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Salvo pelo Rock

De braços dados com o lado selvagem da vida na música, Thiago Pethit finalmente encontrou seu lugar

Carlos Sartori Publicado em 16/04/2015, às 17h38 - Atualizado em 06/05/2015, às 17h27

Pethit nas ruas de Los Angeles, em 2014
Gianfranco Briceno

Meio cambaleante, Thiago Pethit adentra o escritório de sua assessoria de imprensa, em São Paulo, com cara de quem acordou há pouco. Quase precisou desmarcar a entrevista. “Achei que estava com dengue”, explica o músico, com a cabeça adornada por um chapéu negro à la Bob Dylan. Embora de início ainda pareça combalido por uma forte gripe, a disposição de Pethit não demora a mudar: bem articulado, o paulistano de 29 anos exibe humor refinado e não se esquiva de qualquer que seja o tema.

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Nem da política, por exemplo. Dois meses após o show de lançamento do disco Rock’n’roll Sugar Darling, em que ele definitivamente abraça o rock, e no dia seguinte aos protestos de 15 de março, contra o governo de Dilma Rousse , Pethit não se vê representado nas ruas. “O Brasil não é decadente e sem elegância, é ‘demodê’”, analisa. “A gente tem dois polos, o de sexta [13 de março] e o de domingo [15 de março]. Ninguém apresentou um caminho diferente.”

Em um espaço de quatro anos, Pethit lançou três discos: Berlim, Texas (2010), Estrela Decadente (2012) e Rock’n’roll..., que saiu no final de 2014. Ele começou a gravar quando o compartilhamento de faixas pela internet já era uma realidade. “Isso me pilhou muito para fazer música, porque sem nenhum esforço ela vai chegando aos lugares”, acredita. O cantor, compositor e guitarrista já se apresentou fora do Brasil – diz ter fãs na Turquia e na Argentina – e planeja se aventurar com calma em uma carreira internacional. Mas Pethit sabe que trafega em um espaço que, ainda que já tenha ultrapassado as barreiras do mercado independente, permanece alguns passos distante da aceitação em massa. Não é, para ele, um problema. Chegar ao ponto em que está hoje já foi um desafio.

Crítica: Thiago Pethit – Rock’n’Roll Sugar Darling.

O prêmio na categoria Aposta MTV, no finado Video Music Brasil, em 2010, representou um ponto de virada na trajetória de Pethit. “Foi um choque. Eu só tinha ouvido que não daria certo – e o prêmio vinha do voto do público. Pensei que o mercado estava muito errado. Aí vieram várias bandas iguais depois”, ele ironiza. “Se hoje surge um artista fazendo um disco igual ao Rock’n’roll..., eu vou ter que repensar as estratégias.”

Sem cair em uma vala comum, o músico fl erta com os clichês de astro do rock: no palco, encarna uma mistura híbrida de ícones como Lou Reed, David Bowie, Mick Jagger, Nick Cave, Tom Waits e Iggy Pop. O lado ator de Pethit é essencial quando ele está diante de uma plateia. Também por isso, ele costuma buscar no cinema, no teatro e na literatura inspiração para a construção dos projetos que toca. Já trabalhou com artistas de várias frentes, entre eles a atriz Alice Braga, as cantoras Mallu Magalhães e Cida Moreira e o ator Joe Dallesandro, ex-queridinho de Andy Warhol.

A história com Dallesandro, que chegou a ser considerado um dos homens mais bonitos do mundo na década de 1970, daria um roteiro. Homenageado na canção “Walk on the Wild Side”, de Lou Reed, Dallesandro se encontrou com Pethit em Los Angeles, graças ao polêmico e ousado clipe que o brasileiro gravou para a música “Moon”, com direção de Heitor Dhalia. Nele, Pethit, como coadjuvante, interpreta um garoto de programa.

Thiago Pethit lança série de vídeos com performances ao vivo.

“O Joe viu, gostou e me procurou. Foram seis meses conversando virtualmente e três encontros pessoais. Situações de filmes de Andy Warhol: bizarras, nonsense, loucas”, ele divaga. O resultado da parceria está na abertura do mais recente disco. “Na introdução, o Joe fala que as pessoas precisam de um rock star com pés no chão, que seja superestrela do rock, mas que esteja caminhando na mesma rua que elas.”

A verve roqueira e a mudança entre o início da carreira e a atual postura de Pethit seriam estratégia de marketing ou estilo de vida? A resposta vem de maneira indireta, mas sem hesitação. “Posso dizer com a boca cheia que o mercado musical no Brasil é machista”, brada. “Eu me apresentei como um cantor supersensível, bonitinho, sussurrando, mas que não cantava samba, não era gênio como o Chico Buarque, não se escondia. Eu era um cara que queria se mostrar. Pronto! Era um problema de mercado: uma bicha no mercado. ‘Uma figura que não cabe para a gente vender, porque não vai ter espaço’.”

No segundo disco, Pethit escancarou na capa suas verdadeiras ambições artísticas, logo após uma profunda depressão. “Em Estrela Decadente, em que apareço com batom na cara, eu estava dizendo: ‘Precisamos olhar para o mundo, que está careta pra caralho. Precisamos olhar para um monte de evangélicos retrógrados que entram no poder dizendo que viado tem que morrer’.”

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Sem meios-termos (“Eu acredito que os black blocs são o novo”, afirma), Pethit destila sua poesia contra o politicamente correto. “Nada é contracultural ou ousado o sufi ciente, nada é provocador o sufi ciente hoje em dia, o que é estranho”, observa. Talvez por isso, o refrão da faixa-título do novo disco seja tão desafiador: “Doce como açúcar, explode na sua boca, vem chupar meu rock’n’roll”.

Sem pressa, Pethit já vislumbra o próximo álbum (“Não sei se ele será rock, mas será ‘dark’”). Está feliz com o caminho que vem seguindo. Ele finalmente se encontrou, ainda que não tenha escolhido o lugar mais fácil para se estar. “Eu quero ser o produto menos vendável, mas que mais venda”, define.