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Terra da Cor e do Cinza

Documentário explora interseções entre grafite e pixo na cidade de São Paulo

Gabriel Nunes Publicado em 16/03/2017, às 11h57 - Atualizado às 12h27

Trabalho sujo
Alexandre Orion durante a criação de “Ossário”. O projeto foi realizado em 2006, a partir da fuligem acumulada no túnel Max Feffer, em São Paulo

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(9 imagens)

Para muita gente, o espaço público é considerado um não espaço – um local a ser evitado. Há, no entanto, um movimento contrário a essa ideia, de pessoas que querem ocupar esse lugar, mesmo que muitas vezes à revelia de determinadas instituições. Pensando na maneira como o espaço público vem sendo tomado, e também na forma como esse “ocupar” é ou não hostilizado, os diretores Chico Gomes e Felipe Lion deram o pontapé, em 2011, para um projeto que culminaria no documentário Olhar Instigado.

Elaborado a partir da ideia que tiveram para um trabalho de conclusão de curso (os dois estudaram rádio e TV na Fundação Armando Álvares Penteado – Faap), o longa-metragem traça um contraponto entre o grafite e o pixo na cidade de São Paulo (embora a gramática estipule a grafia “picho” como a correta, quem estuda e atua no meio prefere utilizar os termos “pixo”, “pixador” e “pixar”). São dois tipos de intervenção urbana que buscam, cada uma à sua maneira, ocupar as ruas e o espaço público.

Para entrelaçar ambas as manifestações, os diretores reuniram diante das câmeras dois grafiteiros (Alexandre Orion e André Monteiro “Pato”) e um pixador (Bruno Rodrigues “Locuras”). “Lá atrás [em 2011], o filme era uma série de minidocumentários de cinco minutos”, relembra Gomes. “Assim que me formei, decidi levar o trabalho adiante. Queria transformá-lo em um longa-metragem, mas para isso precisava afunilar melhor o tema. Foi aí que chegamos a três personagens diferentes, com visões e vivências distintas de São Paulo.”

Filmado em 2014, Olhar Instigado é lançado este mês para dar novas matizes a uma discussão antiga, que acabou reacendida com a instauração do programa Cidade Linda na capital paulista. Capitaneada pelo prefeito João Dória (PSDB), a ação prevê, entre outras medidas, “a limpeza das pixações”, conforme aponta o site da prefeitura da cidade. Além da tolerância zero em relação ao pixo, o gestor removeu inúmeros grafites dos muros da Avenida 23 de Maio, ressaltando ainda o interesse de criar um “Grafitódromo” inspirado no Wynwood Arts District, em Miami. No entanto, essa “política da boa vizinhança” com os grafiteiros é interpretada por Orion como uma “curadoria perigosa”.

“O mais dramático disso tudo é que o apagamento não é geral”, diz o paulistano, que começou a trabalhar com grafite em 1993. “Prefiro um Estado que apaga tudo em vez de um que elimina só a pixação, mas preserva o grafite. Acho desagradável um Estado que institucionaliza demais as formas de expressão.”

Dando respaldo às palavras de Orion, Pato acredita que o apagamento de alguns trechos grafitados da 23 de Maio está associado à preferência estética. “Até entendo você achar que o Romero Britto é mais bonito que uma parede com grafite, porque isso não passa de uma questão de gosto. Ou de ignorância”, diz o paulistano. “Precisamos pensar a arte como substantivo, como manifestação cultural, e não apenas como adjetivo, como algo esteticamente bonito ou feio. Eu consigo ver a beleza daquilo, da ocupação, do diálogo.”

Embora grafite e pixo tenham origens semelhantes no que diz respeito à transgressão, é o segundo que traz enraizado o estigma social. Afinal, por que o pixo existe? E por que ele incomoda tanto? São perguntas como essas que tangenciam o documentário de Gomes e Lion.

Para Orion, as pessoas aceitam o grafite, mas se incomodam com o pixo porque ele é um trabalho cujo objetivo principal é provocar uma espécie de náusea em quem olha, uma vez que nasce do desconforto existencial de uma juventude periférica silenciada. “As pessoas tendem a hostilizar algo que é hostil”, define. “É muito mais fácil gostar de um trabalho colorido do que de um monocromático, que parece um espinho. A pixação é a coroa de espinhos de São Paulo.” Arrematando as palavras do grafiteiro, Bruno Locuras, que paradoxalmente concilia a vida de pixador com a de pintor predial, declara: “Você começa a pixar porque quer sair da invisibilidade. Você começa a pixar por vontade de se autopromover, mas aí, no decorrer dos anos, sua mente vai evoluindo para outras ideias. Hoje em dia, meu pixo é com intenção política e minha luta é para mostrar o pixo como arte”.