Levante do Povo

Há 50 anos surgia o Black Panther Party, cujos integrantes, os Panteras Negras, mudaram os rumos da história Afro-Americana

Paulo Cavalcanti Publicado em 18/11/2016, às 20h29 - Atualizado em 17/02/2017, às 23h25

Um grupo de Panteras Negras marcha pela região de Oakland em 1969. Tratava-se de um protesto contra a
prisão do líder Huey P. Newton

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Apesar dos esforços de instituições como a naacp (singla em inglês para associação nacional para o Progresso das Pessoas de Cor), os Estados Unidos atravessaram a maior parte do século 20 vivendo sob o jugo da segregação e da discriminação racial. Na década de 1950, ativistas como Rosa Parks e Martin Luther King Jr. se voltaram para a desobediência civil e métodos não violentos. O pacifista Dr. King juntava multidões nas caminhadas e enormes manifestações que encabeçava. As palavras dele foram primordiais para a conscientização de toda uma geração de afro-americanos.

Na década seguinte, porém, confrontos começaram a explodir por todos os cantos do país. Em resposta à situação, apareceram líderes negros com propostas diferentes daquelas defendidas por Luther King. Malcolm X e Stokely Carmichael eram mais radicais e pregavam a ação (este último difundiu o conceito do Black Power, o Poder Negro).

Um marco negativo desses tempos ocorreu entre 11 e 16 de agosto de 1965, na região de Watts, na Califórnia, cuja população era majoritariamente negra. A cidade chegou perto de um estado de guerra civil – o estopim foi a prisão de um motorista negro que estaria dirigindo bêbado. Os moradores reagiram e a polícia tratou a população com uma brutalidade nunca vista até então na história recente dos Estados Unidos. Prédios e automóveis foram incendiados, propriedades públicas e privadas foram saqueadas. O resultado: 34 mortes e mais de US$ 40 milhões em prejuízos.

A barbárie de Watts deixou inúmeros afro-americanos revoltados com a violência policial e com a ausência de justiça. Huey P. Newton e Bobby Seale, jovens estudantes que seguiam os ensinamentos de Malcolm X, estavam entre eles. No dia 15 de outubro de 1966, eles fundaram, em Oakland, Califórnia, o Black Panther Party (ou BPP). A associação atuava de forma política, mas de um jeito mais próximo ao dia a dia do povo.

O surgimento dos Panteras Negras, como ficaram conhecidos seus militantes e integrantes por aqui, marcou uma profunda revolução social, política e cultural nos Estados Unidos. O grupo tinha nítidas inspirações socialistas, no sentido de promover a igualdade. Mas os detratores divulgavam que eles queriam era incendiar cidades e assassinar cidadão brancos. Em contraponto, o fundador Bobby Seale sempre buscou deixar claro que isso nunca foi o propósito dos Panteras Negras.

Hoje, aos 80 anos, o texano Seale mantém a voz firme de décadas atrás. “Nosso propósito era o de vigiar a polícia e combater os excessos de seus integrantes”, diz em conversa por telefone, refletindo sobre o turbulento começo do Black Panther Party. “Por isso armamos os cidadãos. Não tínhamos intenção de ‘fazer a revolução armada’ e derrubar o governo, como diziam.

Nós queríamos evitar uma nova Watts.” O governo achava que eles eram radicais perigosos, um autêntico caso de segurança nacional. O principal inimigo do grupo era J. Edgar Hoover, o poderoso chefe do FBI. Os Panteras Negras foram monitorados, perseguidos e presos pelo serviço de inteligência norte-americano. Em meio a escaramuças, alguns deles foram assassinados.

E havia reação por parte dos Panteras. Era uma guerra silenciosa. “Hoover fez de tudo para acabar com a gente”, afirma Seale. “Ele nos estigmatizou. Colocou agentes infiltrados e elementos provocadores na nossa organização. Estávamos conquistando mais seguidores, mas paralelamente nossas sedes eram invadidas e as pessoas eram presas sem provas.”

O ano de 1968 foi possivelmente o mais conturbado da história dos Estados Unidos. A Guerra do Vietnã estava no auge. Dr. Martin Luther King e Robert F. Kennedy foram assassinados. Os protestos raciais inflamavam as cidades e a polícia abusava da violência sem pensar duas vezes. Em meio a toda essa inquietude e caos, o Partido Democrático promoveu sua convenção em Chicago. Grupos de ativistas de diversos segmentos da sociedade foram protestar e a polícia reagiu com crueldade. As autoridades então afirmaram que um grupo havia sido responsável por instigar o conflito. Foram chamados de “Os Oito de Chicago”. Seale foi um deles. Ele foi preso e julgado; se livrou da acusação de conspiração, mas foi sentenciado por desrespeito à corte. Ficou quatro anos na cadeia.

Em 1972, Seale foi libertado, e no ano seguinte até concorreu ao cargo de prefeito de Oakland. Ainda existia uma enorme polêmica em relação aos Panteras Negras. O FBI os associava a atos ilegais, como tráfico de drogas, chantagem e extorsão. Seale garante que não teve conhecimento de atividades como essas dentro da organização e se mostra enfático ao querer apresentar um outro lado: “Ninguém fala sobre os programas que tínhamos para alimentar as crianças carentes. Ou das creches e escolas que fundamos. Ou dos nossos programas relacionados à saúde. Queremos eliminar as mentiras e distorções a nosso respeito”.

Bobby Seale se desligou do BPP em 1974. Huey P. Newton seguiu à frente da organização, mas em 1982 a dissolveu. Ele morreu assassinado em 1989.

Meia década depois do começo de tudo, Seale concorda com a ideia de que os Panteras Negras eram revolucionários. “A revolução não tem necessariamente a ver com violência. Tem a ver com mudanças fundamentais. O mais importante é tentar mudar a sociedade para que as pessoas tenham mais chances. É o único modo de erradicar a pobreza e eliminar os problemas raciais”, conclui. “Os verdadeiros heróis entre os Panteras Negras eram os irmãos e as irmãs que ajudavam a realizar os projetos sociais.”

Identidade Poderosa

Livro resgata o auge dos Panteras Negras e registra o legado da organização

Em 1968, James Brown proclamou “diga bem alto, sou negro e me orgulho disso” no hit “Say It Loud – I’m Black and I’m Proud”. O orgulho negro estava em alta e o punho erguido para o alto era um gesto de desafio e marca registrada dos Panteras Negras. Eles não promoveram apenas uma revolução política, social e racial. Mexeram também com toda a estética da cultura black pop norte-americana. O livro Power to the People: The World of the Black Panthers(texto de Bobby Seale e fotos de Stephen Shames, editora Harry N. Abrams, sem previsão de publicação no Brasil) é a radiografia visual de todo aquele momento. Shames capturou a essência do período de forma definitiva. “Bobby era meu mentor e pediu na época que eu clicasse tudo”, relembra o fotógrafo. “Tivemos juntos a ideia de fazer este livro sobre os 50 anos.” Shames reforça que os Panteras Negras também se preocupavam com o visual. Para ele, isso era tão poderoso quanto o discurso e as ações. “Os Panteras tinham todos aqueles uniformes e jaquetas, as boinas e os cabelos afro. Tinham postura. Instintivamente, entendiam como a mídia funcionava. Muita gente olhava e dizia: ‘Quero ser como eles”, resume.