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Presença Constante

No elenco de duas estreias, Caio Blat segue abraçando todos os lados da dramaturgia

Stella Rodrigues Publicado em 18/03/2015, às 11h51 - Atualizado em 25/03/2015, às 18h30

Em cena
Blat aprendeu a grafitar para o filme Ponte Aérea.

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‘‘Quando fiz Bróder, passei dois anos só ouvindo Racionais MC’s, para chegar no Capão Redondo e poder falar de igual para igual com os moleques”, conta Caio Blat, explicando a atitude “CDF” em relação aos papéis que assume como simples “curiosidade”. Fazendo uma linha workaholic, porém zen (ele é budista há anos), o ator teve um mês de março agitado: encerrou uma novela de sucesso, Império, e logo estreou com dois filmes nos cinemas: Ponte Aérea, que chegou às telonas no dia 19, e Meus Dois Amores, que será exibido pela primeira vez nesta quinta-feira, 26.

Alemão, filme com Caio Blat e Cauã Reymond, cria faroeste desengonçado na favela carioca.

“Um atrás do outro, não dá nem tempo de eu ficar triste”, brinca Blat, de 34 anos. “E um alavanca o outro, é gostoso ter dois trabalhos tão diferentes para divulgar.” Apesar do tema amor ser comum a ambas produções, são duas abordagens tão diferentes quanto poderiam ser. Em Ponte Aérea, ele vive o surfista carioca Bruno, artista plástico descompromissado, que “pinta por hobby e tem uma vida adolescente”, segundo o ator. Ele conhece por acaso, em uma ponte aérea, a publicitária paulista Amanda (Letícia Colin), “executiva que comanda uma equipe enorme e lida com orçamentos milionários”. Pronto, a turbulência está no ar. O casal, além de muito diferente, vive o tradicional dilema “Quem tem tempo não tem dinheiro; e vice-versa”.

“Nem sei se pode ser chamado de comédia romântica, é um filme de amor mesmo”, defende Caio. “Os dois bagunçam os valores um do outro. O tema mais bonito, que atinge os dois, é a dificuldade de se envolver, o medo que essa geração tem de se entregar”, diz o ator.

Caio Blat fala da paixão pelo cinema latino e da carreira na literatura que opta por não seguir.

Com um pé na lagoa dos romances alternativos, lembrando vagamente trabalhos das atrizes norte-americanas Zoe Kazan e Greta Gerwig, o longa ainda investe em uma trilha “no nosso universo”, explica Caio. Ele foi padrinho de casamento da diretora Julia Rezende, e diz que ela, muito ligada à música, quis para o filme uma seleção “que definisse a geração”. Julia contratou o veterano Berna Ceppas (Orquestra Imperial), que incluiu Arcade Fire e Rodrigo Amarante na trilha.

A outra presença de Caio nas telas é em Meus Dois Amores, que dá vida ao conto de Guimarães Rosa Corpo Fechado. Na trama inusitada, Manuel (Blat) precisa escolher entre a amada esposa e a estimada mula. “São dois filmes universais, que falam com todo público”, diz ele, argumentando que os trabalhos têm o mesmo apelo. “Esta é uma comédia rural, familiar. Sempre sonhei fazer um filme caipira, é um gênero muito importante do cinema brasileiro.” Caio fala de maneira apaixonada da literatura de Rosa: “É cada pérola, dá vontade de anotar as frases, é um mestre da linguagem e das metáforas, mas que faz isso em um produto popular”.

Alexandre Nero estampa a capa da edição de setembro da Rolling Stone Brasil.

É difícil começar qualquer assunto profissional com Caio Blat e ouvir uma resposta blasé. O ator parece arrebatado por todo projeto que assume e se aprofunda de forma entusiasmada. Claro, faz parte do trabalho, mas são poucos os galãs que, por exemplo, passariam uma década pesquisando Os Irmãos Karamazov, de Fiódor Dostoiévski, antes de estrear uma montagem da peça. O projeto para os palcos segue abstrato, mas a dedicação rendeu um convite da Globo para que ele participasse do time de roteiristas de uma adaptação para a TV. “Meu avô sempre dizia para dominar todos os assuntos, ler sobre o máximo de coisas, aí conversaria com todo mundo”, relembra o ator, leitor voraz que consome dois jornais diariamente.

Tendo atuado consistentemente em pelo menos um filme e uma novela todo ano, nos últimos tempos, Caio Blat ainda tem mais projetos interessantes despontando. Um deles é o longa Califórnia, que marca a estreia da diretora Marina Person na ficção. Caio vive um crítico musical que descobre que é HIV positivo. “Foi um trabalho intenso. Fiz regime, já sou muito magro, mas quis emagrecer mais para marcar bem a doença. Foi muito difícil, mas é um filme lindo.”

Na televisão há mais de duas décadas, Leandra Leal cresceu aos olhos do público se mantendo fiel aos planos pessoais – e sem se deixar levar pelos dissabores da profissão “celebridade”.

Califórnia é mais um drama de geração na carreira de Blat, que tem balanceado tramas de personagens e épicos. “No cinema brasileiro, fala-se muito de temas sociais e históricos, mas bem pouco de vida pessoal. Essa é a grande superioridade do cinema argentino. Acho que é o tipo de trabalho mais rico que tem, por meio dele você entende uma época, um país. Gosto de histórias atuais, como o Entre Nós, Proibido Proibir”, diz, citando a própria filmografia. “Fico pensando que daqui a 50 anos, para entender o país, as pessoas vão rever esses filmes, e tenho muito orgulho disso.”