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Carne Doce chega ao terceiro disco abandonando rótulos políticos e abraçando as próprias angústias

Lucas Brêda Publicado em 21/06/2018, às 19h31 - Atualizado às 19h32

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(Da esq. para a dir.) Salma, Anderson Maia, Aquino e João Victor Santana; (atrás) Paulinho Celestino, Braz Torres Neme e Ricardo Machado, na gravação no UP Music, em Goiânia
Macloys Aquino/ Divulgação

Salma Jô, líder do Carne Doce, reflete sobre os quase dois anos que passaram após o lançamento de Princesa (2016), segundo disco e o trabalho que tornou o quinteto goiano um nome reconhecido nacionalmente. Segundo a vocalista, muitas das letras do trabalho ficaram restritas à consideração de que eram “hinos feministas”. “O objetivo é fazer uma obra que emocione, não uma obra política”, diz. “Não quero ser militante, não sou militante, nunca fomos. De repente, começaram a nos cobrar como militantes.” O guitarrista Macloys Aquino, namorado de Salma, pondera: “A pauta nos ajudou a aparecer, crescemos como uma banda identificada politicamente com a pauta, mas isso trouxe desgaste”. Salma afirma que o álbum fez com que “muita gente ficasse odiando [a banda] não por causa do som, mas por causa da pauta”.

Os caminhos percorridos pelo segundo disco do Carne Doce – que, de fato, foi aclamado pela crítica, rendeu muito mais exposição e estendeu consideravelmente a agenda de shows do grupo – acabaram influenciando diretamente a produção do sucessor, ainda sem título e previsto para julho. Musicalmente, o quinteto está mais azeitado e criando mais em conjunto, especialmente porque, desta vez, as gravações aconteceram na cidade natal da banda, Goiânia, no estúdio UP Music (onde normalmente gravam duplas sertanejas). “Mais faixas surgiram de jams, algo que tínhamos feito poucas vezes”, conta Aquino. “Íamos criando com improvisações e a Salma chegava com uma letra e melodia de voz em cima.” Assim como os dois trabalhos anteriores (o outro é Carne Doce, de 2014), as 11 canções do novo LP têm produção assinada por João Victor Santana, também guitarrista do grupo.

“As cobranças e o fato de eu não saber lidar com elas foram coisas que me deixaram um pouco triste comigo mesma. Isso está nesse disco”, revela Salma, falando sobre o conteúdo lírico do disco. “Tem um sentimento de pessoa que foi traída, rejeitada, abandonada, que é insuficiente ou incompetente.” Descrito como “introspectivo”, o terceiro álbum dos goianos está muito mais centrado nos questionamentos internos de sua líder, em vez de em canções como “Artemísia” – sobre aborto – e “Falo” – uma “fantasia sobre ódio” –, o que pode igualmente decepcionar ou animar os fãs do grupo. “Essas canções levantaram um assunto, mas não o debate, porque foram vistas como um discurso pronto – tem que ‘capar’ mesmo”, analisa Salma, que não esconde a insegurança enquanto compositora. “As pessoas te idealizam. Você não consegue ser esse ideal, esse herói.”