Debate

Trio paulistano grava com Steve Albini e sonha alto

Mateus Potumati Publicado em 01/06/2007, às 00h00 - Atualizado em 11/09/2007, às 11h23

O encontro com Steve Albini rendeu ao Debate um disco e uma bela história
Louise Chin

É fim de março em chicago. O vento gelado põe um final abrupto a uma semana de calor histórico. Talvez a loucura do clima tenha ajudado a minar o humor de Sérgio Ugeda, vocalista e guitarrista do trio paulistano Debate. Sentado à mesa de um bar, ele faz um balanço etílico da vida. Sua gravadora, a Amplitude Discos, já tem quatro anos, tempo em que estabeleceu um recorde musical inédito no país. O primeiro disco do Debate recebeu elogios da revista inglesa The Wire, bíblia mundial do pós-rock, e acabou de retornar de uma turnê de 22 shows nos EUA, incluindo o incomparável festival South by Southwest. Completando o pacote, acabou de gravar dois novos discos - um deles com o produtor Steve Albini, gênio por trás de obras de Nirvana, Pixies e tantos outros. A turnê também correu dentro do esperado: "Éramos uma banda brasileira, sem qualquer estrutura nos EUA. Mesmo assim, fazíamos algum dinheiro toda noite".

Três semanas após o primeiro show, Ugeda se perguntava se tudo aquilo valia a pena. "Aos 26 anos, depois de tanto tempo no vermelho, é inevitável pensar se não está na hora de arrumar um emprego de verdade", teoriza. Felizmente, do outro lado da mesa do bar havia alguém em condições de lhe oferecer perspectivas. James Kenler, um dos donos do Flameshovel, respeitado selo indie/punk de Chicago, conhece bem essa história: "Minha gravadora existe há oito anos e nunca saiu do vermelho. Você entrou nessa há quatro anos, no Brasil, e está aqui conversando comigo, no meio de sua turnê, depois de ter gravado com Steve Albini. Do que exatamente você está reclamando?"

De volta ao Brasil e mais animado, o líder do Debate relembra o contato com Albini: "Conheci ele em 2001, num show do Shellac [banda de Albini]. Na ocasião, dei a ele um disco da minha ex-banda, o Diagonal. Não nos falamos mais até o começo deste ano, quando agendamos a gravação. Perguntei se ele ainda lembrava do disco, e ele disse que tinha ficado com 'uma boa impressão'. Vindo dele, foi um puta elogio", comemora. O resultado do encontro com o produtor será lançado em agosto, no formato vinil: "É possível que criemos algum sistema para download, mas o projeto central é o vinil", explica Ugeda. Defensor ferrenho dos métodos analógicos, Albini é famoso por gravar o disco inteiro sem ligar um computador. "Ele faz um processo artesanal: põe luvas e jaleco, traz sua tesoura e edita a fita. Depois, entrega o rolo na sua mão." Mesmo na crueza da gravação original, a ambiência e os timbres têm um poder único. Cada peça da bateria explode como se tivesse dimensões colossais - é inevitável lembrar da bateria de Dave Grohl em In Utero, último disco de estúdio do Nirvana, produzido por Albini.

A equação será fechada com a masterização, que encerrará um ciclo importante para a banda e para o selo Amplitude. É difícil prever o que virá pela frente - provavelmente, outros ciclos de euforia e angústia puxados por trabalho duro. Mas, com uma pequena obra de arte nas mãos, é possível pelo menos manter o sonho vivo.