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A Nova Voz do Amor no Pop

Como Dua Lipa foi de uma adolescência no Kosovo para um hit com bilhões de audições

Jonah Weiner Publicado em 19/04/2018, às 00h26 - Atualizado às 00h26

Dua Lipa

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Algumas pessoas da equipe do Saturday Night Live estão montando o cenário no Estúdio 8H quando Dua Lipa passa por eles usando um vestido longo preto, vai para um palco e sobe em um piano de cauda, balançando as pernas como se fosse uma artista de bar. É a primeira quinta-feira de fevereiro e, dali a dois dias, ela estará nesse palco como a convidada musical do programa. Tem motivos para se sentir confiante: uma cantora pop de 22 anos de Londres, Dua foi a artista com mais streamings no Reino Unido no ano passado na categoria feminina; a lista de fãs dela inclui Chris Martin, do Coldplay, e Bruno Mars; e o maior single da carreira da artista, “New Rules”, tem mais de 1 bilhão de visualizações no YouTube.

Ela brilha em “Homesick”, uma balada dolorida que compôs com Martin e é, de longe, a música mais comedida de seu catálogo – um holofote lento e singelo para sua voz rica e rouca, enquanto a maioria de suas músicas tende a ter batidas fortes e aceleradas. O empresário dela, Jules, aponta o celular para um monitor, fazendo um vídeo do ensaio para servir de referência, porque o plano de Dua é sentar no piano e ficar quase imóvel durante toda a música e, embora ela espere que isso demonstre algo sutilmente poderoso, também questiona se não acabará parecendo inerte.

Se tem uma coisa que a artista aprendeu é que, quando se é uma pessoa pública, até os menores gestos podem ter repercussão. Por exemplo: em outubro, usou uma camiseta do disco de Taylor Swift Speak Now em uma passagem de som e um encontro com fãs na Alemanha. As fotos chegaram ao Instagram e os fãs de Taylor notaram e circularam alegremente as imagens. Logo, a própria Taylor publicou um comentário eufórico online: “Estou dando gritinhos de alegria”. No mês seguinte, no entanto, o Time Taylor se virou contra ela quando alguns dos mesmos fãs da cantora descobriram uma entrevista de 2016 na qual Dua, em meio a um questionário do tipo “você prefere cães ou gatos”, teve de escolher entre Swift e Kanye West – e escolheu Yeezy, enfaticamente e sem hesitação. “Nem me lembrava da briga deles”, afirma. “Estava pensando na música, e Taylor é incrível, mas sou tão fã de hip-hop que provavelmente escolheria Kanye em qualquer situação.” O resultado foi uma chuva de ódio vinda de devotos de Taylor. “Ficaram me mandando emojis de cobra durante, tipo, três dias seguidos. Falavam: ‘Espero que você morra’, e eu ‘Caramba, literalmente não falei nada’.”

De volta ao SNL, as preocupações de Dua com “Homesick” tinham fundamento. De pernas bem cruzadas, espinha ereta, ela segura um microfone sem fio com a mão esquerda e apoia a direita no piano, não porque é o que parece ser o mais natural, necessariamente, mas porque sua professora de canto, Lorna, disse que essa pose ajudaria a dar força para impulsionar as notas difíceis de atingir. A performance parece estranha e, quando acaba, Dua sorri: uma nota aguda em particular provou estar dolorosamente fora de seu alcance.

Em questão de segundos, ela está reunida com a equipe. Jules dá play no vídeo que fez; Lorna começa a fazer exercícios vocais. Quando é hora de gravar de novo, ao começar o segundo verso, Dua pega o microfone com as duas mãos, segura na altura do peito, depois treme a palma da mão esquerda ao lado do rosto, ajudando a dar mais dramaticidade à performance. É um ajuste minúsculo, mas Dua pôde perceber pelo vídeo de Jules que faria uma grande diferença (na performance para valer, ela repetiu esses movimentos quase exatamente).

Cerca de 30 membros da equipe e algumas pessoas que estavam ali assistem, hipnotizados. Quando ela acaba, aplausos estrondam no ambiente. É trabalhoso aparentar que você não está fazendo esforço algum.

Há algum tempo que Dua Lipa não se apresenta em um lugar tão pequeno. No ano passado, fez dois shows no Madison Square Garden como número de abertura de Bruno Mars. Ela tem um som adequado para espaços amplos: grandes batidas e vocais ainda maiores. Começou a postar covers no YouTube quando tinha 15 anos e, mesmo então, não tinha medo de usar material difícil, de gente como Christina Aguilera e Joss Stone. Essas covers faziam parte de uma estratégia consciente. “Era como um portfólio. Eu ia a shows e fazia amigos e se alguém dizia ‘Sou produtor’ ou ‘Sou compositor’, eu falava ‘Bom, tenho estas covers...’”

Uma série desses encontros, pessoalmente e online, fez com que ela chegasse a Ben Mawson, empresário cuja lista de clientes inclui Lana Del Rey. Ele a contratou e “literalmente no dia seguinte” a levou para o estúdio. A cantora disse que tinha alguma noção de como queria soar, inspirada pelo seu amor em iguais medidas ao pop e ao hip-hop, mas isso confundia as pessoas: “Eu chegava no estúdio dizendo ‘Quero soar como Nelly Furtado e J. Cole’, e as pessoas ficavam meio ‘Que porra é essa?’”

A inspiração veio de lugares inesperados. Enquanto cocompunha com a banda londrina de eletrônica Ritual, ela estava se esforçando para dar rumo a uma faixa inacabada: “Estava passando por um fim de relacionamento difícil, com alguém que me fez sentir que não era boa o suficiente. Só que, quando compus essa música, quis que parecesse como se ele não se cansasse de mim nunca”. A canção “era ok, mas o refrão não era bem aquilo. Dissemos ‘Vamos eliminar’. Daí eu estava rolando uma página no Tumblr e vi as palavras ‘mais quente que o inferno’ em vermelho sobre fundo preto. Falei ‘Isso é legal!’ E se ele me achasse mais quente que o inferno e eu simplesmente não o quisesse?” O single, “Hotter Than Hell”, foi um enorme sucesso na Europa.

Com essa música, Dua diz que finalmente encontrou uma faixa que parecia ser peculiar da mesma forma que ela. A canção a apresentou aos fãs como uma espécie de guerreira do amor. Momentos de vulnerabilidade e anseio pontuam suas letras, mas o modo dominante é de não engolir sapo. “New Rules” é emoldurada como um plano de batalha de não faz bem. Um single mais recente, “IDGAF”, parece ser quase a sequência desse, em que um ex atormentador aparece do nada, interessado em retomar a relação, e Dua o manda passear sem dó. Essas faixas não são exatamente autobiográficas, mas ela diz que tem muita experiência quando se trata de namorados ruins. Alguns de seus ex eram “emocionalmente manipuladores”, outros tinham defeitos mais cômicos: “Namorei um cara que literalmente nunca comia uma verdura sequer”, lembra. “Falei ‘Você come como uma criança de 5 anos. Tô fora’.”

Há algumas semanas, Dua Lipa estava vendo o Grammy, impressionada com a performance de Kendrick Lamar. O evento foi criticado pelos fatos ridículos de que Alessia Cara foi a única mulher a ganhar um prêmio e de que Lorde não foi convidada a fazer uma apresentação solo apesar de ser indicada para Álbum do Ano. O presidente da Academia de Gravação, Neil Portnow, cavou ainda mais o buraco quando justificou essa disparidade dizendo que as artistas deveriam “melhorar”. Dua arregala os olhos discutindo isso. “As mulheres estão melhorando”, diz. “Só precisamos que nos deem uma chance” (Portnow acabou se desculpando pela escolha de palavras).

Dua conta que, quando criança, aprendeu em primeira mão o que significa trabalhar. Nascida em Londres, vem de uma família de albaneses do Kosovo que deixaram a pátria quando esta mergulhou em conflito. Os pais eram imigrantes esforçados que “trabalharam, tipo, em restaurantes, bares e cafés” para se sustentar. “Eles trabalhavam muito, muito mesmo e, enquanto isso, meu pai estudava à noite para se formar em administração, depois fez mestrado em jornalismo e começou a mexer com publicidade. Minha mãe estava estudando direito antes de a guerra começar. Quando nos mudamos para Londres, estudou turismo.”

A música enchia o lar dos Lipa graças ao pai, que era o vocalista principal de uma banda de rock do Kosovo chamada Oda. “Eles faziam isso para se divertir”, diz, “mas uma música deles, chamada ‘Beso ne Diell’, que quer dizer ‘Acredite no Sol’, fez muito sucesso. Me apresentei no Kosovo há dois anos e eu e minha banda decidimos fazer uma surpresa para meu pai cantando a faixa. Foi muito surreal, porque todo mundo na plateia cantou junto.”

Quando ela estava no início da adolescência, a família voltou para a capital do Kosovo, Pristina: “Eu sabia falar o idioma, mas não ler ou escrever, então a mudança foi assustadora – os outros não cometeriam erros de gramática na lição de casa. Não só isso mas também o simples fato de ser a menina nova da escola”. Só que ela fez amigos, que a apresentaram ao hip-hop. O primeiro show que viu foi de Method Man e Redman. O segundo foi de 50 Cent.

Aos 15 anos, decidida a tentar a carreira na música, Dua convenceu os pais a deixá-la voltar para Londres sozinha, ficando na casa de um amigo da família e se inscrevendo na Sylvia Young Theatre School, cujos ex-alunos incluem Amy Winehouse e Rita Ora. Alguns anos depois, “chegou o momento de ter de decidir o que fazer na faculdade e eu não sabia”, conta. “Sabia que a única coisa que queria era fazer música, então falei: ‘Me deem um ano para ver o que acontece’.” Antes do final desse ano, ela tinha conseguido um contrato com uma grande gravadora.

Estamos esperando abrir o restaurante onde vamos jantar, e Dua aproveita o tempo de folga, que é algo raro atualmente. Há alguns dias, estava em Montreal como estrela principal em um show. Pouco antes, esteve na Jamaica, no venerável Geejam Studios, gravando músicas para o próximo álbum. “Quero que ainda seja pop, mas penda mais para o soul”, conta sobre o projeto. Ela lista algumas das coisas que tem usado como inspiração: “Electric Chair”, de Prince; o novo álbum de Francis and the Lights; muito Outkast. Esteve em estúdio nos últimos meses com criadores de sucessos platinados, como Mark Ronson e o mestre do pop Max Martin. “Passei uma semana com Max e foi a primeira vez que senti que havia muito mais método nas coisas sobre as quais escrevia. Toquei algumas das coisas que fiz na Jamaica, e ele dizia ‘Você pode simplificar isso. Repita aquilo duas vezes. Deixe mais fácil para o ouvinte’. Max tem muitas regras e teorias.”

Ainda precisamos matar tempo antes de comer. “Você é contra comer sobremesa antes do jantar?”, ela pergunta. Caminhamos pelo quarteirão até uma sorveteria. “É, tipo, o terceiro dia seguido que venho aqui”, comenta, “não quero estragar o apetite”, diz, “mas, às vezes, você precisa quebrar as regras.”