O Quarto das Cinzas

Grupo cearense investe na eletrônica para criar som

Alex Antunes Publicado em 01/06/2007, às 00h00 - Atualizado em 11/09/2007, às 11h42

O Quarto das Cinzas explora a eletrônica e rejeita os rótulos
Beatriz Pontes/Divulgação

O Quarto das Cinzas surgiu em 2003. Mas o Quarto das Cinzas surgiu nos últimos meses. As duas versões são válidas. A banda sempre foi um laboratório na pequena, porém radicalmente cosmopolita cena de Fortaleza. As influências locais são cruzadas entre o pessoal do Cidadão Instigado (o guitarrista Fernando Catatau tinha um bar que era um ponto de encontro do pessoal), do Montage (o tecladista Leco Jucá foi um dos fundadores de O Quarto das Cinzas) e dos músicos que acompanham a cantora Karine Alexandrino (o multiinstrumentista Dustan Galas é o atual produtor do Quarto) e participavam de experiências de improviso sobre bases eletrônicas, dando origem a formações muito interessantes (e efêmeras) como o Realejo Quartet.

Durante os últimos anos, O Quarto das Cinzas esteve polarizado entre suas origens eletrônicas - a concepção de Leco e do baixista e programador Davi Brasileiro - e performáticas - a voz e a presença de Laya Lopes, cuja origem é a dança, o teatro e a poesia. Os dois a conheceram fazendo a trilha sonora para um espetáculo de dança em que ela atuava. "No início, nossos grooves eram deliberadamente simples e lineares", explica o outro fundador, o guitarrista Carlos Eduardo. A cenografia do Quarto sempre foi trabalhada a sério, e conta com a participação de Marcelo Grud, que usava um retroprojetor ao vivo, e o diretor Paulo Amoreira. Músicos entraram e saíram: o baterista Felipe Maia; uma outra vocalista, Islamônica. Leco foi se dedicar ao Montage. Em algum momento, Laya e Carlos começaram a compor (em paralelo) canções que não combinavam tanto com as levadas do groovebox - o equipamento que até então estruturava o som do grupo. Finalmente, Davi também saiu, coincidindo com a decisão de O Quarto das Cinzas passar um tempo em São Paulo para investir na carreira e se preparar para a apresentação no último festival Abril Pro Rock. E então uma onda fulminante e simultânea de azar e inspiração varreu e virou do avesso o que O Quarto das Cinzas ainda era.

O groovebox pifou durante uma passagem de som. Isso não pareceu tão ruim, porque o grupo já tinha comprado um laptop para tocar as bases das novas músicas. Mas o laptop - com todas as bases - foi roubado em São Paulo. E, ao mesmo tempo, parte dos novos arquivos se apagou do computador do produtor Dustan, em Fortaleza. "Você já ouviu falar em quebranto?", pergunta rindo o baixista Raphael, referindo-se a um possível olho-gordo sofrido pela banda. Em viagens entre São Paulo, Fortaleza e Recife, o trio, ao lado de Dustan, montou novos arranjos, resgatou e retrabalhou algumas bases que estavam arquivadas em um estúdio no Ceará. E o guitarrista Carlos Eduardo ainda insistiu em gravar o material novo que estava compondo bem no meio da confusão...

Resultado: os três integrantes de O Quarto das Cinzas chegaram às vésperas do Abril Pro Rock exaustos, porém felizes, com um novo EP pronto (A Chave) e um repertório em que a eletrônica se tornou um complemento climático para o som refinado desta nova fase.

Em uma comunidade do Orkut, o show de O Quarto das Cinzas no Abril Pro Rock foi definido pejorativamente como "MPB tradicional fingindo-se de Radiohead e com performance teatral". Carlos Eduardo comenta: "Tem milhares de bandas por aí fazendo rock direto, 'pós-Strokes', 'pós-Franz Ferdinand'. Bom, isso é exatamente o que não queremos fazer". Sempre metafísica, a bela Laya diz procurar em seu som uma "verdade que o legitime". Eles não recusam comparações com nomes importantes da música eletrônica, como Portishead ou Björk, ou com a psicodelia dos Mutantes. Mas o buraco é mais em cima: nada de fórmulas prontas.

"Eu mesma fui entendendo o nome da banda aos poucos", conta Laya. Em um texto publicado em um fanzine antigo, explicou-se que o tal 'quarto das cinzas' era o local de ensaio dos músicos da banda, sempre sujo de bitucas de cigarro. Para Laya, essa definição seria prosaica demais: "O Quarto das Cinzas é o local das transformações", define.