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Revolução em Seis Cordas

O recente pedido de falência da Gibson deixou os entusiastas pela guitarra em alerta. Mas sem pânico: a fabricante seguirá honrando a sua história, que há mais de um século vem redefinindo o curso da música popular

Paulo Cavalcanti Publicado em 20/06/2018, às 10h28 - Atualizado às 10h29

O Embaixador
Slash corre o mundo divulgando a Gibson

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O começo de maio, o universo da música foi pego de surpresa quando a Gibson Brands Inc., que fabrica a Gibson Les Paul e sua sucessora, a Gibson SG, dois dos mais icônicos modelos de guitarra de todos os tempos, pediu falência. É verdade que a centenária empresa, cuja sede administrativa fica em Nashville, com as fábricas em Memphis (cidades do estado do Tennessee), está passando por sérias dificuldades, com uma dívida de cerca de US$ 500 milhões. Mas no ramo dos altos negócios nada é tão preto no branco.

Em 2014, a Gibson adquiriu o departamento de acessórios da Philips por US$ 135 milhões. Com isso, a empresa também passou a fabricar fones de ouvido, amplificadores, bolsas e outros artefatos. Com o tempo, a estratégia se mostrou pouco acertada. A Gibson se afundou em um mercado saturado e os prejuízos foram enormes. Para salvar o futuro das icônicas guitarras, esta divisão terá que ser descontinuada. Para tanto, os executivos precisaram executar uma série de ações burocráticas, entre elas o pedido de falência.

A fabricante de guitarras já havia passado por uma situação similar em 1986. Na ocasião, a companhia foi adquirida por uma joint venture cujo principal acionista era Henry Juszkiewicz, que conseguiu dar um jeito no imbróglio. O executivo levou a Gibson a outros rumos. Por um bom tempo, o plano deu certo. Mas os modelos de negócio mudaram e Juszkiewicz agora enfrenta outra crise. Ele falou ao site da Rolling Stone: “Meu sonho sempre foi juntar negócios e lifestyle, algo similar ao que a Nike faz nos esportes. Queríamos algo assim na linha da música. Pena que para nós não deu certo”. Após a inevitável reorganização financeira, a Gibson irá focar em sua verdadeira vocação, que são os instrumentos musicais. Assim, seguirá com a fabricação de toda a linha da Gibson Les Paul, e também das guitarras Epiphone e dos pianos Baldwin.

É importante não cair no conto de rumores e notícias falsas que indicam que, com o pedido de falência, a Gibson iria fechar as portas. Os problemas da empresa não provêm de uma suposta falta de interesse que as pessoas teriam em comprar e tocar guitarra, embora, claro, os tempos tenham mudado, assim como os hábitos e costumes – as vendas de guitarras realmente caíram nestes últimos anos, atingindo não só a Gibson. A concorrente Fender também experimentou uma queda no faturamento.

Atualmente, na programação das rádios e também dentro dos sites de streaming, o hip-hop e o pop dançante com matizes eletrônicos têm uma penetração maior do que o rock. É também sintomático que as bandas de rock também evitem colocar a guitarra na frente – solos extensos e intrincados parecem estar fora de moda para quem cria música hoje em dia. Excetuando Jack White e mais um ou outro, a geração 2000 não viu o surgimento de nenhum herói da guitarra nos moldes de nomes de décadas atrás. Artistas pop de sucesso, como Ed Sheeran, Bruno Mars e Taylor Swift, preferem usar violões acústicos, geralmente da marca Martin. Sem ninguém em quem se espelharem, os jovens naturalmente foram perdendo o interesse em manusear a guitarra elétrica.

Mas isso não significa que o mundo da guitarra esteja em pleno processo de extinção. O caso da Gibson foi de julgamento errado na questão de investimentos. O mercado de guitarras não está tão mal assim, como os números comprovam. Segundo dados da National Association of Music Merchants, entidade que monitora o comércio de instrumentos musicais nos Estados Unidos, somente em 2017 os fabricantes faturaram US$5.6 billhões. Andy Mooney, CEO da Fender, declarou à RS: “Houve um crescimento saudável dentro do nosso mercado. As perspectivas são boas. Agora falam da situação complicada da Gibson, mas isso não tem nada a ver com as guitarras. O problema deles é proveniente de outros fatores”.

Enquanto os interessados refletem sobre o papel e o futuro da guitarra elétrica, Juszkiewicz se ocupa de tirar a Gibson da má situação. “A marca é sinônimo de qualidade. As ações que tomaremos irão permitir que as gerações futuras experimentem nossa qualidade sonora sem igual. Os encarregados pelo design e os luthiers seguirão aperfeiçoando cada modelo que fazemos”, ele disse ainda ao site da RS. Dessa forma, Juszkiewicz garante que a história da Gibson ainda seguirá forte por muito tempo.

Esta notável trajetória que mudou o mundo da música começou em 1902. Foi quando surgiu a empresa fundada por Orville Gibson e batizada de Gibson Mandolin-Guitar Mfg. Co. Ltd., em Kalamazoo, Michigan. O intuito dele era a fabricação do bandolim, um instrumento que posteriormente seria muito usado na música country e no bluegrass. O próprio Orville se ocupava do design e da supervisão da fabricação dos instrumentos. Ele morreu em 1918. No ano seguinte, foi contratado Lloyd Loar, que atualizou e modernizou a empresa. Loar foi responsável pela criação da Gibson L-5, verdadeiro arquétipo da guitarra moderna. O primeiro modelo elétrico surgiu em 1936 – era o ES-150, popularizado pelo jazzista pioneiro Charlie Christian. Nesse período, a música country se tornava cada vez mais popular e a empresa expandiu a produção com steel guitars, banjos e bandolins.

Durante os tempos difíceis da Segunda Guerra Mundial, a empresa diminuiu a produção e em 1944 foi adquirida pela Chicago Musical Instruments. A Gibson se reergueu de forma espetacular tempos após o término do conflito. Um dos motivos foi a mudança nos estilos musicais em voga nos Estados Unidos. As big bands, que eram sustentadas por imensos naipes de metal, entravam em decadência. O que dava as cartas eram a guitarra jazzística e o blues amplificado que em 1949 seria batizado de rhythm and blues, e que desaguaria no rock and roll. A música country também seguia popular. O apogeu da guitarra elétrica começava aí. Foi quando surgiu a seminal figura de Lester William Polsfuss, mais conhecido como Les Paul.

Exímio guitarrista e talentoso design de guitarras, Les Paul se aproximou da Gibson pela primeira vez em 1941, oferecendo um modelo com o corpo sólido. Naquele momento, não houve interesse da empresa, mas quando a concorrente Fender começou a fabricar com sucesso esse tipo de modelo, que se transformaria na popular Telecaster, a Gibson sentiu que ia perder terreno. Les Paul, então, foi contatado por Ted McCarty, na época o presidente da Gibson. Em 1952, foi lançada a Gibson Les Paul e uma verdadeira revolução se iniciava. O surgimento do rock and roll durante meados da década de 1950 foi primordial para a consolidação da cultura da guitarra. Pioneiros como Chuck Berry, Carl Perkins, Duane Eddy, Roy Orbison, Scotty Moore (guitarrista de Elvis Presley), Franny Beecher (Bill Haley & His Comets) e outros eram adeptos da Gibson, assim como os Everly Brothers, que usavam modelos acústicos Gibson J-200s. Dentro do universo do blues, a presença da Gibson se mostrou essencial. O mítico e altamente influente Robert Johnson tocava um modelo acústico L-1, e outros bluesmen, como B.B. King, Muddy Waters e Albert King, também extraíam seus sons característicos usando modelos da Gibson.

Com a chegada da década de 1960, o rock era a língua franca da música universal e a Gibson estava na vanguarda dessa revolução. Os Beatles também eram fãs. John Lennon usava um violão acústico J-160E e pelas mãos de George Harrison passaram todos os modelos disponíveis. A guitarra favorita dele era uma Les Paul vermelha apelidada de “Lucy”. Nos Rolling Stones, o falecido Brian Jones foi um dos primeiros a popularizar a Firebird e também a Les Paul Goldtop. O companheiro Keith Richards preferia a tradicional Les Paul, mas ao longo da carreira também usou a Firebird, a Flying V, a SG, a L6S e a Melody Maker. Mick Taylor, que entrou em 1969 no lugar de Jones, seguia a linha de Richards na escolha de guitarras, e o mesmo pode ser dito sobre Ron Wood, que na metade da década de 1970 substituiu Taylor.

O Yardbirds foi uma das bandas da década de 1960 que mais valorizaram a guitarra elétrica. Pelo grupo inglês passaram, pela ordem, Eric Clapton, Jeff Beck e Jimmy Page. Beck comprou a sua primeira Les Paul em 1959 e se tornou um estudioso de tudo relacionado à Gibson. Enquanto esteve no Yardbirds, o músico expandiu o vocabulário da guitarra, tirando sons que iriam desembocar no heavy metal e no jazz rock. Jimmy Page, colega de Beck no Yardbirds, entrou na década de 1970 com uma banda nova, o Led Zeppelin, e a associação dele com a Gibson seguiu mais forte do que nunca.

Outros ícones da época identificados com a marca são Carlos Santana, Frank Zappa, Pete Townshend, Robby Krieger (The Doors), Alex Lifeson (Rush) e Billy Gibbons (ZZ Top), entre muitos outros. Mesmo Jimi Hendrix, Ritchie Blackmore e Eric Clapton, mais associados aos produtos da Fender, ocasionalmente usavam a Les Paul. No universo do hard rock e do heavy metal, a galeria de notáveis fãs da Gibson também é imensa: Angus Young (AC/DC), Joe Perry (Aerosmith), Ace Frehley (Kiss), Gary More (Thin Lizzy), Tony Iommi (Black Sabbath), Zakk Wylde (Ozzy Osbourne), James Hetfield (Metallica) e Kirk Hammett (Metallica) estão entre eles. Slash, do Guns N’ Roses, é um dos músicos mais identificados com a marca. Ele praticamente usou apenas diferentes tipos de Gibson ao longo da carreira. O guitarrista também tem vários modelos customizados e é embaixador da marca, ajudando a promovê-la ao redor do mundo.

Apesar de muito identificada com o classic rock e com o rock pesado, a Gibson se tornou a guitarra preferida de todas as vertentes da música popular, arrebanhando novas gerações de consumidores. Ela também é muito usada no reggae; Bob Marley ficou marcado por usar uma Les Paul Special. O punk também se beneficiou dos sons da marca, sendo que Steve Jones (Sex Pistols) e Billie Joe Armstrong (Green Day) são alguns dos muitos seguidores da Gibson.

Para o músico, engenheiro de som e design de guitarras Christopher Bonella, gravar com uma Gibson é como “dar um tiro no chão”, ou seja, o músico não errará nunca. Ele explica por que ela ainda é sinônimo de excelência: “A história da Gibson é algo que por si só define a grandeza não apenas da marca mas também do instrumento”, define. “Trata-se de uma guitarra que nasceu diferente. A empresa teve início com violões e outros instrumentos acústicos e levou essa concepção para os modelos elétricos. A Les Paul, por exemplo, tem o braço colado no corpo da guitarra, diferentemente do que acontece em produtos de outras marcas. A maioria é parafusada no corpo. Isso já faz uma diferença enorme. A forma como os luthiers da Gibson constroem o instrumento permite à guitarra uma ressonância diferente, uma maior sustentação nas notas. A Gibson foi responsável por implementar os captadores duplos chamados humbucker. Foi uma contribuição monumental à indústria – o uso deles possibilitou combinações eletrônicas quase infinitas.” Bonella conclui: “Eu mesmo tenho a minha Gibson aqui na manga. Se alguém me chamar para gravar hoje, e eu apenas tivesse essa guitarra, iria muito tranquilo sabendo que no final tudo daria certo”.

IDENTIDADE SONORA

A história do rock passa pelos riffs e solos feitos nos vários modelos das guitarras fabricadas pela Gibson

Johnny B. Goode – Chuck Berry (1958)

Um das exaltações definitivas do universo dos guitarristas, “Johnny B. Goode” tem Chuck Berry tocando uma Gibson ES-335 no pico da inspiração

“While My Guitar Gently Weeps” – The Beatles (1968)

George Harrison preferiu não tocar nessa composição dele; chamou Eric Clapton e ainda emprestou ao amigo a sua Gibson Les Paul vermelha

“Whole Lotta Love” – Led Zeppelin (1969)

Jimmy Page baseou essa composição em “You Need Love”, de Willie Dixon. O explosivo riff foi criado em 1968 e no ano seguinte ele o registrou usando uma Les Paul Standard Sunburst 1958

“Another Brick in the Wall (Part Two)” – Pink Floyd (1979)

O elegante e cortante solo desta faixa de The Wall foi executado por David Gilmour em uma Les Paul Goldtop fabricada em 1955

“Sweet Child O’ Mine” – Guns N’ Roses (1987)

Essa power ballad foi um grande hit de Appetite for Destruction. Os contagiantes solos e riffs criados por Slash carregam a canção