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Filtros que Salvam Vidas

O brasileiro Guga Ketzer e o ex-surfista Jon Rose apresentaram a ONG Waves For Water no SXSW

Lucas Borges Publicado em 17/04/2015, às 19h31 - Atualizado em 21/04/2015, às 15h59

Sem Fronteiras
Guga Ketzer atua como diretor de criação do projeto.
Divulgação

Em 2010, no decorrer da maior tragédia ambiental da história do Brasil, segundo a ONU (Organização das

Nações Unidas), o publicitário Guga Ketzer, empenhado em tentar ajudar as vítimas dos deslizamentos de terra na região serrana do Rio de Janeiro, recebeu uma ligação do ex-surfista profissional norte-americano Jon Rose. “É agora que os problemas acontecem: como morreu muita gente e muito gado, a água vai ficar contaminada”, Rose previu.

A princípio, o sócio e vice-presidente de criação da agência Loducca se incomodou com a interferência do "gringo”. Mas Rose sabia do que estava falando. Fundador da ONG Waves For Water, em 2009, ele tinha uma solução: um simples filtro.

Ketzer gostou tanto da ideia que se tornou uma espécie de diretor de criação do projeto (“uma coisa que quase nenhuma outra ONG tem”, afirma) e incluiu celebridades como Neymar, Paolla Oliveira e Alex Atala na ação, estimando ter levado a possibilidade de água limpa a quase 2 milhões de pessoas desde então. Em março deste ano, ele e Rose falaram durante o festival South by Southwest (ou SXSW), no Texas, sobre os problemas acarretados pela falta de água potável. Dias depois, o gaúcho conversou com a Rolling Stone Brasil.

A crise hídrica no país é mais grave do que se imagina?

Hoje, a água passou a virar assunto no Brasil por causa da seca nas cidades onde normalmente isso não existia. Mas a Waves For Water vem trabalhando desde 2010. O que muitos não sabem é que 1 bilhão de pessoas no mundo não têm acesso a água potável. Uma criança morre a cada 15 segundos, no mundo, por doenças ligadas à falta de água potável. Morrem mais mulheres de doenças relacionadas a isso do que de Aids e câncer de mama juntos.

A tendência é que o Brasil seja um país cada vez mais afetado pela questão da água?

Exatamente. A água do volume morto [conteúdo do fundo de reservatórios usado para amenizar a crise hídrica em São Paulo], por exemplo, é muito pior. O uso de cisternas tem crescido, só que às vezes o telhado está contaminado, o recipiente também e a água precisa ser filtrada. Na Amazônia, tem gente que nunca tomou água do rio. Eles usam muito cloro ou precisam caminhar muito até um poço. O Brasil ainda tem muitas necessidades.

Como funciona esse filtro proposto pela ONG?

Ele tem 0,1 micrómetro de diâmetro, nenhuma bactéria passa, é pequeno, fácil de usar e com capacidade de filtragem de até 3 milhões de litros de água. Até 100 pessoas por dia podem ter acesso a água filtrada por 5 anos. É muita coisa. Qualquer um pode montar, não tem eletricidade, o fluxo dele é de gravidade. Você pega um balde de 15 litros, faz um furo e coloca o filtro. Mas pode ser uma caixa d’água, um recipiente maior. A manutenção também é muito simples.

De onde eles vêm?

Eles são de uma empresa norte-americana que desenvolveu isso para o exército de lá. Usamos a melhor tecnologia disponível naquele momento. Já tem muita gente nos mandando outros produtos, mas nenhum ainda

chegou nesse custo-benefício. Qualquer um pode adquiri-los entrando no site da Waves for Water. O custo para o Brasil é de aproximadamente US$ 60.

Vocês têm ideia de quantos litros de água a ONG já ajudou a filtrar mundo afora?

Já foram distribuídos mais de 150 mil kits, o que dá 450 bilhões de litros filtrados. A ONG começou sendo muito forte no Haiti, ainda é muito forte lá. Operamos em mais de 20 países, já levamos acesso a água potável para mais de 15 milhões de pessoas, até 2 milhões no Brasil – e não para. Estamos agora em Vanuatu, uma ilha

perto da Austrália que foi destruída por um tufão.