Ainda temos chance?

James Hansen, um dos mais proeminentes especialistas em mudanças climáticas, alerta para o perigo de atingirmos um ponto sem retorno – e são nossos filhos e netos que pagarão a conta

Jeff Goodell Publicado em 28/03/2017, às 17h39

Calor Nocivo
A geleira Pastouri, no Peru, é um símbolo dos danos do aquecimento global: nos últimos 35 anos, diminuiu seu tamanho em 22% como consequência do rápido derretimento pelo qual vem passando

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No final dos anos 1980, James Hansen se tornou o primeiro cientista a oferecer provas irrefutáveis de que a queima de combustíveis fósseis está aquecendo o planeta. Desde então, à medida que o mundo esquentou, o gelo derreteu e os incêndios florestais se espalharam, ele publicou diversos trabalhos falando sobre assuntos que vão dos riscos do aumento rápido do nível do mar ao papel da fuligem nas mudanças de temperatura globais – todos destacando, de forma metódica e verificável, que nossa civilização movida a combustíveis fósseis é uma máquina suicida. Diferentemente de outros cientistas, Hansen nunca se contentou em se esconder em seu escritório na Nasa, em Nova York, onde foi chefe do Instituto Goddard para Estudos Espaciais por quase 35 anos. Quando o encontrei em uma marcha anticarvão em Washington, em 2009, perguntei: “Está pronto para ser preso?” Ele pareceu um pouco desconfortável, mas então sorriu e respondeu: “Se for preciso”.

O impacto das visões de Hansen e a necessidade de tomar medidas imediatas nunca foram tão claros. Em novembro, as temperaturas no Ártico, onde a cobertura de gelo já está em baixas históricas, ficaram 2,22 °C acima da média – um pico que apavorou até os cientistas meteorológicos mais céticos. Ao mesmo tempo, novas evidências alarmantes sugerem que as gigantes camadas de gelo do oeste da Antártica estão ficando cada vez mais instáveis, elevando o risco de um aumento rápido no nível do mar, algo que que pode ter consequências catastróficas para cidades costeiras em todo o mundo. Isso sem falar que, em setembro, as medições médias de dióxido de carbono na atmosfera atingiram o recorde de 400 partes por milhão. E, claro, exatamente neste momento crucial – quando os líderes das maiores economias do mundo acabaram de assinar um novo tratado para reduzir a poluição por carbono nas próximas décadas –, o segundo maior emissor de gases de efeito estufa no planeta elegeu um presidente que acha que a mudança climática é um boato inventado pelos chineses.

Hansen, de 75 anos, aposentou-se da Nasa em 2013, mas continua ativo e franco como sempre. Para evitar os piores impactos da mudança climática, argumenta, mudanças drásticas no âmbito da energia e na política são necessárias, incluindo investimentos em nova tecnologia nuclear, um imposto sobre combustíveis fósseis e, talvez, um novo partido político isento de interesses corporativos.

O que a eleição de Donald Trump diz sobre o progresso da luta pelo clima?

Bom, não é muito diferente do que acontecia durante o segundo mandato de [George W.] Bush, quando tínhamos dois homens do petróleo comandando os Estados Unidos e o presidente Bush basicamente delegou a questão da energia e do clima ao vice-presidente [Dick] Cheney, que era a favor de abrir centenas centenas de usinas elétricas movidas a carvão. Durante esse governo, a reação à proposta deles foi tão forte e veio de tantos lados – até da própria força-tarefa de clima e energia do vice-presidente – que as coisas não tomaram um rumo tão ruim quanto poderiam.

Na verdade, se você fizer um gráfico das emissões, incluindo um de como o PIB mudou, não há tanta diferença entre os governos republicano e democrata. A curva continuou a mesma e, sob Obama, começou a cair modestamente. Se conseguirmos pressionar este governo via tribunais e outros meios, é plausível que Trump seja receptivo a uma taxa ou imposto crescente de carbono. De algumas formas, é mais plausível sob um governo conservador [quando os republicanos podem estar menos propensos a obstruir a legislação] do que sob um liberal.

Praticamente todos os nomeados para o gabinete de Trump negam as mudanças climáticas, incluindo o novo chefe da Agência de Proteção Ambiental, Scott Pruitt.

Essa negação nunca morreu. Meu programa sobre o clima na Nasa foi zerado em 1981 quando o governo indicou um capanga para gerenciar o programa no Departamento de Energia. A negação ainda era muito forte em 2005/2006, quando a Casa Branca deu ordens à Nasa para que eu falasse menos. Quando me opus a essa censura, usando a primeira linha da Declaração de Missão da Nasa [“entender e proteger nosso planeta”], o administrador da Nasa, que negava enfaticamente as mudanças climáticas, eliminou essa linha da declaração. A negação não faz mais sentido hoje do que fazia naqueles dias.

Como você julgaria o legado de Obama sobre a mudança climática?

Daria uma nota baixa a ele. Sabe, o Obama diz as palavras certas, mas teve uma oportunidade de ouro e desperdiçou. Quando teve controle das duas casas do Congresso e uma taxa de aprovação de 70%, poderia ter feito algo forte sobre o clima no primeiro mandato. Precisaria ter trabalhado com o Congresso, mas não o fez.

A abordagem liberal de subsidiar painéis solares e turbinas eólicas consegue uma pequena porcentagem de energia, mas não elimina a necessidade de combustíveis fósseis, nem eliminará. Não importa o quanto você os subsidie, energias renováveis não são suficientes para substituir combustíveis fósseis. Então, ele fez algumas coisas úteis, mas não teve a abordagem fundamental necessária.

Você descreveu os impactos da mudança climática como “um fardo dos jovens”. O que quer dizer com isso?

Bom, sabemos pela história da Terra que a reação do sistema climático aos níveis atuais de CO2 incluirá mudanças realmente inaceitáveis. O aumento de vários metros no nível do mar significaria que a maioria das cidades litorâneas ficaria disfuncional, mesmo se parte delas ficasse fora da água. É só uma questão de quanto tempo demoraria.

Neste momento, a temperatura da Terra já está dentro da faixa que existia durante o período Eemiano, há 120 mil anos, que foi a última vez em que a Terra esteve mais quente do que está agora. E aquela foi uma época em que o nível do mar estava entre 6,10 metros e 9,10 metros acima do nível atual. Portanto, é isso que podemos esperar se simplesmente deixarmos as coisas como estão. Vem mais aquecimento por aí, então vamos superar o período Eemiano se não fizermos algo. Esse algo é mudar para a energia limpa o quanto antes. Se queimarmos todos os combustíveis fósseis, acabaremos derretendo todo o gelo do planeta, o que aumentaria o nível dos mares em cerca de 76 metros. Se continuarmos neste caminho, o CO2 que estamos colocando ali é que será um fardo para os jovens, porque eles terão de descobrir como tirá-lo da atmosfera. Ou descobrir como viver em um planeta radicalmente diferente.

A meta de limitar o aquecimento a 2 graus Celsius, que é a peça central do Acordo de Paris, ainda é atingível?

É possível, mas por pouco. Se as taxas de emissões globais caíssem 2% ou 3% por ano, você poderia atingir a meta de 2 graus. No entanto, meu argumento é de que 2 graus a mais no termômetro é perigoso. Dois graus é um pouco mais quente do que o período em que os níveis do mar estavam de 6 a 9 metros mais altos. Então, não é uma boa meta.

Vamos falar mais sobre política. Você acredita muito na taxa de carbono. Muitas pessoas dizem que você é um ótimo cientista, mas quando se trata de política é outra história – e algo que você deveria deixar para os políticos.

Besteira. O que os cientistas fazem é analisar problemas, incluindo os aspectos energéticos do problema. Comecei a pensar em energia em 1981, quando publiquei um trabalho que concluía que você não pode queimar todo o carvão. Não há nada de errado com cientistas pensando em política energética, na minha opinião. São os políticos que tentam te impedir.

Quando trabalhava na Nasa, sempre senti que estava trabalhando para o contribuinte, não para o governo. Quando uma nova administração começa, acha que pode controlar gabinetes de informação ao público e agências de ciências e influenciar o que estão dizendo, então se tornam, na verdade, escritórios de propaganda, mas isso é errado. Quando temos conhecimento sobre algo, não deveríamos ser impedidos de dizer isso da forma mais clara possível.

Você foi um dos primeiros a alertar o mundo sobre os perigos da mudança climática, lá nos anos 1980. Desde então, a poluição por carbono só aumentou. O que isso te diz sobre a humanidade?

Sempre fizemos as coisas desse jeito. Nos Estados Unidos, só encaramos os perigos da Segunda Guerra Mundial quando fomos forçados a fazer isso e, então, fizemos muita coisa. Só que, neste caso, é particularmente difícil e crucial. O sistema climático é muito poderoso. Estamos perto daquele ponto sem retorno. Passamos dele no sentido de que alguns impactos climáticos vão acontecer e algum aumento no nível do mar vai acontecer, mas não atingimos necessariamente o nível desastroso, que derrubaria economias globais e nos deixaria com um planeta ingovernável. Só que estamos perto. Então, é por isso que o que acontecer no curto prazo será realmente crucial, mas será preciso um líder forte e disposto a enfrentar um determinado jogo de interesses. Não tenho certeza de que isso pode ser feito sem um novo partido baseado somente nesse princípio. É esperar para ver.

A GRANDE VILÃ

Assim como James Hansen, muitos cientistas falham ao não destacar um dado alarmante: mais de 50% dos gases que causam o efeito estufa são consequência da agropecuária

James Hansen fez sua reputação saindo do escritório e buscando vocalizar suas descobertas a respeito das mudanças climáticas para o maior número possível de pessoas. No entanto, assim como muitos outros cientistas que tratam do assunto, ele falha ao raramente citar a criação de animais para produção de carne e outros produtos quando discursa a respeito do aumento da temperatura na Terra.

A obsessão de Hansen com os combustíveis fósseis e o que seu uso vem causando à atmosfera terrestre tem, obviamente, fundamento, mas é inadmissível que cientistas de renome e corporações de defesa do meio ambiente sejam omissos ao não apontar para a população um dado alarmante: segundo um relatório do Worldwatch Institute, mais de 50% dos gases que provocam o efeito estufa são consequência da agropecuária. Traduzindo: a criação de gado em larga escala, além de ser vilã no desmate de florestas (de acordo com o World Bank Group, mais de 90% das áreas desmatadas na Amazônia deram lugar a pastos para gado), emite mais gases causadores do efeito estufa do que todos os carros, motos, aviões, navios e outros veículos juntos.

O ótimo documentário Cowspiracy trata do tema, buscando entender por que organizações como o Greenpeace citam minimamente os males causados por essa indústria – incluindo aí aves, peixes, ovos, laticínios e outros – ao meio ambiente (isso sem contar a maneira cruel e sádica como esses animais são tratados, na grande maioria das vezes, antes de chegarem às prateleiras dos supermercados; “Se os matadouros tivessem paredes de vidro, todos seriam vegetarianos”, disse Paul McCartney, vegetariano de longa data). O ex-vice presidente norte-americano Al Gore, ao ser questionado pelo músico e ativista Moby sobre as razões de não ter falado do assunto no seu documentário Uma Verdade Inconveniente, respondeu: “Para a maioria das pessoas, o papel da agropecuária nas mudanças climáticas é uma verdade inconveniente demais”.

Mais do que trocar o carro pela bicicleta em alguns dias por semana, uma maneira verdadeiramente efetiva de o cidadão comum dar sua contribuição na luta contra as mudanças climáticas é diminuindo drasticamente – ou cessando – o consumo de produtos de origem animal. Repensar o modo como nos alimentamos é crucial quando tratamos do aquecimento global – e qualquer um pode fazer sua parte, apenas escolhendo o que coloca no prato.

Bruna Veloso