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Dominação Mundial

O Chainsmokers, atração do Lollapalooza, quer mais do que emplacar hits nas paradas

Jonah Weiner Publicado em 25/03/2017, às 10h39

Festeiros com objetivo 
Drew Taggart e Alex Pall fazem planos e cálculos para se manter relevantes no pop
Jason Nocito

Nos últimos tempos, o Chainsmokers passou por muitas situações inesperadas – e felizes –, nas quais apenas conseguia se perguntar “Ooooi???” Às vezes, a dupla mais quente do pop nos últimos tempos custa a acreditar no que está vivendo. Foram três singles no Top 10 dos Estados Unidos em 2016. Talvez o mais louco de tudo: pouco antes de uma sessão com Chris Martin, Ryan Tedder falou que Bono gostava das músicas dos dois. “Bono apareceu em nosso estúdio, sozinho”, conta Drew Taggart, “e tocou algumas músicas novas do U2 para nós. Mostramos algumas das nossas coisas e, sobre uma faixa em particular, ele disse: ‘É ótima – manda para mim?’ Foi irado.”

Hoje, a dupla está nos bastidores de um centro de eventos no subúrbio de Salt Lake City, prestes a ser a atração principal de um show ao ar livre por “basicamente dinheiro nenhum”, como um favor para uma rádio local. No camarim, Alex Pall, de 31 anos, tira o short e veste uma calça jeans Ksubi suja, seu figurino de palco; Taggart, de 27 anos, bebe água de coco. “Desculpe por ser... isto”, Pall comenta sobre o ambiente nada festeiro. “Quer um presunto em temperatura ambiente?”

Shows promocionais como este, para bater cartão, estão enchendo o calendário do Chainsmokers, encaixados entre apresentações em boates de Las Vegas, grandes festivais - incluindo o Lollapalooza, em São Paulo, em março – e eventos corporativos. Com pagamento baixo ou não, a dupla não está exatamente desesperada por dinheiro. É até paga por shows que não faz: a gigante de softwares Adobe os contratou para uma festa, cancelou e teve de pagar a taxa de US$ 80 mil mesmo assim. “Para mim, isso é o mais inacreditável”, afirma Pall. “Eu trabalhava em uma galeria de arte, comia pouco e recebia US$ 500 por semana – e, para fazer nada, a Adobe me pagou o que eu ganharia em dois anos naquela época.”

Taggart conta que, quando estava compondo “Closer”, os dois estavam no ônibus da turnê, “pensando no Blink-182 e no Dashboard Confessional – em como a música deles era muito pessoal”. Ele queria cantar letras como as que adorava quando era um autodescrito garoto emo, mas o modo como compõe também faz parte do grande plano do Chainsmokers. “Esperamos que este momento [de sucesso] dure, mas, se não durar, queremos ter uma conexão com nossos fãs que perdure para além desta fase”, explica. Para isso, os dois cultivam uma personalidade divertida e não se importam que você os chame de “cara”. Taggart define: “Sinceramente, somos dois caras brancos que gostam de ser simpáticos, fazemos piadas bobas e gostamos de filmes engraçados e de baladas – como todo mundo”.

A apresentação em Salt Lake City dura menos de uma hora. Taggart e Pall entram em uma SUV com motorista rumo a uma churrascaria cuja conta está sendo paga pela rádio que organizou o show. Pall pede uma garrafa de vinho de uva pinot noir, rapidamente seguida por outra. Ele passou o começo da infância no Upper East Side, em Manhattan, Nova York, onde o pai era um negociante de arte. “Tínhamos quadros de Picasso e Lichtenstein nas paredes”, lembra. Na escola, era colega de sala de Alex Soros, filho do bilionário filantropo George Soros. Depois, frequentou uma escola particular “para fodidos”, em Westchester, onde fazia “coisas fodidas”, como “fumar maconha e comer cogumelos alucinógenos com os amigos”.

Pall tem uma sagacidade nova-iorquina, enquanto Taggart, que se apaixonou pela EDM durante um intercâmbio na Argentina no ensino médio, parece mais sincero. Usa um Rolex, mas diz que vem “de uma família realmente simples” e que herdou a mentalidade dos parentes (ainda que tenha acabado de comprar uma casa ultramoderna de cinco quartos em West Hollywood por US$ 3,3 milhões).

Os dois se conheceram em Nova York em 2012. Pall estava tentando se estabelecer no circuito local de DJs e Taggart era aspirante a produtor, fazendo EDM com o software Ableton. Em parceria, eles estabeleceram uma divisão de trabalho que continua até hoje: Pall sai à caça de cantores convidados para suas faixas e ajuda a direcionar a estética de Taggart. “O Alex ouve muita música, então, quando toco algo, ele diz ‘isso é novo’ ou ‘isso não é novo’”, conta Taggart. Pall afirma escutar cerca de 300 faixas novas por dia. Abre uma no SoundCloud, ouve alguns segundos, adianta 30 segundos e passa para a próxima. “Consigo dizer muito rapidamente se é boa mesmo”, alega. Ele mantém listas no computador – diz que uma delas, que compila há vários anos, “tinha gente como Halsey e Tove Lo quando ninguém sabia quem elas eram”.

Depois do jantar, eles precisam pegar um voo comercial de volta para Los Angeles, então vamos para o aeroporto. Raramente voam em jatos particulares, dizem – isso tem a ver com a consciência de que o sucesso não tem garantia de duração. Os dois sentam na classe econômica e se encolhem em seus lugares. É importante dar espaço ao outro. “Nós nos conhecemos com o objetivo de trabalhar juntos, mas ficamos próximos”, relata Pall. “Brigamos tipo uma vez, no México, e não lembro o motivo. Tínhamos acabado de sair de uma boate de striptease e nos socamos no banco de trás de um táxi. Tiramos uma foto totalmente ensanguentados depois! Foi só um momento de loucura movido a tequila.”

Na manhã seguinte, estão no estúdio em Hollywood, brincando com um riff simples de marimba que Taggart dedilhou em um teclado Midi. Ele compõe muito ao piano – daqui a algum tempo, os dois querem incorporar essa habilidade nos shows ao vivo. “Podemos fazer muito mais do que simplesmente ser DJs”, garante Taggart. “Olhamos para a Beyoncé e pensamos ‘quero montar um show ao vivo que seja tão comentado e respeitado quanto o dela ou do Kanye West’.”

“Queremos acrescentar elementos do teatro musical”, observa Taggart.

“Definitivamente, temos um plano”, conclui Pall. Os dois querem mais do que ser caras simpáticos – querem garantir um futuro no pop.