Era uma vez em Albuquerque

Ao contar a história do advogado pilantra Saul Goodman, Better Call Saul acalenta a alma dos fãs saudosos de Breaking Bad

Stella Rodrigues Publicado em 12/02/2015, às 14h37 - Atualizado em 11/08/2015, às 12h58

Com outra identidade na série, Saul ainda engatinhava na picaretagem

URSULA COYOTE/AMC; JACOB LEWIS/AMC
Ursula Coyote/AMC; Jacob Lewis

"Você não pode deixar de fazer uma coisa só porque ela talvez não se torne tão bem-sucedida quanto o que você fez antes”, decreta Bob Odenkirk. O ator está respondendo a uma pergunta sobre o desafio de tirar do papel Better Call Saul, spin-off e prequel de um dos maiores sucessos da história recente da cultura pop, a série Breaking Bad.

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É agosto de 2014 e Odenkirk recebe a imprensa internacional no set do novo programa, em Albuquerque, mesma cidade que abrigou Breaking Bad e que hoje virou um ponto de peregrinação para os fanáticos pela história de Walter White (interpretado por Bryan Cranston) e Jesse Pinkman (Aaron Paul). Odenkirk entra e sai da sala, tendo a presença exigida em todos os cantos, enquanto é produzido o oitavo episódio da primeira temporada, que estreou no Brasil em 9 de fevereiro, pela Netflix. A cada retorno para a entrevista – apresentando os cabelos em tom acaju e usando um terno igualmente pavoroso, que dão o tom do personagem –, ele retoma de algum ponto aleatório a argumentação de como é válida, positiva e potencialmente ótima a ideia de levar para a TV o passado de Saul Goodman, o advogado picareta e desbocado que conquistou o público de BB.

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Holden Caufield, protagonista do ícone literário O Apanhador no Campo de Centeio (do escritor J.D. Salinger), diz que um bom livro é aquele que te faz ter vontade de ser amigo do autor para poder ligar para ele depois de terminá-lo. Embora isso raramente aconteça, como conclui Caufield, Hollywood inventou uma maneira eficiente de saciar essa vontade. Já é lugar-comum que filmes ou séries verdadeiramente originais (isto é, que não sejam continuações, prequels, adaptações etc.) são mais ou menos como a borboleta-monarca do entretenimento – cada vez mais raros. Mas, nesse caso, a sensação que fica é a de que os fãs conseguiram dar uma ligadinha para Vince Gilligan, criador e showrunner de Breaking Bad, para avançar um pouco mais na obra dele e debater alguns personagens a fundo. No passado mostrado em Better Call Saul, situado em 2002, Saul atende pelo nome de Jimmy McGill e é um inescrupuloso ainda em formação. “Jimmy é o tipo de anti-herói em quem você também vê o lado bom”, afirma Michael McKean, intérprete de Chuck, irmão mais velho de Jimmy e o personagem novo mais importante do universo criado por Gilligan. “Ele é manipulador, tira vantagem de quem não é tão esperto. Mas é muito fácil gostar dele. Mais do que de Saul Goodman.”

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Além de Jimmy/Saul, mais uma figura-chave para o desfecho de Breaking Bad integra o time de personagens da “série-mãe” que dão o ar da graça nesta temporada: Mike Ehrmantraut (Jonathan Banks). Aqui entenderemos os eventos que transformaram o faz-tudo do crime de BB naquele sujeito de poucos sentimentos. “Tudo que posso dizer é que Mike vai satisfazer suas tendências violentas”, adianta Banks, tentando em vão driblar o sigilo imposto na divulgação da série.

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Cada esquina de Albuquerque, maior cidade do Novo México, tem uma história para contar da época em que Vince Gilligan e elenco passavam longas temporadas no local. Para a equipe técnica (quase toda veterana de Breaking Bad) e os atores que retornam, é como investigar uma “história de origem”, aquelas tão comuns às tramas de super-heróis. E, como todo fã de super-heróis bem sabe, não honrar o cânone é um dos maiores crimes que a indústria do entretenimento pode cometer. “Por ser uma prequel, não dá para tomar o caminho que quisermos”, argumenta Odenkirk. “Como ele virou aquele cara que conhecemos? Vamos ver vários lados dele que não vimos em Breaking Bad. Uma das nossas dúvidas era como o tornaríamos alguém de quem iriam gostar. Aliás, nunca entendi como tanta gente gostava de Saul.”

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Muito foi levado em conta para decidir reviver um universo que ficou tão bem amarrado em Breaking Bad. Vince Gilligan, também showrunner e criador de Better Call Saul, e Peter Gould, que escreveu o capítulo em que Saul foi inventado e agora compartilha com Gilligan o comando da nova produção, tiveram como instinto inicial fazer algo como uma sitcom. Nada mais lógico, considerando que Saul era um ótimo alívio cômico. Acabaram, no entanto, optando por um tom mais sério (“Os últimos cinco segundos do piloto são de parar o coração!”, exclama Odenkirk). Ainda assim, será um drama familiar menos pesado. “As coisas que estão em jogo são menos graves”, continua. “Em Breaking Bad, o protagonista está morrendo de câncer, é triste. Aqui, ninguém está morrendo.”

“Não dá para vencer nessa, não vamos conseguir repetir [o fenômeno BB] – ninguém consegue”, conclui o protagonista. Porém, ter essa certeza não significa que Gilligan e Gould não estejam suando em mais essa empreitada. Ainda é uma incógnita se a dupla contará com as glórias do passado para atrair o público. Mas, por mais que esteja garantido que pelo menos nos dez primeiros episódios não haverá participação dos protagonistas de Breaking Bad, há a expectativa de que eles possivelmente apareçam na já confirmada segunda temporada. Não bastasse isso, o fã mais atento captará alusões à trama de Breaking Bad. “São referências, mas elas não entram na história como ‘piscadelas’ ao público, são mais profundas do que isso. Quando acontece, é algo cheio de significado para o personagem, não é só pela brincadeira”, adianta Odenkirk.