A Primeira Edição

Em 1967, Jann Wenner e um pequeno grupo de pessoas que acreditavam no rock se reuniram em um loft em São Francisco com grandes ideias e pouco dinheiro. Era o início da Rolling Stone

Andy Greene Publicado em 23/02/2017, às 10h37 - Atualizado em 16/03/2017, às 19h38

A Primeira Edição

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No começo de 1967, uma jovem chamada Angie Kucherenko voltou da firma de advocacia onde trabalhava para seu apartamento no distrito de Haight-Ashbury, em São Francisco, e encontrou o namorado de sua colega de quarto, um rapaz de 21 anos que havia largado a universidade de Berkeley, esparramado no sofá tocando violão. Seu nome era Jann Wenner e ele tinha uma grande ideia que mal podia esperar para compartilhar. “Jann sentou, colocou o violão de lado e disse: ‘Quero começar uma revista de rock’”, lembra Angie. “Falei: ‘Rock? Não é uma moda passageira?’”

Não para Wenner. No entendimento dele, Beatles, Bob Dylan, Rolling Stones e bandas locais como o Grateful Dead eram figuras culturais imensamente importantes que mereciam um veículo que as levasse a sério. “Não havia nada chamado ‘jornalismo de rock’ como profissão”, conta Wenner. “Se você pegasse a Billboard, poderia ter uma noção da indústria da música, mas não a leria frequentemente se estivesse interessado em rock.”

Um colunista de renome em um jornal local tinha a mesma paixão de Wenner: Ralph J. Gleason, do San Francisco Chronicle. O fumador de cachimbos de 48 anos escrevia sobre jazz havia décadas, mas tinha começado a dar espaço a artistas como Dylan e Grateful Dead. Em outubro de 1965, Wenner estava assistindo a um show no bairro de Fisherman’s Wharf, em São Francisco, organizado pelos promotores culturais locais The Family Dog, quando se aproximou de Gleason. “Ele disse: ‘Sei quem é você’”, conta Wenner. “Gleason lia o que eu escrevia no [jornal estudantil de Berkeley] The Daily Cal. A gente se deu bem logo de cara e eu ia muito à casa dele. A família toda me acolheu.”

Apesar dos quase 30 anos de diferença de idade, os dois ficaram próximos. “Diferentemente de todos os críticos de jazz, ele tinha um ótimo senso de humor”, diz Wenner. “Era o maconheiro original. Amava o comediante Lenny Bruce e a política. Tinha mente e ouvidos abertos. Reverenciava os poetas do rock, mas sempre teve uma perspectiva, que era o nome de sua coluna: ‘Perspectives’. Eu dizia: ‘Jerry Garcia é o maior guitarrista do mundo!’ Ele retrucava: ‘Jann, já ouviu falar de Wes Montgomery?’”

São Francisco tinha se tornado o epicentro da contracultura em 1967. No evento Human Be-In, em 14 de janeiro, milhares de pessoas foram ao Golden Gate Park para tomar ácido e dançar ao som de Grateful Dead, Jefferson Airplane e Big Brother and the Holding Company. Wenner visualizava uma revista que narrasse o crescimento da cena do rock e recrutou Gleason como parceiro. A dupla pensou em nomes como The Electric Typewriter e New Times antes de se decidir por Rolling Stone. A inspiração veio de um ensaio que Gleason escreveu na revista The American Scholar com o título “Like a Rolling Stone”, como a música de Dylan. O tema: a significância do rock e a sabedoria da juventude.

Apesar de ter um ótimo nome, um conceito inteligente e um parceiro com uma imensa lista de contatos, Wenner não tinha um centavo para fazer a revista funcionar. “Quando ele me contatou para ser fotógrafo, falei: ‘Parece divertido, conte mais’”, lembra Baron Wolman. “Wenner disse: ‘Bom, antes de mais nada, você tem US$ 10 mil que gostaria de investir?’” Wolman não tinha, mas sugeriu trabalhar em troca de participação na empresa e dos direitos às suas fotos, um acordo que rendeu dividendos nos anos e nas décadas seguintes.

O publisher reuniu um pequeno grupo de investidores, incluindo os pais da futura esposa, Jane Schindelheim, os próprios pais, Gleason e Joan Roos, uma amiga de colégio (que, por acaso, era prima de um jovem ator chamado Robert De Niro). Juntos, eles deram a Wenner US$ 7,5 mil. Ele e a equipe se mudaram para um loft na 746 Brannan Street, um espaço que sairia de graça caso usassem os serviços de impressão do proprietário. Era hora de começar a trabalhar na primeira edição.

Em setembro de 1967, Wenner subiu as escadas de madeira da gráfica e entrou em um loft com uma equipe minúscula formada basicamente por voluntários, incluindo Angie, Jane Schindelheim, o diretor de arte John Williams e Michael Lydon, ex-redator das revistas Newsweek e Esquire. “Era empoeirado e não havia quase nada lá”, conta Lydon. “Tive a sensação de que era uma folha em branco, um começo do zero. Não era um bando de garotos começando um jornal. Era Jann Wenner juntando pessoas ao seu redor para realizar um sonho.”

“Eu me lembro de chegar ali com o Jann no começo”, diz Angie. “Havia um piso de madeira e feixes de luz entrando pelas janelas. Encontramos sofás velhos e todos trouxeram o que podiam. Foi como qualquer outra startup começando hoje em dia sem nenhum grande investidor.”

Jann Wenner tinha grandes ambições para a nova revista. Uma das primeiras missões que deu a Michael Lydon – que acabou se tornando a matéria principal na primeira página – dizia respeito ao dinheiro sumido do Monterey Pop Festival. “Jann não queria um fanzine”, ele afirma. “Queria reportagem investigativa.” Muitos artigos – incluindo matérias sobre David Crosby ser demitido do The Byrds e a prisão por drogas do Grateful Dead – não tinham crédito de autor. “Não colocávamos nosso nome em tudo”, explica Lydon, “porque isso teria mostrado que pouquíssimas pessoas estavam trabalhando para o veículo”.

Bancas de jornal estavam repletas de jornais alternativos na época, mas eram basicamente publicações malfeitas que desapareciam depois de algumas edições. “Jann ficava dizendo que o que fazíamos e o que eles faziam eram duas coisas diferentes”, detalha Wolman: “‘O nosso é totalmente profissional. Quero que tenha integridade do mais alto calibre. Somos sérios e nos levamos a sério’”.

Em sua primeira coluna “Perspectives” na Rolling Stone, Gleason criticou canais de TV por não darem mais tempo no ar a cantores de soul music como Wilson Pickett, Otis Redding e Jackie Wilson. “Eles são negros”, escreveu. “E nos Estados Unidos, nos altos escalões do poder que controlam essas coisas, a cor é uma deficiência.” Jon Landau, redator de Boston de 21 anos, enviou uma longa resenha que comparava “Are You Experienced”, de Jimi Hendrix à estreia do Cream, Fresh Cream (“Apesar do brilhantismo musical de Jimi e da precisão total do grupo, a má qualidade das músicas e as letras fracas frequentemente atrapalham”). A página dupla central trazia uma entrevista com o cantor Donovan, na qual ele falou sobre o músico folk Bert Jansch, o movimento hippie e a viagem de George Harrison a Haight-Ashbury. “Mesmo de um jeito meio amador, a espinha dorsal da revista estava ali”, declara Wenner.

Quase 50 anos depois, todos os envolvidos na primeira edição conseguem se lembrar da energia infinita do fundador. “Ele sempre estava andando pelo loft”, conta Angie. “Estava tão ligado que podia falar ao telefone, conversar com uma pessoa e cumprimentar outra ao mesmo tempo. Era extraordinário de ver. Ele sentava e levantava de mesas e cadeiras para falar com alguém e depois voltava a fazer outra coisa, como uma bola quicando pelo lugar.”

Para encontrar uma imagem de capa, Wenner vasculhou uma pilha de fotos de divulgação até encontrar uma de John Lennon posando em seu uniforme da Segunda Guerra para o filme Como Eu Ganhei a Guerra, de Richard Lester. “Estávamos a dois dias de ir para a gráfica e não sabíamos o que colocar na capa”, conta. “Era o melhor que tínhamos. E é definidora, pois abrange música, cinema e política. Foi um acidente feliz, que começou nossa associação de vida inteira com John.”

Na página 2, Wenner escreveu uma carta a seus novos leitores: “Você provavelmente está querendo saber o que estamos tentando fazer. É difícil dizer: meio que uma revista e meio que um jornal. Os jornais segmentados se tornaram muito imprecisos e irrelevantes e as revistas de fãs são anacrônicas. A Rolling Stone não fala só de música, mas também de coisas e atitudes que a música incorpora”.

Em outubro de 1967, estava tudo pronto para a impressão. A equipe desceu as escadas para vê-la rolar na impressora. “A máquina começou a fazer ‘ka-bunk, ka-bunk, ka-bunk’”, conta Lydon. “A cada ‘ka-bunk’, saía uma Rolling Stone ainda úmida. Abrimos um champanhe e brindamos.”

No entanto, enquanto Wenner via seu sonho finalmente se tornar realidade, não conseguiu deixar de se sentir um pouco sufocado: “Lembro que pensei: ‘Puxa, nunca conseguiremos superar isso. Para onde vamos agora?’”