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Nerd em Mutação

Fã de música brasileira, Dan Snaith traz o Caribou de volta lao país em “fase eletrônica”

Lucas Brêda Publicado em 15/03/2017, às 17h51 - Atualizado em 20/03/2017, às 12h27

Outra era
Snaith vive uma nova fase do Caribou atualmente
Thomas Neukum

Curiosamente, o disco mais recente que comprei é brasileiro”, diz o canadense Dan Snaith, ao telefone, de Londres, onde mora. Esforçando-se, ele emenda: “Não sei muito sobre ele, mas se chama... Sexteto do B-E-C-O, está certo?”

Em março, Snaith volta ao Brasil para o segundo show com o bem-sucedido projeto Caribou em São Paulo. Fã da tropicália, ele se considera um nerd em quase tudo que faz, desde quando estudava matemática na universidade, mas especialmente com música. “Conheço as coisas por meio de colecionadores de Londres”, revela. “Em todo lugar do mundo existem álbuns cult perdidos, mas a música popular de uma certa época no Brasil era fantástica, melhor que em qualquer lugar do mundo.

O apetite auditivo de Snaith – que diz “não ser antissocial”, mas faz “muitas pesquisas de música em vinil, YouTube” – ditou os primeiros lançamentos, antes como Manitoba e depois como Caribou. A lisergia de Up in Flames (2003), o pop anos 1960 de Andorra (2007) e o krautrock de The Milk of Human Kindness (2005) mostraram a capacidade dele de fabricar ideias inéditas em torno de gêneros estabelecidos. “Mas, se você se aprofunda muito, acaba fazendo música que não soa como você, mas sim como uma homenagem ao que ama”, pondera.

Os álbuns de “homenagem” até caíram nas graças da crítica e estabeleceram o artista, mas a chave virou para ele por volta de 2008. Também DJ, Snaith ficou encantado pela então emergente cena londrina de música eletrônica e, no divisor de águas Swim (2010), buscou inspiração não em sonoridades antigas e esquecidas mas sim nos clubes locais. “Foi o álbum em que encontrei meu som”, confessa, sem cerimônia. A sonoridade, mantida no sucessor, Our Love (2015), é centrada em uma música eletrônica de texturas raras, vocais sintéticos e uma rica variedade de batidas.

Se Swim foi ruptura, Our Love foi a expansão: mais solto, direto e otimista, Snaith começou a se basear na própria vida – e não só nos próprios gostos – para compor. “São dois olhares sobre o mesmo conceito”, concorda. “Quis fazer Our Love inteiro ‘meu’, das letras ao clima. Isso teve tudo a ver com a minha vida: ter um filho, estar mais em casa, não tanto em turnê ou em clubes.” Snaith voltou a compor recentemente. “Sinto que isso de procurar minha sonoridade própria continuará.”