Cem anos de cegueira

O centenário do genocídio armênio, o primeiro massacre étnico em massa do século 20, traz à tona uma verdade inconveniente: a de que inúmeros países, inclusive o Brasil, teimam em não reconhecer o ocorrido

Redação Publicado em 08/05/2015, às 16h14 - Atualizado em 27/05/2015, às 17h47

Cem anos de cegueira

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Os números variam: há estudiosos que citam 800 mil mortos, mas uma grande fatia da comunidade armênia espalhada pelo mundo acredita que, na verdade, 1,5 milhão de pessoas do povo armênio tenham sido barbaramente massacradas há 100 anos pelo Império Otomano, hoje Turquia. A grandeza das atrocidades transcende, no entanto, o dado estatístico: muito sangue foi derramado no primeiro genocídio do século 20.

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O centenário foi lembrado em 24 de abril por todas as comunidades armênias mundo afora, inclusive no Brasil. Argentina, Chile, Uruguai e Venezuela são os países latino-americanos que atestam a ocorrência do genocídio – porém, o território brasileiro, o mais importante representante da região, teima em não fazer parte desse grupo. Algo considerado uma afronta pela ampla colônia armênia instalada no país (cerca de 100 mil pessoas). O Uruguai foi o primeiro Estado da América Latina a reconhecer legalmente o genocídio armênio, ocorrido quando os turcos ainda se erguiam como Império Otomano, principalmente entre 1915 e 1917 (a República da Turquia foi fundada em 1923). Há uma década, a Argentina também se rendeu à realidade: a lei 26.199 não apenas sublinha o reconhecimento do massacre como declara o 24 de abril como “Dia da Ação pela Tolerância e Respeito entre os Povos”.

Em 1876, quando o sultão turco Abdul Hamid assumiu o poder do Império Otomano, o ódio aos armênios – cuja terra natal fazia parte do Império – se alastrou, perpetrado principalmente pela coalizão nacionalista Jovens Turcos. Olhando em retrospecto, é possível dizer que os turcos tinham como objetivo uma espécie de limpeza étnica, como ocorreu anos mais tarde no Holocausto dos judeus. Quando os ânimos da Europa estavam em ponto de ebulição, durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a desculpa para a carnificina era a de que os armênios colaboravam com os russos (os turcos eram aliados da Alemanha, inimiga da Rússia na guerra).

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O brutal pontapé inicial foi dado em 1908 com um golpe originado em Salonica, hoje território grego. Um ano depois, ocorreu a primeira chacina, na cidade de Adana, onde estima-se terem morrido 30 mil pessoas. Nos anos que se seguiram, a comunidade internacional fechou os olhos para o número crescente de mortes, como viria a ocorrer tantas outras vezes no futuro.

Nem o mais selvagem dos filmes de terror chega perto da violência praticada contra os armênios. Há relatos de fetos sendo arrancados do ventre de suas mães grávidas; também separava-se à força casais de homens turcos e mulheres armênias, para evitar que tivessem filhos. A essa altura, já não era apenas a juventude nacionalista que atuava: era o Estado instaurando uma doutrina oficial de horror e ódio contra todo um povo. Os turcos forçaram enormes quantidades de armênios a deixar as casas onde viviam e migrar para o deserto sírio de Deirez Zor, em expedições a pé. A maioria morria no caminho – de fome, frio, doenças ou pelas mãos atrozes dos soldados turcos.

Os poucos sobreviventes – o número mais aceito é de 90 mil armênios – espalharam- se pelo mundo. Fugiram, inicialmente, para Irã, Iraque, Palestina e Síria, e a partir daí buscaram refúgio em outras partes do globo, constituindo comunidades armênias. Dos mais de 11 milhões de armênios existentes hoje, apenas 3,5 milhões vivem em seu país de origem. Fora a Rússia, para onde migrou a maior quantidade de pessoas, as principais colônias na Europa levantaram-se na Alemanha, França, Itália e Holanda, mas foi na América onde floresceram com mais vitalidade: Estados Unidos, Argentina, Canadá, Brasil e Uruguai têm as maiores comunidades no continente.

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Anahid era filha de uma família armênia com boas condições financeiras: antes dos horrores do genocídio, os parentes dela eram donos de uma das maiores lojas de miudezas da cidade de Ancara. Com 13 anos, ela escapou de figurar entre as centenas de milhares de armênios mortos pelos turcos. Nunca mais teve notícia dos pais e irmãos. Aos 16 anos, se casou com um homem chamado Melek, com quem teve a filha Lori e o filho Narek.

Depois da vida de incipiente riqueza em Ancara, Anahid passou a maior parte do resto de sua trajetória tentando sair da pobreza. Em Istambul, onde acabou se estabelecendo mais tarde, trabalhou como pôde para alimentar os filhos. Os efeitos dos traumas pelos quais passou a perseguiram por toda a vida. Os descendentes dela continuam morando à beira do estreito do Bósforo, na Turquia, e hoje conseguem compreender a verdadeira importância da tragédia na história de seus antepassados.

Anahid era especialista em manti, uma massa típica da Armênia, e oferecia o prato aos vizinhos muçulmanos e turcos. Com eles dentro de casa, dizia o que poucos ousavam expressar: “Os turcos mataram nossas famílias”. Ela não tinha ciência de que estava derrubando um grande tabu: falar do genocídio em público.

“Gravamos essa história em nossas mentes por causa dela, desde pequenos; com meus pais, nunca se falava do genocídio – era a ferida mais profunda”, diz Sergio, filho de Lori e neto de Anahid, enquanto toma chá preto em um estabelecimento de Istambul. Esse não é o nome verdadeiro dele. “Pode parecer covardia, eu sei, mas...”, diz, fazendo uma pausa. Ele conta uma história que representa a discriminação que ainda permanece engendrada na sociedade turca. “Em uma manhã de 1990, peguei um táxi para o aeroporto em Istambul. Passamos por uma blitz; o policial parou o carro, abriu a porta repentinamente, pediu que saíssemos e que nos inclinássemos sobre o veículo. Ele pegou minha identidade, e perguntou: ‘O que você é? Um sêmen armênio ou um bastardo grego?’ Respondi apenas que era humano, e ele me bateu na cabeça. Deixaram-me passar depois de eu mostrar minha autorização de trabalho.”

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Sergio reforça a importância da coragem da avó ao relatar, sem temores, o sofrimento pelo qual ela passou. “À medida que crescíamos, percebíamos que todos sabiam dessa realidade, mas que ninguém falava dela. Passamos a entender o que nossa avó nos contava: é a história da minha família, mas é também a história de quase todas as famílias armênias. Está no próprio sangue.” De acordo com o neto, Anahid sempre se lembrava dos acres de vinhedos que existiam no bairro de Dikmen, em Ancara. A paisagem lhe foi tirada de maneira permanente: ela jamais voltou à cidade onde cresceu.

“Hoje, em 2015, nós sabemos muito sobre o genocídio e podemos relatá-lo para nossos filhos de modo objetivo”, declara Sergio, endurecendo o semblante. “Estes 15 anos do novo século têm sido de muito avanço nesse sentido. Muitas pessoas respeitam o sofrimento do povo armênio e nos ajudam na causa. Mas ainda falta muito a ser feito.”

Questiono se o reconhecimento serve realmente como consolo. “Sim, e é muito importante, porque a nova república turca, por mais de 90 anos de suposta democracia, jamais reconheceu o que fez. Pelo contrário, eles foram ainda mais duros com os armênios do que com qualquer outra etnia.”

Em 1955, depois de uma rebelião na Turquia por causa de embates entre gregos e turcos na ilha de Chipre, novamente minorias voltaram a ser atacadas de maneira descarada em Istambul, incluindo gregos ortodoxos e, claro, armênios. “Queimaram lojas, estupraram mulheres... Dizia-se que era a última chance de evitar que Istambul se convertesse na ‘capital das minorias’”, Sergio se recorda. Essa nova onda de ódio foi o principal motivo para que ele não recebesse um nome tipicamente armênio. “Nossos padrinhos deram a mim e meu irmão nomes não armênios por medo, para evitar que soubessem da nossa origem. Somente nós, aqueles que viveram com medo por tantas gerações, sabemos o que é isso. Eu vivi na própria pele: nos anos 1980 e 1990 ser armênio, aqui, era mais ou menos ser um delinquente. A palavra ‘armênio’ tinha se tornado um insulto.”

A discriminação ainda é latente. O caso mais contundente é o de Hrant Dink, jornalista turco-armênio que lutava pelo reconhecimento do genocídio e foi assassinado em 2007. Não é o único exemplo: em 2014 e 2015, alguns dos bens e ativos de fundações e instituições armênias foram devolvidos pelo governo turco – no entanto, segundo Sergio, os veículos de comunicação turcos, nas entrelinhas, davam a entender que a medida era, acima de tudo, um “favor” aos armênios.

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Passaram-se exatos 100 anos e os armênios querem apenas que aqueles que ainda fecham os olhos para o massacre reconheçam o genocídio. Na própria Turquia há movimentos nesse sentido. Isso ficou claro em janeiro, quando milhares de cidadãos turcos se congregaram em várias cidades do país para honrar a memória de Hrant Dink. Em Istambul, a manifestação chegou à redação do semanário armênio Agos, que Dink dirigiu até a morte.

O assassino confesso, Ogun Samast, menor de idade quando cometeu o crime, cumpre pena de 22 anos, mas os familiares de Hrant Dink afirmam que a Justiça nunca tentou encontrar aqueles que ordenaram disparar contra o jornalista.

Em 12 de abril, em uma missa no Vaticano, o papa Francisco se referiu ao massacre dos armênios como genocídio. As declarações causaram uma crise diplomática com a Turquia, que retirou o embaixador turco do Vaticano. O presidente turco Recep Tayyip Erdogan rechaçou as declarações do pontífice, classificando-as como “delírios”. O papa, ainda assim, voltou a se referir ao assunto em uma missa posterior. “O caminho da Igreja é o da franqueza”, afirmou. “Não podemos silenciar o que vimos e ouvimos.”

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O Brasil ainda não reconhece o genocídio de maneira oficial, ainda que no 99º aniversário do massacre, em abril de 2014, o próprio Recep Tayyip Erdogan, então primeiro-ministro, em um gesto reconciliatório inesperado, tenha se referido à sucessão de mortes como algo “desumano”. Na maioria das vezes, os armênios brasileiros – e por todo o globo – consideram insuficiente esse tipo de condolências, mas é mais do que o Brasil já manifestou pela causa.

Para os armênios, vítimas ignoradas, é necessidade básica recuperar a história, passar a limpo o passado e reconstruir uma identidade, ainda que estejam tão dispersos pelo mundo. Para isso, precisam da ajuda e do reconhecimento de outros países, muitos dos quais os abrigam. Quanto mais nações reconhecerem o genocídio, mais cedo a Turquia o fará e, assim, os armênios poderão conviver com menos dor não apenas com os turcos mas principalmente com o fantasma de seus mortos esquecidos.