A Noite Nunca Tem Fim

Barão Vermelho volta à cena com novo vocalista e documentário

José Júlio do Espírito Santo Publicado em 22/02/2017, às 14h18 - Atualizado às 14h19

Casa Nova
Rodrigo Suricato (de chapéu, sem óculos) posa ao lado dos novos colegas de banda: (da esq. para a dir.) Maurício Barros, Rodrigo Santos, Guto Goffi e Fernando Magalhães
Luiz Parente/Divulgação

Ao longo dos 35 anos de carreira, completados em outubro passado, o Barão Vermelho teve várias mudanças em sua formação, com idas e vindas dos integrantes. Ainda assim, ser desfalcado do frontman e conseguir se reinventar não é para fracos. O grupo carioca teve a primeira experiência do tipo quando estava prestes a renovar o quarto álbum (Declare Guerra, lançado em 1986). Enquanto a banda estava no escritório da Som Livre com a caneta em punho para a assinatura, Cazuza já estava na portaria do prédio, de mala e cuia, partindo para a carreira solo. A história se repete. No final do ano passado, após mais uma parada nas atividades – muito por causa da morte de Peninha, o carismático percussionista do grupo –, Frejat, que naquela época assumiu os vocais do Barão Vermelho, decidiu não voltar a tocar com os colegas.

“Existe uma diferença de ideias, mas não estamos brigados nem nada disso. Você vai ver a gente se encontrar socialmente. É só alegria e abraços”, garante Frejat, alegando que não estava disposto a fazer uma turnê a cada aniversário de cinco anos. “Eu fui a voz discordante e deixei-os à vontade para que, se quisessem seguir, que seguissem sem mim. No fim do ano é que chegaram à decisão.” Frejat segue em carreira solo e brinca com o termo: “Agora não pode mais chamar de solo porque é a minha carreira. Eu só tenho ela [risos]”. A ideia dele é lançar faixas ao longo do tempo sem se preocupa em gravar um álbum. “Você lança um CD e não tem nenhum lugar para vendê-lo. Ninguém mais compra CD. Então, é tudo uma grande fantasia e eu não estou a fim de ficar alimentando esse tipo de fantasia”, ele explica.

Da formação original do Barão Vermelho restaram o baterista, Guto Goffi, e o tecladista, Maurício Barros. Foram os dois que, após assistir ao show do Queen em São Paulo, em 1981, decidiram o que queriam da vida e arregimentaram a banda. Em dezembro de 2016, após aprovação unânime, Barros convidou o líder da banda Suricato para ocupar o posto deixado por Frejat. “Foi uma surpresa e uma honra do tamanho dum bonde”, Rodrigo Suricato declara. “Tenho muito respeito pelo DNA do Barão, mas acho que vou trazer coisas diferentes também. Sou muito conhecido como guitarrista, mas no Suricato quase que só toco violão. No Barão vai rolar um espaço para a guitarra que eu não tenho no meu próprio trabalho.” Enquanto a nova turnê da banda veterana está prevista para começar em maio, o Suricato segue a todo vapor. Prepara um EP para ser lançado antes de sua apresentação no Lollapalooza e vai entrar em estúdio para a gravação do terceiro álbum. A conciliação dos dois projetos não preocupa Rodrigo. “Se organizar direitinho, todo mundo transa”, ele brinca, usando um jargão dos blocos de Carnaval do Rio de Janeiro.

A cereja do bolo nesta reviravolta do Barão Vermelho está na tela. É o documentário Por Que a Gente É Assim?, dirigido por Mini Kerti. Na seara do doc musical, ela já dirigiu Chame Gente – A História do Trio Elétrico, a série Andre Midani – do Vinil ao Download e prepara um programa sobre Jorge Mautner. A história do Barão virou um longa-metragem a ser exibido no Canal Curta. “Eles queriam que toda a trajetória fosse contada”, diz a diretora. “A melhor maneira foi com entrevistas. Acompanhei viagens de ônibus pela turnê de 2012 e também coloquei a formação original no estúdio da Som Livre.” São quase duas horas repletas de imagens de arquivo e histórias engraçadas e comoventes. “Foi um desafio condensar 35 anos”, Frejat comenta. “Tanto para quem nunca viu o Barão Vermelho quanto para quem conhece, mas não sabe bem como rolavam as coisas dentro da banda, o documentário é muito relevante. Nele, dá para perceber as diferenças de temperamento de cada um. E acontece em um momento marcante dessa trajetória.”

Com o grupo no camarim fazendo um som, e o saudoso Peninha fazendo graça, Por Que a Gente É Assim? termina em aberto. Não poderia ser de outra forma. “Inclusive Cazuza volta no filme, com imagens dele quase até o fim”, Mini Kerti comenta. “Cada um tem seu rumo, mas todos os integrantes têm uma ligação que não tem como terminar. O Barão Vermelho sempre vai tocar as músicas de Frejat e Cazuza. E Frejat vai tocar as músicas do Barão. Isso não tem fim.”