Dúvidas e Certezas

Prestes a gravar outro disco ao vivo, Humberto Gessinger descobre novas paixões

José Julio do Espirito Santo Publicado em 01/06/2007, às 00h00 - Atualizado em 10/08/2007, às 17h45

Humberto Gessinger baixa portaria: elétrico nunca mais
Marcos Hermes/Divulgação

Graças a novos arranjos e um esquema de marketing menos primitivo, o lançamento de discos em versões acústicas foi a última galinha dos ovos de ouro das grandes gravadoras: deu sobrevida às majors, ofereceu aos fãs clássicos com nova roupagem, e aos artistas a oportunidade de redescobrirem prazeres. Em 2004, os Engenheiros do Hawaii lançaram o Acústico MTV. Agora, um novo trabalho acústico e ao vivo vem aí, mas não é um segundo volume. Várias músicas inéditas já estão disponíveis em versões demo no site da banda. "Quero fugir um pouco de conceitos", explica o fundador Humberto Gessinger. "Penso em algo mais fragmentado - um disco não só de inéditas, mas não apenas de regravações, e gravado ao vivo. Tem a ver com o momento que estou vivendo e com a maneira como vejo a música hoje." Criado sob o dogma do "album rock", no qual o conjunto da obra ultrapassa o poder de uma só canção, Gessinger também é feliz com os novos tempos. "Sempre tive a tendência de fazer as coisas de uma maneira conceitual, mas estou no contrário disso. Não vejo mais sentido nesse formatão 'álbum e música de trabalho'. Hoje tudo é tão mais rápido e divertido", ele revela, e se anima com o atual modus operandi. "Sou um cara conservador na maneira como trato a informação, mas há a influência da internet aí - essa agilidade de gravar uma demo assim, com uma câmera num tripé, como Bin Laden grava os depoimentos dele, e colocar no site. A gente toca no interior do Pará e as pessoas cantam as músicas junto."

Os novos tempos, porém, não deixam o mundo melhor, e ele trata disso nas novas "Coração Blindado", sobre a frieza crescente das pessoas, e "Não Consigo Odiar Ninguém", em que se desaponta por não conseguir ter ódio. Em "Guantánamo", sintetiza sua perplexidade com o momento atual. "É uma música sobre alguém que se sente acuado por essa ditadura da certeza", explica. "Todo mundo sabe o que ama, o que odeia. Um cara com um pouco de sensibilidade fica perdido nesse mundo preto-no-branco. Porque eu só vejo cinza [risos]."

Presente no novo trabalho, está sua nova paixão: a viola caipira. "Foi após o Acústico que comecei a tocar mais com ela e compor", conta. "É um instrumento maluco, porque é meio rudimentar, mais limitado, mas que coloca a gente em conexão com um certo inconsciente popular." A empatia foi tanta que perpetua a onda acústica dos Engenheiros do Hawaii. "Esta é uma viagem mais radical e com uma influência mais brasileira. Pelo que eu consigo enxergar à frente, quero ficar nesta onda. Não sinto a menor vontade de voltar para a coisa elétrica." E disso, sim, Gessinger não tem nenhuma dúvida.