Samba do Concreto

Kiko Dinucci “faz as pazes” com passado roqueiro no primeiro disco solo

Lucas Brêda Publicado em 22/02/2017, às 15h06 - Atualizado às 15h15

Em Produção
Marcelo Cabral, Dinucci e Sérgio Machado (da esq. para a dir.) em estúdio, trabalhando no álbum solo do guitarrista
Felipe Gabriel/Red Bull Content Pool

Ao lado do coletivo de músicos conhecido apenas como “núcleo” – ou “Clube da Encruza”, até que alguém dê um nome mais apropriado –, formado por Juçara Marçal, Rodrigo Campos, Rômulo Fróes, Thiago França, entre outros, Kiko Dinucci esteve envolvido em 30 discos lançados nos últimos cinco anos. O guitarrista contribuiu com obras como Mulher do Fim do Mundo (Elza Soares, 2015) e Nó na Orelha (Criolo, 2011), por exemplo. Mas um álbum só dele, até este mês, nunca havia saído. “Tem o Na Boca dos Outros [de 2009], mas são os outros que cantam, aí não vale como disco só meu”, analisa Dinucci. “Este é solo como nenhum antes.”

Cortes Curtos emenda 15 faixas velozes em menos de 40 minutos, todas criadas por volta de 2011. “Mudei de Guarulhos para São Paulo em 2008, estava assustado com a cidade”, recorda. “Estava ouvindo Transformer, do Lou Reed, e imaginei um disco desse [só que] de São Paulo.” O primeiro trabalho solo de Dinucci é uma coleção de crônicas sobre assuntos cotidianos (uma briga entre uma homofóbica e um xenófobo em um supermercado) ou existenciais (um episódio de suicídio), todos permeados por um tom político e ambientados na capital paulista.

Apesar de praticamente não dialogar com a sonoridade de Lou Reed, Cortes Curtos leva o “samba sujo” – como é conhecido o som do “núcleo” – para mais próximo do rock. “Estava ouvindo muito protopunk, Stooges, MC5, Velvet Underground, e ficava pensando: ‘Porra, vou fazer assim: a crônica do samba com a sonoridade punk, mas que seja mais puxado para o pós-punk”, tenta explicar o guitarrista, que vê a aventura solo como um “acerto de contas” com o passado. “O rock ficou careta, inofensivo, coisa de velho mostrando a língua. Isso qualquer bêbado do bairro faz! [risos]. Foi quando comecei a ouvir samba, Nelson Cavaquinho, e me envolver com essa rebeldia. Vim de bandas de hardcore na adolescência e era inocente. A gente fazia uma letrinha de protesto, tocava em velocidade alta e ficava tipo: ‘Lute contra o racismo-ô-ô-ô!’”, ele recorda aos risos.

“Não acho minha voz bonita, nem que cante bem ou seja afinado”, confessa Dinucci, que assume todos os vocais. “Mas gosto de cantar e canto minhas coisas. Pessoas como João Gilberto e Chet Baker me inspiram muito: você ser um não cantor, mas que deixa sua marca ali de forma original.”