao atender os telefonemas das doações que aparecem, convites para palestrar, estudantes querendo fazer trabalhos sobre a biblioteca, etc.

Tanta publicidade assim também deu dor de cabeça. Logo, alguns moradores começaram a se ressentir da popularidade de Severino. "O pior foi o preconceito. Dizia que o pessoal só vinha aqui por causa da biblioteca e esquecia do movimento. Já aconteceu de gente aparecer lá na portaria perguntando pela biblioteca e dizerem que o 'dono' dos livros tinha saído... Foi muito duro", defende-se sem admitir que talvez tenha de fato se envaidecido. Severino tem alma de artista, e como todo artista, precisa lidar com as questões do ego. Em uma pilastra de sustentação do edifício, está uma fotografia de Severino em tamanho natural, na pose de O Pensador, de Rodin. Iconizado pelos artistas que passaram por lá, Severino parece preocupado com o destino do acervo.

Na capital brasileira da muamba, a rua 25 de Março, Jorge Hamuche nos recebeu em seu escritório, no mezanino de um depósito, repleto de pilhas de peças de pano de 3 ou 4 metros de altura. "Só porque não pagamos o Imposto Predial, eles podem invadir? É um direito do poder público me tomar, não deles", defende-se o industrial, dono do Prestes Maia, que já esteve bem próximo de ter o edifício desapropriado. A administração Marta Suplicy chegou a dar início ao processo. Na época, o edifício foi avaliado pela Caixa Econômica Federal em R$ 7 milhões e a dívida em IPTU (Imposto Predial de Território Urbano) chegava aos R$ 5,8 milhões. Mas o negócio foi interrompido porque a justiça exigiu que a prefeitura depositasse em cartório a diferença, o que nunca foi feito.

Hoje a dívida está na casa dos 3 milhões, segundo a Secretaria de Negócios Jurídicos da Prefeitura. A dívida foi reduzida porque foi beneficiada pelo PPI (Programa de Parcelamento Incentivado). Em sua mesa bagunçada de papéis e amostras de tecidos, Hamuche calcula os prejuízos: "Eles ficaram lá quatro anos e meio, não pagaram nada, não cobramos nada. E o imposto predial correndo. Quer dizer, parte dessa dívida é deles! Se eles nos pagassem ao menos o valor do imposto, nós os deixaríamos lá ad eternum".

Seu Jorge, como esse descendente de libaneses é chamado pelos vendedores que a toda hora interrompem a entrevista, acha que, se o prédio fosse público, o governo já teria dado um jeito de tirar todo mundo de lá. Ao comprar o Prestes Maia da antiga tecelagem, os novos proprietários pretendiam alugar o espaço para fins comerciais. "Mas aí teve uma crise, o mercado caiu, o empresariado não aceitou se mudar para aquela zona que estava muito deteriorada. Agora, com a nova linha do metrô fazendo baldeação ali, a reforma da Estação Luz de trem, o Museu [da Língua Portuguesa]... Tudo isso deu um novo alento àquele bairro. Enquanto isso, o prédio tá numa situação...". Seu Jorge tem razão, a região da Luz - que ainda atende pelo nada simpático apelido de "cracolândia" - hoje é palco de um grande esforço de revitalização. O projeto "Nova Luz" será, segundo o site da Prefeitura, uma das maiores intervenções urbanas da história da cidade, alterando a paisagem de 225 hectares.

Para a advogada Patrícia de Menezes Cardoso, do Núcleo Direito à Cidade, da ONG Instituto Pólis, o que Hamuche fez tem outro nome: especulação imobiliária. "Deixar a propriedade parada, sem uso econômico para esperar investimentos públicos no entorno que a valorize, ou para diminuir a oferta e consequentemente aumentar o seu preço, configura o descumprimento do próprio direito de propriedade. Socializam-se os danos e individualizam-se os lucros", afirma.

Segundo dados fornecidos pelo Instituto, São Paulo abriga hoje cerca de 600 mil moradores de cortiço; 1,2 milhão de favelados; 8.700 adultos e cerca de mil crianças e adolescentes em situação de rua; ao mesmo tempo em que se dá o luxo de manter vazios 500 mil domicílios. Só no centro, 40 mil. A especulação imobiliária é a responsável por uma situação curiosa, apesar de toda a infra-estrutura, o centro perdeu grande parte de sua população nas últimas décadas. A região, que é um formigueiro de dia, mais parece uma cidade-fantasma à noite. No outro extremo, as periferias não param de crescer, gerando novas favelas, conjuntos habitacionais precários, loteamentos clandestinos em áreas de conservação ambiental grilados. Lugares onde cidadania costuma soar como um conceito muito abstrato.

Outra acusação constante aos proprietários do Prestes é a de que eles não possuem sequer a escritura definitiva do imóvel. Jorge Hamuche confirma: "Por que vou gastar dinheiro com escritura se, por enquanto, não me deixam fazer nada no prédio? São argumentos que não têm consistência". Seu Jorge não sabia que muitas famílias já estavam mudando, gostou da novidade. Revelou que quando a posse lhe for restituída pretende alugar o espaço para o depósito de arquivo-morto. O industrial é crítico quanto à atuação do movimento, considera-os estreitos em seus objetivos. "Já falei para eles mudarem o nome para atrair a simpatia da sociedade, poderiam formar um conselho diretor e buscar recursos em doações nas empresas que se possam abater do imposto de renda. Poderiam até criar um cartão de crédito de afinidade", comenta, farejando bons negócios na demanda por moradia.

Gentrificação, do inglês "gentrification", pode ser traduzido como "enobrecimento". O termo foi cunhado pela socióloga britânica Ruth Glass, em 1964, para definir um conjunto de transformações imobiliárias em Londres. Também chamada de "política higienista", na prática funciona assim: pega-se uma região degradada da cidade, de preferência alguma área que já contou com prestígio no passado, e, sob o pretexto de revitalização, remove-se a população de baixa renda para as periferias. Em seguida, é feita uma série de reformas, geralmente criando novos aparelhos culturais na tentativa de atrair a população de classe média ou alta. A expressão voltou a ser usada a partir dos anos 80, quando Nova York passou por um processo parecido, gentrificando bairros problemáticos como Harlem e Soho. Quer dizer, em vez de criar sistemas de promoção social, simplesmente substitui os cidadãos, em um processo cruel de limpeza social.

Os métodos adotados em São Paulo para a revitalização do centro são alvo de acalorado debate. Rampas antimendigo embaixo dos viadutos, repressão policial às populações de rua, intenso controle do comércio ambulante. Patrícia, que também é membro do Conselho Nacional de Cidades (órgão ligado ao Ministério das Cidades), participou da elaboração de um calhamaço de mais de 300 páginas que escancara o problema - Violações dos Direitos Humanos no Centro de São Paulo: Propostas e Reivindicações para Políticas Públicas, um documento elaborado pelo Fórum Centro Vivo, entidade que agrega movimentos populares, ONGs, ativistas e universidades. "O dossiê é um registro e denuncia a atual política de 'revitalização' do centro.

Documenta com fotos e fatos as violações de direitos humanos em curso. Ele apresenta as propostas para uma revitalização com inclusão social, que garanta o direito à cidade", comenta a advogada. O documento já foi entregue às autoridades federais, estaduais e municipais e está disponível na íntegra na internet: http://dossie.centrovivo.org/Main/ HomePage.

"O centro não é para pobre, é para a classe média. O Secretário de Habitação de São Paulo disse isso olhando nos nossos olhos...", revela outra barulhenta liderança de movimentos populares: Luiz Gonzaga da Silva, o Gegê, que milita em diversas siglas: o MMC (Movimento de Moradia do Centro), a UNLM (União Nacional de Luta pela Moradia) e a CMP (Central de Movimentos Populares). Sempre que Gegê é citado, costuma-se também explicar que ele é irmão do cantor Chico César. "Quando a mídia nos associa é porque quer desqualificar o trabalho dele. Não para enobrecer o meu. Mas eu e Chico sabemos porque isso acontece. Porque viemos lá de Catolé do Rocha (Paraíba), temos a pele escura e não os olhos verdes.", desabafa Gegê. Uma das lideranças mais radicais, ele lamenta até hoje, sem grandes pudores, o fato de a esquerda brasileira ter abandonado a luta armada em prol de um projeto eleitoral. Retrógrado ou não, não dá para negar que seu discurso é, no mínimo, incisivo: "A Secretaria de Habitação está nas mãos de um especulador imobiliário. Ele só vai brecar iniciativa de moradia popular que não dá lucro pra ninguém, como os mutirões".

Esta não era a primeira vez que o nome do secretário de habitação Orlando de Almeida Filho aparecia em uma conversa. Eu já havia escutado seu nome também pelos corredores do Prestes Maia. Mas, afinal, quem é o secretário? Não precisa ir muito longe para descobrir. É só conferir o curriculum vitae no site da própria prefeitura de São Paulo: "Advogado e empresário, atua no setor imobiliário desde 1971. Já participou da comercialização de mais de 120 mil unidades residenciais, comerciais e lotes em todo o Brasil.

Atualmente, é presidente do Sindicato dos Corretores de Imóveis no Estado de São Paulo (SCIESP) e participa do Conselho dos Corretores de Imóveis no Estado de São Paulo (CRECI/SP). De 2000 a 2003 integrou o Conselho Federal dos Corretores de Imóveis (COFECI) e, por dois anos, 2000 e 2001, presidiu o CRECI/SP. Como empresário, é sócio de diversas empresas: Triumpho Associados Consultoria de Imóveis, Trincorp Incorporações Imobiliárias e Orlando de Almeida Incorporações Imobiliárias". Em duas palavras: peixe grande.

Procurei-o para comentar o fim da Ocupação. A resposta, através da assessoria de imprensa, foi a de que "o secretário não ia dar entrevistas para falar sobre o Prestes Maia porque o assunto já estava resolvido". Em um segundo momento, procurei novamente a assessoria, explicando que algumas fontes da matéria acusavam o secretário de favorecer os processos de especulação imobiliária e gentrificação e ofereci uma oportunidade para rebater tais acusações. A nova resposta, novamente através da assessoria de imprensa, dizia: "Quanto às críticas pessoais que um ou outro possa fazer ao secretário, ele não as responderá, pois entende que, se essas pessoas entendem ou se dessem o trabalho de entender o que tem sido feito nessa cidade pela prefeitura, somente nesta gestão, na questão da habitação para baixa renda, jamais fariam essas críticas". Afinal, não seria uma incoerência manter na função de Secretário de Habitação um corretor de imóveis? Melhor perguntar ao próprio chefe do secretário: "Essa pergunta não faz sentido. O secretário Orlando é uma das pessoas que mais entendem de questões ligadas à habitação no país e está absolutamente preparado para os desafios da pasta e é isso que importa. No trabalho, não há espaço para estereótipos", responde o prefeito Gilberto Kassab.

As críticas mais veementes ao modo como a revitalização do centro está sendo conduzida partiram do subsolo do Prestes Maia. Mas não necessariamente por parte dos próprios moradores. Eis outro diferencial gritante desta Ocupação: a presença de artistas (indivíduos e coletivos) que organizaram várias ações de protesto desde 2003, transformando o prédio em uma espécie de centro cultural de arte radical. Do terrorismo-poético de dezenas de grupos (ou, se preferir, coletivos) de arte da chamada "mídia tática"ao Antônio Conselheiro encarnado por Zé Celso Martinez Corrêa, na peça sugestivamente intitulada Canudos É Aqui. Artistas contestadores usaram a Ocupação como cenário para suas performances, amplificando, como nunca, o grito dos excluídos. Tudo devidamente registrado em vídeos disponíveis na rede. "É um erro chamar de cenário um movimento social organizado de luta por moradia. O que foi feito ali foi uma troca entre saberes distintos, de um lado, os artistas que levaram a comunicação, subjetividade e maneiras de expressão, de outro, o movimento que traz consigo a bagagem de organização política", defende Frederico Ming, do coletivo de design e intervenção urbana Bijari. "Não queremos em nenhum momento utilizar o edifício e o movimento como um cenário. Isso seria rebaixar o movimento e a própria arte a uma questão de contexto para exposição e não de diálogo efetivo, de trocas de experiências de vidas entre dois lados que se relacionam", complementa Ming.

Entre os eventos realizados lá dentro, destaca-se a IX Bienal de Havana - Território São Paulo, em março de 2006, com a participação do Bijari e de outros 12 coletivos paulistanos: A Revolução Não Será Televisionada, Catadores de História, Cia. Cachorra, C.O.B.A.I.A., Contra Filé, Espaço Coringa, Elefante, Esqueleto Coletivo, Frente 3 de Fevereiro, Nova Pasta, Ação Havana, TRancaRUa e EIA. Anteriormente, em 2005, outro momento criativo frente à ameaça iminente de despejo, a exposição SPLAC (Seleção de Placas Anti Especulação Imobiliária), que utilizava como suporte para criação as placas de publicidade irregular de venda de apartamentos. O Bijari cobriu as placas com cartazes antigentrificação. Mas se engana quem pensa que a relação entre os artistas e moradores é tudo flores. Na verdade, daria para dividir o "planeta Prestes Maia" em dois hemisférios muito distintos: o subsolo, abrigo de toda essa agitação cultural, e a vida comum do térreo para cima, onde os moradores sempre estiveram mais preocupados em administrar seus problemas de ordem privada. Duas partes de um mundo que se complementam, mas que pouco se misturam. "Acho lindo os eventos artísticos que aconteceram aqui, mas eu me pergunto: 'Que resultado concreto trouxeram para a população?'. Foram coisas que vieram formatadas de fora para dentro. Se eu quero te ajudar, primeiro preciso te conhecer pra saber o que tu queres", cutuca a costureira Vanda Araújo, que reside em um mezanino do 1º andar. "A visibilidade dada ao caso na junção entre cultura e política ampliou audiência para uma escala bem maior, abriu a discussão aos cidadãos, expondo os abusos institucionais, freando de certa maneira o desrespeito aos direitos humanos que era feito de forma nua e crua", rebate Frederico Ming. Vanda faz a tréplica: "De certa forma, não achei ruim quando acabaram os eventos, porque virou uma viagem deles. O que eu queria era uma feira onde as pessoas daqui pudessem vender seus produtos, mas quando digo isso, viro persona non grata".

A sem-teto é uma crítica sagaz de arte, não muito chegada às subjetividades: "Não tenho paciência pra ficar tentando adivinhar o que o artista quer dizer. Abro uma exceção apenas para Miró e uma fase de Mondrian". Artesã de mão-cheia, produz em casa suas bonecas, trabalhos em patchwork, e reforma roupas. Em cima da máquina de costura, uma de suas peças chama a atenção. Uma camiseta com o mapa do Brasil, bordado em retalhos - em cada estado da federação, um retalho com padrão diferente. "É uma peça até didática", diz ela, que usa seu mapa para mostrar às crianças do prédio onde é cada estado. "Essas crianças precisam saber que o Brasil é bonito. Porque na situação em que elas vivem, o país parece feio." Nascida em Belém do Pará, Vanda passou a maior parte de sua vida em São Luís, no Maranhão, onde deixou o filho de 12 anos com o pai. Quando tiver um teto, seu filho terá um quarto para morar com ela.

Sexta-feira, 13 de abril. O salão do subsolo ficou pequeno para tantos moradores que desciam as escadas. Repórteres e cinegrafistas da TV estavam a postos para captar as melhores imagens da visita de Gilberto Kassab à Ocupação. O lugar estava cheio como jamais ficou em um dos antigos eventos culturais. Esta não é a primeira vez que um político vem aqui, mas geralmente eles aparecem nas vésperas das eleições. Pela primeira vez, um prefeito foi lá, apesar de ele ser o terceiro a ocupar o cargo desde que as 468 famílias tomaram o Prestes para si. Para a surpresa (e irritação) de muitos, o clima estava isento de qualquer traço de hostilidade. "Foi muito bom. As pessoas estavam felizes, reconheceram que foi um grande trabalho que fizemos para que a situação delas fosse resolvida. Me aplaudiram, vieram me cumprimentar", recorda o prefeito, que naquele dia conheceu a Biblioteca e também pediu palmas para José Serra e Lula.

A visita foi uma iniciativa do próprio Kassab. O objetivo era anunciar oficialmente o acordo que pretende resolver definitivamente o problema das famílias e conceder um novo prazo de 60 dias (a reintegração de posse estava marcada para dali a dois dias) para a mudança. Os moradores deveriam então optar entre permanecer no centro ou se mudar para unidades recém-construídas do CDHU em Itaquera (no extremo leste da cidade). Apesar do Movimento ter o "centro" já no nome, muita gente não se importou em se mudar para a periferia. "Escolhi ir para Itaquera por causa dos meus filhos. Apesar de ser muito longe, o bairro é mais sossegado para criar as crianças", afirma Kátia Cilene Pereira, 29 anos, mãe de quatro filhos. Visitando o barraco de Kátia, no 8º andar do precário bloco A, é fácil entender por que um pequeno apartamento em Itaquera parece tão bom. A torre sofreu um incêndio em sete de setembro de 2003. O fogo começou no 4º andar, e graças ao material de fácil combustão que divide os cômodos o fogo se espalhou rapidamente. Até hoje o bloco A é repleto de lembranças da tragédia, como os tacos queimados no chão, que mais parecem pedaços de carvão organizados geometricamente. "Me lembro que vi os bombeiros retirando o corpo de uma menina. Foi horrível", recorda-se Kátia, com os olhos marejados. "Mas tudo bem, porque acredito que se hoje vou ter meu apartamento, é graças à minha própria luta."

Vanda não aplaudiu o prefeito. Quando o MSTC foi à Brasília para se reunir com o Ministro das Cidades, Márcio Fortes, ela estava lá. Portanto, acredita que a visita não passou de um jogo de cena político. "Ele veio aqui para tirar uma casquinha. Fazer de conta que foi ele o responsável pelo atendimento. Não foi. Nós arrumamos essa verba em Brasília." O dinheiro cedido pelo Governo Federal, através do Ministério das Cidades, servirá para a compra e reforma de quatro prédios no centro, também particulares e vazios, indicados pelo movimento. Segundo a Secretária Nacional de Habitação, Inês Magalhães, os recursos ainda não foram liberados: "É necessário avaliar quais imóveis serão, quanto custam, essas coisas...", informou por e-mail através da assessoria de imprensa. As famílias que optaram esperar pelo atendimento no centro estão recebendo um auxílio-moradia da prefeitura, no valor de R$ 1.800 durante seis meses, R$ $300 por mês para pagar aluguel.

Oque é digno de nota é que pela primeira vez as três instâncias de poder sentaram para discutir um problema específico. E com o Movimento acompanhando de perto as negociações. Seria excelente ver tal entrosamento para resolver tantas outras questões. "A união de forças entre os três poderes era a única forma de solução, já que de forma unilateral seria impossível atendermos aquelas pessoas devido aos limites legais de atuação da prefeitura", explica o prefeito. "A questão do Prestes Maia sempre foi difícil por ser um prédio particular. Legislações municipais, estaduais e federais impedem o poder público de dar atendimento a invasores de áreas ou prédios particulares. Tinha ainda o fato de o prédio ter um dívida imensa de IPTU e o Ministério Público avisou que ficaria de olho para ver se a prefeitura ia perdoar essa dívida. Isso não poderia acontecer, pois abriria precedente jurídico", finaliza Kassab.

Primeira semana de maio. A toda hora encosta uma Kombi com o aviso "faz-se carreto" em frente à fachada branca, ainda repleta de cartazes "artivistas" e pichações do símbolo internacional dos moradores de squatts (como são chamados os imóveis ocupados/invadidos na Europa). É grande o movimento de famílias descendo as longas escadarias com seus pertences. Colchão, fogão, geladeira, armários e muitas caixas de papelão. Ivanilson, de 6 anos, se diverte ao mostrar as moedas que ganhou como pagamento pelas caixinhas de mudança que ajuda a descer. Pelo vai-vem nas escadas, o menino deve faturar esta semana. A maioria das famílias já se mudou. Ainda está no prédio quem espera a entrega das chaves dos apartamentos em Itaquera.

Estranho a escolta da Guarda Civil Metropolitana à mudança e me dirijo aos dois policiais encostados na viatura:

- Tudo tranqüilo na saída do pessoal?

- Sim. Estamos aqui só para impedir que outros sem-teto tentem entrar agora que está sobrando vaga...

- Você é de que jornal? - Pergunta desconfiado o outro.

- Da revista Rolling Stone.

- Não sabia que sem-teto era tão rock'n'roll... - e ri da própria piada.

Enfim, uma retirada pacífica. Depois de tanto temer a truculência policial, velha conhecida de outros despejos. A conclusão é que ser sem-teto é bem mais do que rock'n'roll, é puro death metal. Afinal, o lar é onde se encontra refúgio quando a carga de problemas fica pesada demais para os ombros. Todo sem-teto sabe que invadir um prédio vazio é crime. Agora, se é errado, já são outros quinhentos. Quem não tem teto não tem nada em uma cidade como São Paulo, onde é preciso apresentar comprovante de endereço para existir.

Cleiton Campos é jornalista, mas pretende largar tudo para viver de arte e jardinagem.