Leandra Leal

Atriz está no terror O Rastro e estreia como diretora em Divinas Divas

Stella Rodrigues Publicado em 19/04/2017, às 11h50 - Atualizado em 18/05/2017, às 11h51

Dose Dupla
Leandra chega aos cinemas em dois filmes, como atriz e diretora
Daryan Dornelles/Divulgação

Uma parte do coração de Leandra Leal, de 34 anos, ainda está em Austin, no Texas, quando a cantora atende o telefone no Rio de Janeiro para falar sobre o terror psicológico O Rastro, filme estrelado por ela que estreia em maio, e sobre Divinas Divas, documentário que chega aos cinemas em junho sobre a primeira geração de travestis do Brasil. Este trabalho marcou a estreia dela na direção e foi votado pelo público como o melhor do festival South by Southwest (SXSW), realizado em março na já citada cidade norte-americana. “Eu tinha tanta certeza de que não íamos ganhar que voltei um dia antes de sair o resultado. Cheguei no Brasil e vi [que ganhamos o prêmio]”, conta ela, lisonjeada. Paralelamente, a atriz promove O Rastro, no qual vive Leila, a esposa grávida de um médico responsável por transferir pacientes de um hospital em situação de falência no Rio.

Vocês rodaram O Rastro em um hospital que, em meio ao caos da saúde pública no Rio de Janeiro, vive o mesmo drama, o Beneficência Portuguesa (onde, aliás, você e várias pessoas da equipe do filme nasceram). É verdade que vocês viveram situações assustadoras de verdade nos bastidores?

O João [JC Feyer], diretor do filme, viveu algumas coisas. A locação estava muito mais abandonada na vida real do que está no filme, tiveram que fazer uma limpeza para ter condições de a gente rodar lá, até por segurança. Tiveram que colocar aquela sujeira falsa. Hospital é sempre um ambiente que tem uma energia muito extrema, com emoções muito extremas, porque é um lugar de entrada e saída. Eu mesma não vivi nada de punk lá, mas estava sempre cercada de gente [risos].

Como é sua relação com filmes de terror?

Eu adoro! Sempre falo que terror gera uma oportunidade de sentir medo, que é um sentimento que você só sente na vida em situações complicadas. No filme você sente isso de uma forma protegida. É um gênero que te mobiliza muito, te faz sentir coisas muito fortes. Gosto disso, ficar em casa de bobeira, sozinha, e ver filme de fantasma, casa abandonada, trash. Isso foi uma das coisas que me fizeram querer muito fazer parte desse longa.

Tem uma coisa que é falada há anos, mas ainda é verdade. O terror no Brasil ainda está engatinhando.

Nosso cinema está amadurecendo em todos os lugares. Produção de gênero, diversidade, é um desses sinais. O brasileiro consome muito filme de terror gringo, que sempre tem uma boa bilheteria. Vamos ver como o público reage, porque é uma temática muito brasileira, fala da situação do sistema de saúde no Brasil, que já é um filme de terror!

Parabéns pela vitória do Divinas Divas no SXSW. Como foi participar do festival?

Foi demais, é um festival gigante, com muita coisa pra ver de shows, tecnologia, cinema. A receptividade ao Divinas foi impressionante. A primeira sessão estava bem cheia e as outras duas estavam lotadas! A conjuntura política dos Estados Unidos atualmente foi algo que gerou uma identificação. A resposta do público foi muito bonita, as pessoas ficaram superemocionadas. Recebemos o prêmio de voto de um público que não tem a mínima relação comigo como atriz, que não me conhece e não conhece as divas [Rogéria, Jane Di Castro e Waléria, entre outras, que se apresentavam no Teatro Rival, pertencente ao avô de Leandra, Américo Leal].

O Brasil está em primeiro lugar na lista de países onde mais se matam transexuais e travestis. Então não tem como o filme não ser político.

Foi muito difícil conseguir viabilizar o filme, financeiramente. Foi muito árduo conseguir pessoas que quisessem se envolver com esse tema. Aí eu fui entendendo a dimensão do tabu que isso ainda é no Brasil. Mas não só a questão de gênero, é também a velhice. O filme faz uma reflexão sobre envelhecer, sobre amizades ao longo da vida. Para mim, é uma reflexão muito bonita e positiva. “Olha só, figuras que tiveram tantos obstáculos, tanto preconceito, e venceram tudo isso, respeitando o sonho delas.”