Ira em Estado Bruto

Mark Ruffalo usa a própria raiva para dar vida a Hulk, o monstro mais cheio de alma dos quadrinhos e do cinema, que está nos cinemas em Vingadores: Era de Ultron

Brian Hiatt | Tradução: Lígia Fonseca Publicado em 07/05/2015, às 15h36 - Atualizado em 11/05/2015, às 14h37

Ira em Estado Bruto

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Hulk está sentado em um vagão quase lota do do metrô, em uma tarde de segunda -feira, usando óculos de aros grossos, ocupado pouco espaço, definitivamente sem esmagar coisa alguma. É só mais um nova-iorquino – não há nada para ver aqui. Ele pegou a linha 1 até o Central Park em busca de gostinho de início de primavera, e os outros passageiros não tiram os olhos do celular por tempo suficiente para prestar atenção nele. O fato de Mark Ruffalo, no momento, não estar nem um pouquinho verde também não ajuda – embora isso normalmente não impeça que alguém grite “E aí, Hulk!” para ele na rua. Sem contar que Ruffalo tem 1,72m, não 2,43m, e hoje escolheu uma jaqueta azul com capuz, suéter desgastado e jeans escuros em vez da bermuda roxa rasgada. Ele também está magro, depois de perder boa parte do peso que ganhou para interpretar um lutador olímpico no filme Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo (2014), em que não pôde contar com a musculatura verde feita por computação gráfica. Só que há algo intrinsecamente típico de Hulk nos traços faciais de Ruffalo – sempre houve, muito antes de a equipe de efeitos visuais de Vingadores mapear cada poro e cicatriz de seu rosto para usar na fera digital a que ele dá vida. “Aquilo foi engraçado”, diz Ruffalo, que tem 47 anos, mas parece uma década mais jovem, exceto por alguns fios grisalhos que, surrealmente, aparecem também em Hulk. “‘Ei, você quer que eu faça o Hulk? Sou meio que parecido com ele!’” Ruffalo também alega semelhanças com Bill Bixby, o ator que fez o doutor Banner no seriado O Incrível Hulk, no final dos anos 1970: “Eu e Bill somos um pouco parecidos também”.

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Um pouco, talvez. É de família. “Lembro claramente que achava que meu pai era o Hulk quando ficava bravo comigo na infância, só que ele não ficava verde. Ficava vermelho – um Hulk vermelho”, recorda Ruffalo. “Ele tinha sobrancelhas grossas, cabelo escuro e veias saltando no pescoço, e ficava de punhos cerrados, e eu pensava: ‘Ele está se transformando no Hulk! Proteja- se!’ Meu pai não era fisicamente violento mas era muito intenso. Então, está ali. Minha compreensão da ira tem uma conexão profunda com isso”.

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O negócio com Ruffalo é que você gosta dele quando ele está raivoso. Na tela, basicamente não dá para deixar de amá-lo, independentemente de tudo. Ele é mais do que capaz de se misturar completamente aos personagens que interpreta, alterando sua linguagem corporal e seu jeito de falar quase a ponto de ficar irreconhecível, mas nunca consegue suprimir totalmente um tipo de charme cheio de alma, seja no papel de um ativista da aids heroicamente duro no telefilme The Normal Heart (2014) seja como um executivo da indústria musical em Mesmo Se Nada Der Certo (2013). Nos filmes dos Vingadores, você realmente assimila os longos trechos em que ele é Bruce Banner, o que nunca foi o caso, digamos, do azarado Eric Bana, protagonista do desastroso filme de 2003 dirigido por Ang Lee.

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Em Vingadores: Era de Ultron, que está em cartaz nos cinemas brasileiros desde o final de abril, há uma cena silenciosa e emocionalmente carregada entre Banner e Natasha Romanoff/Viúva Negra (Scarlett Johansson), em que a visão do queixo trêmulo de Ruffalo é de alguma forma tão atraente quanto o espetáculo de seu alter ego destruindo um edifício. “Nunca penso: ‘Banner! Enlouqueça! Alguém bateu nele!’”, afirma Joss Whedon, diretor e roteirista dos dois filmes da franquia Vingadores. “Porque Mark é muito envolvente. É alguém com quem você toma cerveja. Melhor: é alguém que dá um jeito de ir tomar uma cerveja com você, e você percebe.”

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O Hulk é uma das grandes estrelas dos filmes dos Vingadores, quebrando coisas por todos nós, pecadores, ficando irado por cada pessoa nervosa do Universo. O segredo frequentemente citado por Bruce Banner para controlar suas transformações – “Sempre estou com raiva” – se encontrava alinhado com os humores norte-americanos em 2012 (quando Os Vingadores se tornou o terceiro filme de maior bilheteria de todos os tempos). Parecia que cada filme anterior da Marvel tinha a finalidade de antecipar Os Vingadores, que exibiu cenas que foram, nas telas, o equivalente mais próximo da poesia visual cinética do falecido Jack Kirby, cocriador do Hulk.

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Na superfície, o tranquilo Ruffalo, um forte e sincero usuário da palavra “cara”, não parece ser a escolha certa para simbolizar a incorporação da raiva. A única vocação que ele considerou seriamente além de atuar foi a de free surfer, na qual sua vida giraria em torno de pegar ondas sem a chatice da competição. A verdade, no entanto, é que ele entende muito de raiva, frustração e pesar. Aos 20 e poucos anos, já tinha participado de cerca de 600 testes fracassados, em uma época em que ele trabalhava servindo bebidas a astros de cinema no hotel Chateau Marmont, em Los Angeles, enquanto às vezes esburacava com socos a parede do apartamento em que morava. Ele lutou com a dislexia e o déficit de atenção, não diagnosticados na infância e adolescência. “Era fácil as pessoas pensarem ‘Ele não é muito inteligente’ ou ‘É preguiçoso’”, diz. Houve a ansiedade sufocante que o levou a iniciar uma prática de meditação diária há sete anos. Nessa época, seu carismático irmão mais novo, Scott, um cabeleireiro popular em Los Angeles, foi assassinado, em um crime ainda sem solução.

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Fazer o papel do “homem marcado pela experiência” na pele de Bruce Banner não é tão difícil. No metrô, Ruffalo pede que eu sente à direita dele, para que possa escutar. “Só tenho um ouvido bom”, conta, animado. “Tudo o que escuto com o outro agora é uma afinação Lá 440 perfeita. Provavelmente posso afinar minha guitarra com ele.” Em 2001, quando o primeiro filho de Ruffalo estava prestes a nascer, o ator descobriu que tinha um tumor no cérebro. Era benigno, mas metade do rosto dele ficou paralisada por um longo ano, durante o qual perdeu um papel de destaque em Sinais para Joaquin Phoenix. “Literalmente implorei ao M. Night Shyamalan para me deixar fazer o personagem mesmo assim, mesmo com o rosto paralisado”, relembra.

A paralisia foi embora, mas a audição no ouvido esquerdo desapareceu para sempre. “Você começa a fazer acordos: ‘Ok, seja lá quem for, o que for – leva minha audição, mas não me afasta do meu filho’”, afirma. “É um momento pesado para acontecer aos 30 anos, mas foi uma benção disfarçada. Aprendi sobre falibilidade e mortalidade, sabe, 10 ou 15 anos antes dos meus colegas.”

Ruffalo treinou com Stella Adler, a grande dama do ensino da atuação nos Estados Unidos, que também trabalhou com Marlon Brando e Robert De Niro. Ele estudou as obras de Strindberg e Ibsen, não de Stan Lee e Jack Kirby, e sempre encontrou a raiva entre suas emoções mais acessíveis. “Lembro que era muito difícil para as pessoas ficarem iradas no palco, mas a frustração que eu sentia com a atuação me deixava bravo o tempo inteiro. Stella dizia: ‘Comece uma cena com as pessoas gritando, com raiva, e você prenderá a atenção da plateia imediatamente’.”

Hulk nasceu em 1962, cinco anos antes de Ruffalo. Foi um dos primeiros heróis da Marvel Comics nos anos 1960 e tem a marca das HQ de monstros que Lee e Kirby lançaram antes de voltar aos super-heróis com o Quarteto Fantástico. “Estava ficando cansado dos super-heróis normais”, conta Stan Lee, de 92 anos. “Meu editor perguntou: ‘Que tipo de novo herói podemos criar?’ Respondi: ‘Que tal um monstro do bem?’ Ele achou que eu estava louco, mas me lembrei de Jekyll e Hyde, e do filme de Frankenstein com Boris Karloff , em que sempre parecia que o monstro era o mocinho, então pensei: ‘Por que não pegar um monstro que não quer causar nenhum dano, mas que precisa fazer isso em defesa própria, porque as pessoas sempre estão o atacando?’”

Lee Kirby tinham criado um super-herói monstruoso no ano anterior – Coisa, uma criatura laranja coberta por pedras no Quarteto Fantástico, o personagem mais popular do time. Inicialmente, alguns fãs viram o Hulk como uma cópia de segunda do Coisa e a dupla de criadores retrabalhou intensamente o personagem enquanto prosseguia: no começo, ele era cinza, usava frases completas (“Saia do meu caminho, inseto”) e Banner se transformava ao entardecer, e não quando sentia raiva. A primeira série de quadrinhos do personagem foi cancelada depois de apenas seis edições e, provavelmente, não é coincidência que os seres seguintes da Marvel – Thor, o Homem-Aranha – fossem super-heróis fantasiados mais tradicionais. Logo, no entanto, um espaço se abriu na programação da editora, e Lee e Kirby montaram uma superequipe chamada de Vingadores e o Hulk se juntou brevemente a ela.

Ele levou anos para encontrar sua forma e personalidade definitivas. Só em 1967 articulou sua razão de ser: “Hulk esmaga”. “Depois de um tempo, achei que alguém que se parecesse com o Hulk não soaria exatamente como Laurence Olivier”, ironiza Lee. O personagem só teve sua própria HQ novamente em 1968, e os universitários da década de 1960, em particular, gostaram da ideia de um anti-herói mal compreendido, perseguido e de aparência nada convencional que passava boa parte do tempo esmurrando o Exército norte-americano. Em 1971, ele era um ícone contracultural suficientemente importante para aparecer em uma ilustração na capa da Rolling Stone, desenhada por Herb Trimpe, veterano artista da Marvel.

Como o próprio Bruce Banner, Ruffalo hesitou um pouco em entrar para Os Vingadores. Whedon e Kevin Feige, o presidente da Marvel Studios, dizem que ele foi a primeira escolha para o Hulk, pelo menos assim que ficou claro que não continuariam com Edward Norton, astro de O Incrível Hulk (2008).

Na verdade, Ruffalo não gostou da ideia de assinar o contrato enquanto Whedon ainda estava escrevendo o roteiro e, mais exatamente, “estava com um pouco de medo”, acrescenta durante um almoço no West Village, perto de sua casa, em Manhattan, Nova York. Ele ficou impressionado com o surpreendente Tony Stark de Robert Downey Jr., que “abriu o caminho para esse tipo de abordagem de personagem-ator independente, totalmente fora do que você normalmente consideraria ser seu astro de cinema clássico. Então, pensei: ‘Consigo fazer isso? Posso ser tão inteligente e encantador e hábil?’”

Como Ruffalo lembra, Downey lhe disse: “Qual é, não se preocupe. Eu te ajudo nessa. Ficaremos bem”. As cenas com os homens da ciência em Os Vingadores se tornaram destaque: “Ver os irmãos cientistas, como os chamamos, é um grande prazer”, afirma Whedon, “porque provavelmente o romance preferido de todos no universo Marvel é entre Tony Stark e Bruce Banner”.

Ruffalo e Joss Whedon trabalharam juntos para descobrir a abordagem que dariam ao novo Hulk, o que os levou de volta ao antigo seriado de TV. “A primeira coisa que nós dois dissemos de cara foi: ‘É totalmente Bill Bixby’”, conta o roteirista e diretor. “Porque embora Bixby estivesse focado em se curar, toda semana ele ajuda alguém de alguma forma. Mark falou: ‘É quem quero ser, quero ser o cara que ajuda as pessoas’. Então, Bruce Banner faz as pazes com o Hulk e os Vingadores estragam isso, porque é o que fazem.”

Ruffalo estava inseguro no set dos dois filmes. “Mark passou a primeira semana de ambos vindo até mim depois de cada take e falando: ‘Não é tarde demais para trocar de ator’”, Whedon conta, rindo. “Ele dizia: ‘Sei que você tem o número do Joaquin Phoenix’. Acho que Mark talvez seja o melhor ator norte- americano vivo de cinema e parte disso é por um motivo que dificulta as coisas para ele nesses filmes: ele é incapaz de uma inverdade. Sempre se torna a pessoa que está representando. Entendo o motivo de ele dizer: ‘Entrar nessa será difícil’. Para deixá-lo ainda mais inseguro, nós o colocamos diante de todos sobre uma plataforma usando um traje ridículo de captura de movimentos com bolas por todo o corpo e uma tiara feita de bolas e falamos: ‘Ok, agora seja o Hulk’.”

Nos anos 1970, Lou Ferrigno só precisava de horas de aplicação de pintura corporal (e reaplicação, depois que ele coloria tudo ao seu redor para se tornar o Hulk), mas, para o Hulk do século 21, a tecnologia sempre foi um problema. O Hulk de Ang Lee parecia o Shrek com um problema hormonal; o Hulk no filme de 2008, com Edward Norton, era mais toleravelmente real, mas ainda não muito convincente – e você nunca sentia que ele tinha alguma coisa a ver com Norton.

“Nos outros filmes”, diz Feige, da Marvel, que talvez seja o fã de quadrinhos mais capacitado do mundo, “pensávamos: ‘Este ator é este ator, mas o Hulk é o Hulk’.” Graças aos avanços da tecnologia de captura de movimentos, Ruffalo se tornou o primeiro ator a de fato interpretar não apenas Bruce Banner, mas também Hulk.

Só que no primeiro filme dos Vingadores o processo foi artificial: ele teve de fazer os movimentos e as expressões faciais do Hulk em sessões separadas. “Aquilo foi frustrante”, conta Ruffalo, que acabou escrevendo o que Whedon chama de “uma carta eloquente” aos animadores da Industrial Light and Magic, dizendo: “Vocês têm de ser o Hulk também, precisam criá-lo de formas que eu não posso criar”.

Desta vez, Ruffalo pôde usar seu corpo e rosto ao mesmo tempo e conseguiu ver o vídeo de si mesmo se mexendo no corpo do Hulk em tempo real. Ele também trabalhou com o mestre da captura de movimentos Andy Serkis – cujas representações de Gollum (O Senhor dos Anéis) e do símio Caesar, da franquia O Planeta dos Macacos, foram tão elogiadas geraram rumores sobre indicações ao Oscar.

Em Era de Ultron, Hulk acessa emoções além da alma – tem algumas interações ternas e uma quase paquera com a Viúva Negra, e há um momento impactante no qual desperta de um acesso de birra e parece horrorizado pela destruição que causou.

“Todas essas questões começaram a surgir enquanto estávamos trabalhando neste filme, porque agora o Hulk está atuando um pouco”, diz Ruffalo. “Não está só raivoso, está entrando e saindo de Banner, e isso tem vida própria. Nem começamos a falar do que o Hulk realmente é, qual é seu gatilho. O que ele está combatendo? Do que tem medo? Só estamos arranhando a superfície disso. O rumo que poderemos tomar será incrível.”

A Marvel já estabeleceu os próximos projetos e não há um filme solo do Hulk entre eles. Assim, Ruffalo e o estúdio estão interessados, mas cautelosos. “Anunciamos filmes para o futuro e Hulk faz parte de alguns deles”, afirma Feige, “mas estou curioso para ver como seria um filme solo com Ruffalo”.

“Se eu ainda estiver vivo e não se importarem com um Hulk grisalho ou de cabelos brancos, eu posso ficar nesse universo da Marvel por mais uns 10 ou 15 anos”, diz o ator.

Joss Whedon está indo almoçar, um pouco atordoado, no estúdio da Disney, em Burbank, onde estátuas do Mickey Mouse são abundantes. Embora more longe com a esposa e os filhos, passou os últimos três meses em uma casa no local, trabalhando sem parar para finalizar Era de Ultron. Falta pouco para o lançamento, mas ele havia finalizado o filme alguns dias antes. “Foi o trabalho mais difícil que já fiz”, conta. “Estou começando a voltar aos poucos a uma espécie de humanidade.”

Whedon – que já recusou o convite para dirigir o terceiro Vingadores – está decidido a tentar incorporar arte ou pelo menos personalidade ao espetáculo das franquias para as massas. “Há algumas escolhas esquisitas neste filme”, afirma. “Só queria deixá-lo o mais complexo e interessante possível e entrar na cabeça desses caras. Ao mesmo tempo, sabe: ‘Ah, olha, estão lutando. Olha, o vilão está ameaçando o mundo!’ Há um clímax imenso. Não é que eu não sigo os ritmos de um filme de ação, mas, sim, é diferente.” Ele solta uma frase típica de Hulk: “Então, eu nervoso”. Crescendo em Nova York nos anos 1970, Whedon foi assaltado várias vezes, portanto não precisa ir longe para entender a atração do Hulk. “É uma fantasia de poder que fala sobre uma pessoa impotente”, afirma.

Ruffalo acredita na força dos personagens que interpreta. Quando fez o papel de fuzileiro naval em Códigos de Guerra (2002), quase tentou entrar para a Marinha. Depois de Foxcatcher, tentou se tornar lutador da liga sênior. Após fazer um super-herói, ajudou a comandar um movimento bem- -sucedido para banir a extração de gás por fraturamento hidráulico no estado de Nova York (se quiser que ele “vire o Hulk”, é só mencionar os irmãos Koch).

O ativismo admitidamente esquerdista dele vai além dos limites normais do bom-mocismo de astro de cinema, e talvez ele proteste um pouco demais quando questionado sobre se candidatar a um cargo político. “A sabedoria convencional diz: ‘Ei, cale a boca. Você não quer que as pessoas parem de gostar de você nem quer arruinar suas finanças’”, analisa. “Só que tudo em nossa vida precisa ter a ver com dinheiro? Tem a ver com valores: você é quem diz ser?” Ruffalo declara que o ativismo dele é movido mais pela esperança do que pela frustração. “Amoleci bastante ao longo dos anos”, afirma. “A raiva tem muito a ver com controle e medo. Então, quando não conseguimos controlar algo, ela surge rapidamente. Perda, não conseguir emprego, rejeição, problemas financeiros – todas essas coisas contra as quais lutei e que me deixavam com raiva me forçaram a ter de encontrar outro caminho. Se sua única ferramenta é um martelo, todo problema parece um prego. Tive de aumentar minha caixa de ferramentas. Claro, fico com raiva agora, mas não sai do meu controle.”

Porém, Ruff alo tem Hulk o sufi ciente em si para reconhecer que, como o ex-Sex Pistols John Lydon cantava, “a raiva é uma energia”. “Como qualquer outra emoção”,

acredita. “Há muitas coisas interessantes para aprender com ela. É energia. E é capaz de realizar coisas. Precisamos dela.”

Monstro Pioneiro

A série O Incrível Hulk popularizou o personagem na década de 1970

Hulk virou ídolo de massa com o seriado de televisão O Incrível Hulk, que estreou em 1978, com Bill Bixby e Lou Ferrigno. O programa foi comandado pelo produtor executivo

Kenneth Johnson, criador de A Mulher Biônica e V – A Batalha Final. Johnson nunca havia ouvido falar do monstro quando o escolheu em uma lista de personagens da Marvel

disponíveis para a TV (acabou rejeitando Capitão América e Tocha Humana, entre outros), mas, depois de folhear uma revista, criou a icônica fala “Você não gostaria de mim

quando estou com raiva”, além da expressão “virar o Hulk”. Johnson originalmente queria que Hulk fosse vermelho, em vez de verde – achava que era uma cor mais naturalmente associada à raiva – e sua primeira escolha para fazer o personagem era o astro do halterofilismo Arnold Schwarzenegger, que acabou recomendando o amigo

Ferrigno. O clima do Hulk da TV era de pura melancolia: na pele do trágico doutor David Banner (Johnson trocou o nome Bruce por David), Bixby vivia em uma espécie de exílio, preso na escuridão na periferia da cidade, incapaz de realmente fazer o bem mesmo com todo o seu poder. Era o equivalente, em forma de herói, ao discurso sobre crise de confi ança do presidente norte-americano Jimmy Carter, aliviado por pérolas extravagantes, como a vez em que Hulk teve de aterrissar um avião.

Durante todo o tempo em que o seriado foi ao ar – foram cinco temporadas – o monstro nunca falou (Ferrigno tinha problemas de audição), mas o sucesso do programa deu um gostinho do potencial dos personagens da Marvel, algo que seria de fato atestado nos cinemas 20 anos mais tarde.