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Estrada Final

Livro disseca vida e morte de Bon Scott, lendário vocalista do AC/DC

Paulo Cavalcanti Publicado em 20/06/2018, às 11h02 - Atualizado às 11h03

Sempre no Limite
Bon Scott no final dos anos 1970, em uma das épicas apresentações do AC/DC

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É assustador pensar que o AC/DC, uma das maiores bandas de rock de todos os tempos, desintegrou-se rapidamente nestes últimos anos. O baterista Phil Rudd foi afastado definitivamente em 2015 depois de ter se envolvido em um rumoroso caso policial. O fundador Malcolm Young, que se encarregava da guitarra rítmica, deixou a banda em 2014, sofrendo de demência, e morreu em novembro de 2017. O vocalista Brian Johnson se afastou em 2016 devido a sérias complicações auditivas. Da formação clássica sobrou o guitarrista solo, Angus Young, que mesmo na base do improviso preferiu manter o nome do AC/ DC ativo na estrada. Ele convocou músicos de apoio e até chamou Axl Rose, que por um tempo assumiu os vocais.

Mas a primeira grande baixa dentro dos quadros da banda australiana aconteceu em 19 de fevereiro de 1980, quando morreu, aos 33 anos, o explosivo vocalista Bon Scott. Foi uma tragédia, mas o grupo sobreviveu a ela e se tornou maior ainda depois que ele se foi. Até hoje a figura de Scott projeta uma sombra poderosa e sinistra sobre o legado do AC/DC. Em Bon: A Última Highway (Benvirá), Jesse Fink pretende desmistificar certos fatos e colocar o legado de Scott no devido lugar.

Fink, que também escreveu Os Youngs – Os Irmãos Que Criaram o AC/DC, não vê com bons olhos esta sobrevida atual: “O AC/DC sempre foi muito mais do que Angus Young”, fala. “A banda surgiu na base formada por Malcolm Young, Phil Rudd, Mark Evans, Clif Williams e, é claro, Bon Scott, que para mim é a figura mais importante dos primórdios.” Para Fink, ele foi o elemento mágico necessário para que o grupo estourasse nos Estados Unidos entre 1977 e 1979. “Foi quando atingiram o ápice criativo com Highway to Hell”, explica. “Bon foi o principal elemento por trás disso. Ele tinha uma banda pegando fogo por trás dele. Ao vivo, eram os maiores. Ah, e como cantor Axl nem chega perto dele.”

A imagem que todos têm de Bon Scott é a de que ele era um dos maiores beberrões e farristas da história do rock. No livro, Fink não desmente nada disso, mas procura também mostrar outras facetas do artista. “Ele era um grande performer, escritor, ator e comediante – no palco, dava tudo. Ele teve muita importância e nem sempre recebe crédito. Espero que o livro mude isso.” O autor também tem algumas teorias sobre o futuro de Scott caso ele tivesse sobrevivido: “Eu acredito que Bom teria deixado o AC/DC amigavelmente em 1982/1983”, ele aponta. “Musicalmente, estava interessado em outras áreas, além do hard rock. Eu acho que levaria uma vida mais calma, longe do álcool. O surgimento da MTV seria positivo para ele. Bon foi feito para a era do vídeo.”

Quando Scott morreu, o AC/DC estava prestes a entrar em estúdio e gravar o álbum que se tornaria o fenômeno Back in Black. Imediatamente após a tragédia, a banda convocou o vocalista Brian Johnson e se reinventou. Fink acha que parte do sucesso do disco se deve à comoção em torno da morte de Scott, já que o LP foi lançado apenas alguns meses após o fato. “Ironicamente, muito do poder e da mitologia inerente a Back in Black vem devido à morte de Bon. Se ele tivesse sobrevivido, não sei se o álbum teria feito o mesmo sucesso.”

A morte de Bon Scott entrou para o folclore do rock. O atestado de óbito afirma de que ele teria sofrido um coma alcoólico. Para Fink, as drogas também estavam envolvidas no caso. “Eu não tenho dúvida que a história que apurei sobre as 24 horas finais dele é a definitiva”, diz o escritor. “Eu investiguei cada detalhe possível e descobri informações que deveriam ter sido checadas pela polícia décadas atrás. Toda essa conversa de que ele morreu de tanto beber ou que teria sofrido hipotermia é ridícula. Ele cheirou heroína em demasia. Havia feito isso muitas vezes antes. Mas, daquela vez, Bon jogou os dados e não teve sorte.”