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CD e DVD com músicas inéditas de Adoniran Barbosa celebram o centenário do samba

Antônio do Amaral Rocha Publicado em 20/12/2016, às 00h27 - Atualizado às 01h24

Adoniran Barbosa no Largo São Bento, São Paulo, em 1978

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Quem poderia imaginar que Adoniran Barbosa tivesse escondido músicas inéditas que só eram conhecidas por seus parceiros próximos? Um verdadeiro

tesouro na forma de sambas, choros e sambas-canções escritos em partituras, esse material se encontrava há anos nas mãos de Maria Helena Rubinato de Sousa, filha do cantor, morto em 1982 e que homenageou como ninguém uma São Paulo que não existe mais. As inéditas finalmente chegam ao mercado no recém-lançado CD e DVD Se Assoprar, Posso Acender de Novo. A época para a divulgação não foi escolhida à toa: também marca o centenário do samba, oficialmente comemorado no aniversário da canção “Pelo Telefone”, de Donga, em novembro.

“Juvenal Fernandes, amigo de longa data do Adoniran, me procurou em 1990 com muitos papéis de todo tipo – guardanapos, folhas de caderno e de carta –, rabiscados com a letra inconfundível de meu pai. Foi assim que descobri as composições inéditas”, ela conta. “Em 2016, conheci o cineasta Cassio Pardini, comentei sobre o assunto e ele se entusiasmou e resolveu produzir um CD/DVD.”

“A sensação mais bacana foi a da descoberta”, diz o produtor e arranjador Lucas Mayer, responsável pela sonoridade do álbum – cujo título evoca versos de “Já Fui uma Brasa”, nos quais Adoniran ironizava o domínio da Jovem Guarda nas rádios e na televisão. “O Cassio me ligou e contou: ‘Um amigo me disse que existem músicas inéditas do Adoniran! Vamos produzir um disco?’ Eu falei que topava, mas meio descrente de que aconteceria. Três meses depois, ele me ligou de novo: ‘Preciso que você vá comigo à editora para saber se as músicas são boas ou não’. Porque todas estavam apenas com letra e partitura.”

Mais tarde consciente de que tinha verdadeiras joias em mãos, Mayer entrou de cabeça no projeto, vasculhando gavetas da antiga editora musical de Adoniran na busca por algum registro sonoro das canções recém-descobertas em meio a cerca de 2 mil fitas – um trabalho que se revelou inglório. “Para solucionar o problema, levei as partituras para o estúdio e, com a ajuda do Gabriel Selvage e do Markus Thomas, fizemos a leitura e gravamos algumas faixas-guia dessas composições”, ele explica, enfatizando que “colocar as mãos nas partituras foi emocionante, mas ouvir isso se materializar de verdade foi ainda mais prazeroso”.

Além de exercer a função de “arqueólogo”, o arranjador enfrentou o desafio de ser fiel ao universo de Adoniran Barbosa, cujo nome de batismo é João Rubinato. “Meu papel foi ‘roupar’ cada interpretação que surgia das frases do grande cronista”, explica Mayer. “Eu gostaria que as pessoas ouvissem esse disco como se lessem um livro. O arranjo é meramente a capa e as ilustrações da obra. O mais belo são as palavras nas poesias do autor.”

Outra batalha foi a procura do intérprete correto para cada música. Nomes como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Demônios da Garoa e Elza Soares chegaram a ser sondados, mas acabaram descartados por questões de agenda. Entre os artistas que aceitaram participar, Ney Matogrosso “foi o ‘sim’ mais rápido e gentil que ouvimos”, diz Mayer. “A ideia era que os estilos dos intérpretes fossem bem variados, pois a poesia de Adoniran merece chegar aos mais diversos públicos.” O time de participantes de Se Assoprar, Posso Acender de Novo é marcado por vozes distintas, como Criolo, Maurício Pereira, Fernanda Takai, Kiko Zambianchi, Diogo Poças, Liniker, Gero Camilo, Fabiana Cozza e Simoninha, entre outros.

Um dos destaques é “Até Amanhã”, com Criolo reinventando um sotaque que reforça a sonoridade antiga do arranjo desse samba de roda. “A gente é de São Paulo, então esse sotaque acaba acontecendo”, diz o rapper. “É muito louco, como é que vou explicar uma coisa que é mais sentida? É um instinto, não foi uma coisa pensada.”

Já Maurício Pereira, muito influenciado por Adoniran, fez uma interpretação estilizada de “Receita de Pizza”. “Achei essa música saborosa, paulistana, me

lembrou da cantina aonde meu avô me levava no Belém, como se passasse um filme na minha cabeça”, conta. “A interpretação veio natural. Passeei pelas minhas lembranças, pelo meu sotaque... Cheguei a sentir o cheiro do molho de tomate quando gravei.”

Todo o processo de ensaios e gravação de Se Assoprar, Posso Acender de Novo foi registrado pelo cineasta Cassio Pardini, em trabalho que resultou em um documentário em DVD que acompanha o lançamento. “Meu objetivo era captar imagens para ilustrar a emoção da interpretação musical. Queríamos a emoção do intérprete, fosse dor, alegria ou pura diversão em participar do trabalho. Tudo é íntimo e cúmplice, especialmente nos duetos [entre eles, Fernanda Takai com Leo Cavalcanti e Guri com Gero Camilo]”, afirma Pardini, definindo Adoniran Barbosa como a “voz da cidade”: “Se ainda estivesse entre nós, talvez se expressasse de novas e variadas formas, como a própria São Paulo, de quem foi o maior cronista”.