Belchior: Sob o Peso do Mundo

Redescoberto pelas novas gerações depois de um período envolto em mistérios, Belchior se vai, mas deixa um legado imortal: a radiografia da dor pessoal e social de perceber que o sonho acabou

Mauro Ferreira Publicado em 22/05/2017, às 11h20 - Atualizado em 26/10/2017, às 15h28

Belchior

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Antônio Carlos Belchior deu o sinal já em 1974, nos dois versos que abrem a canção “Todo Sujo de Batom”. “Eu ando cansado/ Do peso da minha cabeça”, avisou na música que lançou no primeiro álbum, Mote e Glosa, e que regravaria em 1977 em Coração Selvagem, disco que abriu uma janela pop no cancioneiro do artista cearense. Um cara tão sentimental que não aguentou o peso da vida e sumiu de cena a partir de 2007. Foi encontrado algumas vezes, fugiu e se refugiou anonimamente na casa de um amigo em Santa Cruz do Sul, cidade gaúcha. Mas na madrugada de 30 de abril, o Brasil o reencontrou, já sem vida, aos 70 anos. O cantor, que veio ao mundo em 26 de outubro de 1946, na cidade de Sobral, no Ceará, morreu em decorrência da ruptura da veia aorta.

A morte de Antônio Carlos Belchior provocou comoção na cena artística nacional. Ele foi cultuado em redes sociais, velado e enterrado pela mídia com as honras póstumas dignas de um grande compositor que radiografou o tempo que viveu em uma série de canções urgentes, passionais, contestatórias e analíticas do comportamento social da década de 1970. “É difícil analisar a obra dele, sendo parceiro e companheiro da mesma estrada musical. Penso que essa comoção geral se explica pela importância do trabalho artístico desenvolvido em todos esses anos e pela forma do ‘desaparecimento’ que acabou por levá-lo de nossa convivência”, avalia o cantor e compositor Ednardo, companheiro de Belchior no coletivo intitulado Pessoal do Ceará e padrinho do primeiro casamento do artista.

Ednardo conviveu com Belchior antes da fama conquistada em 1972 com a gravação de “Mucuripe” na voz da cantora Elis Regina. A mesma Elis que, em novembro de 1975, lançou no roteiro do show Falso Brilhante duas das mais contundentes composições de Belchior, “Como Nossos Pais” e “Velha Roupa Colorida”, escritas com a amargura de ver que, em meados dos anos 1970, os ídolos do Brasil eram os mesmos de tempos atrás e que o passado era uma roupa já sem serventia. Belchior apontava a desilusão de perceber que o sonho humanitário da década de 1960 tinha se esfacelado na realidade concreta da selva das grandes cidades, assunto de “Paralelas”, música lançada por Vanusa em 1975 e que antecipou o individualismo yuppie e capitalista que regeria os anos 1980.

Em essência um romântico politizado, Belchior tinha acreditado no sonho na época em que se reunia com Ednardo, Raimundo Fagner e outros amigos do Pessoal do Ceará no Bar do Anísio, ponto de encontro da contracultura de Fortaleza (CE). Foi lá que nasceu “Mucuripe”, música que tem melodia de Fagner e versos de Belchior. Ao lamentar a morte do parceiro, Fagner caracterizou Belchior como um “grande poeta”. É a mesma definição usada pela cantora Elba Ramalho. “Se eu tivesse que descrever o Belchior em poucas palavras, diria que ele era muito inteligente, elegante e um grande poeta. Eu gostaria muito de ter me encontrado mais com ele”, lamenta Elba, contando que soube da morte do amigo por meio de um telefonema de Fagner. “Recordamos momentos bons e compartilhamos nossa tristeza.”

O talento do poeta começou a ser notado em escala nacional em 1971, quando “Na Hora do Almoço”, canção sobre o congelamento das relações familiares naqueles anos rebeldes, foi defendida pelos cantores Jorge Mello e Jorge Teles no IV Festival Universitário da Canção Popular, exibido pela TV Tupi. A boa receptividade deu a oportunidade a Belchior de gravar o compacto de estreia, registrando a canção em sua voz Belchior faria o primeiro álbum em 1974. Conhecido como Mote e Glosa, mas a rigor intitulado somente Belchior, esse álbum apresentou canções desesperadas, como “A Palo Seco”, música cujos versos “E eu quero que esse canto torto/ Feito faca corte a carne de vocês” foram reproduzidos centenas de vezes em redes sociais para saudar a obra afiada desse cantor e compositor de voz anasalada, um cronista de origem sertaneja.

Embora seja uma das melhores peças da discografia de Belchior, o trabalho de 1974 obteve repercussão bem restrita. O sucesso nacional viria somente dois anos depois, com a edição em 1976 do álbum considerado a obra-prima dele, Alucinação, produzido por Marco Mazzola, nome ainda pouco badalado na época, mas que se tornaria grife e garantia de ótimas vendas no início da década de 1980.

Mazzola remonta a gênese de Alucinação, álbum de som folk e espírito roqueiro. “Conheci Belchior através de Elis Regina, na casa dela, quando estávamos escolhendo repertório para o show que depois se tornou o disco Falso Brilhante”, relembra. “Ela tinha um cassete com algumas músicas dele e disse para eu escutar. Nesse cassete havia duas canções com as quais ela estava bem impressionada, ‘Velha Roupa Colorida’ e ‘Como Nossos Pais’. Tinha ainda ‘Apenas um Rapaz Latino-Americano’ e ‘A Palo Seco’. Peguei a fita e levei para uma reunião na [gravadora] Philips, onde eu já era produtor. As pessoas torceram um pouco o nariz para aquele cantor sem porte de galã, predicado para a época. Mas André Midani e Roberto Menescal me deram força para ir em frente. Conheci então Belchior, ele me contou a vida dele e eu reuni um time de músicos de primeira. A gente se trancou no estúdio. Em uma semana nasceu Alucinação. Lançamos o disco com enorme sucesso e, assim, o mundo conheceu uma nova mensagem de um artista vindo do sertão e calejado de sofrimento.”

Com Mazzola, Belchior se transferiu para a gravadora WEA, que abriu filial no Brasil na segunda metade da década de 1970, período em que o compositor gravou e lançou álbuns como Coração Selvagem (1977), Todos os Sentidos (1978) e Belchior (1979), que tem seu último grande sucesso nacional, “Medo de Avião”. Este LP também é conhecido pelo título Era uma Vez um Homem e Seu Tempo.

A partir da década de 1980, o cancioneiro de Belchior perdeu o apelo popular. A obra em si resultaria em algo menos contundente e diluído pelo som tecnopop, que deu o tom da época. Mesmo quando o artista tentou voltar à tona com álbuns de inéditas, como Melodrama (1987) e Elogio da Loucura (1988), os esforços foram em vão. Até porque a MPB estava ofuscada pelo pop rock brasileiro, que reinava nas paradas naquela década.

Belchior ainda insistiu, lançando eventuais discos com repertório de bom nível, caso especial de Baihuno, editado em 1993 pela pequena gravadora MoviePlay. Mas o mercado estava refratário e o próprio Belchior se rendeu à força da obra que erguera entre os anos de 1971 e 1979. Um cancioneiro que resiste ao tempo, perene, sendo revivido periodicamente por intérpretes como a paulistana Cida Moreira, que lançou na internet uma regravação de “Na Hora do Almoço” dias antes da morte de Belchior. A música de 1971 integra o repertório do recém-lançado segundo disco ao vivo da cantora, Soledade Solo.

“Eu canto ‘Na Hora do Almoço’ há muito tempo. Nesse show que se tornou o Soledade Solo, ela veio a mim com força. Essa canção representa um grito, uma rebeldia que corre pelas nossas veias, embalada por essas canções despudoradas de Belchior. Canções fortes, livres, densas, com a poesia do chão bruto do Brasil”, conceitua Cida, que se orgulha de ter um compacto duplo do Pessoal do Ceará autografado por Belchior.

A cantora Amelinha, que lançou em 2002 um disco gravado com os conterrâneos Belchior e Ednardo e intitulado Pessoal do Ceará em homenagem ao coletivo dos anos 1970, vai gravar este ano um disco somente com músicas do compositor de “Alucinação” (1976). Prontamente aceito pela cantora, o convite foi feito pelo produtor musical Thiago Marques Luiz, no embalo da emoção causada pela notícia da morte de Belchior. Estão previstas no disco canções bastante conhecidas, entre elas “Mucuripe” e “Coração Selvagem”.

A força da obra setentista de Belchior é tamanha que vai sobreviver ao cantor e enterrar aos poucos sua última década de vida, a mais nebulosa da trajetória do artista, que, atolado em dívidas e tormentos, saiu do cenário musical e dos holofotes. Sem paradeiro certo, como um fugitivo, Belchior viveu esses dez anos fora dos palcos, recluso, com o peso da cabeça que gerou canções imortais e ainda atuais, tradutoras fiéis das solidões e angústias do homem.