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Dolores O’Riordan 1971-2018

As últimas horas da saudosa líder do The Cranberries

David Browne Publicado em 24/02/2018, às 12h19 - Atualizado às 12h20

Tempos Áureos
Dolores à frente do Cranberries em 1992, em São Francisco
Anthony Pidgeon/Mediapunch/Ipx/AP Photo

Dolores O’Riordan parecia estar animada no segundo fim de semana de janeiro. No dia 12, a líder do Cranberries falou ao telefone com o guitarrista Noel Hogan sobre uma turnê em março e sobre começar a gravar o primeiro álbum de estúdio do grupo em seis anos. “Ela estava ótima”, conta Hogan. Dois dias depois, O’Riordan enviou a ele, por e-mail, várias músicas novas.

Só que esses planos nunca se concretizaram. Na manhã de 15 de janeiro, ela foi encontrada morta no quarto de um hotel, em Londres. Tinha 46 anos. A causa da morte será revelada apenas em abril, segundo os legistas. Foi um final chocante para uma cantora cuja voz afiada e letras pessoais e políticas fizeram dela uma das estrelas mais potentes da era do rock alternativo.

Criada perto da cidade irlandesa de Limerick, Dolores era a caçula de sete filhos. Idolatrava o pai, um trabalhador rural que se machucou em um acidente e foi obrigado a parar de trabalhar. Desde sempre, porém, havia algo de sombrio em volta dela. Uma vez, a irmã acidentalmente incendiou a casa da família. Mais tarde, Dolores afirmou ter sido molestada sexualmente quando era criança por um homem mais velho. Em 1995, contou à Rolling Stone: “Tenho muitos segredos da minha infância”.

A música se tornou uma fuga. Na escola, sua voz se destacou: “Se eu começava a cantar, todo mundo na sala parava e ouvia”, disse. Em 1990, conheceu uma banda local, The Cranberry Saw Us, e substituiu a vocalista, que estava de saída. O grupo foi rebatizado como Cranberries. “Ficamos espantados que uma garota pequenininha de Limerick tinha uma voz tão incrível”, conta Hogan.

O Cranberries entrou na febre das apostas de grandes gravadoras no rock alternativo dos anos 1990. O álbum de estreia, Everybody Else Is Doing It, So Why Can’t We? (1993), já tinha os hits “Linger” e “Dreams”. O’Riordan fez a banda se destacar com letras politicamente urgentes. E foi ela quem compôs o maior sucesso do grupo, “Zombie”, faixa de 1994 sobre duas crianças mortas pelo Exército Republicano Irlandês durante um bombardeio no ano anterior. Allen Kovac, ex-empresário do Cranberries, conta que a Island Records implorou para que ela não fosse lançada (na versão dele, O’Riordan rasgou um cheque de US$ 1 milhão que a gravadora ofereceu para que trabalhasse em outra música). “Dolores era uma pessoa muito miúda e frágil, mas muito determinada”, diz Kovac.

No entanto, logo o Cranberries enfrentou dificuldades. “Dolores dava muito de si mesma nos shows”, diz Stephen Street, que produziu os dois primeiros álbuns da banda. “Talvez ela pudesse ter controlado seu comportamento e sido mais comedida, mas não era o jeito dela.” Uma turnê em 1996 foi interrompida enquanto a vocalista lidava com a exaustão.

O Cranberries adotou um som mais punk posteriormente, e os álbuns fizeram menos sucesso. A banda terminou em 2003. Uma década antes, O’Riordan havia se casado com Don Burton, responsável pelas turnês do Duran Duran. O casal se mudou para o Canadá, onde ele nasceu, e teve três filhos.

Em 2009, o Cranberries voltou e Dolores formou outra banda, a D.A.R.K., com o ex-baixista do Smiths, Andy Rourke, que define o talento da colega como algo “de tirar o fôlego”. O casamento dela com Burton terminou em 2014, mesmo ano em que ela foi presa por pisar no pé de uma comissária de bordo e dar uma cabeçada em um policial. Um juiz a poupou da cadeia depois de determinar que ela estava mentalmente instável naquele momento. No ano passado, o Cranberries lançou Something Else, uma coletânea orquestral. “Tive problemas de saúde nos últimos anos”, Dolores afirmou. Essa doença – especificamente dores nas costas devido a anos tocando guitarra – levou a uma turnê cancelada.

Pouco antes de morrer, a cantora voou para Londres, onde planejava adicionar vocais para uma nova versão de “Zombie”, feita pela banda britânica Bad Wolves. Depois da meia-noite, em 15 de janeiro, deixou duas mensagens de voz para Dan Waite, que havia arranjado a colaboração. Nelas falou sobre os filhos e cantou um trecho de “Bitter Sweet Symphony”, do Verve (Youth, que havia produzido esse sucesso, estava trabalhando com ela em um álbum do D.A.R.K.). “Dolores estava em um momento bom”, afirma Waite. Ela foi encontrada morta cerca de nove horas depois.