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Paz, Amor e Morte

Um festival se cristalizou como um sonho hippie utópico, o outro como um pesadelo completo. Para a redação da Rolling Stone, Woodstock e Altamont foram chances de mostrar ao mundo do que a jovem revista era capaz

David Browne Publicado em 21/11/2017, às 20h27 - Atualizado às 20h27

Festa Hippie
Parte da multidão que esteve presente em Woodstock; no total, foram mais de 400 mil pessoas

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As imagens não poderiam ser mais contrastantes. A capa da edição 42 da Rolling Stone, de 20 de setembro de 1969, mostrava um homem e uma criança se banhando nus em um lago, a essência da delicadeza hippie. Alguns meses depois, a foto da capa da RS 50, de 21 de janeiro de 1970, foi uma antítese sinistra: uma multidão amontoada e aparentemente ansiosa, filetes de luz do sol tentando romper a névoa. A manchete da primeira – “Woodstock: 450.000” – era comemorativa. A da segunda era macabra: “Deixe sangrar”, referência a “Let It Bleed”, dos Rolling Stones.

No início de 1969, festivais com duração de vários dias haviam se tornado parte do cenário do rock. Mas, como a redação da revista ficaria sabendo, preconcepções sobre o que um festival poderia ser – ou como as coisas poderiam dar errado – estavam prestes a ser jogadas no lixo. A cobertura feita pela publicação dos festivais de Woodstock e Altamont testou a equipe como nunca – e provou, definitivamente, que a Rolling Stone era um lugar de jornalismo sério, independentemente do tópico e do quanto ele afetava a revista.

Então sediada em São Francisco, a redação despachou um pequeno grupo para Bethel, Nova York, para cobrir o Woodstock, de 15 a 18 de agosto de 1969: o chefe de redação em Nova York, Jan Hodenfield, o editor de resenhas Greil Marcus e o fotógrafo Baron Wolman. No primeiro dia, Marcus não ficou impressionado com a música ou com o ambiente superlotado e calorento, que ele lembra como “desagradável e desconfortável”. Mas, ao voltar para o segundo dia, depois que o terreno tinha sido atingido por uma chuva pesada e trovões, ele sentiu uma mudança. “Havia esta noção de ‘estamos todos presos neste lamaçal e vamos nos divertir mesmo assim’”, conta. “Era impossível não se deixar levar por aquilo.”

Pouca gente, ou ninguém, percebeu o quão simbólico Woodstock se tornaria. “Seria um grande evento, mas ninguém sabia que seria tão esmagador”, afirma o editor e publisher da Rolling Stone, Jann S. Wenner. Trabalhando com um prazo apertado, Hodenfield escreveu uma matéria que narrou o final de semana em detalhes, dos portões quebrados e segurança adicional que não apareceu aos problemas financeiros do festival e a lama e chuva que fizeram o público parecer “um campo de refugiados devastado”. Marcus, que alternava entre ficar no meio da plateia e sobre um poleiro ao lado do palco perto de músicos como Neil Young, escreveu um texto que comentava, dia a dia, as músicas e os shows. “Minha matéria tem muita ingenuidade, mas senti que a multidão estava causando nos músicos coisas que nenhuma outra circunstância causaria”, relembra. “Era uma sensação de fazer história e viver em outro país, mesmo que só por um fim de semana. A cobertura da mídia em geral foi confusa, e ninguém sabia o que pensar de Woodstock. Assim, a reportagem da Rolling Stone se tornou a fonte obrigatória sobre as glórias e as dificuldades daquele final de semana.”

Com uma escalação que incluía Rolling Stones, Grateful Dead, Santana, Crosby, Stills, Nash and Young e Jeerson Airplane, o Altamont Speedway Free Festival, em 6 de dezembro de 1969, entraria para a história de seu próprio jeito. Como o festival foi realizado perto de São Francisco, muitos membros da redação da revista – incluindo Marcus, o editor John Burks, o crítico de cinema Michael Goodwin e os redatores Lester Bangs, Langdon Winner e John Morthland – foram ao Altamont Speedway para escrever ou só curtir a música. “Existia um desejo intenso na Costa Oeste de fazer um Woodstock ainda melhor do que o da Costa Leste”, lembra Winner.

No entanto, havia uma sensação de mau agouro. “Assim que você chegava, ficava com a impressão de que algo ruim aconteceria”, conta Goodwin. “As pessoas pareciam tensas e assustadas.” Winner observou enquanto os espectadores arrancaram os postes de madeira da cerca e colocaram fogo. Situado inicialmente perto da frente do palco, Marcus viu quando os Hells Angels, contratados como seguranças, bateram em um homem nu com tacos de sinuca. O jornalista, que mais tarde chamaria esse de “o pior dia da minha vida”, acabou sendo empurrado para cima e depois para fora do palco. Marcus viu uma mulher nua que também havia sofrido a fúria dos Angels. “Ela estava andando em minha direção desnorteada e alguém lhe tinha dado um cobertor que estava arrastando atrás dela”, conta. “Estava coberta de hematomas e sangue. Era uma cena de horror como eu nunca tinha visto.”

Relatos iniciais dos jornais locais, muitos redigidos antes do final do dia, deram um retrato animado de Altamont, mas, na manhã seguinte, a redação da Rolling Stone já sabia dos horrores. Meredith Hunter, um jovem negro, havia sido esfaqueado até a morte por um Angel por supostamente ter sacado uma arma. Outras três pessoas tinham morrido, duas em um incidente de atropelamento e fuga e uma afogada em uma vala. Em uma reunião de equipe logo depois, Burks e Marcus, chocados, tentaram articular o terror que tinham visto, até que Wenner os ajudou a se concentrarem. Marcus conta: “Nunca me esquecerei de Jann olhando do outro lado da mesa e dizendo: ‘Vamos cobrir esse negócio do começo ao fim e vamos dar nome aos bois’”. Como Wenner diz, “nossa missão era o que a Rolling Stone representava. Não nos esquivaríamos”.

Com Burks no comando, a redação se espalhou, entrevistando testemunhas, policiais e músicos como David Crosby e Mick Taylor. Marcus encontrou a irmã de Hunter, que contou que ninguém da família tinha sido contatado pelo pessoal dos Stones. Goodwin, que havia levado um gravador para o show, deu uma contribuição valiosa. Quando começou a ouvir um abalado Mick Jagger falar com o público, ligou o gravador e escreveu tudo o que Jagger estava dizendo, dando à revista uma novidade exclusiva acidental. “Sentimos uma responsabilidade”, afirma Marcus. “Se não cobríssemos isso e publicássemos o que realmente havia acontecido, e o que aquele dia tinha significado para a cultura da qual todos fazíamos parte, esse evento desapareceria da história ou seria lembrado como o ‘Woodstock da costa Oeste’, que era o que você ouvia ou lia por toda parte. Tínhamos de colocá-lo na história pelo que realmente foi.”

A matéria resultante, de 24.000 palavras, organizada por Burks e ocupando 14 páginas, foi uma panorâmica apavorante que não deixou de implicar os Stones, sua equipe ou os promotores envolvidos no show. Muitos fatores – incluindo a mudança de última hora de local, a contratação dos Angels pelos Stones – tinham se juntado da pior maneira possível. “Altamont foi o resultado de egoísmo diabólico, incompetência, manipulação financeira e, na base de tudo, uma falta fundamental de preocupação com a humanidade”, estava escrito na matéria. “A cobertura da Rolling Stone tirou a revista do underground e a estabeleceu como a voz jornalística de sua geração”, diz o veterano jornalista Joel Selvin, autor do livro Altamont: The Rolling Stones, the Hells Angels, and the Inside Story of Rock’s Darkest Day.

A reportagem “Let It Bleed” contribuiu para que a Rolling Stone ganhasse um de seus dois primeiros National Magazine Awards, na categoria Jornalismo Especializado (no mesmo ano, a entrevista que David Dalton fez na prisão com Charles Manson também levou um National Magazine Award). Publicada pouco depois da cobertura de Woodstock, a matéria detalhou como o evento assumiu um grande significado cultural: se Woodstock foi um sonho hippie utópico, Altamont foi um pesadelo. “Foi a primeira vez que tivemos esse desafio de lidar com uma grande notícia, algo polêmico, algo diferente de uma celebração”, diz Wenner. “Foi o lado sinistro da cultura hippie e desafiou as hipóteses e convenções de nossos leitores e de nossa geração. Foi difícil integrar as ideias de um show gratuito e de pessoas sendo espancadas com tacos de sinuca.” Como Marcus observa, com orgulho, “nunca mais alguém falou em ‘Woodstock do Oeste’”.