Sucesso do rock brasileiro, Leo Jaime nunca saiu de cena e segue explorando seus talentos além da música

“Comecei a dominar o violão e isso me ajudou. Foi aí que aprendi a me rebelar com a minha timidez”, conta o músico, ícone dos anos 1980

Paulo Cavalcanti Publicado em 23/04/2018, às 18h57 - Atualizado às 19h01

Leo Jaime

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Com o culto que se estabeleceu a respeito da década de 1980, é impossível não lembrar da figura de Leo Jaime. Primeiro como integrante do João Penca e Seus Miquinhos Amestrados e posteriormente em sua bem-sucedida carreira solo, ele esteve presente nas rádios, televisões e cinema. Há quase 40 anos, a vida tem sido uma jornada e tanto para o artista nascido Leonardo Jaime em Goiânia, no dia 23 de abril de 1960.

Leo Jaime é uma figura complexa, distante de um artista pop típico. Ele conversa de forma fluida e a impressão é que está em um consultório de um analista. Diz que não é saudosista e isso se torna aparente nas palavras dele, sempre bem escolhidas. As recordações de Jaime vêm salpicadas por um tom crítico – apesar de orgulhoso de tudo o que construiu, ele não se mostra deslumbrado com tantos feitos que acumulou em uma carreira diversificada, que, com o tempo, o levou muito além da música.

A atual empreitada de Leo Jaime é o programa de rádio Papo de Almoço, transmitido pela Rádio Globo. A atração tem um apresentador a cada dia e ele ganha foco às segundas-feiras, das 12h às 14h, nas frequências 98,1 FM, no Rio de Janeiro, e 94,1, em São Paulo. O sucesso do programa é um exemplo da vocação de Jaime como homem da comunicação. “Queremos manter o público ligado nos assuntos e tocar menos música. No Papo de Almoço, recebemos convidados de diversas áreas, recordamos efemérides e falamos de assuntos que estão sendo debatidos nas redes sociais. Sempre procuramos uma discussão, em assuntos tradicionais ou não.”

Leo Jaime acrescenta que gosta muito de fazer rádio, já que a comunicação com o interlocutor é imediata e instantânea. “Eu acho que este é meu lugar”, afirma. “Eu fico muito confortável neste meio. Gosto realmente de estar aqui falando, debatendo, não só lendo perguntas”. Para ele, a atividade é um exercício interessante, porque, além de discorrer sobre música, ele também pode entrar no universo da notícia, dos esportes e muito mais, circulando em mundos diferentes. “Eu tenho que trabalhar com diversas linguagens, e dessa forma também aprendo muito”, conta.

No momento, Jaime é um homem de rádio, mas já transitou pelos campos do jornalismo e das artes cênicas – na verdade, antes da música, começou a carreira artística como ator. Ele reflete sobre várias atividades nas quais se envolveu: “Eu imagino que no início todos deveriam pensar que eu não tinha foco”, diz. “Então fui cavando as oportunidades. Fiz coisas importantes em muitas áreas. Estive presente em novelas, filmes e musicais, escrevi colunas em jornais e revistas, fiz programa de televisão, fui comentarista esportivo. Com tantos projetos, notei que no meu caso não era uma era falta de foco, e sim uma abertura para diferentes focos.”

Apesar de tudo isso, Leo Jaime se confessa uma pessoa tímida. Ele relata que sempre foi assim, desde o começo, em sua humilde infância em Goiás. “Eu estudei em escola pública. Fiz teatro e aprendi música quando era estudante, tocando em uma banda marcial. E assim eu fui seguindo. Tanto a música quanto o teatro eram formas de tornar a minha vida colorida. Eram maneiras de me expressar.” Em meio a esses refúgios emocionais, Jaime descobriu de vez a música através de um tio. “O meu tio João gostava de rock, e eu, por causa da influência dele, comecei a ouvir Jovem Guarda e música pop internacional. Lembro do impacto quando vi Help! (1965), dos Beatles. Antes, eu só ia ao cinema para ver desenhos animados.”

A música entrava na vida de Leo Jaime, só que o garoto a princípio tinha outras coisas em mente. “Eu queria ser cientista, astronauta ou jogador de futebol”, confessa. Ele era um leitor voraz e gostava muito de escrever, vislumbrando um futuro no jornalismo. Mas o desejo de se tornar artista não o abandonava. “Fui estudar violão. Foi uma experiência muito interessante, já que eu não tinha habilidade em lidar com as pessoas. Mas eu me dedicava muito ao instrumento. Comecei a dominar o violão e isso me ajudou. Foi aí que aprendi a me rebelar com a minha timidez.”

Ele tocou em barzinhos em Goiás e foi ampliando os seus interesses e conhecimentos musicais, que agora também incluem muita música brasileira, jazz e standards. Mas em termos de consolidação profissional o teatro veio antes da música. Nas andanças pelo Brasil com companhias teatrais, ele foi parar no Rio de Janeiro no começo dos anos 1980. Lá, conheceu Arnaldo Dias Baptista, dos Mutantes, e escreveram algumas canções juntos. Mas levou um tempo para que a carreira musical dele decolasse. “Fui para o Rio de Janeiro para montar bandas. Foi lenta a transição, mas vi que tinha condições de que poderia fazer isso profissionalmente.”

Se estar no Rio de Janeiro no final dos anos 1950 e no começo da década seguinte, em pleno apogeu da bossa nova, era algo mágico, o mesmo pode ser dito sobre a cidade nos anos 1980, quando o rock nacional derivado da new wave dominou a mente e a alma da juventude. Leo Jaime estava no lugar certo e na hora certa. “Aquela nossa turma tinha uma alma ensolarada”, exulta. “A gente tinha uma dor em comum, uma vontade de lutar contra a censura, contra a proibição, contra a caretice. Queríamos dar voz aos jovens urbanos que não estavam sendo representandos”. Jaime fala que eles estavam conversando com todo mundo. “Nosso repertório tornou-se presente nas rádios. Pavimentamos uma estrada dentro do showbusiness brasileiro”, reflete.

Por um breve período ele fez parte do grupo de rock retrô João Penca e Seus Miquinhos Amestrados. Mas o sucesso começou a despontar mesmo para Leo Jaime em 1982, quando Eduardo Dusek estourou com “Rock da Cachorra”, composição do goiano, com a memorável frase “troque o seu cachorro por uma criança pobre”. No ano seguinte, ele gravou o primeiro álbum, intitulado Phodas “C”, que trouxe o hit “Sônia”. Hoje, ao avaliar a sua produção naquele período, ele acha que, no geral, foi irregular. “Os discos tinham metade de faixas boas, e o resto não era tão legal assim”, fala. Quanto à estreia, Phodas “C” , diz que gosta do repertório, mas a produção comprometeu. “Eu era punk, gostava mesmo de algo mais cru. De repente, estava lidando com computadores, aquele tipo de som meio technopop. Aquela não era exatamente a minha expressão musical.”

Já o disco seguinte, o bem-sucedido Sessão da Tarde (1985), com os hits “A Fórmula do Amor”, “O Pobre”, “Solange” e muitos outros, marcou o apogeu de Leo Jaime. “Nele, eu tive controle total.” Mas ainda assim o começo não foi fácil, como lembra. “Eu queria fazer algo mais simples, na base do som do rock de garagem. Mas a gravadora (CBS) não entendia. Eles tinham planos grandes para mim, e queriam que eu refizesse tudo. No final ficou como eu queria e o disco deu muito certo. Minha carreira então andou.” Finalmente estabelecido como um dos grandes astros do pop-rock brasileiro, Jaime entrou em uma rotina frenética, fazendo shows em todas as partes do país e atuando em filmes, como Rock Estrela (1985), As Sete Vampiras (1986) e Rádio Pirata (1987), além da novela Bebê a Bordo (1988). Ele lamenta que a partir de então tenha sobrado pouco tempo para compor como gostaria.

Inquieto, o artista mudou a sonoridade no trabalho seguinte, Vida Difícil (1986). “Deste eu também gosto muito”, comenta o músico. “Eu queria deixar de ser um roqueiro irreverente. Pretendia ser mais do que isso. Esse pensamento me levou a querer fazer outras coisas. Em certo ponto da vida, todo mundo quer amadurecer. Acho que aquele momento tinha a ver comigo. Eu me identificava muito com a turma de Brasília, como o pessoal do Legião Urbana.”

Em 1989, ele lançou Avenida das Desilusões, cujo título já denotava que tudo estava mudando, não necessariamente para melhor. “Deste eu também não gosto, acho irregular”, admite. Leo Jaime entendeu que, com o fim da década, o cenário musical também estava diferente e que a geração dele estava atrás de outros rumos. “Saímos daquela coisa adolescente. Os assuntos eram outros. Na década de 1990, tudo ficou pulverizado”, diz. Ele ficou sem saber para onde rumar musicalmente. Depois de Sexo, Drops e Rock’n roll (1990), só foi lançar outro disco em 1995, que foi Todo Amor. “Este não vingou”, lamenta o artista, que gosta do trabalho. “Acho que as pessoas não me entendiam cantando apenas canções de amor. Mas eu percebia que finalmente estava fazendo algo mais maduro.”

Depois disso, foram 13 anos sem um disco de inéditas. Só voltou a gravar em 2008, lançando o subestimado Interlúdio. “Nesse tempo todo, eu fiquei murchando”, comenta. “É um erro achar que, quando você chega a um certo patamar, permanece nele. Demorei para entender. Fiquei muito tempo fora da indústria da música. Interlúdio, na verdade, foi um recomeço.”

Ao refletir sobre as canções que marcaram o seu período de sucesso, Leo Jaime aponta para algo curioso. Ele sempre procurou dar voz àqueles que não conseguiam se articular. “Em minhas canções, eu falava de questões juvenis, de paixões avassaladoras, de inseguranças infinitas. Eu me questionava: ‘Será que vou ter lugar neste mundo?’ Também pensava: ‘Será que vou conseguir as coisas?’ Eu sempre lutei para ser uma pessoa inclusiva, em tudo.”

Essa característica de olhar para o diferente, para os desprivilegiados, sempre foi um tema recorrente para Jaime. Há muitos anos ele sofre de pan-hipopituitarismo, uma deficiência hormonal que fez com que ele engordasse demasiadamente. Ele assume que é vítima de gordofobia. A condição física dele fez com que perdesse várias oportunidades profissionais. “Uma vez, eu estava fazendo um programa de televisão e um telespectador mandou este comentário: ‘Será que esse cara aí não vai explodir na telinha’? Como se não ter a saúde perfeita não tornasse você um ser humano. Perdi muitas chances por ter ficado gordo.”

Ele enxerga todo o tipo de preconceito existente no dia a dia e procura se posicionar a respeito. “Consideram você uma peça defeituosa se você não se encaixa em certos quesitos de crença, sexualidade e também de aparência física”, fala. “Mulheres e gays são vítimas de preconceito. Não ser branco é desconfortável. Quem é alto sofre, quem é baixo sofre. E ainda falam: “Ué, você tem 30 anos e nunca casou? E ainda não tem filhos?’ Eu acho este tipo de pensamento muito medíocre”.

Prestes a completar 58 anos, Leo Jaime, que há uns dez anos trocou São Paulo pelo Rio de Janeiro, está na paz. Conta que faz tudo com calma e que, quando se tornou pai, achou uma autêntica vocação. O cantor sabe os limites que tem. “Não posso fazer tudo que quero sem que com isso exista algum tipo de prejuízo”, fala. “Prezo pelos meus horários de descanso, pela minha saúde e pelo tempo que passo ao lado da família. Você começa a pensar diferente quando não tem mais 25 ou 30 anos”, conclui.