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O Primeiro Manifesto

Na época das vacas magras no rap, Emicida emplacou “Triunfo”, cujos 10 anos são celebrados em DVD

Lucas Brêda Publicado em 19/04/2018, às 00h13 - Atualizado às 00h14

Mais Marra
Emicida comemora a faixa que o tornou conhecido

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‘‘É da ‘Triunfo’ também!” Emicida repara que mais uma frase – já é a terceira – falada na conversa com a Rolling Stone Brasil é um verso da música considerada marco inicial da carreira do MC, lançada exatamente dez anos antes do dia da entrevista, realizada em março. Emicida está sentado na sala dele, no mezanino da Laboratório Fantasma, o selo, produtora e marca de roupa que ele comanda com o irmão, Evandro Fióti. O rapper aponta para um quadro temático de “Triunfo”, pendurado na parede à sua frente. “Tem um parceiro meu que fala um bagulho louco: a ‘Triunfo’ define a essência, o modus operandi e a forma de ver o mundo da Laboratório Fantasma. É o nosso primeiro manifesto.”

A data é tema do filme/disco ao vivo 10 Anos de Triunfo. Ele registra um show do rapper gravado em novembro do ano passado em São Paulo – com presença de parceiros musicais, como Pitty, Karol Conka, Caetano Veloso, Vanessa da Mata e Guimê – e sai este mês. O lançamento marca a década em que Emicida foi de garoto sonhador a um dos principais artistas do país nos anos 2010. “O rap estava numa coisa ‘meio morta, meio viva’, respirando por aparelhos, muitos manos desistindo”, ele recorda de 2008, época pós-morte de Sabotage (2003), quando o hip-hop nacional enfrentava dificuldades (Criolo foi um dos que chegaram a abandonar a carreira no período). “E nós também. Era assim: de hoje não passa, vou fazer só esse bagulho para encerrar a parada. Não tinha horizonte. A gente cantava sobre uma confiança que nem tinha. Quando lançamos ‘Triunfo’, a desconfiança se dissipou.”

A faixa foi apresentada pela primeira vez em um clube “duas ruas atrás” da Avenida Paulista. Poucos dias antes do evento, o dono do clube disse que havia “começado uma reforma” e pediu ao rapper que adiasse em “uma semaninha” a apresentação. “Já tínhamos espalhado que seria naquela data, se mudasse, fodeu”, recorda Emicida, que teve de “juntar os moleques” para ameaçar de morte o dono do local. “A gente não matava ninguém, mas ele não sabia [risos]. Aí acelerou o bagulho, ajudamos a terminar a reforma e as pessoas foram num pico com tinta fresca.” Segundo a memória do MC, foram 294 (de 300 possíveis) presentes naquele sábado, e todos os 300 CDs – “com capa de envelope amarelo de carta” – de “Triunfo” foram vendidos. “Queríamos fazer umas pulseirinhas para ficar chique, mas não sabíamos. Aí compramos aqueles ‘enforca-gato’, sabe? As pessoas entravam, a gente colocava aquilo no braço, dava dez minutos elas voltavam com a mão roxa.”

Pouco antes de gravar “Triunfo”, Emicida já era conhecido, principalmente das batalhas, mas ainda trabalhava como pedreiro com o padrasto. “Era bizarro, porque eu estava lá carregando concreto e passava um mano: ‘Caralho, você arregaçou na Liga [dos MCs, vencida por ele em 2006], o maluco é o maior do Brasil’. Os caras que trabalhavam comigo não entendiam nada”, ri. As coisas começaram a mudar com “Triunfo” e com a subsequente mixtape Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida, até Que Eu Cheguei Longe…, do ano seguinte. A faixa foi gravada no estúdio do produtor Felipe Vassão, a partir das experimentações de Emicida com samples de jazz em um MPC60. “Gravava em disquete, mas no estúdio já não lia aquele formato e eu não tinha computador.” O rapper conta que encontrou o produtor apenas para pedir um horário vago e descarregar a base que fez. “Já tinha umas viradas, mas era mais jazz, mais pra baixo. Aí o Felipão abriu a porta, ouviu o barato e falou: ‘Louco isso aí, dá para mexer’. Passou um tempo e ele me ligou. Mano, quando eu ouvi o bagulho, caí pra trás.” A introdução depois veio de um vinil chamado O Melhor do Bang Bang à Italiana, com “uns barulhos de caubói, uns metais…”

Clássico contemporâneo do rap nacional, “Triunfo” nasceu como um tiroteio em forma de poesia, cada rima como um disparo, carregada da agressividade das batalhas e exalando a fome de vitória de um jovem Emicida. “Tinha que parecer uma briga mesmo, era ‘punchline’ o tempo inteiro, que foi uma coisa que virou a minha cara”, analisa. “Saiu [o recém-lançado single em homenagem ao filme] ‘Pantera Negra’; e os caras: ‘Ô, o antigo Emicida’ [risos]. Não vou repetir aquilo o resto da vida. Mas, naquela época, era o que a gente tinha. A música precisava parecer uma pá de socos. Não tinha nem refrão, foi o Felipão que comeu minha mente para pôr refrão. Eu falava que era bagulho de vendido [risos]. Pula para dez anos depois, e o cara está cantando ‘Passarinhos’.”

Mais Memórias Registradas

Vida de Emicida vai virar filme pelas mãos do produtor Rodrigo Teixeira e do próprio artista

A trajetória de Emicida, Fióti e da Laboratório Fantasma antes de “Triunfo” vai virar filme. “Cata a nossa história: sempre esticamos para fora do ambiente da música”, comenta o MC. “Começamos a fazer camiseta e vimos que tinha um vínculo. ‘Brincandinho’, chegamos na São Paulo Fashion Week. Já recebemos proposta de TV, cinema, mas nunca tivemos tempo.” O longa, previsto para 2019, tem direção de Aly Muritiba (Para Minha Amada Morta) e produção de Rodrigo Teixeira, fundador da RT Features (uma das financiadoras de Me Chame pelo Seu Nome, que concorreu ao último Oscar). O roteiro está sendo desenvolvido com a participação de Emicida. O elenco ainda não foi definido, mas o longa deve focar na infância do rapper, passando pela vitória dele na maior liga de MCs, aos 21 anos de idade, e pela desaprovação da mãe, dona Jacira, diante das escolhas de carreira do filho.