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Uma Vida em Sons

Os mais memoráveis momentos musicais de Chris Cornell, entre clássicos grunge no Soundgarden, hits com o Audioslave e o poético material solo

Redação Publicado em 21/06/2017, às 14h31 - Atualizado às 14h34

Poder ao Vivo
Com o Soundgarden na O2 Arena, em Londres, no dia 18 de setembro de 2013
Rex/ John Rahim/ AP

Chris Cornell foi uma das vozes características do rock dos anos 1990, ao lado de nomes como Kurt Cobain, Eddie Vedder e Layne Staley – e era a mais arrojada e mais virtuosa de todas elas. O músico será para sempre lembrado pelo gemido feroz e altíssimo, mas foi igualmente um hábil compositor, que fazia sem esforço transições entre o heavy metal ameaçador e o folk reflexivo. Estas 15 canções dão uma amostra do poder do legado de Cornell.

“Flower” 1988

Soundgarden

Na faixa de abertura do debute do Soundgarden, Ultramega OK (1988), a

abordagem demoníaca de Cornell – gutural, mas completamente sob controle – é um complemento perfeito para a letra, que conta a história de uma garota cujo estilo de vida resulta em uma morte prematura.

“Hunger Strike” 1991

Temple of the Dog

As músicas “Hunger Strike” e “Wooden Jesus”, do Temple of the Dog, foram compostas por Cornell para o Soundgarden bem antes de Andrew Wood morrer, mas, segundo o cantor, elas não soaram exatamente certas para um álbum da banda. “‘Hunger Strike’ surgiu de uma crise existencial que o Soundgarden viveu na época”, ele disse à Rolling Stone na reunião do Temple of the Dog, em 2016. “É um anúncio de que estou sendo verdadeiro ao que estou fazendo, independentemente do que aquilo vai gerar, e nunca vou mudar o que faço por dinheiro ou sucesso.” A música é um dueto entre Cornell e Eddie Vedder, na época um cantor iniciante que viajou a Seattle para fazer testes para o Mookie Blaylock, a banda que em pouco tempo ficaria conhecida como Pearl Jam.

“Say Hello 2 Heaven” 1991

Temple of the Dog

Andrew Wood, o excêntrico frontman do grupo glam de Seattle Mother Love Bone, era amigo próximo de Cornell – eles chegaram a ser colegas de quarto por um ano. Depois da morte de Wood, em 1990, por overdose de heroína, Cornell deu vazão ao luto em duas músicas, “Reach Down” e “Say Hello 2 Heaven”. Segundo ele, as canções surgiram “tão rápido que nem lembro do processo”, e não se encaixavam no Soundgarden. Cornell então passou as demos para Jeff Ament, baixista do Mother Love Bone, que, ao lado dele e do guitarrista da banda, Stone Gossard, trabalhou para finalizá-las. O resultado final de “Say Hello 2 Heaven” é lúgubre e denso, com a voz de Cornell lentamente se transformando em um grito de procura e as guitarras suavemente lamentando em torno dele. A música abre o disco Temple of the Dog (1991), um documento de um “futuro” supergrupo que ajudou a solidificar Seattle como epicentro do que era conhecido como “rock moderno”.

“Outshined” 1991

Soundgarden

Depois de o Soundgarden chegar a boas posições nas paradas de sucesso pela primeira vez, em 1989, com o disco Louder Than Love, Chris Cornell começou a ficar mais introspectivo. Esse olhar para dentro o ajudou a começar a compor músicas diferentes para o terceiro disco da banda. “Nunca fui muito autobiográfico nas minhas letras”, disse Cornell em 1992. “Então, uma frase tipo: ‘I’m looking California and feeling Minnesota’, de ‘Outshined’, era só algo que soava interessante.” Segundo single de Badmotorfinger (1991), a canção não só se tornou uma das favoritas dos fãs como inspirou o título de Feeling Minnesota (no Brasil, Paixão Bandida), drama de 1996 com Keanu Reeves e participação de Courtney Love.

“Rusty Cage” 1992

Soundgarden

“Tenho uma vívida memória de ficar olhando o campo pela janela e me sentindo reprimido”, Chris Cornell disse à revista Spin sobre a ocasião em que dirigiu por algum lugar da Europa e escreveu a letra da música, que acabaria abrindo Badmotorfinger (1991). Quando a banda voltou a Seattle, Cornell, que estava ouvindo muito Tom Waits na época, “queria criar esse Black Sabbath caipira”. A faixa acabou regravada por Johnny Cash no disco de covers Unchained (1996).

“Seasons” 1992

Solo

A comovente e subestimada contribuição solo de Cornell para a trilha sonora do filme Singles (no Brasil, Vida de Solteiro) veio de uma obra de ficção: uma fita cassete solo feita por Cliff Poncier (personagem de Matt Dillon) depois de ele sair da banda fictícia Citizen Dick. Cornell ficou com a responsabilidade de escrever as músicas para a fita e uma delas é esta balada folk reflexiva. “É fantástico”, recorda o diretor Cameron Crowe sobre o EP que viria a ser conhecido simplesmente como Poncier.

“Spoonman” 1994

Soundgarden

O primeiro single do Soundgarden a entrar nas paradas de sucesso foi uma escolha audaciosa para furar o mainstream: uma percussão intricada com 7/4 de andamento e a letra sombria e solitária de Cornell sobre uma figura excêntrica de Seattle, Artis the Spoonman, que usa uma colher como instrumento musical. “É mais sobre o paradoxo de quem ele é e como as pessoas o percebem”, disse Cornell ao Request em 1994. “Ele é um músico de rua, mas, quando está tocando nas ruas, ele recebe um valor e é julgado de um jeito completamente errado pelas outras pessoas. Elas acham que ele é alguém da rua ou que está fazendo aquilo porque não consegue um emprego. Elas o colocam alguns níveis abaixo na escala social pelo jeito como percebem alguém que se veste diferente. A letra expressa o sentimento de que eu me identifico muito mais com alguém como Artis do que com as pessoas que o observam.”

“The Day I Tried to Live” 1994

Soundgarden

Para uma banda que sempre sofreu para negar a influência do Led Zeppelin no som, aqui está a performance vocal mais lírica e estoura pulmão de Chris Cornell a aparecer em um single do Soundgarden. “É sobre tentar parar de ser fechado e recluso, algo com que eu sempre tive problema”, disse ele à RS em 1994. “É sobre tentar ser normal e simplesmente sair por aí com outras pessoas. Tenho uma tendência a ser bastante fechado e não ver ninguém e não ligar para ninguém por longos períodos de tempo.”

“Black Hole Sun” 1994

Soundgarden

“Compus a música pensando que a banda não ia gostar”, disse Cornell à RS sobre o mais icônico single do Soundgarden. “Depois ela se tornou o maior hit do verão.” Cornell a escreveu em cerca de 15 minutos.

“Fell on Black Days” 1994

Soundgarden

Não tão imediato quanto os outros singles de Superunknown, “Fell on Black Days” continua dotada de um sentimento sombrio. Na faixa desacelerada e blueseira, Cornell confronta o histórico com a depressão. “É um sentimento que todo mundo tem”, ele disse à Melody Maker em 1994. “Você é feliz com a sua vida, tudo vai bem, as coisas estão animadoras – quando de repente você percebe que está infeliz ao extremo, a ponto de estar muito, muito assustado. Não há um evento em particular com o qual você esteja chateado, é só você perceber um dia que tudo na sua vida é uma merda.”

“Pretty Noose” 1996

Soundgarden

Principal single do disco Down on the Upside (1996), “Pretty Noose” se apresenta com uma ameaçadora névoa de psicodelia. Os riffs levemente exóticos e com wah-wah do guitarrista Kim Thayil criam o clima para os versos tristes e impressionistas de Cornell. Em uma entrevista de 1996 à MTV, ele explicou que fez a música sobre uma “ideia ruim sedutoramente bem embalada... algo que parece bom no começo, mas depois retorna para te incomodar”.

“Cochise” 2002

Audioslave

O supergrupo Audioslave anunciou sua existência com uma faixa furiosa, o perfeito casamento entre o poderoso metal alternativo do Rage Against the Machine e o lamento de Cornell. Tom Morello, que estava lendo sobre o “destemido e irresoluto” presidente dos Estados Unidos à época, criou o título. Sobre o refrão nervoso – “Go on and save yourself, and take it out on me” –, Cornell disse que foi uma ocasião de “eu gritando comigo mesmo, olhando no espelho”.

“Like a Stone” 2002

Audioslave

“Like a Stone”, o segundo single do Audioslave, acabou sendo a música de Cornell mais bem posicionada nas paradas de sucesso em toda a carreira dele. Na performance, ele mostra o famoso alcance vocal com paixão e rispidez incríveis.

“You Know My Name” 2006

Solo

Ao fazer o tema de 007 – Cassino Royale (2006), o cantor visou a era mais sombria de Daniel Craig – e se tornou o primeiro homem a cantar um tema de James Bond em quase 20 anos (para colocar em perspectiva, o último tinha sido Morten Harket, do a-ha). Cornell era fã tanto de Bond quanto de Craig.

“Nothing Compares 2 U” 2016

Solo

A última faixa de Cornell a entrar nas paradas antes da morte dele foi não apenas um tributo a Prince – que morreu em abril de 2016 – mas um quente e inesperado epitáfio para o próprio cantor. Os caminhos vocais virtuosos percorridos por Cornell perseguem a melodia nesta gravação íntima. “A música de Prince é a trilha sonora para o universo bonito e comovente que ele criou, e somos todos privilegiados por fazer parte disso”, escreveu Cornell no lançamento da música. “‘Nothing Compares 2 U’ tem uma relevância atemporal para mim e para praticamente todo mundo que conheço. De um jeito triste, a própria letra dele nesta música não poderia ser mais relevante do que neste momento, e eu a canto agora em reverência fazendo meu tributo ao inigualável artista que deu à nossa vida muito mais inspiração e fez o mundo muito mais interessante.”

Textos por: Brittany Spanos, Christopher R. Weingarten, Hank Shteamer, Jason Diamond, Jon Freeman e Maura Johnston