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A Vez dos Esquisitos

De American Gods a The Handmaid’s Tale: bem-vindo à era de ouro da liberdade criativa na televisão

Brian Tallerico Publicado em 08/07/2017, às 11h05

Visão Autoral
Emily Browning em American Gods, série baseada na obra de Neil Gaiman

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Um agente do FBI se comunica com uma mulher sem olhos em um plano sobrenatural. Uma deusa engole um adulto pela vagina durante a relação sexual. Uma orgia chega ao clímax com um padre quase forçado a fornicar com uma “leoa”, pouco depois de amarrar um homem que alega ser Deus. E nem vamos começar a falar sobre o assassino que tem de retirar uma chave do coração de seu sósia para iniciar um Armagedom nuclear.

Esses momentos inesquecivelmente bizarros da TV não vieram da soma de mais de uma década de programação – todos ocorreram nos últimos meses, durante o horário nobre nos Estados Unidos. Em 2017, um telespectador aventureiro pode mergulhar no universo de agentes do FBI possuídos na volta de Twin Peaks, testemunhar um deus de terno elegante liderando a rebelião de um navio negreiro no século 18 em American Gods ou então viajar para a vida após a morte em The Leftovers. E essa pode ser apenas a ponta do iceberg, o que leva à pergunta: o que está acontecendo na TV neste momento? Estaríamos no meio de uma “era de ouro da esquisitice” nesse veículo de comunicação?

“Vivemos o auge da produção televisiva atualmente. E o mercado está saturado de centenas de dramas espalhados por canais abertos a cabo e em serviços de streaming – a experimentação é uma mutação necessária do formato”, diz Bryan Fuller, o homem por trás do show de horrores Hannibal e da adaptação de American Gods, do autor Neil Gaiman, e disponível no Brasil pelo serviço Amazon Prime Video. “Há mais do que nunca uma necessidade de se pensar ‘fora da caixinha’, porque o nicho se transformou em uma demografia quantificável. Somos como um pavão nos exibindo narrativamente, sacudindo as penas de nossa cauda em uma tentativa de chamar atenção dos telespectadores quando eles têm muitas aves para observar.”

À medida que a produção para TV passou a ser mais prestigiosa nos anos 1990, mais criadores estavam dispostos a ver quais limites poderiam expandir na TV tradicional, dos peixes falantes em Família Soprano às visões fantasmagóricas de A Sete Palmos, das estranhezas extraterrestres de Arquivo X à estrutura flashback/avanço temporal de Lost. O que esses seriados compartilhavam, acima de tudo, era a voz confiante de alguém disposto a correr riscos.

No entanto, provavelmente são os criadores que ainda estavam no ensino fundamental quando David Lynch mudou o paradigma da TV tradicional com Twin Peaks que agora estão liderando esta nova e ousada frente na TV. Criadores como Fuller, Noah Hawley (Legion e Fargo), Ryan Murphy (American Horror Story), Damon Lindelof (The Leftovers), Lily e Lana Wachowski (Sense8, recentemente cancelada pela Netflix após a segunda temporada) e Zal Batmanglij e Brit Marling (The OA) não estão mais trabalhando a partir de descrições-padrão para uma temporada ou episódio em três atos; agora, estão definindo seus programas por meio da visão de que tudo é válido. Graças à enorme quantidade de canais a cabo e serviços de streaming que precisam de conteúdo novo, nunca houve uma oportunidade melhor para esses roteiristas e diretores esquisitões colocarem suas ideias em prática.

“O [serviço norte-americano de streaming] Hulu não tinha uma definição própria como criador de conteúdo até The Handmaid’s Tale – agora, tem uma identidade real como ‘o canal que leva a você The Handmaid’s Tale’”, afirma Hawley. “Foi igual com a AMC quando ela tinha Mad Men; olhe o que Transparent fez pela Amazon. Um programa pode reformular um canal ou serviço de streaming de um jeito realmente significativo. Então, o que se vê é gente sendo estimulada a correr riscos e, assim, essas séries chegam até você.”

Há uma correlação entre o número de veículos exibidores em 2017 e a disposição das empresas em deixar os times de criação irem até os limites para se destacar. Como Daniel Fienberg, crítico de TV do The Hollywood Reporter, observa: “O streaming e o mercado ampliado em geral criaram uma espécie de corrida armamentista quando se trata de garantir os talentos de uma meia dúzia de criadores realmente muito bons. No processo de tentar prender esses roteiristas e produtores (que cada vez mais são também diretores), é preciso dar a ‘chave do carro’ a eles. Estamos vendo muita rédea solta – esses seriados são como Noah Hawley e Damon Lindelof e David Lynch manifestam sua liberdade”.

O importante a manter em mente sobre esses programas é que nenhuma dessas escolhas “estranhas” é arbitrária. A perspectiva nada confiável de Legion, a miscelânea da abordagem da mitologia em American Gods – elas podem desafiar as ideias dos espectadores sobre narrativas lineares ou mesmo a lógica básica do 1 + 1 = 2, mas todas são conectadas a algo relacionável em termos de estilo e de prender coração e mente do público. “Se tudo é estranho, então nada é estranho”, filosofa Hawley. “Isso é que era tão bom em Twin Peaks na primeira temporada – você tem essa espécie de vidinha pacífica e normal e dentro dela começa a penetrar uma feiura realmente surreal. Só que se tudo fosse apenas feiura surreal, não seria interessante. É preciso haver um equilíbrio.”

“Sempre haverá pessoas tentando encontrar um novo ângulo para o velho clichê batido”, afirma Fuller. “E roteiristas talentosos vão continuar encontrando esses novos ângulos e nos fazendo esquecer o clichê e adorar algo um tanto distorcido, porque, essencialmente, é isso o que grande parte dos espectadores quer: algo familiar, mas com um pouco de distorção – ou com muita distorção.