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Danny Fields, ex-empresário dos Ramones, lança livro e recorda o legado da banda que mudou a história do rock

Paulo Cavalcanti Publicado em 19/04/2018, às 00h45 - Atualizado às 00h48

Ramones

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Logo na introdução de My Ramones, o autor, o empresário e fotógrafo Danny Fields dedica a obra que escreveu aos amigos Dee Dee, Joey, Johnny e Tommy, os integrantes dos Ramones que já morreram. Ele ainda se lembra de Linda Stein, vital nos primeiros passos, e não se esquece de Arturo Vega, o artista que criou o marcante logotipo dos Ramones, até hoje usado em camisetas no mundo todo. Assim como os músicos, os essenciais Linda e Veja também se foram. Essas ausências reforçam a importância do fato de Fields estar entre nós, relembrando o legado dos nova-iorquinos que colocaram o punk rock na consciência universal.

Hoje, aos 78 anos, Daniel Feinberg, ou Danny Fields, é um sobrevivente, uma das poucas pessoas que estão por aí que conheceram a fundo os Ramones. Fields foi uma mola propulsora na carreira dos quatro desajustados de Queens, Nova York. Com a ajuda do empresário, os músicos revolucionaram a cena pop a partir da segunda metade da década de 1970. O objetivo principal de Fields era que seus clientes obtivessem impacto dentro do mercado fonográfico. Mas ele também queria transformá-los em lendas, e o instinto de Fields alertava que para isto havia a necessidade de um registro visual. Dessa forma, os Ramones ficaram imortalizados em imagens icônicas feitas por ele.

Ainda com a memória em dia e entusiasmado de relembrar aqueles tempos de glória, Fields conta como ajudou a abrir as portas para o grupo: “A primeira coisa na qual eu me empenhei foi conseguir um bom contrato de gravação para os rapazes”, fala. “Em outubro de 1975, eu levei minha querida amiga Linda Stein para ver a banda. Ela ficou muito impressionada e contou a experiência de forma intensa para Seymour Stein, marido dela, proprietário da Sire Records. Os Ramones fizeram um teste, e em fevereiro de 1976 estavam no estúdio Plaza Sound, dentro do Radio City Music Hall, para gravar o primeiro álbum, que se chamou Ramones”. Fields, munido de câmeras das marcas Nikon e Canon, clicou a banda nessa primeira aventura no estúdio, como conta: “Foi tudo rápido. Começamos a gravar em 2 de fevereiro e terminamos no dia 19. Durante as pausas entre as gravações, eu tirei fotos no estúdio, com ou sem instrumentos, com eles à vontade, relaxando, brincando ou então pedindo comida”.

Antes de os Ramones se estabelecerem, gostavam do som do glam. No começo, até se trajavam como os músicos daquele gênero, usando tecido lamê e roupas espalhafatosas. Mas, segundo o empresário, eles precisavam mudar o visual para se destacar. Foi o baterista, Tommy, quem notou que o prazo de validade do glitter havia vencido. Dessa forma, precisariam renovar a indumentária. Fields explica: “Tommy argumentou que jaqueta de couro, camiseta, jeans e tênis eram o básico e que assim todos ficaram cool ao usar tudo aquilo. Eles não estavam atrás de um lance fashion, mas a forma como se vestiam e o jeito que se portavam não deixava de ser uma declaração de estilo. Era um tipo de uniforme que indicava o tipo de classe social à qual eles pertenciam. Também entregava a formação rock and roll que tinham. Poderiam usar aquele tipo de roupa dentro e fora do palco, o que tornava tudo mais prático para uma banda sem dinheiro. O mais importante é que quem olhasse para eles já falaria: ‘Ah, olha, são os Ramones”’.

A simplicidade que tinham ao se trajar e o som básico que faziam no estúdio e nos palcos eram ecoados no cotidiano do quarteto. Fields conta que não havia estrelismo entre eles e que o contato direto com os fãs era o que mais importava: “Os Ramones adoravam fazer promoções em lojas de discos”, ele diz. “Tem artista que odeia fazer isso, dizendo que se trata de um lance comercial e não artístico. Eles deixavam de lado os executivos de gravadora e radialistas. Preferiam ficar com o pessoal que comprava os discos e que apenas queria uma foto ou um autógrafo deles. ‘Os fãs são a prioridade número 1 e nunca nos esqueceremos disso’, repetia Johnny. O amor existente era mútuo.”

Fields confessa que no começo não entendia o que era o punk e como os Ramones se encaixavam naquilo: “Nunca foi nossa ideia usar aquela expressão”, fala. “Mas, como é uma palavra de quatro letras, ela causa impacto. Para alguns, era uma questão de estilo, ou um declaração política ou de poder. Para nós, acredito que era mais uma questão de nos rebelarmos contra uma cultura pop capenga que dominava aquele período.”

No ponto

Obra é a “palavra visual definitiva” sobre o começo dos Ramones

O livro My Ramones, que saiu pela editora Reel Art Press, ainda não tem previsão de lançamento no Brasil, mas pode ser importado. Danny Fields, autor dos textos e dos cliques, medita sobre o resultado final de seu trabalho: “Eu nunca me considerei um fotógrafo profissional. Mas me orgulho de ter um bom olhar para captar imagens”, ele diz. Os Ramones hoje são uma das bandas mais influentes de todos os tempos, mas na época tiveram um apelo comercial bastante limitado. Fields comenta a ironia do destino. “No momento em que eu tirava essas fotos, o Johnny [Ramone], que era o líder, idealizava um sonho. Ele achava que o primeiro álbum da banda iria gerar inúmeros singles de sucesso e, assim, eles nunca mais teriam que trabalhar. Mas isso não aconteceu.”