Dira Paes: cinema, TV e ativismo

Christina Fuscaldo Publicado em 22/09/2008, às 18h36

Dira Paes: strip-tease com negativos de filme, em Baixio das Bestas (2006)
Murillo Meirelles
Ela é apontada como a musa do cinema brasileiro, além de segurar a audiência da TV como a Solineuza, do humorístico A Diarista. Com 26 filmes na bagagem, a ocupadíssima Dira Paes ainda organiza um Festival de Cinema em Belém e faz parte da ONG Movimento Humanos Direitos. Entre sua luta pelo fim do trabalho escravo e da prostituição infantil no Brasil e os personagens controversos que interpreta em tela grande, essa paraense se envaidece: "Acho que tenho uma sensualidade natural das morenas brasileiras, não vou mentir. Tenho um estereótipo que me ronda"

Faz frio no Rio de Janeiro. chove e pára o tempo todo. As águas de maio caem principalmente na hora do encontro com Dira Paes. Quarta-feira foi o dia que a atriz escolheu para encaixar a entrevista entre um compromisso e outro. Sim, Dira é ocupada. Só naquela semana, ela podia ser vista na televisão, como a abestalhada Solineuza de A Diarista, e estava em cartaz em diversas salas de cinema como a prostituta Dora de Baixio das Bestas e como a sonhadora e deslumbrada Psilene de Ó Pai, Ó. O volume de trabalho (adicione-se a isso obrigações como dar entrevistas e marcar presença em diversos festivais), atrelado às obrigações do dia-a-dia da Dira dona-de-casa, toma tempo. Mas disso falarei um pouco mais adiante. O fato é que, devo confessar, estava preocupada por saber que teríamos poucas horas juntas.

O bate-papo estava marcado para as 19 horas, na livraria da Travessa de Ipanema, que é também loja de discos e café. Eu havia saído de um outro encontro, também em uma livraria, só que no Leblon, e acabei chegando 20 minutos antes do combinado. Estrategicamente, escolhi uma mesa no canto. Tive medo de haver uma possível sessão de tietagem que pudesse diminuir ainda mais o tempo com minha entrevistada. Aparece a Lu Nabuco, assessora de imprensa, que acompanharia a entrevista. E nada da Dira. Conversamos sobre os últimos trabalhos da atriz enquanto esperávamos. Toca o telefone dela. Dira estava na Letras & Expressões, uma outra livraria também em Ipanema. Eu, que chequei mil vezes o e-mail para sair do Leblon com a certeza de que não me enganaria, fechei a conta correndo. A idéia era me dirigir o quanto antes - no frio e na chuva - para onde minha personagem estivesse. A assessora, então, volta à mesa: "Falei que íamos para lá, mas ela disse que já está vindo para cá". Chamo a garçonete e aviso que vamos ficar. Chega a encasacada diva, ou melhor, Dira.

- "A Solineuza foi parar em outra livraria?", provoco, inclusive, para saber se há humor também na Dira de carne e osso.

- "Pois é, tem horas em que ela toma conta de mim", responde, sorrindo e direcionando os olhos para minhas mãos. "Será que ela vai encrencar com o gravador?", questiono em silêncio. A atriz dispara: "Por que você veio com estas unhas? Tenho fixação por unhas pintadas. As minhas não, claro". Fazia tempo que não usava esmalte vermelho. Decidi pintar naquela semana para ver se conseguia fortalecer as unhas maltratadas pelo computador. Mas... Por que nela não? "Por causa das gravações de A Diarista, tenho que estar sempre em continuidade. É difícil poder usar cor, porque senão terei que ficar com a mesma cor em dois programas seguidos." Estava aberta a sessão e, com esse papo "mulherzinha", Dira tentava adiantar o tom do que estava por vir. Não que o assunto fosse seguir esse caminho. A maior preocupação dela não é a cor das unhas. Acho que esse início de conversa acabou me preparando de alguma forma: fui percebendo que, para falar sobre as tantas e tão diversas atividades da atriz, a entrevista realmente tinha que ser leve como um bate-papo e não chata como um pingue-pongue formal. Agradeci aos céus!

Logo após elogiar minhas unhas, a simpática Dira comenta que, às 20 horas, tem uma reunião ali mesmo, em Ipanema. "Caramba", pensei: "Se ela for uma pessoa pontual, significa que temos apenas 20 minutos." Durante alguns segundos, imaginei que ela tinha assoprado antes de morder. Diante da minha expressão de surpresa, ela assoprou de novo: "Mas não preciso chegar cedo". Alívio. Às 21h30, quando estávamos para encerrar a jornada, perguntei que papo era esse de reunião. "Faço parte de uma ONG chamada Movimento Humanos Direitos (MHuD). A eleição é agora, mas estou tranqüila porque é chapa única: vou ser a 'presidenta' e [a atriz] Camila Pitanga a vice. A gente fundou essa ONG há uns quatro ou cinco anos. É um grupo formado por atores, intelectuais, professores, cartunistas e jornalistas que combate causas sociais como o trabalho escravo no Brasil, principalmente no Pará, os crimes ambientais, a prostituição de crianças e adolescentes... A gente leva a discussão, visita, vai aos julgamentos. É uma injeção de realidade que todo mundo deveria experimentar. Você percebe que a vida é muito mais profunda e é uma maneira de sairmos um pouco desse universo da fantasia [o dos atores] e viver também a vida real. Isso me faz um bem", conta ela, atendendo, em seguida, a um telefonema de Camila Pitanga, que cobra a presença da parceira na votação que está para começar.

Mas isso já é quase o final de nossa história. Nesse momento, já estávamos em outra mesa, na área de fumantes. Não, a gripada Dira não quis mudar de mesa à toa. A gente pediu ajuda à garçonete no meio da entrevista, quando um grupo de pós-adolescentes sentou na mesa ao lado e deu início a um show de histeria. O assunto variava pouco: ora era homem, ora era noitada. A cada vez que uma falava algo mais picante, as outras gritavam. Meu gravador sofria com aquela barulheira. Dira também sofria. E eu, que tinha medo da tal tietagem, lembrei que estávamos em Ipanema, bairro da zona sul que, freqüentado por muitos artistas, não cultiva a cultura do assédio, mas sofre com o enxame barulhento das patricinhas. Mas voltemos ao início, quando o foco era Dira Paes.

Ecleidira Maria Fonseca Paes faz 39 anos em junho (no dia 30) e tem 26 filmes no currículo. Ó Pai, Ó e Baixio das Bestas estavam prestes a entrar em cartaz quando Dira começou a rodar A Festa da Menina Morta, longa-metragem que marca a estréia na direção do ator Matheus Nachtergaele e deve ser lançado ainda este ano. "Acho que ele será um dos grandes diretores brasileiros devido à capacidade que tem de agregar pessoas e de se organizar. Tenho uma expectativa muito boa em relação a esse filme. Ele se passa em uma cidade do Amazonas e fala de um líder espiritual [Santinho, vivido por Daniel de Oliveira] de uma comunidade e das pessoas que o circundam. Sou Diana, a dona de um bar onde os peões comem. Ela vai ter uma transformação ao longo da história", adianta.

Diana, Dira, Dora. O terceiro nome é a bola da vez. Dora não tem mais do que cinco cenas em Baixio, mas o longa-metragem do pernambucano Cláudio Assis não seria o mesmo se ela não estivesse no núcleo das prostitutas. Abusada e ambiciosa, Dora induz à violência quando o alvo é Bela, a rapariga interpretada por Hermila Guedes, mas acaba se dando mal nas mãos dos agroboys (playboys do mundo rural) Everardo (Matheus Nachtergaele), Cícero (Caio Blat) e Cilinho (China). "Quando recebi o convite, pensei em não aceitar. O Cláudio não me deixou ler o roteiro e me meteu um medo absurdo. Achava que não era o momento. E, como estava comprometida com outras coisas, fiquei em dúvida. Pedi o roteiro e ele falou: 'Não, você tem que dizer sim sem ler'. Ele tem um jeito envolvente de nos deixar no suspense, mas consegui ler, porque o Matheus Nachtergaele tinha lido, aí voltei atrás", conta, para, em seguida, confessar o que a fez titubear: "Claudio me disse que eu ia ter que fazer loucuras com o Caio, com o Matheus e não sei mais o quê. E só falei: 'Ai, meu Deus'".

Dira já havia trabalhado com Assis em Amarelo Manga (2003), filme pouco menos pesado e polêmico que Baixio. O controverso diretor tem fama de durão, mas derrete-se ao saber que a repórter quer, do outro lado da linha, ouvir o que ele tem a dizer sobre o trabalho da atriz: "Você sente que ela tem corpo, cheiro e é a cara do povo brasileiro. Ela se dá ao papel de uma maneira impressionante, além de ser generosa demais. É uma mulher bonita, uma morena que sofre e que ama. Ela não queria fazer uma rapariga, mas depois disse: 'Eu quero'. Falei que ela não pode fugir de mim. Considero Dira uma das melhores atrizes em atividade no Brasil", afirma. Mesmo sem saber que eu telefonaria para Cláudio Assis no dia seguinte da nossa entrevista, Dira faz um discurso de agradecimento ao diretor: "Ele me deu a possibilidade de realmente fazer uma personagem ótima em um momento importante. Eu vinha do papel de Dona Helena, de Dois Filhos de Francisco, que era uma mãe, e também da prostituta que ouve os lamentos do personagem de Fernando Eiras em Incuráveis, que tem uma experiência estética diferente. E tinha feito ainda, recentemente, A Grande Família e Meu Tio Matou um Cara. Queria alguma coisa nova, que fosse um risco. Pensei: 'Poxa, se tenho a oportunidade de fazer isso agora, por que não?' Acho que foi uma das coisas que fiz de melhor pra mim nos últimos tempos".

Para Assis, Dira Paes deveria ser mais bem aproveitada também na televisão, em que fez papéis caricatos como a índia Potira, na novela Irmãos Coragem (1995), e a própria Solineuza, a amiga gostosa, porém burra, da diarista Marinete (Cláudia Rodrigues), em A Diarista: "Não gosto de comédia, mas você vê que ela é boa pra caralho. É capaz de fazer uma puta maravilhosa porque sabe que as pessoas não são de plástico ou de porcelana, mas de carne e osso. O Brasil é um país preconceituoso e já era para Dira ter tido reconhecimento há muito mais tempo, mas as pessoas são escrotas e não viam esse talento porque ela é do Pará", diz o diretor. Mas, orgulhosa de seu tipo físico, meio índia, meio negra, como ela mesma define, a atriz parece não se importar muito com o fato de Solineuza ter sido sua verdadeira consagração desde que começou a fazer televisão, em 1990, quando interpretou Nininha na novela Araponga. "Quando você faz comédia, as pessoas ficam muito mais íntimas suas do que quando você está em uma novela e sua personagem é uma médica, por exemplo. A comédia leva as pessoas para um lugar que elas desconhecem. Em A Diarista, uma coisa bacana que descobri é que tenho o carinho das crianças. O programa passa às 11 horas da noite, mas elas pedem aos pais e, depois, falam comigo e me abraçam. E elas são muito espontâneas nesse sentido", diz a atriz. Dira recorre aos seus últimos trabalhos no cinema para mostrar que, na sua história, há equilíbrio entre o alternativo e o popular: "A Solineuza veio junto com uma maré boa de cinema. Acho que as coisas se complementaram. No primeiro ano de A Diarista, filmei Dois Filhos de Francisco, Mulheres do Brasil e Meu Tio Matou um Cara. Depois, em 2005 e 2006, fiz Incuráveis, Ó Pai, Ó, Baixio das Bestas e A Grande Família. Este ano, filmamos A Festa da Menina Morta. São trabalhos muito antagônicos. O público fica imaginando se é a mesma pessoa e acaba percebendo que a Solineuza não existe. Algumas pessoas a vêem há tanto tempo que acreditam que ela exista. Tipo a repórter que pergunta se a Solineuza errou de livraria", responde, devolvendo a bola.

Engana-se quem pensa que a paixão pela sétima arte atrapalha de alguma forma seu trabalho na TV Globo. "Dira é uma atriz que tem um amor profundo pelo cinema e o cinema percebe isso. Por isso ela recebe tantos convites. Ela sabe que tem muita coisa para fazer e que é uma carreira longa. Importante é ela ter bons papéis e continuar trabalhando. E, sempre que ela fala que tem um filme, a gente movimenta as gravações, que são feitas normalmente três vezes por semana", afirma o diretor de A Diarista, José Alvarenga Jr. Ele admira o profissionalismo de Dira e confessa que teve que redobrar a atenção dada a Solineuza ao perceber, durante estes quatro anos de programa, que ela era uma das personagens mais queridas pelo público. "A gente falou que a queria cada vez mais idiota. A Solineuza é um ato de coragem da Dira. É uma transformação. Ela tem uma idiotice que não é fácil de fazer. Quando a gente entra no set e ela faz aquela voz e a mão abobalhada, começo a rir, sempre. Por outro lado, Dira é uma pessoa extremamente profissional e muito querida. Ela chega na hora, preparada e sempre com o texto decorado."

Se Solineuza tem uma "sensualidade recatada e quase adolescente", como descreve José Alvarenga Jr., Dora é o oposto. Prostituta que gosta de uma brincadeira mais pesada, a personagem de Baixio topa tudo, primeiro no bordel onde trabalha e, depois de ser expulsa de lá, no cinema abandonado e usado pelos agroboys para exercitar suas maiores perversões. Imaginando que seu strip-tease daria início a uma deliciosa orgia, ela se vê no meio de um jogo covarde e violento. "A Dora é o tipo da pessoa que tem como qualidade o seu defeito. Ela fala: 'Oxa, quero o futuro'. E pensa que os agroboys são sua possibilidade de futuro, mas acaba engolida pela própria ambição. Se eles tivessem topado, talvez acontecesse uma suruba maravilhosa, só que a violência é mais prazerosa para esses meninos - que geralmente são pessoas que têm problemas com os sentimentos. Ela é estragada ali", diz.

- "Fazer uma cena de nudez com todo esse peso é difícil?", questiono.

- "Foi menos do que imaginava. Tudo foi feito com a maior técnica e respeito. Tem uma proposta poética de ir para uma tela de cinema... Poucas pessoas comentaram isso. O meu strip-tease é com negativos de filme, que vou passando pelo corpo. Tem uma analogia aí, porque no cinema você pode tudo. O espectador aponta Baixio como violento, mas a violência está dentro da cabeça de cada um, porque você não vê uma gota de sangue ou uma cena feia."

Kika, a crente vivida por Dira em Amarelo Manga, no final explode a sensualidade enrustida que guardou ao longo do filme também dirigido por Cláudio Assis. "Me deu um retorno muito grande como atriz. Nunca pude imaginar que aquela personagem tão introspectiva seria tão contraditória", lembra. Já Psilene, de Ó Pai, Ó, é sensual desde a hora em que aterrissa de volta na sua Bahia, depois de uma temporada meio mal-explicada no exterior. A personagem de Dira vem cheia de tesão para o carnaval de Salvador e, apesar de tentar mostrar o tempo todo que tudo lá fora é melhor do que aqui, acaba cedendo aos encantos de Reginaldo (Érico Brás), o motorista de táxi mais safado do cortiço do Pelourinho onde a trama se passa. "O picante está sempre no popular, não tem jeito! Acho que Psilene tem uma liberdade com a sensualidade... E, na verdade, ela está muito só também. Imagina há quanto tempo ela não encarava um ébano daquele? Na Suíça não tem", diverte-se. O filme de Monique Gardenberg deve virar série na TV Globo em breve.

Mas esse papo de explorar a sensualidade na telona não é novo, não. No primeiro filme em que trabalhou, a superprodução internacional A Floresta de Esmeralda, a então estudante paraense de 15 anos só entrava em cena nua. Escolhida após um teste em que tirou vantagem porque respondeu ao produtor de elenco em inglês, ela viveu uma índia. Mesmo contando como experiência apenas as peças montadas no colégio - que lhe garantiam a liberação nas provas escritas de literatura -, ela já se mostrou profissional a ponto de esquecer o que significa a palavra "pudor". "Estou nua o tempo todo, com um tapa-sexo, mas com peitos e bunda de fora. Tinha 15 anos e fiz 16 no último dia de filmagem. Era uma menina e tenho isso como um registro do tempo em que ainda era virgem. Mas não foi difícil fazer, porque todo mundo era índio e ficava nu. Não era ótimo, mas foi bom para desinibir. Filmar era muito divertido. Eu ainda tinha muitas regalias, por ser nova. Foi um início principesco, assim como um conto de fadas." E a Dira da vida real explora a sensualidade? "Sem falsa modéstia, acho que a maioria das atrizes tem uma sensualidade. Agora, na minha vida, é difícil posar de sensual. Não que não me ache sensual. Acho que tenho uma sensualidade natural das morenas brasileiras, não vou mentir. Tenho o cabelo comprido, o olho puxado... Tenho um estereótipo que me ronda. Mas nunca uso isso em prol de mim mesma. Quando vou para a rua, tento me valorizar, mas não de maneira ostensiva", explica.

Se a realização pessoal acaba acontecendo no set, eu não sei. O que percebi depois dessa pesquisa apurada sobre a atriz é que fazer personagens sensuais pegou Dira de jeito. Tanto que ela recusou o convite de Breno Silveira para viver mais uma mãe no novo filme do diretor de Dois Filhos, que tem o título provisório de Era Uma Vez no Rio. "Chamei a Dira para fazer uma mãe no meu novo filme, mas ela disse que, agora, só quer papel de gostosa", gargalha Breno, ao telefone, um dia antes de entrar no set. Assim como os outros, o diretor é fã da atriz. Ele não se cansa de agradecer a si mesmo por ter dado a ela a segunda chance de fazer o teste para o papel de Dona Helena, a mãe de Zezé Di Camargo e Luciano: "A gente fez uma leitura e ela deixou a personagem pesada demais. Aí, falei: 'Não é você'. Ela pediu uma segunda chance e eu disse que não, porque seria desgastante e não adiantaria muito. Mais ou menos uma semana depois, Dira voltou, leu de novo e arrebentou. Era o que estava procurando. Quando Dona Helena foi ao set pela primeira vez, vimos que as duas estavam parecidas. Ela sugou a alma da personagem e fez como se tivesse vivido toda aquela história da família". O filme sobre a vida da dupla sertaneja foi assistido por mais de 5 milhões de brasileiros. Dira acha que, se o ingresso não fosse tão caro, a bilheteria poderia ter sido ainda maior: "A gente tem que rever essa idéia da meia-entrada, porque isso faz com que tudo fique indisponível para uma quantidade absurda de pessoas. Muita gente falsificou carteiras e, quem não cedeu, acaba se sentindo um bobo porque paga R$ 150 em vez de R$ 75 para ir a um show. Como Ney Latorraca falou, no prêmio da Academia Brasileira de Cinema: 'Não sou meio ator. Quando estou no palco, sou um ator inteiro'. Então, por que meia-entrada? Uma sessão de cinema que deveria custar R$ 10 no fim de semana custa R$ 16. É inviável e você espanta o cavalheirismo, porque os homens não estão mais podendo pagar o ingresso da namorada. É melhor pagar uma cerveja e, assim, vai acabando o romance".

E não pense que, porque grita contra a meia-entrada, a atriz é mais uma das que ignoram o fato de a cultura não chegar aos menos favorecidos. Ela faz a sua parte produzindo anualmente o Festival de Belém do Cinema Brasileiro. Em julho, Dira vai para a cidade onde nasceu, Abaetetuba (que fica a uma hora da capital do Pará), levar cinema brasileiro que, por causa da má distribuição, não chega a certos lugares do país. "O festival foi uma necessidade de estabelecer em Belém um vínculo com o que faço, a partir do momento em que vi que os filmes só chegam às outras regiões se forem distribuídos pela Globo Filmes. Essa necessidade foi confirmada com os seguintes dados: em 2003, de 94 festivais do Brasil inteiro, nenhum era na região Norte. Tudo o que existia de evento ligado ao cinema não acontecia por lá." Mesmo morando no Rio de Janeiro há 22 anos, a paraense defende a cultura de seu estado com unhas e dentes. "Belém tem uma cena cultural muito efervescente. Não é porque sou paraense e estou sendo bairrista. Eu, isenta do meu paraensismo, digo que dão atenção a fotografias, artes plásticas, música, artesanato, teatro, a tudo que vem de lá, menos ao cinema", diz a atriz, que conta o que a motiva nesse trabalho: "O diferencial foi estabelecer um circuito itinerante em praças, ilhas, igrejas, escolas, presídios femininos... Uma das experiências mais incríveis foi a primeira sessão de cinema na Ilha do Bambu, em 2005. É uma ilha que fica em frente a Belém e não tem luz. Tínhamos aproximadamente 650 pessoas sentadas nas cadeiras. Dessa turma, meia dúzia já tinha ido ver filmes da Xuxa ou dos Trapalhões. Assim que caiu a noite, só tinha as luzes das lamparinas e do projetor. Eles assistiram a O Casamento de Louise (filme de 2001 em que Dira interpreta Luzia). Foi emocionante".

Casada há um ano e meio com o cinegrafista Pablo Baião, que conheceu durante as filmagens de Amarelo Manga - mas a paixão só rolou mesmo na época de Incuráveis, Dira mora na casa que construiu com o cachê de A Floresta de Esmeralda. Na época, aconselhada pela família, a adolescente comprou uma casa em Belém, que depois virou um apartamento no Rio, que foi transformado em um terreno na Barra da Tijuca, zona oeste da cidade. Durante a construção, ela contou com a ajuda dos operários. Isso mesmo. Foi ela quem ficou à frente das obras.

"Acompanhei tudo, briguei com os operários, fiz várias coisas, como a criação de uma rosa-dos-ventos de madeira junto com o marceneiro. Também aproveitei cada sobra do assoalho... Sempre tive essa atração por obras, gosto muito! Prefiro construir do que decorar. Isso parece loucura para uma mulher, mas me convide para fazer uma obra e não para ir procurar tapetes e essas coisas em lojas de decoração", conta a atriz, que, se não tivesse se mudado para o Rio aos 17 anos, teria prestado vestibular para engenharia.

Dira paes ama a profissão que escolheu e sabe bem como exercê-la. Tanto que até mesmo a possibilidade de viver assombrada por estigmas nunca chegou a assustar essa morena de traços bem delineados: "No início da minha carreira, ouvi muitas vezes que ia ficar estigmatizada. Depois, pensei: 'Mas se essa é a minha característica, tenho que usá-la a meu favor. Não vou mudar minha cara, meu jeito'. Acho que foi a melhor coisa que fiz, porque desencanei. No cinema, nunca fiz uma mulher baseada na beleza. Isso nunca foi o carro-chefe das minhas personagens. Ao mesmo tempo, esse ingrediente foi levado para muitas delas".

Ela sabe que, algumas vezes, no cinema, pode ser legal ter esse tipo de beleza que foge aos padrões. Mas de onde vem a mistura? "Acho que sou um tipo amazônico, que é a mistura de tudo. A gente tem o português e o negro na família. O índio mesmo não achamos. Lá em casa, são sete irmãos, quatro homens e três mulheres. Tenho uma irmã que era loura quando criança, tem outra que é branca de cabelo escuro, aí vem um dégradé que vai até a minha cor. Sou a mais morena", explica.

Sem medo de dizer que é feliz, a atriz acredita que ainda tem muito a fazer pelo cinema do país. Ao fim da entrevista, passamos por uma estante repleta de DVDs. Os filmes estão divididos por prateleiras, uma delas tem em uma etiqueta o rótulo "Cinema Nacional". "Acho que devia estar escrito 'Cinema Brasileiro'", repudia. Ali a gente se despede e cada uma toma seu rumo. Já não chove mais e a enérgica Dira, mesmo febril e atrasada uma hora e meia, se dirige à reunião onde será eleita a 'presidenta' da ONG Movimento Humanos Direitos. Aqui, ela ganhou o título de diva do cinema brasileiro: Diva Paes.

Christina Fuscaldo é jornalista e assinou a matéria "Pecado Capital", perfil da atriz Rosane Mulholland na RS 06 (março 07)