Na Intimidade do Rock

Com uma extensa e variada carreira, o fotógrafo Michael Zagaris se notabilizou por retratar algumas das maiores lendas da música

Paulo Cavalcanti Publicado em 19/04/2017, às 14h53 - Atualizado às 15h36

Pausa no Peso
Jimmy Page em 1977, durante apresentação do Led Zeppelin no festival Day on the Green, em Oakland, Califórnia. “Naquela época, Jimmy não largava o cigarro”, recorda Michael Zagaris

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No hall da fama dos grandes fotógrafos do rock, o norte-americano Michael Zagaris merece um lugar especial. Ele começou a tirar fotos na adolescência com uma câmera Brownie e, a princípio, não pensava nessa atividade como profissão. No final da década de 1960, ele era um estudante de direito com um emprego no escritório da candidatura de Robert F. Kennedy, ajudando a escrever os discursos do político. Quando Kennedy foi assassinado, em 6 de junho de 1968, Zagaris perdeu o eixo – ele estava no local, no Ambassador Hotel, em Los Angeles, quando o crime ocorreu. Abalado, abandonou a faculdade e entrou de cabeça na contracultura. “Depois que Bobby foi assassinado, pensei: ‘Pra mim, já deu’”, conta Zagaris em entrevista por telefone.

Foi assim que ele trocou uma carreira nos bastidores da política por uma vida baseada na música e na fotografia. “Era o limiar de uma revolução. Anos mais tarde, encontrei o George Harrison e ele me disse: ‘Enquanto vivíamos o dia a dia, não percebíamos que estávamos mudando o mundo”, afirma. Zagaris, de 72 anos, segue trabalhando, mas gosta de relembrar os velhos tempos. É o que ele faz no livro Total Excess: Photographs by Michael Zagaris, lançado nos Estados Unidos e que compila uma parte de seu trabalho fotográfico.

Nativo de São Francisco, Zagaris pôde vivenciar e registrar o epicentro da revolução psicodélica do final dos anos 1960. Na década seguinte, passou pela fase dos shows em estádios e testemunhou os excessos dos gigantes do rock. Também se infiltrou no universo punk. “Eu frequentava todos os shows que aconteciam em São Francisco, principalmente no Fillmore. Fotografava por hobby”, relembra. Eric Clapton, recém-egresso do Cream, incentivou Zagaris depois de ver fotos suas feitas pelo rapaz. A partir daí, não demorou para que o fotógrafo se profissionalizasse e seu trabalho começasse a aparecer em grandes publicações, incluindo a Rolling Stone EUA.

Na rotina próxima das bandas, ele ficou amigo de muitos músicos. “Eu ia para a balada com o Jim Morrison [The Doors]. Uma vez, ele até vomitou em cima de mim! Também aprontava muito com o Keith Moon [The Who]”, conta, rindo. Zagaris sempre é questionado sobre como era caminhar entre lendas, e entende o fascínio que as figuras míticas que ele fotografou ainda exercem, não só para aqueles que viveram a época mas também para as novas gerações. No entanto, pondera: “Éramos apenas jovens falando sobre música, mulheres, drogas. Estávamos abertos a tudo”.

Zagaris continua morando em sua cidade natal, na região de Haight-Ashbury, a Meca do movimento hippie durante a década de 1960. “O pessoal do Grateful Dead é meu vizinho. Aqui ainda dá para achar erva boa e barata”, diz.

O fotógrafo conta que um dos sonhos dele é conhecer o Brasil. Quase esteve aqui em 2016 durante as Olimpíadas no Rio de Janeiro, mas a agenda profissional não permitiu. Hoje, ele ganha a vida fotografando o futebol profissional norte-americano. “Acompanhar o futebol mantém minha mente e meu corpo ativos. É também um jeito de permanecer ao lado dos jovens.

Passado Vibrante

Livro compila grandes momentos do trabalho de Michael Zagaris junto a lendas do rock

(Reel Art Press) pode ser encontrado à venda em sites e livrarias com catálogo importado. Segundo Zagaris, foi emocionante compilar as imagens, especialmente agora que ele não trabalha mais com música. “O rock já não é o grande negócio de antes. Tudo é disperso. Por causa da internet, tudo acontece muito rapidamente”, argumenta. Ele acredita que o excesso de oferta é essencial para quem é apaixonado por música, mas que não é algo necessariamente interessante para o trabalho dele. “São artistas em demasia. Você não consegue nem saber quem vale a pena ser fotografado.” Também diz que antes era mais fácil circular pelos bastidores dos shows: “Se você tivesse uns baseados no bolso, entrava. Hoje, não dá nem para passar pela primeira barreira de segurança”.