Rolling Stone Brasil de fevereiro apresenta reportagem exclusiva sobre a passagem de Bob Marley pelo Brasil

No mês em que Marley completaria 70 anos, traçamos um perfil do homem que fez do reggae uma força global, analisamos o legado deixado pelo músico e, ainda, e destrinchamos toda a discografia dele

Redação Publicado em 13/02/2015, às 13h37 - Atualizado às 14h27

Bob Marley se apresenta para um público de 40.000 pessoas durante um festival de reggae que aconteceu em julho de 1980 em Paris, na França.

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A edição 102 da Rolling Stone Brasil, fevereiro/2015, traz na capa o ídolo Bob Marley, ícone responsável por tornar o reggae conhecido mundialmente.

Em um especial dividido em quatro partes - Vida, Discografia, No Brasil e O Legado -, a revista traça um panorama da importância do músico que cresceu em meio à pobreza de Trenchtown, em Kingston, Jamaica. Em um texto histórico dos arquivos da Rolling Stone EUA, é narrada a trajetória de Marley, desde os dias como cantor em um trio ao lado de Bunny Wailer e Peter Tosh, até a morte precoce, aos 36 anos.

Bob Marley: os 70 anos do ídolo do reggae.

No capítulo Discografia, destrinchamos a carreira de Marley e dos Wailers, álbum a álbum. Com base na vida que teve, no país onde nasceu e cresceu, a Jamaica, Marley deu voz aos desprivilegiados do Terceiro Mundo. O som que ele fazia se tornou universal: africanos, asiáticos e latinos sentiram uma conexão imediata e, décadas depois de sua morte, ouvir Bob Marley continua sendo uma experiência reconfortante.

Na seção No Brasil, que pode ser lida na íntegra, logo abaixo, investigamos os dias que Marley passou no Rio de Janeiro, em março de 1980. "Bob tinha uma ligação com o Brasil por causa do futebol, que ele adorava", relembra Marco Mazzola, representante da gravadora Ariola, que na época convidou o cantor a vir ao país.

Bob Marley está na nossa lista de 25 momentos marcantes do Hall da Fama do Rock.

Por fim, na seção O Legado, analisamos o peso atemporal e revolucionário de Marley, um homem contraditório e ícone cultural. Apesar de não ter criado o reggae, foi ele quem melhor se apropriou do gênero e não deixou a mensagem se perder.

Além da matéria especial de capa, a revista traz ainda revelações de Marilyn Manson, que fala sobre a tortuosa relação com a mãe; um perfil do excêntrico Bill Murray, que sempre faz as coisas a seu modo; entrevista com Madonna sobre o novo disco da cantora, Rebel Heart; os desabafos de Alice Caymmi, que quer consolidar a carreira na música sem contar com o peso de seu sobrenome; e um bate-papo com Ricardo Boechat, o homem que teve rusgas com Roberto Marinho e, depois de consagrado como âncora, aprendeu a se locomover por São Paulo pegando carona com motociclistas.

Resenha: Marley – notável vida do astro do reggae é desvendada em documentário de quase três horas.

Há também entrevistas com o elenco e os criadores da série Better Call Saul, derivada de Breaking Bad, um portfólio sobre a gigante das HQs Marvel, resenhas sobre os discos de Björk, Sleater-Kinney, Bob Dylan, Angra e muito mais.

A edição 102 da Rolling Stone Brasil chega às bancas em 18 de fevereiro.

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A passagem de Marley pelo Brasil: futebol com Chico Buarque, maconha com Moraes Moreira e o encontro com uma fã

Por Ricardo Schott

Bob Marley já era um ícone quando entrou em um avião em Kingston, Jamaica, no dia 18 de março de 1980, rumo ao Rio de Janeiro. Ele vinha como convidado da subsidiária nacional da gravadora alemã Ariola, que havia acabado de lançar uma leva de discos dele no país. A agenda incluía uma entrevista coletiva de imprensa, passeios pela cidade, um bate-bola com artistas no campo de Chico Buarque e uma festa na casa noturna Noites Cariocas.

A possibilidade de shows na capital fluminense chegou a existir. “Bob tinha uma ligação com o Brasil por causa do futebol, que ele adorava. Tínhamos uma programação, mas não sabíamos o que poderia acontecer”, conta o produtor Marco Mazzola, representante da Ariola que fez o convite a Marley, aos Wailers e a Chris Blackwell, presidente da Island, gravadora do artista. A esperança de Mazzola de assistir a um show de Marley no Brasil começou a morrer quando o avião que trazia a comitiva do cantor parou em Manaus para reabastecer. Os longos dreadlocks do cantor e de Jacob Miller (vocalista do Inner Circle, que veio junto) chamaram atenção da Polícia Federal.

“Botei advogados da gravadora. As autoridades falavam que ele iria incentivar a juventude a usar drogas. No final, liberaram o avião, desde que ele não se apresentasse. Não deram o visto de trabalho”, conta Mazzola. Na época, Bob Marley ocupava o posto de imperador do reggae na Jamaica, na Europa e nos Estados Unidos, mas no Brasil dos anos 1980 ainda não era um ídolo das massas. Mesmo que Gilberto Gil já gravasse reggae desde os anos 1970 (incluindo “Não Chore Mais”, releitura em português de “No Woman, No Cry”), as batidas jamaicanas não eram exatamente populares no mercado fonográfico brasileiro. A PolyGram (hoje Universal) tinha lançado álbuns de Marley para um público diminuto. Catch a Fire (1973) foi o primeiro deles, seguido por Kaya (1978), censurado por causa da contracapa, que mostrava um cigarro e folhas de maconha. “Em 1980, Jimmy Cliff estourou com ‘Love I Need’. Peter Tosh veio participar da novela Água Viva e cantou no Brasil. Existia demanda por reggae, que surgiu na ressaca da febre disco, mas era restrita a uma turma descolada”, afirma o DJ carioca Wagner Fester. Com ou sem demanda, não havia hora pior para Marley conhecer um país que, mesmo flertando com uma “abertura”, ainda vivia sob o regime militar. Naqueles dias, o cantor trabalhava no disco Uprising (de maio de 1980, com o hit “Redemption Song”) e vivia uma fase ainda mais politizada.

O avião de Bob Marley pousou no Aeroporto Santos Dumont por volta das 18h30 do dia 18. De lá, Marley partiu com sua comitiva para o Copacabana Palace. Uma entrevista coletiva marcada no hotel quase foi cancelada, porque diversos jornalistas chegaram atrasados. “Lembro que a equipe dele entrou em pânico”, conta o jornalista José Emilio Rondeau, um dos convidados que respeitaram o horário.

Na manhã do dia 19, Marley e Jacob Miller foram conhecer a favela da Rocinha, a Praça General Osório e a orla de Copacabana. Correram no calçadão, armaram uma roda de reggae em uma loja de sucos (elegeram como preferido o de maracujá) e foram entrevistados pela Rede Globo. Passaram boa parte do dia comprando instrumentos de percussão e chegaram três horas atrasados à próxima etapa: uma pelada no campo do Polytheama, time de Chico Buarque. Marley ganhou uma camisa do Santos e posou para fotos com ela. Mas o passe do cantor já era do time Ariola, formado também por Chico, Toquinho, Mazzola e alguns executivos. O placar ficou em 3 a 0 para a equipe, com um gol marcado por Marley, outro pelo jogador profissional Paulo Cézar Caju e o terceiro por Chico.

O astro jamaicano deixou boa impressão, mas ninguém ali o descreveria como um craque. Mesmo assim, Moraes Moreira, que também jogou, considerou o gol de Bob “sensacional”. E ainda compartilhou outras atividades com o astro. “Como se tivéssemos combinado, nos afastamos um pouco de todo mundo. Em uma das laterais do campo, acendemos ‘unzinho’ – ou melhor, ‘unzão’”, relembra o baiano. “Imagina a onda que bateu!”

Ao fim da partida, ficou combinado que todos iriam à festa da Ariola no Noites Cariocas, no Morro da Urca – um evento para 800 convidados, entre astros contratados pela gravadora (além de Moreira, estavam na lista Milton Nascimento, Marina Lima, Ney Matogrosso e outros) e mais artistas, como as cantoras Simone e Baby do Brasil, que na época ainda adotava o nome Consuelo. Marley chegou por volta das 22h e conversou com Moraes Moreira e Marina Lima.

Moreira era fissurado por reggae. “Usava trancinhas no meu cabelo e me sentia da mesma tribo, já que somos todos filhos da nossa mãe África”, diz o ex-integrante do Novos Baianos. Apesar do clima festivo, nem tudo estava tranquilo. “Marley fumou com uns artistas que estavam na festa e a polícia, que também estava lá, viu”, lembra Mazzola. “Falaram que estávamos sendo vigiados. No fundo, ninguém estava tão protegido assim.” Pouco tempo depois, Moraes Moreira subiu ao palco, e em seguida Baby cantou uma versão de “Is This Love?”, intitulada “É Amor”. “Todos queriam que Marley cantasse. Perguntei a um cara que o acompanhava se não podia rolar pelo menos uma música”, conta Mazzola. “Ouvi dele: ‘Você não entende? Estamos aqui com advogados, se ele cantar, vai preso!’” Marley acabou deixando o local no meio da apresentação de Baby.

Mazzola sugeriu ao ídolo a possibilidade de ele cantar no Brasil dali a alguns meses. Não daria tempo: diagnosticado com câncer, o astro morreria em maio de 1981. O último dia de Marley no Brasil foi 20 de março. Por volta das 15h30, ele voou de volta para a Jamaica. Difícil dizer se com pelo menos um show de Bob Marley no Rio de Janeiro o reggae teria sido absorvido mais rapidamente por aqui. Seja como for, os cariocas se depararam com um rei pelas ruas da cidade e mal o reconheceram, já que o próprio cantor não parecia muito preocupado com cerimônias. No entanto, mesmo não se vendo como um astro, no meio das andanças pela capital, Marley teve um pitoresco encontro com uma fã.

Casada na época com José Emilio Rondeau, a jornalista Ana Maria Bahiana não foi encontrar Marley. Ficou em casa cuidando do filho pequeno, Bernardo – por uma causa que ia além do zelo com o rebento. “Precisei me engajar na ‘Operação Jacira’”, brinca Ana Maria. Então babá de Bernardo, Jacira Silva era fã de reggae e queria conhecer Marley. Rondeau, que iria entrevistar o artista para a revista Manchete, levou Jacira para o bate-papo. No momento em que Rondeau apareceu no quarto de Marley e viu uma montanha de maconha, Jacira estava ao seu lado. “Marley se encantou com ela. Jacob Miller também se interessou, ficaram todos conversando”, conta. Jacira não falava inglês e, embora fosse fã, não era groupie. “Ela não era disso. Só queria conhecê-lo. Hoje, é enfermeira. A última vez que estive com ela foi há dois anos, quando fui ao Brasil”, conta Ana Maria, que mora em Los Angeles. Segundo Rondeau, Jacira converteu- -se à religião evangélica e “nem gosta de falar desse assunto”.

O fotógrafo Mauricio Valladares acompanhou de perto a peregrinação carioca do ídolo, incluindo o encontro com Jacira. Para ele, “hoje é difícil andar pelas ruas e não cruzar com alguém usando uma camiseta de Bob”. Se nos anos 1980 o reggae não era unanimidade no Brasil, agora o panorama é diferente. “Marley é um deus aqui”, crava Valladares.